Edição 529 | 01 Outubro 2018

Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

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Por ocasião dos 130 anos da obra Genealogia da Moral, no original Zur Genealogie der Moral. Eine Streitschrift, de Friedrich Nietzsche, a presente edição da revista IHU On-Line publica uma série de entrevistas que debatem não somente a obra, mas a força do pensamento do “filósofo do martelo”. Com suas posições sempre muito críticas em relação a uma moral prêt-à-porter, sobretudo fundada no cristianismo alemão, Nietzsche coloca em causa o senso comum do niilismo, repensando-o como a ausência da vontade de pensar para além de valores universalistas a priori.

Para Patrick Wotling, professor na  Université de Reims Champagne-Ardenne, o pensamento de Nietzsche baseia-se em uma filosofia rigorosa sem ter uma retórica pedante. “Nietzsche parece escrever de maneira corrente, límpida, usando muito pouca terminologia técnica, contrariamente à maioria dos outros filósofos”, pondera.

A professora e pesquisadora brasileira da USP Scarlett Marton debate como o ressentimento é um artifício do ódio e da vingança. “É a diferença que causa o ódio, ou melhor, é a recusa da diferença que o engendra.”

Luca Crescenzi, professor e pesquisador na Universidade de Trento, na Itália, destaca que o papel do filósofo sustentado por Nietzsche é o de dar à luz “a ideia de que à base dos juízos de valor não há pressupostos metafísicos, nenhuma grande ideia universal, mas apenas realidade e escolhas historicamente verificáveis e definíveis”.

Oswaldo Giacoia Junior, professor e pesquisador da Unicamp, relata como o ser humano transformou-se em animal político. “O que se encontra em questão é a aventura de autoconstituição do homem como animal político, da passagem da physis ao nomos, da natureza à cultura.”

Para o pesquisador alemão Werner Stegmaier, professor emérito da Ernst-Moritz-Arndt-Universität Greifswald, Alemanha, é necessário sempre fazer uma leitura rigorosa dos conceitos nietzschianos. “Mesmo o niilismo ele não pretendia ‘superar’ como tal, como muitas vezes se diz com base em Martin Heidegger, mas apenas uma forma específica do niilismo que ele enxergava na forma de moral existente então.”

Paul Valadier, jesuíta e professor emérito de filosofia moral e política nas Faculdades Jesuítas de Paris, chama atenção de como a moral opera nas profundezas de nosso ser, longe, às vezes, de nossa própria consciência. “A genealogia quer ‘descer’ ao sombrio laboratório onde se elaboram as decisões morais, sondando as profundezas daquilo que, hoje, chamaríamos de inconsciente.”

De acordo com Maria Cristina Fornari, professora e pesquisadora na Universidade de Salento, Itália, o pensamento de Nietzsche é um desafio à inteligência, de modo que uma leitura atenta exige um olhar “filologicamente circunspecto, sem deixar-se engodar por ideologias ou falsos mitos”.

Para Antonio Edmilson Paschoal, professor e pesquisador na Universidade Federal do Paraná - UFPR, o pensamento de Nietzsche é uma navalha que corta a carne do tempo, produzindo rupturas, que significa “‘colocar a faca na carne de seu tempo’, mostrando que a mesma moral que prega o rebanho pacificado retiraria dele também aquilo que é nobre nele, tornando-o patético e um motivo de desprezo”.

Luís Rubira, professor na Universidade Federal de Pelotas - UFPel, faz um resgate sobre o impacto da obra na pesquisa sobre o autor no Brasil. “É uma área de pesquisa que ainda dará muitos frutos e que mostra, sobretudo, a forte influência da filosofia de Nietzsche tanto em nossa cultura quanto entre muitas gerações de intelectuais brasileiros”, pontua.

Clademir Araldi ressalta a importância da obra Genealogia da Moral para fugir de uma “moral de cartilha” à qual as pessoas tendem a se filiar acriticamente. “O genealogista Nietzsche não possui uma postura neutra: ele se engaja para fomentar valores afirmativos da vida, e exige de seus leitores engajamento efetivo (e também disposição afetiva) para superar a moral cristã e propor novas maneiras de sentir, de pensar e de valorar”, postula.

Por fim, Ernani Chaves, professor da Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Pará – UFPA, faz uma análise de como a filosofia nietzschiana, especialmente a partir de Genealogia da Moral, produz novas formas de investigação.

De 2 a 4 de outubro de 2018, a Unisinos sedia o XXI Colóquio Nietzsche: os 130 anos da Genealogia da Moral, no campus São Leopoldo.

Esta edição teve a contribuição da Profa. Dra. Márcia Junges, doutora em Filosofia pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e pela Università degli Studi di Padova - UNIPD, Itália. A ela, os nossos mais sinceros agradecimentos.

Complementam a edição as entrevistas com Danilo Streck, professor da Unisinos, Valter Giovedi, professor do Centro de Educação da Universidade Federal do Espírito Santo - UFES e Alexandre Saul, coordenador da Cátedra Paulo Freire, as quais compõem o Dossiê Paulo Freire, que retoma os debates sobre os 50 anos da obra Pedagogia do oprimido. Por fim, a entrevista com Ivan Domingues, professor titular da Universidade Federal de Minas Gerais - UFMG, que discute o que é o conceito de “intelectual cosmopolita”.

A todas e a todos uma boa leitura e uma excelente semana!

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