Edição 545 | 18 Novembro 2019

Quadrinhos e uma Filosofia vivenciada na prática

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João Vitor Santos

Gelson Weschenfelder vê nos quadrinhos uma forma de trabalhar conteúdos que parecem abstratos. Mas, alerta: “cultura pop não é somente cultura de massa ou popular”

Existem uma máxima de que a cultura pop pode ser a porta de entrada de muitos públicos para temas e assuntos mais densos. Para o professor Gelson Weschenfelder, acreditar nisso não passa de uma simples reprodução de lugar comum. “É pré-conceito dizer que cultura pop é facilitador de questões densas. Cultura pop, mesmo não tendo um conceito aceito universalmente, não é somente cultura de massa ou popular. Vai muito além disso”, observa, na entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. Pesquisador da relação dos quadrinhos com os mais jovens, ele observa que não há uma simples tradução de temas densos. O que ocorre, na verdade, é que tais temas são apresentados desde outras lógicas. “Os enredos das histórias em quadrinhos de super-heróis estão cheios de dilemas éticos, morais políticos e sociais”, analisa.

Em seu trabalho, já detectou como problemáticas trazidas por Aristóteles, Kant e outros grandes filósofos nas narrativas de aventuras de Super Man, Homem Aranha e outros heróis. Mas, mais do que perceber o que há de comum entre um e outro mundos, destaca que essa leitura de quadrinhos, um produto da cultura pop, pode contribuir para o desenvolvimento e amadurecimento de muitos jovens. “Há pesquisas que apontam o quanto objetos da cultura pop são válvulas de escapes para diversos problemas sociais na qual muitas crianças e jovens passam. Esse é o tema do pesquisador Gerard Jones”, exemplifica.

Prova disso está numa das tarefas desenvolvida com um grupo de alunos. Depois de ter trabalhado a concepção mitológica do heroísmo, Gelson provocou a turma pensar nas situações cotidianas. Rapidamente, a partir do conceito mitológicos, identificaram pessoas e ações em suas comunidades que são dignas da aplicação do conceito de heroísmo. “O heroísmo não está atrelado apenas aos super poderes, mas sim, a outras questões mais complexas e de educação nas práticas relacionais de cuidado, bons tratos, e reciprocidade com equilíbrio de poder”, observa o professor, que comemora os resultados da turma.

Gelson Weschenfelder é doutor em Educação pela Universidade La Salle, com a tese intitulada "Os super-heróis das histórias em quadrinhos como recursos para a promoção de resiliência para crianças e adolescentes em situação de risco". Também é mestre em Educação pelo Centro Universitário La Salle – Unilasalle, graduado em Filosofia pela Unisinos e especialista em Filosofia no Ensino Médio, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Entre suas publicações, destacamos o livro “Filosofando com os Super-Heróis” (Porto Alegre: Mediação, 2013) e “Aristóteles e os super-heróis” (São Paulo: Garcia Edizioni, 2014”.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O senhor trabalha temas de áreas mais densas através da cultura pop. Gostaria que descrevesse um pouco esse trabalho, destacando os desafios de aproximar mundos como o da Filosofia com o das histórias em quadrinhos, por exemplo.

Gelson Weschenfelder – Iniciei a pesquisa a partir de uma necessidade de levar temas da Filosofia para sala de aula. A partir da frase “Com grande poder, traz grande responsabilidade”; essa que norteia a vida do super-herói Homem Aranha, percebi o quanto poderia ser um tema gerador para o ensino de Filosofia. E assim o foi, a partir dessa frase os meus alunos na época começaram a discutir sobre ética, moral, valores, responsabilidade a sociedade em si. Também foram buscar teoria de filósofos sobre o tema. Percebi o potencial pedagógico que tinha em minhas mãos, e, a partir dali, não via mais as Histórias em Quadrinhos (HQs) como mera ferramenta de entretenimento.

Assim, busquei aperfeiçoamento acadêmico, iniciei uma pesquisa no Mestrado em Educação, buscando quais os teóricos de temas da ética estavam ali presentes. Iniciei por Aristóteles , na qual foi o tema de minha dissertação, relacionando com os super-heróis Superman, Batman, Homem Aranha e X-men.

Após obter o título de mestre, continuei minhas pesquisas, relacionando com outros filósofos como Sócrates , Platão , Rousseau , Nietzsche , Hobbes , Kant entre outros. O maior desafio sempre foi o aceite do mundo acadêmico, pois esse tema (cultura pop ou HQs) não são temas acadêmicos para a maioria das áreas científicas. Talvez por isso, há poucas produções a respeito. Há avanços, muitos eventos tratando sobre o tema, artigos, dossiês, algumas dissertações e teses publicadas. Mas uma década atrás, quando iniciei, pouca coisa se tinha. Aberturas foram realizadas para levar esse tema para o mundo acadêmico, mas ainda são pequenas as brechas. A academia brasileira ainda se fecha para tais assuntos, diferente no que se vê em outros países.

IHU On-Line – Quais os desafios para se trabalhar conceitos como ética, valores morais a partir das narrativas de super-heróis, tocando as questões de fundo das tramas e sem cair na idolatria?

Gelson Weschenfelder – Os enredos das histórias em quadrinhos de super-heróis estão cheios de dilemas éticos, morais políticos e sociais. Para todo leitor desse objeto cultural percebe-se isso. A discussão se faz quando se afasta desse objeto colocando esse sobre a luz da verdade, observando quais as questões e quais as bases teóricas estão por trás desse enredo. Assim, não tendo mais um olhar como leitor de um objeto de entretenimento, agora com um olhar mais apurado, buscando questões por trás daquelas aventuras.

IHU On-Line – Como apreender a cultura de massa e a cultura pop como algo além de simples produto da indústria cultural?

Gelson Weschenfelder – As HQs de superaventura foram pioneiras em trazer questões na qual cada ser humano se depara diariamente. Não são tão inocentes como aparentam. Essas Histórias introduzem e abordam de forma vivida questões de suma importância enfrentadas por seres humanos ‘normais’, tais quais questões referentes: à ética, à responsabilidade pessoal e social, à justiça, ao crime e ao castigo, à mente e às emoções humanas, à identidade pessoal, à alma, à noção de destino, ao sentido de vida, ao que pensamos da ciência e da natureza, ao papel da fé na aspereza deste mundo, à importância da amizade, ao significado do amor, à natureza de uma família, às virtudes clássicas como coragem e muitos outros temas.

Sendo assim, são pratos cheios, para análises e entender o mundo em que vivemos através da arte.

IHU On-Line – Podemos considerar que o papel da cultura pop é mesmo trazer, traduzir o mais denso, o erudito para o popular, corriqueiro e cotidiano? Por quê?

Gelson Weschenfelder – O verdadeiro papel da cultura pop é o entretenimento e o ganho financeiro em cima disso. Porém, há uma necessidade de prender o fã a essa cultura. Sendo assim, é um objeto cultural que aborda questões onde os seus usuários estão inseridos ou onde gostariam de estar. Não concordo com a afirmação de “Traduzir o mais denso, o erudito para o popular, ...”. Se pegarmos objetos da cultura pop com a literatura fantástica, games e até mesmo os quadrinhos, veremos que trazem temas que necessitam de apurado domínio intelectual, conhecimento de contextos sociais, históricos, geográficos (entre outras ciências) avançados. De certa forma, é pré-conceito dizer que cultura pop é facilitador de questões densas. Cultura pop, mesmo não tendo um conceito aceito universalmente, não é somente cultura de massa ou popular. Vai muito além disso.

IHU On-Line – De que forma a ideia de resiliência se faz presente no universo da cultura pop?

Gelson Weschenfelder – Os personagens da cultura pop sempre possuem histórias de superações e empoderamentos. Nas HQs (tema de minhas pesquisas) não são diferentes.

Em minhas últimas pesquisas, queria perceber de que forma as HQs e as histórias de seus personagens impactam na vida de seus leitores. Pesquisando mais a fundo, percebi que todos os personagens super heroicos e vilões passam por adversidades sociais e situações de risco. Estão prestes a se tornarem super-heróis, se tornar resilientes diante das adversidades, empoderam-se, vestem suas capas e máscaras e tornam o ser super heroico. Porém, esse, ao mesmo tempo, se torna um tutor de resiliência para outros personagens nas HQs. A expressão “Pré-Capa/Pré-Máscara” foi criada nesta pesquisa para referenciar o período da vida com momentos difíceis do personagem ficcional, durante os quais os super-heróis não desempenham funções heroicas.

Percebe-se assim que há relação entre a vida dos super-heróis e invulnerabilidade e as adversidades sociais, questões essa que muitas crianças e adolescentes enfrentam em seu dia a dia. Porém, após algumas buscas insistentes, quase nada se tem de literatura científica a respeito, tampouco constam no meio acadêmico estudos com o objetivo de realizar paralelos entre as adversidades da vida real de crianças e jovens desfavorecidos e as histórias de vida ficcionais vividas pelos super-heróis. Estas adversidades não limitaram os personagens na superaventura, muito pelo contrário, fizeram com que os mesmos se empoderassem e assim se tornando os super-heróis. Analisando esse contexto, os super-heróis são modelos de resiliência e, por que não, tornar esses em tutores de resiliência?

Em entrevistas, leitores de HQs demonstram que todos reconhecem que há adversidades sociais e situações de vulnerabilidade na vida fictícias dos personagens da superaventura, e citam que é na fase de infância e adolescência o período de vida onde os super-heróis enfrentaram dificuldades e sofrimentos (pré-capa/pré-máscara), que caracteriza o momento que antecede o empoderamento. Sendo assim, visualizam as questões de resiliência nos personagens. Além disso, a grande maioria acredita que esses personagens super heroicos são modelos positivos e podem inspirar expressões de resiliência em crianças e adolescentes.

Super da própria vida

A partir disso cria-se o Programa de Intervenção “Seja Super-Herói de sua própria vida”, onde foram apresentados as adversidade e momentos de vulnerabilidades sociais na qual os super-heróis vivenciam, o momento de empoderamento desses personagens, onde esses respondem de forma positiva todo o sofrimento vivenciado se tornando o super-herói. Foi trabalho a percepção sobre heroísmo, onde somente entendiam esse como concepção mitológicas, seres fortes (com super poderes) realizando trabalhos faraônicos, onde se apresentou heróis reais de nossa história.

Assim, nessas entrevistas, foram questionados a buscar na comunidade onde vivem pessoas que possam ser consideradas heróis ou heroínas, pessoas que realizam trabalhos em prol da comunidade e ou causas sociais. Com isso, o programa buscou levar aos participantes uma compreensão de que o heroísmo não está atrelado apenas aos super poderes, mas sim, a outras questões mais complexas e de educação nas práticas relacionais de cuidado, bons tratos, e reciprocidade com equilíbrio de poder. Após este entendimento, foi dada a tarefa de criar personagens heroicos, onde foram criados super-heróis que passaram por situações que muitos deles também passam ou presenciam, onde o empoderamento desses personagens era buscar soluções para seus próprios dilemas reais.

IHU On-Line – Ainda dentro do mundo da cultura pop, que associação e dissociações podemos fazer entre os conceitos de alienação e resiliência? Quando um produto de cultura pop é resiliente e quando se transforma em alienante?

Gelson Weschenfelder – É complexo o quanto uma cultura pode ser alienante ou resiliente. Como falado acima, há poucas pesquisas a respeito da cultura pop aqui no país e seus impactos. O que temos hoje é um alvo na cultura pop, culpando essa como fonte de todos os problemas em nossos jovens, como desculpas para o descaso, falta de comunicação e acessos com estes entre outros problemas sociais.

Há pesquisas que apontam o quanto objetos da cultura pop são válvulas de escapes para diversos problemas sociais na qual muitas crianças e jovens passam. Esse é o tema do pesquisador Gerard Jones no seu livro “Brincando de Matar Monstros” . Há pesquisadores de diversas área que comentam a necessidade da ficção para saúde mental e desenvolvimento do ser humano, e o quanto os objetos da cultura pop podem auxiliarem nesse processo.

Como pesquisador na área da educação, posso afirmar que percebo um grande potencial no uso dessas ferramentas, principalmente as HQs. Pesquisas realizadas com leitores de quadrinhos que nasceram entre as décadas de 1970 e 1990 apontam que o contato com a cultura pop (HQs, cinema, animações e etc.) desde a sua infância é propulsor de desenvolvimento de valores morais, indo ao encontro de estudo que mostra o quanto os personagens da ficção possam ser modelos de virtudes morais. Outro dado levantado nessa pesquisa mostra que, a grande maioria dos leitores de HQs entrevistados busca ou já buscou uma qualificação profissional em nível de Ensino Superior. O dado vai ao encontro de outro estudo aplicado pela Escola Superior de Administração, Marketing e Comunicação de Campinas – ESAMC, onde aponta que 76% dos leitores de quadrinhos entrevistados buscam ou já cursaram o ensino superior. Além disso, apontam que os leitores de quadrinhos, em sua maioria, possuem um maior desempenho escolar e hábitos de leitura em diversos gêneros. Isso revela o quanto as HQs possam a vir auxiliar na formação cognitiva e educacional formal e não formal de seus indivíduos.

Os leitores de HQs entrevistados afirmam ainda que os super-heróis são fontes de inspiração e podem vir a auxiliar na promoção de desenvolvimento de qualidades para seus leitores, trazendo diversas categorias que empoderam os indivíduos. Esses recursos, até então inexplorados, mostram um enorme potencial para o desenvolvimento de intervenções psicoeducacional e apoio às políticas sócio-educacionais. Assim, como falado anteriormente, ainda são poucas pesquisas a respeito. Mas as que se dedicam a essas questões trazem pontos positivas para o desenvolvimento daqueles que utilizam objetos dessa cultura.

IHU On-Line – O quanto das perspectivas religiosas e teológicas são apropriadas pelo universo da cultura pop? Como se dá essa apropriação?

Gelson Weschenfelder – Nos personagens da cultura pop há o conceito de jornada cílica, presente nos mitos, conhecidos como “Jornada do Herói” cunhado pelo mitólogo/antropólogo Joseph Campbell (1904-1987) em seu livro “O herói de mil faces”, publicado em 1949. Esse conceito está presente na franquia “Star Wars”; “Harry Potter”, entre outras, além de estar nos personagens dos quadrinhos e suas adaptações cinematográficas. O herói dos objetos da cultura pop, é o novo ser divino/herói das mitologias. Os mitos são fontes de inspirações.

Olhamos o Superman por exemplo, seu nome Kryponiano é Kal-El, que em hebraico antigo Kal significa ‘força’ ou ‘vontade’ e El ‘deus’ ou ‘divino’. Nesse personagem está inserida a mitologia judaico-cristã, pois Superman é aquele que vem dos céus para nos salvar. Não podemos esquecer que os criadores desse personagem eram judeus, e o quanto trazem suas ideologias religiosas e seus anseios par aos enredos das histórias.

IHU On-Line – Como o senhor tem percebido a resiliência nos jovens de hoje? O que os tem levado a esse quadro?

Gelson Weschenfelder – Há poucas iniciativas de programas de resiliência entre crianças e jovens, muitas deles são iniciativas individuais de alguns docentes ou pessoas ligadas a área de saúde. Não há políticas públicas e nem promoção de expressões de resiliência para nossos jovens. Tais temas são negligenciados por parte dos poderes públicos e até dos gestores escolares. Pouco se tem de esclarecimento sobre esses temas, e deixam somente para a área da saúde discutir tais assuntos.

Esse descaso aumenta significativamente as situações de risco e vulnerabilidade onde nossos jovens estão inseridos. Eventos considerados como risco são obstáculos individuais ou ambientais que podem aumentar a vulnerabilidade da criança e/ou adolescente para resultados negativos no seu desenvolvimento.

O que vem aumentando é a ‘resiliência oculta’, conceito que seria mais bem esclarecido quando aplicado a grupos que não receberam nenhum tipo de intervenção ou auxilio, especialmente jovens que estão em situação de risco e de vulnerabilidade. Estes se ‘empoderam’ de forma negativa, respondendo contra a sociedade, conflitando a lei e apresentam problemas de comportamento em espaços sociais, tais como escola, ruas e etc.

Resiliência como prevenção

Reiterando essa preocupação no Brasil, um balanço recente revelou o registro de 66.518 denúncias de violações de direitos humanos. Destas, 42.114 são relacionadas às violações dos direitos de crianças e adolescentes. Assim sendo, em 63,2% dos casos os alvos das violações são as crianças e adolescentes que, sem sombra de dúvida, constituem um segmento fragilizado da população brasileira. Segundo o estudo da Secretaria dos Direitos Humanos, esses abusos registrados contra crianças e adolescentes estão mais concentrados em episódios de negligência (definida como a ausência ou ineficiência no cuidado) com 76,35%, seguida de violência psicológica com (47,76%), violência física (42,66%) e violência sexual (21,90%).

Estudos indicam que crianças que sofreram abandono ou negligência dos pais, abusos e outros tipos de violências e/ou privações apresentam taxas mais elevadas de comportamento desajustado na fase adulta do que seus pares não desfavorecidos. Sem a intervenção adequada, tais problemáticas poderão se agravar ao longo da adolescência e depois na idade adulta.

Em resposta a isso, vários profissionais da área de Saúde, Educação e Psicologia buscam soluções para as ameaças à saúde mental de crianças e adolescentes em situação de risco. Nesse sentido, projetos de intervenção com foco na promoção de resiliência devem ser priorizados como possibilidade de prevenção.■

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