Edição 522 | 21 Maio 2018

O pastor com cheiro de ovelhas e sua busca pelos “outros”

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João Vitor Santos| Tradução: Moisés Sbardelotto

Agbonkhianmeghe Orobator destaca a pastoralidade como ponto alto de Francisco, característica que contribui para perceber as diferenças do mundo, especialmente de lugares como a África

O jesuíta que preside a Conferência dos Superiores Maiores da África e Madagáscar, Agbonkhianmeghe Orobator, é enfático: “no mínimo, a Igreja do século XXI não é a Igreja do primeiro século. A sociedade mudou, e as práticas que eram consideradas aceitáveis no passado não são mais aceitáveis hoje”. É com essa perspectiva que defende as ações de Francisco e a forma com que tem enfrentado muitos temas que geram controvérsias na Igreja. Para ele, o Papa “é um líder que cheira a ovelha” que “acredita genuinamente na dignidade da humanidade e vai ao encontro das periferias e das margens da sociedade para mostrar compaixão, misericórdia e amor”. Marcas que, para Orobator, tornam Francisco não só sensível à necessidade de mudança, mas também de compreender e se aproximar do outro. “Eu acredito que ele dá o exemplo para o tipo de liderança que a África precisa”, completa.

O religioso africano também sopesa as dificuldades e limites do pontífice. “Existem aqueles que pensam que ele deveria estar fazendo mais e pressionando com mais urgência sobre questões como a inclusão das mulheres no ministério, a responsabilidade financeira e a transparência no modo de lidar com o abuso sexual por parte do clero. Talvez esses críticos estejam certos, mas não devemos esquecer que o papa também é humano”. Na entrevista, concedida por e-mail à IHU On-Line, ele ainda reflete sobre a realidade do continente africano e a necessidade da Igreja de olhar para a diversidade das formas de ser cristão. “Ele está nos ensinando uma nova maneira de ser a comunidade do Cristo ressuscitado, uma comunidade que valoriza as pessoas acima das regras”, avalia. E acrescenta: “A inculturação não é mais um assunto de debate – ser ou não ser. É um princípio aceitável da eclesiologia na Igreja na África”.

Agbonkhianmeghe E. Orobator é presidente da Conferência dos Superiores Maiores Jesuítas de África e Madagáscar - Jesam, com sede em Nairobi, no Quênia. Nascido na Nigéria, é doutor em Teologia e Estudos Religiosos pela Universidade de Leeds, na Inglaterra. Atuou como superior provincial da Província da África Oriental entre 2009 e 2014. Também foi diretor da Hekima University College – Escola Jesuíta de Teologia e do Instituto de Estudos de Paz e Relações Internacionais, em Nairobi, Quênia. É autor de Theology Brewed in an African Pot (Orbis, 2008) e Religion and Faith in Africa: Confessions of an Animist (Orbis Books, 2018). Ainda editou Reconciliation, Justice, and Peace: The Second African Synod (Orbis, 2011) e, junto com Linda Hogan, também editou Feminist Catholic Theological Ethics: Conversations in the World Church (Orbis, 2014).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual a grande novidade do pontificado de Francisco para os países da África?
Agbonkhianmeghe Orobator – A “grande novidade” do papa Francisco para os países africanos não é diferente da de outras partes do mundo. O chamado de Francisco a – e o exemplo de – uma Igreja que sai da sua zona de conforto e vai ao encontro dos outros, do mundo, em misericórdia e compaixão; sua exortação às lideranças de terem o “cheiro das ovelhas”; sua defesa das expressões autênticas de misericórdia, responsabilidade e transparência...

Todos esses aspectos de seu pontificado infundem uma vida nova e cheia de frescor à Igreja na África e no mundo. Ele está nos ensinando uma nova maneira de ser a comunidade do Cristo ressuscitado, uma comunidade que valoriza as pessoas acima das regras; uma comunidade que promove a inclusão em vez de tentar eliminar aqueles que considera indesejáveis. Eu vejo isso como a grande novidade da liderança de Francisco, e é um desafio para a Igreja na África e no restante do mundo.

IHU On-Line – De que forma os olhares, as perspectivas de Francisco sobre a pobreza, a paz e as questões ambientais do planeta são recebidos no continente africano?
Agbonkhianmeghe Orobator – Sua mensagem encontrou uma recepção positiva na África. Não esqueçamos que, em 2009, houve o segundo Sínodo Africano , que se concentrou na missão da Igreja de reconciliação, justiça e paz. Hoje, quando Francisco fala de ecologia e mudanças climáticas, seus ensinamentos trazem fortes ressonâncias para a África por muitas razões.

Primeiro, porque ainda existe uma reserva de respeito ecológico que pode ser encontrada em muitas partes da África. Em segundo lugar, porque os efeitos das mudanças climáticas são fortemente sentidos no continente, com o aumento dos fenômenos de padrões de chuva irregulares, secas e inundações, desmatamento e efeitos prejudiciais das indústrias extrativas. Em terceiro lugar, em muitas partes da África, a violência e o conflito continuam causando traumas e dor – em lugares como o Sudão do Sul, República Democrática do Congo, República Centro-Africana, Líbia, República Saaraui, Somália, Nigéria e Camarões. Esses são lugares onde a paz é urgentemente necessária. E, em quarto lugar, em muitas partes da África, a pobreza ainda é endêmica. Quando Francisco fala dessas questões, elas têm implicações e relevância diretas para a situação na África.

IHU On-Line – O senhor é um dos defensores da inclusão de mulheres no ministério católico. Por que esse é um ponto importante a ser debatido pela Igreja do século XXI? E o que o senhor responde quando é questionado se a Igreja na África não tem outros temas mais urgentes a serem debatidos?
Agbonkhianmeghe Orobator – No mínimo, a Igreja do século XXI não é a Igreja do primeiro século. A sociedade mudou, e as práticas que eram consideradas aceitáveis no passado não são mais aceitáveis hoje. Vejo três razões pelas quais essa questão é importante.

Primeiro, as mulheres têm uma contribuição para fazer a missão evangelizadora da Igreja. Seria irracional negar-lhes essa oportunidade. Em segundo lugar, a mensagem do Evangelho tem a ver com o amor, e isso não é algo que você pratica quando exclui a metade da população mundial do envolvimento ativo na liderança e no ministério da Igreja. A terceira razão é a mais importante para mim: somos todos criados à imagem e semelhança de um Deus amoroso.

Negar às mulheres o seu papel na Igreja e na sociedade é violar esse princípio fundamental da dignidade humana. Tenho certeza de que há outras questões prementes para a Igreja na África, assim como em outros lugares, mas qual mais do que a dignidade humana? Jesus de Nazaré não nos disse que veio para que todas as mulheres e homens possam ter e experimentar a plenitude da vida?

IHU On-Line – Quais os limites desse papado? Que temas ainda não tiveram a devida atenção de Francisco?
Agbonkhianmeghe Orobator – Eu acho que esquecemos que Francisco é apenas humano – ele não pode fazer tudo sozinho. Devemos estar prontos e dispostos a lhe dar crédito pelos muitos passos que ele já deu. Por exemplo, clamando por compaixão pelos católicos divorciados e recasados que desejam receber a Eucaristia, suspendendo o julgamento sobre os gays, desafiando a sociedade a mostrar hospitalidade para com os refugiados e migrantes, pregando a integridade ecológica frente às devastadoras mudanças climáticas, defendendo os pobres e os marginalizados, e muito mais.

Eu acho que ele deu a devida atenção a questões consequentes na Igreja e na sociedade. Existem aqueles que pensam que ele deveria estar fazendo mais e pressionando com mais urgência sobre questões como a inclusão das mulheres no ministério, a responsabilidade financeira e a transparência no modo de lidar com o abuso sexual por parte do clero. Talvez esses críticos estejam certos, mas não devemos esquecer que o papa também é humano. Eu acho que ele está fazendo o melhor que pode dentro das circunstâncias.

IHU On-Line – Como avalia as inúmeras tensões, críticas e resistências ao papado? Quais as questões de fundo nas críticas desferidas contra Francisco?
Agbonkhianmeghe Orobator – Eu não sou um “infiltrado” vaticano. Eu só posso falar do que vejo e ouço a céu aberto. Sim, há sinais de tensão. Ultimamente, temos visto alguns homens da Igreja de alto escalão expondo documentos críticos à direção doutrinal e pastoral do Papa. Obviamente, algumas pessoas têm razão em se preocupar com o pedido de simplicidade do Papa ou com aquilo que ele chama de “cheiro das ovelhas”, especialmente quando essas pessoas estavam acostumadas a privilégios e benefícios por causa de seu status clerical. O instinto de proteger privilégios e regalias clericais explica parte da resistência que Francisco está enfrentando.

Há também, entretanto, o fato das diferenças no modo como percebemos a Igreja. Alguns dizem que o Papa é liberal demais, que ele está favorecendo uma agenda de relaxamento de antigas doutrinas e ensinamentos em favor de novas ideias. Algumas pessoas prefeririam ver uma Igreja mais purista, um bastião contra as tendências secularistas e mais controladora em termos de quem pertence ou não ao rebanho. Então, veja, quando você introduz as guerras culturais na política da Igreja e coloca um campo contra outro, o líder – neste caso, Francisco – é obrigado a ser criticado, não importa o que ele faça. Ele simplesmente não pode satisfazer os campos opostos.

IHU On-Line – O século XIX na Igreja foi marcado pelas missões, tema muito caro a países africanos, já o século XX teve como marca principal o ecumenismo. Qual deve ser a marca da Igreja no século XXI, tendo em perspectiva as realidades e desafios do continente africano? E qual o papel de Francisco na impressão dessa marca?
Agbonkhianmeghe Orobator – Não cabe a mim fazer uma declaração de qual deveria ser a marca definidora da Igreja do século XXI. No entanto, seguindo o exemplo de Francisco, a questão da inclusão deveria ser priorizada. Vivemos em um mundo dividido – a humanidade versus a natureza, no sentido de que a atividade humana contribui para a degradação da ecologia natural; a desigualdade econômica, que relega milhões de pessoas à pobreza; a desigualdade de gênero, que exclui metade da população mundial; a ascensão do nacionalismo, que constrói muros para excluir migrantes e refugiados como indesejáveis; a digitalização crescente, que cria campos hostis e sacrifica o discurso civil no altar da liberdade de expressão e das notícias falsas... e assim por diante.

No meio de todas essas divisões, precisamos de uma Igreja que seja reconciliadora; uma Igreja que crie um terreno comum; e uma Igreja que construa pontes entre as divisões e acolha a todos de braços abertos, sem discriminação, inclinações ou preconceitos. Eu acredito que o papel de Francisco ao chamar a Igreja a essa vocação da inclusão e da reconciliação tem sido muito decisivo para esta era. Ele é um construtor de pontes, e o mundo precisa de mais pessoas desse tipo.

IHU On-Line – O papa Francisco, alinhado com o Concílio Vaticano II, é defensor da perspectiva da inculturação da fé. Mas encontra resistências mesmo entre os grandes nomes da liturgia da Igreja dentro da Cúria. Como o senhor avalia essas disputas e em que medida a inculturação da fé, nos moldes do Vaticano II, pode contribuir na aproximação com a realidade africana?
Agbonkhianmeghe Orobator – Acho que você está se referindo às declarações do cardeal Robert Sarah . Como as declarações do Vaticano mostraram, tudo o que ele disse sobre a inculturação, especialmente em relação à autoridade das conferências episcopais locais sobre a questão das traduções, são opiniões pessoais dele, e não a posição oficial das lideranças da Igreja. A inculturação não é mais um assunto de debate – ser ou não ser. É um princípio aceitável da eclesiologia na Igreja na África. Onde quer que você vá, há sinais e manifestações de inculturação, não só no nível superficial das formas, mas também no nível mais profundo da substância, isto é, como podemos compreender e nos apropriar dos princípios da nossa fé de modo que isso nos permita permanecer fiéis à nossa identidade como africanos. Como disse Paulo VI , quando um africano se torna cristão, ele ou ela não renega a si mesmo.

IHU On-Line – Gostaria que o senhor relatasse as principais dificuldades da realidade política e social na África de hoje. E como a figura de Francisco, como líder geopolítico, pode contribuir no enfrentamento dessas questões?
Agbonkhianmeghe Orobator – Eu acho que existem três dificuldades sociopolíticas principais que a África enfrenta. Primeiro, há uma escassez crônica de lideranças confiáveis e responsáveis. Com pouquíssimas exceções, as lideranças africanas são cleptocratas, autocráticas e megalomaníacas. Elas não governam em prol do povo, mas existem para servir a seus interesses e aos interesses de seus camaradas.

Isso resulta na segunda dificuldade, isto é, a disfuncionalidade e o deslocamento social e político. Os sinais disso estão por toda parte – pobreza, conflito e violência, deslocamento de pessoas, colapso da infraestrutura social e econômica, e muito mais. A terceira dificuldade é tanto causa quanto sintoma das duas primeiras, isto é, a corrupção sistêmica generalizada. Em meio a essa disfuncionalidade política e social, a corrupção se torna um meio aceitável de sobrevivência, o que só agrava a situação.

O que Francisco traz para essa situação é o seu exemplo de liderança honesta, aberta, responsável e centrada nas pessoas. Ele é um líder que cheira a ovelha; ele acredita genuinamente na dignidade da humanidade e vai ao encontro das periferias e das margens da sociedade para mostrar compaixão, misericórdia e amor. Eu acredito que ele dá o exemplo para o tipo de liderança que a África precisa. Mas sou bastante cético em relação à capacidade das lideranças africanas de seguirem os seus passos.

IHU On-Line – O senhor é um cristão que foi criado na prática da religião africana. Gostaria que o senhor relatasse essa experiência. Que conexões podemos fazer entre as religiões africanas, o cristianismo e o islamismo?
Agbonkhianmeghe Orobator – Acabei de escrever um livro inteiro sobre essa questão. O livro se intitula Religion and Faith in Africa: Confessions of an Animist [Religião e fé na África: confissões de um animista] (Orbis Books, 2018). Eu o recomendo fortemente aos seus leitores. Como eu digo no livro, ser criado na Religião Africana é estar exposto a uma multiplicidade de experiências e imaginários religiosos. Essa exposição nutre uma sensação de proximidade com o divino, uma apreciação da existência comunal e uma reverência a Deus que não se baseia na exclusão e na beligerância doutrinal. É uma religião que não procura fazer proselitismo e impingir doutrinas aos outros.

Não digo que podemos estabelecer conexões entre a religião africana, o cristianismo e o Islã. Estas são três tradições religiosas distintas e diferentes. O que eu digo é que a religião africana precedeu as outras duas na África. Portanto, o cristianismo e o Islã estão enraizados no solo da Religião Africana. Não deveria nos surpreender que um cristão africano ou um muçulmano africano exiba traços de sua tradição religiosa africana no modo como pratica sua fé cristã ou muçulmana. Eu espero que esta resposta sumária à sua questão estimule o apetite dos seus leitores pelo meu novo livro.■

Leia mais

- Jesuíta africano pede a renúncia do presidente da Nigéria. Reportagem publicada nas Notícias do Dia de 26-5-2014, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Francisco fala de feminismo à rede teológica moral mundial. Reportagem publicada nas Notícias do Dia de 24-3-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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