Edição 521 | 07 Maio 2018

É indispensável recuperar o sentido dos gestos de renovação dos anos 60

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Vitor Necchi

Para Enéas de Souza, a grande herança daqueles anos vem da ideia lacaniana de não ceder do seu desejo, e isso atravessa a subjetividade e as ações sociais

“A utopia de Maio de 68 foi uma ideia de transformação social, econômica, política e cultural da sociedade contemporânea na direção de uma sociedade socialista e libertária”, entende o economista Enéas de Souza. A sua hipótese é que “ela se deu num momento de crise de desenvolvimento do capitalismo”.

Para Souza, “ficou a utopia como uma energia revolucionária ampla”. Na voragem histórica daquele tempo, sobressaíram “os efeitos sobre a vida cotidiana, que se ampliou com o questionamento de todos os seus aspectos, desde o sexo até o engajamento político”. Esse universo afrontou “a sociedade antiga, onde habitavam as práticas políticas congeladas, as atividades burocráticas ferozes, os esquemas intelectuais conservadores e as práticas cotidianas sem exuberâncias vitais”.

Em 1968, Souza era um jovem que esteve em Paris pouco antes da eclosão do movimento. Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, lembra que os “jovens estavam loucos para mudarem”, e Maio de 68 terminou quando não houve ‘liga’ entre a cultura e a política”.

Do ímpeto libertário, “emergiu um processo capitalista de reafirmação da hegemonia americana-inglesa, através de uma ação de corte capitalista, de entrada em campo das finanças, do dólar flexível, de destruição da força operária dos sindicatos, ou seja, com a presença do neoliberalismo”. Passados 50 anos, Souza entende que “foi uma época inacabada e incompleta, porque não conseguiu unir a transformação econômica e política da classe operária com uma transformação cultural profunda”.

O economista acredita que “pensar a grande fecundidade daquele tempo histórico, os atos fundamentais daquela época, pode dar um sentido mais empolgante ao tempo presente”. Ele ressalva que “não se trata de copiar o que foi feito, mas é indispensável recuperar o sentido dos gestos de renovação dos anos 60. É preciso redescobrir o tesouro dos atos e dos pensamentos”. No seu entendimento, a grande herança daqueles anos “vem da ideia lacaniana de não ceder do seu desejo”, e “essa herança atravessa a subjetividade e as ações sociais”.

Enéas de Souza é graduado em Filosofia e em Ciências Econômicas e especialista em Didática Geral e Especial de Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS, e mestre em Economia pela Universidade Estadual de Campinas – Unicamp. É crítico de cinema e analista membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre – APPOA Trabalhou na Fundação de Economia e Estatística – FEE. Autor de Trajetórias do Cinema Moderno e outros textos (Porto Alegre: Da Cidade) e co-autor de Cinema. O Divã e a Tela (Porto Alegre: Artes e ofícios, junto com Robson de Freitas).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual foi a utopia de Maio de 68? E quando ela terminou?
Enéas de Souza – A utopia de Maio de 68 foi uma ideia de transformação social, econômica, política e cultural da sociedade contemporânea na direção de uma sociedade socialista e libertária. A minha hipótese é que ela se deu num momento de crise de desenvolvimento do capitalismo. De um lado, a entrada em cena – depois do desenvolvimento produtivo multinacional do pós-guerra e do começo da expansão financeira do capital – de uma crise na base da produção industrial com a nova expansão do petróleo, de um caminho de integração entre ciência e indústria que vai germinar nos próximos 30 anos uma revolução das chamadas novas tecnologias de comunicação e informação. De outro lado, o prenúncio de uma futura transformação da base monetária da sociedade: a passagem do dólar-ouro para o dólar flexível, garantido pelo Estado americano, que se dará em 1971.

Acompanha, é claro, uma enorme derrota geopolítica americana, oriunda do fracasso da guerra no Vietnã . Na época, se pensava inclusive na queda de seu poder hegemônico. Maio de 68 foi um fenômeno resultante desse envoltório econômico e político dos Estados Unidos no quadro da Guerra Fria .

Nesse movimento histórico, também temos outro processo complexo: a vasta crise no sistema soviético causada pela incapacidade do seu capitalismo de Estado, supostamente socialista, e pelo excesso de “centralismo democrático” no desenvolvimento político do movimento do comunismo no mundo. Assim, emergiram nesse tempo crises de todas as ordens: política, burocrática, industrial e, sobretudo, ideológica.

Toda essa combustão que balança o processo histórico aponta o seu momento crítico para a França e se move numa tentativa de transformação global da sociedade capitalista a partir da utopia de Maio. Num sentido, a tentativa de superar a distância entre a política, a economia e a cultura; ao mesmo tempo, algo dessa utopia se espalhou por todo o mundo. O epicentro dessa crise é Paris, onde há uma busca de unir certa transformação cultural com a metamorfose do econômico e da política. E a fratura da utopia se dá na insuficiência do PCF [Partido Comunista Francês] em compreender o movimento estudantil e intelectual e do movimento estudantil e intelectual de pensar que o movimento cultural desse a partida para algo maior.

Ficou a utopia como uma energia revolucionária ampla. O acento se fez numa mudança estrutural da cultura desde a renovação da psicanálise, da explosão das artes – principalmente do cinema – e a profunda reformulação da filosofia. Nessa voragem histórica, sobressaíram também os efeitos sobre a vida cotidiana, que se ampliou com o questionamento de todos os seus aspectos, desde o sexo até o engajamento político. E essas realidades se afrontaram com a sociedade antiga, onde habitavam as práticas políticas congeladas, as atividades burocráticas ferozes, os esquemas intelectuais conservadores e as práticas cotidianas sem exuberâncias vitais. Os jovens estavam loucos para mudarem. E Maio de 68 terminou quando não houve “liga” entre a cultura e a política.

IHU On-Line – Das ruas de Maio de 1968, emanava o grito “é proibido proibir”. Criticava-se o sistema, a família, a tradição, a moral, as proibições. Que mundo emergiu desse ímpeto libertário?
Enéas de Souza – Emergiu um processo capitalista de reafirmação da hegemonia americana-inglesa, através de uma ação de corte capitalista, de entrada em campo das finanças, do dólar flexível, de destruição da força operária dos sindicatos, ou seja, com a presença do neoliberalismo. E também certa incompetência soviética para enfrentar os desafios geopolíticos americanos.

Pode-se constatar um enrijecimento das análises econômicas, políticas e culturais do movimento socialista, e a quebra das reações operárias, sobretudo nos sindicatos. Apesar de tudo, encontramos a emergência cultural como o estruturalismo, o movimento lacaniano, a expansão do cinema desdramático e de grande espontaneidade com origem da Nouvelle Vague, uma certa transformação do cinema americano comercial, mutações artísticas importantes.

De qualquer forma, o que se viu foi a capacidade do capitalismo de recuperar todas as práticas antissistêmicas para o fortalecimento do sistema, como, por exemplo, o mundo hippie. E no desenvolvimento do neoliberalismo houve um deslanche do capitalismo financeiro e industrial para capitalizar toda a sociedade, sobretudo de elementos do Estado: educação, saúde, transportes, energia. E ultimamente, sobretudo, a cultura. Com isso, o sistema absorveu a postura crítica.

O neoliberalismo abafou até a ideia de passado cultural, de patrimônio cultural. Um dos exemplos é a posição favorável de alguns grupos à destruição de parcelas da cidade, uma luta contra a memória da civilização. Hoje, existem até arquitetos que propugnam a construção de um edifício que, depois de usado, seja posto abaixo para que aquele espaço seja ocupado por outra obra. Ou seja, nada de memória de civilização. O mundo se usa, não se questiona, não se aprimora, joga-se no lixo como uma civilização do descarte, do efêmero, a civilização e a selvageria do digital. Registra-se e apaga-se. E se vai em frente. Do mundo libertário surgiu o mundo do apagamento.

IHU On-Line – Entre o final de 1967 e fevereiro de 1968, o senhor viveu em Paris. Como foi esta experiência? Havia algo que prenunciasse os acontecimentos de Maio?
Enéas de Souza – Foi uma experiência muito marcante, porque os acontecimentos foram vividos como a necessidade de uma transformação social profunda no nível de uma totalidade dinâmica. A ebulição cultural era perturbadoramente fantástica. Vínhamos de uma cultura dominada por Heidegger , Sartre , Merleau-Ponty , Simone de Beauvoir , o marxismo luckasiano , o cinema neorrealista italiano, o cinema soviético, o cinema hollywoodiano do espetáculo crítico. E começavam a emergir a psicanálise lacaniana , o marxismo estruturalista com Althusser , as mutações filosóficas de Foucault , Deleuze , o ressurgimento nietzschiano , a passagem das artes plásticas da Europa para os Estados Unidos, o teatro de Beckett , o cinema novo, a bossa nova. E assim o novo mundo eram as aulas magníficas de Lacan, a força sombria de Althusser e o término emocionante de Sartre. E que profundas modificações nas relações homem-mulher, que cheques da visão eurocêntrica até as novas perspectivas chinesas. Isto tudo estava no dia a dia, tumultuando os pensamentos, as ideias, os corpos, as relações. Surgiram novas dimensões no cinema, na filosofia, na psicanálise, no teatro. Mas, apesar dessa ebulição vasta e enorme, o mundo político parecia estagnado e nada prenunciava o surgimento de Maio. Apenas o filme de Godard, La Chinoise, saído em fevereiro, previa a irrupção de algo revolucionário. Mas o clima parisiense era de que Godard estava louco. Sim, o ambiente estava quieto e parecia um clima de marasmo. Nada parecia que o mundo ia vir abaixo. E vimos, então: Godard estava certo. Por um instante, o raio da tempestade da renovação se fez presente. Uma imagem para nunca se esquecer.

IHU On-Line – No final dos anos 1960, vigia a ditadura militar no Brasil. Como se constituía a vida em um país sem democracia, enquanto o mundo estava em ebulição, em um tempo de questionamento e ruptura?
Enéas de Souza – Aqui no Brasil, havia uma resistência progressiva, popular e intelectual, contra o movimento de 64. Esse nunca triunfou ideologicamente. Culturalmente era um movimento reacionário, conservador politicamente. E contra os avanços sociais. E contra a civilização. Começava também uma revolução sexual intensa, um movimento cultural e artístico de grande modernização. E mesmo depois, de forte repressão, o movimento libertador continuou resistindo nas “catacumbas”. Havia mesmo uma ideia de que o país estava militarmente ocupado, e a semelhança da França ocupada na Segunda Guerra Mundial era muito falada.

O jornalista Marcos Faerman , que tinha um jornal chamado Versus, publicou uma crônica de Sartre sobre a ocupação, quando a mínima resistência de uma palavra criativa nos cafés de Paris era um ato político. A resistência à ditadura era muito forte, inclusive por ocasião do chamado “Milagre econômico”, que começou em 68-69. A resistência desembocou no campo político do cotidiano, inclusive eleitoral, e no espaço da guerrilha. Um pouco daquela energia que existia no mundo a favor da liberdade e contra o mundo capitalista desarvorado pousou no Brasil e culminou no movimento das Diretas Já. O retorno da democracia foi renovador, mas deu origem, no médio prazo, a outros graves problemas que estamos vivendo hoje.

IHU On-Line – Para a geração que viveu o Maio de 68, passados 50 anos, qual o entendimento sobre aquele tempo?
Enéas de Souza – Foi uma época inacabada e incompleta, porque não conseguiu unir a transformação econômica e política da classe operária com uma transformação cultural profunda, sobretudo na tentativa de desvincular a transformação socialista geralmente pensada de modo economicista, para uma transformação de uma sociedade econômica, política e cultural marcada pela ideia de liberdade e não submetida ao centralismo democrático de um partido único.

A doença do burocratismo da política continuou em vários partidos de esquerda. Pensar a grande fecundidade daquele tempo histórico, os atos fundamentais daquela época, pode dar um sentido mais empolgante ao tempo presente. Ouvir o passado, ouvir os gestos decisivos, criativos, inventivos, engenhosos daquela época pode ressoar nas necessidades do presente histórico. Não se trata de copiar o que foi feito, mas é indispensável recuperar o sentido dos gestos de renovação dos anos 60. É preciso redescobrir o tesouro dos atos e dos pensamentos.

IHU On-Line – A revolução sexual e a ideia de desinterdição dos corpos e do prazer inflavam as mentes da juventude ao final dos anos 1960. Hoje, quando aqueles jovens são os velhos do presente, que balanço pode ser feito desse tema?
Enéas de Souza – A grande herança daqueles anos, a meu ver, vem da ideia lacaniana de não ceder do seu desejo. Essa herança atravessa a subjetividade e as ações sociais.

IHU On-Line – Maio de 68 foi superestimado?
Enéas de Souza – Ele só é superestimado quando se pensa como saudade. E saudade que se ambicionaria fazer igual, e dessa vez, certo. A história é sempre nova, é sempre outra, embora mantenha sempre a ideia de que ela é um confronto eternamente vivo. Talvez, se pensando bem, o ensino de Maio de 68 foi que a política, a sociedade é sempre um conflito de forças, em que essas estão sempre dinamicamente se transformando e continuamente em oposição. Maio é uma lição que se deve procurar nem superestimar, nem subestimar. A lição está na criação, não ceder quanto à ousadia da invenção.

IHU On-Line – Quais filmes inspirados pelo Maio de 68 são importantes e por quê?
Enéas de Souza – Três filmes me parecem importantes sobre Maio. Um que o antecipou fortemente: o filme de Godard, La Chinoise. E os outros dois Os sonhadores, de Bernardo Bertolucci , e Amores Constantes, de Philippe Garrel . O primeiro porque mostra que a Arte é antecipadora da sociedade. La Chinoise, que saiu em fevereiro de 68 na França, marcava com precisão todo um processo que se encaminharia para algo revolucionário. E os outros dois filmes porque marcam eventuais erros estratégicos da esquerda, como em Os sonhadores, enquanto que o filme de Philippe Garrel ressalta a presença de um personagem que ficou marcado por Maio, sem renovar a sua vida e sem sair para outros acontecimentos.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Enéas de Souza – O importante foram os atos fundadores de Maio: o ensaio de renovação de uma sociedade marcada pelo imobilismo político, econômico, e que não escutava a volúpia de uma ambição de renovação cultural de algumas frações do social. Havia a ideia generosa de que essas transformações seriam para toda a sociedade. E, por outro lado, há que ter uma atitude crítica para não exaltar a revolta fácil. Há que perceber que a sociedade é sempre combate. Para mim, há sempre uma tensão entre a civilização e selvageria. Benjamim falava de que há barbárie em toda civilização e civilização em toda barbárie. Há que criar os instantes e o caminho de uma civilização que se jogam pelas coisas importantes da vida: a cultura material e espiritual, sem pensar que a selvageria seja expurgada do mundo dos homens. A selvageria é estrutural.

Há, contudo, algo a acrescentar: hoje, as bases de qualquer movimento de ambição, de transformação global, devem levar em consideração que, primeiro, o combate político é entre os Estados Unidos e a Rússia e a China, com transformações geopolíticas novas, por exemplo, como a subordinação completa do Brasil, do governo Temer e da época da Lava Jato, ao governo americano.

Além disso, temos, em segundo lugar, uma época totalmente diferente no campo tecnológico, com o mundo digital se infiltrando em todas as dimensões da vida humana, seja eliminando a base operária e jogando os oprimidos no campo dos serviços, seja construindo uma sociedade do controle, através das câmeras de vigilância, através dos aplicativos que dominam a vida cotidiana dos cidadãos, inclusive se apropriando dos seus dados, dos seus textos, das suas imagens. É a era do olho absoluto. Tudo vê e, se quisermos, de tudo se apropria.

E na esfera cultural, o que temos é uma desvinculação do cidadão da cultura com a consequente decadência da filosofia, das ciências humanas, da assunção de uma religiosidade frágil, de uma medicalização das questões psicanalíticas, de um campo artístico em retração, com o Estado cedendo sua política cultural para uma política autolaudatória do capital privado. E com o triunfo das finanças, temos uma nova religião, como diz Agamben : Deus é dinheiro. Prefiro dizer, no entanto, que Deus é capital e que suas outras duas figuras são o dinheiro e a mercadoria. É a divina trindade dessa sociedade de materialismo vulgar. Ou seja, Maio de 68 agora, para ser um novo maio – e exitoso – terá que ser outro, um maio do século 21, num longo enfrentamento com a tal divina trindade, sem perder a democracia e a liberdade. ■

Leia mais

- A eficiência do Estado não começa com o corte, mas com a estratégia. Entrevista especial com Enéas de Souza, publicada nas Notícias do Dia de 5-12-2016, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- A insustentável leveza do capital financeiro. Entrevista especial com Enéas Costa de Souza, publicada nas Notícias do Dia de 10-4-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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