Edição 521 | 07 Maio 2018

É preciso consolidar uma narrativa de 1968 que aponte para um futuro melhor do que o presente

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Vitor Necchi

Para Glaudionor Barbosa, as maiores mudanças decorrentes do movimento ficaram restritas às mentalidades, e, no seu entendimento, isso não é pouco

“Nos momentos de ascensão de uma utopia, acredita-se, sempre, em um novo tempo”, afirma o professor Glaudionor Barbosa. E qual o problema, no que se refere a 1968? “Uma aliança estudantil-operária não resolve o problema. O capitalismo mudou a pele incorporando um discurso de aceitação de mudanças pontuais, mas, na essência, terminadas as jornadas do ‘ano que nunca terminará’, inicia-se a preparação estratégica para o neoliberalismo.”

Barbosa, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, afirma que “1968 criou formas de guerrilhas urbanas e rurais, reais e simbólicas, produziu mudanças violentas no comportamento geral”. Também “trouxe à tona as contraculturas e as contra-contraculturas” e “mostrou a força contínua e viva com a explosão dos movimentos sociais: estudantis, feministas, ambientais”.

Entre os movimentos de 1968, o mais emblemático ocorreu na França, onde “combinou-se repressão seletiva com a liderança do velho dirigente burguês Charles de Gaulle, que levou a melhor”, ao conseguir o controle político, a vitória nas eleições que convocou e o apoio dos trabalhadores. “As centrais sindicais cederam. Sem direção revolucionária, elas sempre cedem aos apelos patrióticos ou vantagens pecuniárias.”

Conforme Barbosa, “parte da esquerda defende a herança de 1968 como um divisor de águas”, mas o professor acredita que “as maiores mudanças ficaram restritas às mentalidades, e não é pouco”. No seu entendimento, é fundamental a disputa das narrativas: “É preciso que os setores progressistas continuem falando e expressando seus pontos de vista. É preciso consolidar uma narrativa de 1968 que aponte para um futuro melhor do que o presente”.

Glaudionor Barbosa é doutor em Ciência Política pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE, mestre em Economia pela Universidade Federal da Paraíba - UFPB, graduado em Economia pela UFPE e em Engenharia Agronômica pela Universidade Federal Rural de Pernambuco - UFRPE.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – No evento Cinquenta Anos de 1968: a Era de Todas as Viradas, promovido pela Universidade de São Paulo - USP, sua fala está prevista no tópico intitulado Crises econômicas: 1968 e 2018. Do que se trata? Do ponto de vista econômico, que aproximações podem ser feitas entre esses dois momentos no Brasil e no mundo?
Glaudionor Barbosa – 1968 foi “o ano que nunca terminará”, pois foi universal e disruptivo. Quando observamos 68, cada vez isso é diferente, pois tudo continua mudando em relação ao referencial. O olhar é diferente pois mudamos e não conseguimos mudar muito. Nós somos diferentes, mas somos iguais. Contudo, é inegável que o tempo fornece ao historiador ferramentas mais precisas, de melhor pontaria. Como eu dizia, ao se olhar para aquele ano, se tem a certeza de que as tarefas históricas dos oprimidos continuam na ordem do dia, e aquele ensaio foi primoroso.

1968 não foi francês, foi mundial. Tivemos choques com a polícia que continua matando e prendendo trabalhadores, jovens, mulheres e negros. No fundo é a mesma polícia que matou Marielle e Anderson .

1968 criou formas de guerrilhas urbanas e rurais, reais e simbólicas, produziu mudanças violentas no comportamento geral. 1968 trouxe à tona as contraculturas e as contra-contraculturas. 1968 mostrou a força contínua e viva com a explosão dos movimentos sociais: estudantis, feministas, ambientais. Liberou o corpo e a consciência, principalmente das mulheres com a psicanálise, os anticoncepcionais e a demolidora revolução sexual.

IHU On-Line – Que temas econômicos ficam mais evidentes acerca das pautas de Maio de 68?
Glaudionor Barbosa – Não acredito que ocorra uma coincidência conjuntural 1968-2018. Os 50 anos é que devem servir de mote. 1968 prenuncia a grande crise de 1973-1975, que enterra os 30 anos dourados do “capitalismo sem crise”, com uma crise estupenda, mostrando que capitalismo e crise são a mesma coisa.

No Brasil, inicia-se o Milagre Econômico que deixaria sequelas permanentes, na forma de uma distribuição de renda monstruosamente concentrada, que não se desconcentra com políticas públicas, apesar de Lula estar numa solitária de Sérgio Moro . A riqueza concentrou-se de forma oligárquica e só será distribuída através de uma revolução. Outro legado do Milagre foi a dívida externa.

IHU On-Line – Acreditava-se que teria início um novo tempo, com novas perspectivas em relação às mazelas do capitalismo e do socialismo soviético. Do ponto de vista econômico, o que sustentava as elaborações do movimento? Que pensamentos e autores eram evocados?
Glaudionor Barbosa – Nos momentos de ascensão de uma utopia, acredita-se, sempre, em um novo tempo. Qual o problema de 1968? Uma aliança estudantil-operária não resolve o problema. O capitalismo mudou a pele incorporando um discurso de aceitação de mudanças pontuais, mas, na essência, terminadas as jornadas do “ano que nunca terminará”, inicia-se a preparação estratégica para o neoliberalismo.

As dificuldades da União Soviética, reforçadas pela ação de fora para dentro, levou ao fracasso da experiência antissistêmica. É a derrota da URSS o maior dano que a humanidade poderia sofrer. A unipolaridade na geopolítica mundial sustentou todas as experiências contra os fracos. Só agora, com a influência do binômio Rússia-China, ocorre um começo de reequilíbrio.

Bem, havia muitas vozes, algumas dissonantes. A voz principal era do anarquista Daniel Cohn-Bendit . No caso da França, o mais emblemático, combinou-se repressão seletiva com a liderança do velho dirigente burguês Charles de Gaulle , que levou a melhor. De Gaulle conseguiu o controle político. Usou a imprensa, principalmente a falada, para jogar água na fervura. Mobilizou forças diversas em seu favor. Saiu-se vitorioso nas eleições que havia convocado. Conseguiu o apoio dos trabalhadores com promessas de aumentos salariais e melhorias nas condições gerais. As centrais sindicais cederam. Sem direção revolucionária, elas sempre cedem aos apelos patrióticos ou vantagens pecuniárias.

IHU On-Line – Embora o ideário de esquerda pautasse as manifestações de Maio de 68, pode-se afirmar que o movimento abriu caminho para ideias neoliberais? Por quê?
Glaudionor Barbosa – As duas perguntas não levam a respostas simples. O que é um ideário de esquerda? Desenvolvimentismo e distribuição de renda são ideias de esquerda que a direita aceita, quando necessário. Havia muitas ideias de esquerda e pouca unidade, e é por esse motivo que se fala em “tomar os céus de assalto”.

Algumas mudanças, principalmente no campo do comportamento e das mentalidades, ficaram. Quando as mulheres dizem hoje “meu corpo, minhas regras”, temos um legado de 1968.

Não vamos esquecer que 1968 atingiu o elo mais fraco do mundo soviético. Desse modo, na Tchecoslováquia inicia-se um processo reformista liberado por um comunista chamado Alexander Dubček . Ele tentou destalinizar seu país, tentou um sistema de freios mais democrático, ampliou as liberdades individuais. O Ocidente começou a falar e fala até hoje do “socialismo de rosto humano”. Dubček era um pragmático, apenas. A questão é que para jovens e pessoas de meia idade que não viveram no capitalismo, “O Socialismo Real” sempre aparentava ser opressivo. Era, porém parecia ser mais. Por sua vez, a resposta da URSS e do Pacto de Varsóvia foi ultrapragmática, exagerada, brutal e ineficiente. Houve violência contra a população desarmada e a implantação de um regime de desesperança entre socialistas do mundo todo.

Em resumo, pode-se dizer que o ideário de 1968 era mais libertário do que socialista-revolucionário, enquanto opção de poder contra a burguesia. Uma ação concertada a nível mundial poderia ter tido resultados mais favoráveis. Vale lembrar a situação da periferia do sistema, quase toda submetida a regimes de exceção.

IHU On-Line – Que mundo surgiu em consequência de Maio de 68?
Glaudionor Barbosa – Existem personalidades que gostariam de ver 1968 riscado no mapa da História. A maioria dos personagens de direita pensa assim. Jair Bolsonaro , Malafaia e outros pensam assim. O político francês de direita, aparentemente reformado, Nicolas Paul Stéphane Sarkozy afirmou que era necessário “liquidar” a herança do Maio de 68.

Muita gente enaltece 1968 por ter aberto uma brecha que ajudou na queda do muro de Berlim , eufemismo para o fim da União Soviética. Na verdade, o fim da URSS tem raízes mais profundas. Aliás, se o clima de 1968 fosse inebriante a este ponto, as ditaduras latino-americanas teriam caído. Claro que o sentido libertário influenciou todos os espaços.

Parte da esquerda defende a herança de 1968 como um divisor de águas. Reafirmo que as maiores mudanças ficaram restritas às mentalidades, e não é pouco. A ideia da “imaginação no poder” pode parecer coisa de alienado, contudo, não é, pois antes da chegada objetiva ao poder, é preciso que a imaginação chegue. Talvez se a juventude começasse a se despir no meio das aulas, parte do ranço fascista, presente no Brasil de hoje, se esfumaçasse ou se materializasse logo.

Uma parte importante dos estudantes estava convencida do seu papel social quando gritava pelas ruas e universidades de Paris, não apenas na capital francesa: todo poder aos operários! Não seremos capatazes das fábricas dos burgueses.

Uma questão fundamental é a disputa das narrativas, a saber, é preciso que os setores progressistas continuem falando e expressando seus pontos de vista. É preciso consolidar uma narrativa de 1968 que aponte para um futuro melhor do que o presente.

IHU On-Line – No campo político brasileiro, a partir de 1968 houve um aprofundamento da ditadura. E na economia, que análise se pode fazer de questões como política salarial e distribuição de renda, entre outras?
Glaudionor Barbosa – Em tempos sombrios, como agora, escuta-se muitos afirmarem que na época dos militares era muito melhor. Melhor para quem, cara-pálida? A resposta é dupla: havia mais segurança e a economia ia muito bem! Será? Não é díficil para um Estado policial prover segurança. Até as rodas de amigos eram vigiadas, quando não proibidas.

Quanto à economia? Os militares mostraram que uma economia capitalista pode crescer, fizeram melhor do que os neoliberais, Fernando Henrique Cardoso e seus atuais continuadores, e mesmo os governos do PT não foram exemplares neste quesito. A questão que se coloca é qual a qualidade do crescimento e quais os meios?

Os argumentos mais esgrimados são do crescimento ou do Milagre Econômico. Assim, alega-se que de 1968 a 1973 o Brasil entrou em uma espiral de crescimento na média de 10% ao ano, e chegou ao pico em 1973, a um crescimento de 14% do Produto Interno Bruto - PIB. O aumento do produto, logo, da renda e do emprego, foi acompanhado pela queda da inflação. A taxa (IGP) caiu de 25,5% para 15,6% no período. O que não fica evidente, apenas com os números, é que o crescimento teve duas fontes principais: endividamento externo e arrocho salarial.

Para manter a economia crescendo, os salários eram reajustados, na média, abaixo da inflação. Os trabalhadores perdiam renda e ficavam calados? Ficavam, pois a primeira coisa que os militares fizeram, depois de destruir fisicamente as oposições, foi intervir nos sindicatos e colocar pelegos na direções. Ou seja, o crescimento só foi possível com o aniquilamento da resistência dos trabalhadores. Esclarecendo: se Y = αw + βl, sendo Y = Renda Nacional; w = salários; l = lucros; α é o coeficiente de absorção dos salários e β é o coeficiente de aborção dos lucros, implica que com os sindicatos amordaçados α tende para zero.

IHU On-Line – Que papel Maio de 68 teve para o pensamento da esquerda?
Glaudionor Barbosa – 1968 diversifica a pauta da esquerda. Como já visto acima, as mudanças principais são de mentalidades, de cultura, de comportamento. As questões específicas passaram a ter um lugar importante.

Por outro lado, a influência principal é da Escola de Frankfurt . Parte importante da juventude estudantil começa a perceber que o debate é inadiável. A vida “normal” do capitalismo sem crise começa a se mostrar sem motivação. A primeira questão colocada era de sentido, a segunda era da persistência de exploração e opressão nas periferias do capitalismo “normal”. A juventude começou a entender que poderia ter um papel transformador.

Alguns pensadores como Herbert Marcuse começam a assumir um triplo papel de intelectual, professor e militante. Essa questão foi essencial e continua sendo. Um professor não tem o direito de se acovardar e desligar sua função de mestre com a de intelectual e militante.

O mal-estar da civilização burguesa era resultante da opressão ideológica e da exploração econômica, porém era, tambem, alienação de si mesmo, trabalho repetitivo e ausência de prazer. Tanatos vencia Eros.

O conceito mais forte de 1968 é de que “o poder está nas ruas”, e é preciso resgatar esta ideia. É preciso novamente “derrubar as prateleiras/as estantes/as estátuas/as vidraças, louças, livros, sim...”. É preciso sair de dentro do Facebook, pois é dentro dele que eles querem confinar a juventude.

IHU On-Line – Os sentidos de Maio de 1968 foram esvaziados?
Glaudionor Barbosa – Não sei se houve esvaziamento de fato, acontece que o metabolismo do capital é violento, tudo que cai no seu estômago é triturado. Ernesto Che Guevara , o militante mais radical e o maior homem do século 20 (Sartre ), virou fetiche e é vendido nas lojas e ruas do mundo todo, inclusive na Argentina.

O avanço tecnológico, se trouxe muitas vantagens, como fornecer essa entrevista por e-mail ou equipamentos médicos sofisticados que detectam doenças que antes só seriam descobertas quando não havia mais opção de cura, isolou e alienou as pessoas. Para que ir ao cinema se temos o Netflix?

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Glaudionor Barbosa – Desejo agradecer a oportunidade que me foi dada e dizer que as primaveras sempre voltam. Vamos invadir novamente a USP [Universidade de São Paulo] e o faremos sempre que necessário e oportuno. Pacificamente, como agora, ou com vontade revolucionária, como em 1968. ■

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