Edição 527 | 27 Agosto 2018

Ore Ywy

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A necessidade de construir uma outra relação com a nossa terra

A expressão Guarani Ore Ywy, que dá nome a esta edição, de acordo com a tradução da professora Sandra Benitez, significa “nossa terra”. Esse é o mote que costura as entrevistas do tema de capa da presente edição da revista IHU On-Line, que reúne entrevistados indígenas de várias etnias. Eles compõem, apesar da riqueza de perspectivas, apenas uma parcela do universo de mais de 300 comunidades indígenas no Brasil, com cerca de 180 idiomas. Tal multiplicidade vai na contramão dos reducionismos indolentes da civilização ocidental, a qual, como Narciso, nada vê diante dos olhos senão a si própria. Por meio de uma cosmovisão atravessada pela arte, pela espiritualidade e pela razão ameríndia, os entrevistados debatem sobre os desafios e dilemas contemporâneos da nossa terra.

Daniel Munduruku, escritor indígena e doutor em Educação, aborda a crise instalada no mundo ocidental. “É uma crise que se alastra, sobretudo, por conta dos impactos ambientais que o desenvolvimento econômico tem causado em todas as direções do globo”.

Para Jaider Esbell, artista Makuxi, é necessário desacelerar o tempo para perceber o mundo em suas diferentes camadas. “É fundamental acolher a sabedoria dita de raiz dessa geografia, ouvir e praticar as sabedorias que dialogam direto, ainda, com a natureza maior, com o inexplicável”.

Sônia Guajajara, uma das líderes indígenas mais conhecidas do Brasil, relata o constante processo de dizimação dos povos indígenas do Brasil e dispara: “Hoje talvez sejamos nós, povos indígenas e populações tradicionais, o modelo civilizatório a ser seguido, porque preservamos nossas relações sociais acima das aquisições materiais”.

Na opinião de Álvaro Tukano, tradicional militante indígena brasileiro, os indígenas continuam sem ser respeitados. “Quando chegaram os brancos começou a confusão, porque os nossos territórios foram saqueados em todos os sentidos – violência sexual contra as nossas filhas e mortes de nossos filhos; roubaram madeira, riquezas minerais e outras especiarias.”

Casé Angatu Xukuru Tupinambá, professor universitário na Universidade Estadual de Santa Cruz, na Bahia, defende o direito natural ameríndio à terra. “Nós não somos donos da terra, nós somos a terra. O direito congênito, natural e originário é anterior ao direito da propriedade privada. Não estamos lutando por reforma agrária”, sustenta.

Márcia Kambeba, escritora, artista e educadora indígena, percebe a mulher como central na construção de uma educação e de uma relação com o cosmos harmoniosa e respeitosa.

O artista visual Denilson Baniwa usa sua obra para denunciar a violência do agronegócio. “A política do agronegócio com o apoio da grande mídia e de grupos conservadores têm difundido a ideologia do desenvolvimento econômico ao mesmo tempo que fomenta um discurso de ódio e preconceito contra as populações indígenas como justificativa ao impeditivo ao progresso do país”, critica.

Olívio Jekupé e Kunumi MC são duas gerações de uma mesma família que encontraram na arte uma forma de resistência. Olívio, o pai, é escritor e tem 16 livros publicados. Kunumi, o filho, é escritor e rapper, tendo se tornado conhecido na abertura da Copa do Mundo quando expôs uma faixa escrito “demarcação já”.

Márcia Mura, doutora em História Social, luta diariamente pelo reconhecimento de sua própria existência. “Quando essa retomada se dá de forma individual os desafios são maiores, pois há toda uma luta para ser reconhecido por uma comunidade que, muitas vezes, devido à própria ação do Estado, criou o afastamento ao território de origem e ao reconhecimento da comunidade originária”, descreve.

Thiago Carvalho Wera’i é jornalista, fotógrafo, documentarista e autor da foto da capa desta edição. Morador da cidade de São Paulo, busca na árvore familiar sua ancestralidade ameríndia, que dá sentido à sua existência. “Os [indígenas] de contexto urbano que buscam identificar e comprovar sua origem, como eu, são muitos. Estes também têm um papel importante: sua busca própria de autoafirmação reflete no sentido da construção e de reafirmação de um Brasil indígena e não um Brasil colonizado”, pontua.

Auritha Tabajara, escritora cordelista indígena, encerra o tema de capa com o cordel O grão.

Colaboraram na edição Julie Dorrico, doutoranda em Letras na PUCRS e pesquisadora de literatura indígena brasileira, e Leno Franscisco Danner, professor de filosofia da Universidade Federal de Rondônia - UNIR.

Complementam a edição as entrevistas com Rosana Pinheiro-Machado, professora visitante no Departamento de Sociologia da Universidade de São Paulo - USP, que investiga o público apoiador de Jair Bolsonaro a partir de 2016 e Maria Cristina dos Santos, professora no Departamento de História da PUCRS, que aborda a importância de repensar o espaço do indígena na história.

Leia ainda um breve resumo do artigo Amoris Laetitia: aspectos antropológicos e metodológicos e suas implicações para a teologia moral de Todd Salzman e Michael G. Lawler, publicado na última edição no Cadernos Teologia Pública. E ainda o texto de Bruno Lima Rocha, que reflete acerca da situação da Nicarágua.

A todas e a todos uma boa leitura e uma excelente semana.

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