Edição 521 | 07 Maio 2018

Uma revolução não se reconhece pela tomada do poder, mas por sua potência de sonho

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Olgária Matos

Convidada a discutir os 50 anos de Maio de 68, a professora Olgária Matos desenvolveu três pontos para abordar o tema. Para ela, o movimento se condensou na palavra de ordem “é proibido proibir”. No início, era uma crítica às regras e convenções rígidas, como a separação entre rapazes e moças nas residências estudantis. Logo “tomou a conotação de luta antiautoritária”. No entendimento da professora, “a palavra de ordem pôde se universalizar porque, em 1968, havia muitas ditaduras”. Por fim, ela afirma que “Maio de 68 foi uma esplendorosa liberação da palavra poética e criadora”, mostrando que “uma revolução não se reconhece pela tomada do poder, mas por sua potência de sonho”.

Olgária Matos é livre-docente e doutora e graduada em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP e mestre em Filosofia pela Université Paris 1 (Panthéon-Sorbonne). Realizou estágio pós-doutoral na École des Hautes Études en Sciences Sociales, na França. É professora aposentada do Departamento de Filosofia da USP. Autora do livro Paris, 1968: As barricadas do desejo (São Paulo: Editora Brasiliense, 1981).

Confira o texto.

1.Comemorar uma data não significa apenas rememorar um acontecimento, mas fazê-lo renascer em cada aniversário. O maio francês se condensou na palavra de ordem “é proibido proibir”, palavra de ordem de crítica ao mundo de regras e convenções rígidas que, no início do movimento, se referia à separação entre rapazes e moças nas residências estudantis, e foi então uma maneira de conquistar o “direito de visita”! Em seguida, tomou a conotação de luta antiautoritária, exprimindo o desejo de pensar por si mesmo, à distância dos conformismos dos partidos organizados e sua lógica de tomada do poder. “É proibido proibir” se coloca libertário e emancipatório com respeito a tudo que cerceia o pensamento autônomo, o livre-pensar. Diz respeito à liberação da palavra, ao “franco dizer” que conquistou as paredes da cidade, com suas inscrições eróticas e inteligentes em seus détournements. A máxima evangélica do “amai-vos uns aos outros” passou a ser “amai-vos uns sobre os outros”, ou então “não tome o poder, tome a palavra”. Assim, não se tratou de ocupar os lugares de poder instituídos, como a Assembleia Nacional, mas de ocupar o teatro do Odéon: “Quando a Assembleia Nacional se torna um teatro burguês, todos os teatros burgueses tornam-se Assembleias Nacionais”, ou “As Mil e uma Noites estão nas ruas da cidade”. Ou “libertar os livros das bibliotecas”, e ainda “não mude de emprego, mude o emprego de sua vida”.

2. A palavra de ordem pôde se universalizar porque, em 1968, havia muitas ditaduras, como as da América Latina e da Europa, como na Grécia, em Portugal e na Espanha, e também as dos países do Leste europeu, sob o domínio da ditadura da então URSS. Ano por excelência antiautoritário, universalizou a crítica aos valores impostos do consumo, da técnica, dos lazeres alienados, da indústria cultural, da civilização do automóvel, da vida burocratizada e administrada. Essa palavra de ordem mantém-se viva em todos aqueles que têm desejo de liberdade, de autarquia e de autodeterminação de pensamentos e investigação estética, moral, política e existencial. Mas dificilmente se poderia dizer que ela se encontra de alguma forma na “liberação da palavra” tal como se reconhece nas mídias sociais, pois se trata agora de uma espécie de “tirania da visibilidade” em que tudo deve ser falado, mostrado, exibido, como o desaparecimento do pudor e da timidez. Além disso, o Eros político das palavras de ordem e dos comportamentos expressava uma phylia social, o dar as mãos, o correr juntos, a troca de olhares, uma felicidade coletiva de indivíduos reunidos com valores e desejos comuns compartilhados como princípio de vida e de prazer, que encontravam novas razões para estar juntos. Contra as mídias, o maio francês inscreveu nos muros da cidade “desintoxicai-vos: não liguem mais a televisão”, “não leiam mais os jornais” etc. As redes sociais, ao contrário, propiciam uma “comunicação” instantânea que estreita o espaço e o tempo, com uma comunicação a distância, mas incapaz de criar laços da confiança, da amizade, da lealdade. Nelas não há diálogo e comunicação, mas, na maioria das vezes, fortalecimento de preconceitos e tomada de partido, tudo contra o que o maio lutou, contra os dogmatismos e contra o empobrecimento da linguagem e do mundo.

3. Maio de 68 foi uma esplendorosa liberação da palavra poética e criadora, o momento la boetiano da política francesa, em que não se tratava de tomar o poder, pois as lutas pela vitória histórica apenas repetem o passado e permanecem no plano do vencedor e do vencido. Mostrou que uma revolução não se reconhece pela tomada do poder, mas por sua potência de sonho. Invertendo a proposição dos surrealistas, dos quais de alguma forma foram herdeiros, não se tratava de colocar a poesia a serviço da revolução, mas a revolução a serviço da poesia. Em 68, a poesia foi irmã do sonho. No cotidiano, se reuniram poesia e revolução nas ruas da cidade, em seus cartazes, palavras de ordem e no mês em que 10 milhões de operários estavam em greve com a palavra de ordem “não mude de emprego, mude o emprego de sua vida”. ■

Últimas edições

  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição
  • Edição 528

    China, nova potência mundial – Contradições e lógicas que vêm transformando o país

    Ver edição