Edição 521 | 07 Maio 2018

Guatemala: incerteza no coração maia

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Bruno Lima Rocha

Os Estados Unidos fazem da Guatemala o escoadouro das deportações de imigrantes ilegais centro-americanos. Uma parcela importante destes deportados permanece no país e fica à mercê das redes mafiosas. O governo guatemalteco “aceita” esta humilhação também por necessitar das remessas de dinheiro provenientes da imigração recente.

Bruno Lima Rocha realiza estágio pós-doutoral em economia, é doutor em ciência política e professor de relações internacionais e jornalismo na Unisinos.

Eis o artigo.

A Guatemala, o maior país do istmo da América Central, tem população de mais de 17 milhões de habitantes e é considerada a centralidade do “mundo maia”. No texto que segue observamos, de forma sintética, como a herança dos povos originários – atualmente organizados como tais no país – implica uma esperança na forma de vida coletiva, distinta dos espaços geográficos onde as máfias, “pandillas”, “maras” e cartéis operam.

O antigo Reino da Guatemala, equivocadamente visto apenas como república bananeira, foi palco do ignóbil golpe e intervenção da externa de junho de 1954, contra o governo reformista do general Jacobo Árbenz. Nesta ocasião, o então recém-formado médico argentino (especializado em hanseníase), Ernesto Guevara de la Serna, servia ao governo Árbenz e veio a se radicalizar no exílio mexicano. O golpe, financiado pela United Fruit Co. (empresa estadunidense maior proprietária e arrendatária de terra no país), foi seguido de governos autocráticos até culminar no início da insurgência, em 1960. À época, os insurgentes eram do Exército Guerrilheiro dos Pobres (EGP), Forças Armadas Rebeldes (FAR), Organização Revolucionária do Povo em Armas (ORPA) e do Partido Guatemalteco do Trabalho. As quatro forças seguiram lutando em separado até a unificação, em 1982, criando a Unidade Revolucionária Nacional Guatemalteca (URNG). Após mais de 35 anos de um conflito ininterrupto, pleno de violação aos direitos humanos e interferência dos EUA, a pacificação do país se deu após o impasse militar. Pouco se avançou institucionalmente depois desse momento.
Vale observar uma diferença fundamental entre os períodos de “pós-conflito” da Nicarágua e El Salvador, se comparado com a Guatemala: nos dois primeiros países, a estrutura político-militar que liderou a guerra civil venceu no primeiro caso e empatou no segundo. Ambas as estruturas se tornaram partidos políticos e, mantendo-se razoavelmente coesas, tanto a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN, sob a liderança bastante criticável de Daniel Ortega e sua esposa Rosario Murillo) como a Frente Farabundo Martí de Libertação Nacional (FMLN) venceram na urna da democracia indireta e, em 2018, são o partido de governo, ocupando o Poder Executivo. Já a URNG não consta como partido eleitoral registrado como vigente no Tribunal Supremo Eleitoral de Guatemala. Acompanhando as crises no sistema político do país, com sucessivos escândalos e modelos de enriquecimento ilícito através da política profissional, a URNG se torna um movimento de unidade da esquerda guatemalteca, com um programa mais radicalizado, mas sem o peso político dos partidos semelhantes no istmo.

As bandeiras dos povos originários e suas reivindicações mais fundamentais seriam as únicas vitórias concretas advindas do processo de paz e da situação chamada de “pós-conflito”. Os acordos de paz, assinados definitivamente em dezembro de 1996, reconheceram 23 idiomas nacionais no país, onde o castelhano realmente opera como língua franca, mas tem nos demais o reconhecimento oficial. No sistema educacional público do país, dividido entre os vinte e dois departamentos, há ensino bilíngue regionalizado com os vinte e um idiomas de origem maia – Quiché’, Queqchí, Kaqchikel, Mam, Poqomchi, Tzutujil, Achí, Q’anjob’al, Ixil, Acateco, Jakalteco, Chuj, Pocomam, Chortí, Aguateco, Sacapulteco, Sipacapense, Uspanteco, Tectiteco, Mopan, Itzá; além das línguas garífona (do Atlântico caribenho) e xinka (nahuas centroamericanos, não maias). Em tese, o idioma maia ou originário é ensinado nas escolas públicas conforme a densidade populacional de cada origem.

Um importante acordo de pós-conflito e aparentemente cumprido pelo Estado é uma pensão e garantia tanto de assentamento rural como de financiamento para a produção agrícola e áreas correlatas. São vários os projetos de turismo rural em regiões de serra, onde o conflito interno, as colunas guerrilheiras e as operações do Estado se desenvolveram de maneira terrível. Passados mais de 22 anos, os efeitos são impressionantes. Lugares, hoje turísticos, como a cidade de Chichicastenango (no departamento de El Quiché, a apenas 140 quilômetros da capital) e os municípios ao redor do Lago Atitlán (no departamento de Sololá) eram zonas tanto da resistência indígena e camponesa, como dos esquadrões da morte, especialmente através dos Comandos Kaibiles, as forças especiais da guerra interna financiada pelos Estados Unidos.

É curioso observar estas variáveis, entre a presença de organização política e de políticas culturais baseadas na luta indígena e camponesa e a melhoria nas condições concretas de vida, (incluindo algum controle coletivo da terra). É como um padrão, tal como em Chiapas, no México. Quanto maior a organização social dos povos originários, menor a pobreza absoluta e a incidência do crime, na forma contemporânea de “pandillas y maras”. É justamente nos territórios onde houve maior concentração de crimes de guerra e resposta na autodefesa popular, onde se vive melhor e com mais altivez. As Comissões de Conciliação e Paz, além dos subsídios e organização social cooperativa fazem a diferença. Para garantir a incidência, o Conselho de Anciãos (indígena) e as organizações sociais vinculadas à Teologia da Libertação atuam.

Infelizmente, o mesmo não ocorre em todo o país, menos ainda na capital, Ciudad de Guatemala. A principal base aérea do país opera como uma zona de “despejo de indesejáveis” deportados dos EUA, sendo esta política decorrente desde o governo Obama. Uma parcela da população deportada termina sobrevivendo na região metropolitana, tornando o fenômeno da favelização e os vínculos com as máfias uma constante. Além do crime em rede e um sistema prisional incontrolado, o país está fragilizado pela presença de Estados Unidos, Israel e Taiwan; coalhado de corrupção governamental e empresas “religiosas” neopentecostais, a Guatemala não indígena vive um presente duvidoso e futuro incerto. ■

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