Edição 544 | 04 Novembro 2019

As Fronteiras da Guerra

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João Ladeira

“Em Guerra possui vários méritos: seu texto, atuação e ambientação. Mas sua principal qualidade reside no jogo visual com os corpos que nunca saem de cena”, escreve João Ladeira .

João Martins Ladeira é professor na Universidade Federal do Paraná, possui doutorado em Sociologia pelo Iuperj, mestrado e graduação em Comunicação pela UFF.

Eis a resenha.

Cena do filme

Há algo de notável no roteiro de Em Guerra (En Guerre, de 2018, de Stéphane Brizé). Um texto menos preciso faria com que o filme fosse de um tédio insuportável, mas a fluidez com que se desdobram as infinitas negociações entre Laurent Amédéo (Vincent Lindon), o delegado da Confederação Geral do Trabalho (CGT), com patrões, burocratas de Estado e representantes de industrias torna o filme marcante.

Soa natural. Pois, se a obra parece tão bem-informada sobre as entranhas de uma greve, isso se deve ao fato de ter alguém como Xavier Mathieu entre seus roteiristas. Existem atores com trajetórias curiosas, mas poucos talvez rivalizem com esse que dividiu a tarefa de escritor com a de líder sindical, atuante em intervenções bem parecidas com as do filme, condenado a multas de milhares de euros.

Existe algo de concreto nesse Em Guerra, uma sensação sustentada ao longo das duas horas em que assistimos um microcosmo encenado. É a história da Whirlpool em Amiens; da Metaleurop em Noyelles-Godault; da Arcelor-Mittal em Florange; da Continental em Clairoix: um retrato do desemprego que alcança a – pensávamos – inalcançável Europa.

Não há vagas

Do Terceiro Mundo, nos sentimos em casa ao presenciar problemas semelhantes àqueles que vemos do outro lado da rua – Ford e São Bernardo do Campo. Mas os filmes de Brizé não são uma reportagem, por mais que este tente se aproximar disso. Parece difícil esquecer, mas tudo que está na tela foi construído, embora o realismo seja uma pretensão.

Brizé tentou desta vez algo que tinha experimentado aqui e ali, mas nunca com esse ímpeto. O Valor de um Homem (La Loi du Marché, 2015) flertava com o imediatismo que certo uso de atores amadores concede. Existe algo de urgente nessas encenações com pretensão de espontaneidade, uma vivência de profunda identidade com o mundo.

Mas Mademoiselle Chambon (2009) se concentrava na energia de seus intérpretes, Sandrine Kiberlain e Lindon; e a adaptação de Maupassant, A Vida de uma Mulher (Une Vie, 2016) era planejada de modo meticuloso, não apenas na sua representação, mas também no caráter delicado obtido pelo flerte com a passagem do tempo e a narrativa elíptica.

Olhos nos olhos

O cerne de Em Guerra está na pretensão de automatismo inscrito em sua imagem. A câmera, sempre na altura dos olhos, filmando os personagens por trás dos ombros dos supostos envolvidos nas discussões sindicais, produz a ilusão de que somos parte do processo. A sensação concede força ao trabalho: mas é curiosa a pretensão dessa narrativa ficcional.

Pois não apenas do realismo Em Guerra retira sua energia, que não é absolutamente escassa. “Filmes de sindicato” bem poderiam constituir um gênero, talvez uma fração do “filme de questão social”. De Pão e Rosas (Bread and Roses, 2000, de Ken Loach) a Como Era Verde o Meu Vale (How Green Was My Valley, 1941, de John Ford), muitas visões de mundo se cruzam em torno de uma única sensação.

Mas este drama moral da crise do trabalho contemporâneo seria mais frouxo, menos convincente caso não tivesse sido catapultado por essas decisões cinematográficas. O impacto dos fatos – negociar ou não negociar com o CEO alemão, aceitar ou não a compensação financeira, ocupar ou não a fábrica – se diluiria.

Quadro a quadro

As informações dão credibilidade ao que assistimos, fazendo o tempo todo com que lembremos e esqueçamos da dramatização. Mas, o que amarra esse resultado? O que concede a Em Guerra esse engajamento? Para além das interpretações, do texto e dos dados contidos no filme, há um detalhe cinematográfico: não há fora de quadro em todo o filme.

Tudo o que acontece ocorre dentro do espaço cênico construído pela câmera, nos oferecendo a sensação de que não há nada para além da imagem. Esse território se concentra todo o tempo em alguns poucos personagens. Não existe universo para além das lutas que presenciamos.

Nossa única possibilidade para conhecer o mundo privado desses trabalhadores está na cena em que Amédéo conversa com Mélanie (Mélanie Rover) que lhe conta sobre a relação não muito boa com o marido. Outra exceção são os interlúdios do sindicalista com sua filha, mas esses servem muito mais para proporcionar a catarse do final.

Corpo a corpo

Alguns críticos acharam essa conclusão forçada, um tanto falsa, como se todo o drama fácil que o filme expulsou pela porta da frente retornasse pelos fundos. Poderia ser de outra maneira? Talvez: mas, para além dos dilemas narrativos, há uma questão estética em jogo. Pois Brizé nunca foi tão zeloso com essas fronteiras do enquadramento.

Esse engajamento pontual com alguns poucos personagens repetidamente em cena faz com que se dependa das atribuições concentradas em suas personas. Não poderia haver uma solução que apontasse para o futuro, como no clímax de Pontecorvo para A Batalha de Argel (La Battaglia di Algeri, 1965). Tudo tinha que se resolver aqui e agora.

Se as tensões desse drama trabalhista se concentram nos corpos em quadro, não é gratuito que a conclusão passe também por eles. Que a tragédia de Amédéo seja mostrada numa gravação de celular alegoriza esse foco, fazendo com que o filme se distancie e se aproxime dele próprio, num ato que ocorre fora, mas também dentro da projeção. ■

Ficha técnica

Cartaz do filme

Título original: En Guerre
Ano: 2019
Direção: Stéphane Brizé
Gênero: Drama
Nacionalidade: França
Assista o trailer

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