Edição 210 | 05 Março 2007

A eterna tentação de negar a realidade

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IHU Online

Publicamos um extrato da conferência proferida por Jon Sobrino, jesuíta, teólogo salvadorenho, no 2º Fórum Mundial Teologia e Libertação, realizado em Nairóbi, de 16 a 19 de janeiro. Sobre o tema, as Notícias Diárias (www.unisinos.br/ihu) veiculou três entrevistas com o Frei Luiz Carlos Susin: uma no dia 6/4/2006, outra em 15/01/2007 e outra em 9/2/2007.

Nascido em Barcelona, na Espanha, no dia 27 de dezembro de 1938, Jon Sobrino entrou na Companhia de Jesus em 1956 e foi ordenado sacerdote em 1969. Desde 1957, pertence à Província da América Central, residindo habitualmente na cidade de San Salvador, em El Salvador. Doutorou-se em Teologia na Hochschule Sankt Georgen de Frankfurt (Alemanha) com a tese Significado de la cruz y resurrección de Jesús em las cristologías sistemáticas de W. Pannenberg y J. Moltmann.Atualmente, divide seu tempo entre as atividades de professor de Teologia na Universidade Centro-Americana, de responsável pelo Centro de pastoral Dom Oscar Romero, de diretor da Revista Latino-Americana de Teologia e do Informativo Cartas a las Iglesias. Entre seus livros publicados em português citamos Cristologia a partir da América Latina. Petrópolis: Vozes, 1983; e A fé em Jesus Cristo. Petrópolis: Vozes, 2002.

O texto abaixo foi publicado pela Agência Adista, em 26-02-2007. Eis o artigo:

Uma observação prévia:

Entendo por religião, em sentido amplo, um modo pelo qual os seres humanos, como pessoas e como grupo, se relacionam com o que é último e que podemos chamar de Deus. Esta modalidade de relação nos configura num determinado modo, a partir do qual possamos configurar também a realidade: mudá-la, libertá-la, redimi-la. A religião não oferece receitas nem modelos para a mudança da realidade. E também não oferece um sucesso mecanicamente calculado, mas impele a trabalhar com radicalidade. Entendemos aqui por religião a tradição bíblico-jesuânica, aberta a outras tradições afins, historicizada por Martin Luther King , Romero, Monzihirwa e por milhões de pobres dos quais saíram e aos quais se deram a si mesmos. Num sentido amplo, a religião está em relação com a Teologia da Libertação. A religião, assim entendida, nos introduz num paradoxo: move-nos invariavelmente a lutar pela libertação, mas sem garantir o sucesso como nós o entendemos. O que se garante é a dedicação total e a esperança que não morre: nas palavras de Dom Casaldáliga : “Somos os vencidos de uma causa invencível”.

A religião não oferece receitas, porém oferece uma “reserva de humanidade”. Oferece a radicalidade inegociável da nossa dedicação à libertação. Mais concretamente, oferece a radicalidade de uma linguagem hoje ignorada. No mundo não existem somente limites e erros, mas existe pecado, aquele que dá a morte, lenta ou violentamente, o pecado mortal, que significa falência total daqueles que dão a morte. No mundo, não existe somente esforço próprio, mas também graça, salvação da arrogância (hybris). No mundo existem expectativas, com freqüência razoáveis, baseadas em cálculos, mas existe também a esperança que é fruto do amor. Contra toda esperança, esperamos no triunfo da justiça, porque vimos o amor (...).

As vítimas.

O Evangelho de João diz que “o maligno é assassino e mentiroso”. A libertação, “o outro mundo possível”, advém em presença do maligno e contra ele. A morte permanece oculta e, por isso, antes de tudo é preciso desmascarar a mentira. E, quando o fazemos, encontramo-nos num mundo de vítimas. Manter esta honestidade em confronto com a realidade é exigência da religião e é fundamental para que as pessoas e os grupos possam trabalhar pela libertação.

Vejamos brevemente:

a) As vitimas e, em definitivo, somente as vítimas abrem os nossos olhos para a realidade. A religião insiste no fato de que este milagre de abrir os olhos é necessário e possível. O que aparece nas vítimas é pobreza, crueldade, morte. Coisa que exprime a desumanidade do mundo em que vivemos.

Esta realidade é oculta e calada. As vítimas nem sequer têm um nome. O 11 de setembro é conhecido, mas o 7 de outubro não. No 7 de outubro, um mês após o atentado contra as torres gêmeas de Nova York, uma ampla coalizão de países democráticos bombardeou o Afeganistão. Mas, o Afeganistão, pobre, vítima, não tem calendário, não tem nome, não existe.
As vítimas podem fazer-nos despertar do sono dogmático no qual se encontra imerso o mundo da abundância, democrático ou não. Recordemos as palavras dirigidas em 1511 por Antonio Montesinos  aos encomendeiros , diante da sua crueldade em confronto com os indígenas de Espanhola: “Estes não são homens? Não têm almas racionais? Como é que caístes num sono tão letárgico?” Como estão as coisas, parece mais difícil despertar deste sono de cruel desumanidade, do que do sono dogmático de que falava Kant.

b) As vítimas podem ser hoje os antigos “mestres da suspeita” que, não só denunciam o que é claramente um mal, mas suscitam também a suspeita sobre o mal que pode esconder-se por detrás do bem ou aquele que é aparentemente um bem. Alguns exemplos. Desmascaram a globalização como ideologia, porque ela quer oferecer um mundo em forma de “globo” (aquilo que para Platão simbolizava a perfeição), um mundo homogêneo que, se ainda não é tal, em breve o será. As vítimas deixam claro que na globalização há vencedores e vencidos. Desmascaram também as democracias que se apresentam como realidades boas, além das quais parece que não se possa andar. As vítimas revelam que, na realidade, as democracias reais se alimentam de vítimas reais. E, também em teoria, fazem suspeitar que o “demos” [povo] da democracia não inclui as maiorias pobres e certamente não as põe no centro da sociedade como acontece na tradição religiosa dos profetas e de Jesus.

c) As vítimas demonstram a existência dos ídolos e esclarecem sua verdadeira essência. O fato de que sejam veneradas expressões de vida, como os rios, o sol, a lua, nada tem a ver com a idolatria, mas com disposições antropológicas. Ao invés disso, é símbolo de idolatria o deus Moloc , que exige vítimas para subsistir. Ídolos são hoje aquelas realidades históricas existentes que exigem vítimas para subsistir. Mons. Romero mencionava em seu tempo a idolatria do capital absolutizado e da segurança nacional. A sua linguagem não era metafórica, mas precisa: são ídolos porque exigem vítimas. E, enquanto defendia e apoiava as organizações populares, ele as punha em guarda sobre o perigo de se transformarem em ídolos, absolutizando-se a si próprias e causando outras vítimas. Ironicamente, não são os assim ditos povos primitivos os que prestam culto aos ídolos, mas as sociedades baseadas no capitalismo, seja o ocidental, agora globalizado, seja, no passado, o socialista.

d) As vítimas exigem retornar a um conceito há tempo esquecido: aquele de império. Com a queda do muro de Berlim, permanece uma única superpotência, os Estados Unidos, que se autocompreendem e agem como império, concebido como “destino manifesto”. E recordemos o que dizia Agostinho : imperium est magnum latrocinium.

e) As vítimas podem fazer-nos superar o docetismo (heresia que negava a carne real de Jesus Cristo), que hoje significa viver naquela irrealidade de ilhas, exceções ou anedotas, que é o mundo da abundância. E, viver na irrealidade é princípio de desumanização. As vítimas nos dirigem um convite, indefeso, a sermos realistas e nisto encontrarmos a salvação. Dizia Mons. Romero: “Alegro-me, irmãos, com as perseguições da nossa Igreja. Seria triste se, num país onde há tantos assassinatos, não houvesse sacerdotes assassinados. É a prova de que a nossa Igreja é cristã e salvadora”. São palavras extremas, mas, se não transformarmos em realidade algo do que exprimem, continuaremos a viver docilmente num mundo irreal, seja ele capitalista ou socialista, cristão ou muçulmano...

f) As vítimas nos mostram qual é o conteúdo fundamental mínimo da utopia: a vida digna e justa em fraternidade. Não se trata da utopia de Platão em A República ou daquela de Tomás Morus . E ademais, não é preciso compreender esta utopia dos pobres existencialmente como ou-topia, como aquele ambiente perfeito para o qual não há lugar (o qual visaria o mundo da abundância), mas como eu-topia, como aquele ambiente bom e necessário para o qual deve haver lugar.

Poder-se-ia dizer que, teoricamente, tudo isto pode ser desvelado sem tomar em consideração as vitimas. Realmente não sucede assim. Por isso, uma tradição religiosa que faça das vítimas a realidade central é uma grande contribuição à verdade, à justiça e à libertação.

A mística da compaixão.

A religião oferece também uma mística, uma espiritualidade, uma luz e uma força que guiam o nosso ver, fazer, esperar e celebrar. Concentramo-nos aqui sobre a compaixão como ponto central da mística. Se o maligno é não só mentiroso, mas também assassino, a verdade que desmascara a mentira vem acompanhada da compaixão que gera vida.

a) Entendemos por compaixão a reação de libertar do sofrimento os seres humanos pelo simples fato de sua existência. A compaixão é, então, elemento primeiro e último. Pode ser acompanhada de sentimentos, mas é mais que sentimento e deve ser historicizada. Assim, a compaixão deve tomar forma de ajuda, justiça, libertação, redenção... Na tradução jesuânica, a compaixão é a reação primária e fundamental de Jesus à repetida solicitação na boca dos pobres: “Senhor, tenha compaixão de mim”.

b) A religião assegura uma radicalidade e uma definitividade teologal à compaixão, segundo as palavras de Mons. Romero: Gloria Dei, vivens pauper. Fazer que o pobre viva (dando-lhe dignidade, justiça, vida...) é fazer, sim, historicamente, que Deus seja glorificado.

c) A compaixão não tem limites, como não os tem o amor. Por isso, a compaixão pode exigir que tudo lhe seja doado, inclusive a vida. Hoje, em muitos lugares do Terceiro Mundo, há muitos testemunhos desta compaixão total. E, além de demonstrar coerência em sua luta pela libertação, tornam-se motivo de esperança e de gratidão. É isso que mostra a celebração dos mártires.

d) A religião nos recorda que também a compaixão necessita ser manifestada sem arrogância. A arrogância tende sempre a corromper tudo, incluindo as coisas boas. Na nossa história, sucede, em maior ou menor medida, que também os movimentos de libertação degenerem e isso não deveria causar admiração, já que são humanos. Porém é importante não pensar que, pelo fato de atuarmos pela libertação, estejamos imunes do egoísmo e do que dele resulta. A religião nos recorda, nas palavras de José Ignácio González Faus, que “é preciso fazer a revolução como quem foi perdoado”.

O mistério das vítimas e o mistério de Deus.

Partindo das vítimas, podemos pôr em palavras, balbuciando, aquilo que há de mistério último na realidade.

a) O mistério existe como enigma terrível sob forma de mysterium iniquitatis. Parece terrificante, como vimos no primeiro ponto: seres humanos que causam a morte, injusta e cruelmente, desumanizando-se a si próprios. Mas, também no mundo das vitimas se manifesta o mistério da iniqüidade. É a tragédia do Ruanda e dos Grandes Lagos, com a responsabilidade secular do Norte e sua insensibilidade atual, mas também com a responsabilidade destes povos. Melquisedek Sikuli, bispo congolês, reconhece-o depois de haver enumerado os imensos problemas que devastam o seu país: miséria, injustiça, exilados, mulheres violentadas e aldeias saqueadas, sob o fundo do pecado do colonialismo. Mas, não dissimula os males do país, como o drama dos meninos-soldados, embora a compaixão diante de tanto sofrimento o impila a procurar alguma explicação. Cita algumas palavras de Kouroma, no seu livro “Alá não está contente”: “Quando não se tem ninguém no mundo, nem pai, nem mãe, nem irmã, e se é ainda uma criança num país devastado e bárbaro, onde todos se matam, o que se pode fazer? Começa-se a ser menino-soldado para comer e matar: é tudo o que nos resta”.

b) O mysterium salutis se faz real nos sucessos, pequenos ou grandes, dos pobres, na solidariedade que eles geram em muitos e na fraternidade que vai nascendo entre pessoas, grupos e povos. Também nos estudos e nas análises teóricas com a finalidade de propor modelos de salvação, bem como nas estratégias práticas para concretizá-los. Exprime-se na identidade, nas culturas, nas religiões, sobretudo dos povos ancestrais, muitos dos quais empobrecidos e que resistiram através dos séculos também entre muitas dificuldades. É sempre mais evidente que se arriscam todos.

Mas, também nos momentos de sofrimento, nas vítimas e nos pobres pode surgir, e surge, um anelo de sobrevivência e convivência com os outros, trabalhando com criatividade, dignidade, resistência e força sem limites, desafiando imensos obstáculos. Não tenho palavras para descrevê-lo. Chamei-o de santidade primordial. Não se pode dizer o que haja nela de liberdade ou de necessidade, de virtude ou de obrigação, de graça ou de mérito: ela não deve ser necessariamente acompanhada de virtudes heróicas, mas ela se expressa numa vida totalmente heróica. Esta santidade primordial convida uns a dar aos outros, uns a receber dos outros, a celebrar uns com os outros a alegria de serem humanos. Podemos dizer que destes pobres provém salvação.

c) E nos pobres se entrevê Deus. Digamo-lo para concluir, com palavras muito caras a Gustavo Gutiérrez . Em meio ao sofrimento do inocente, ele se pergunta “como falar de Deus a partir de Ayacucho”, cidade peruana que, em quéchua, quer dizer “ângulo dos mortos”? Aqui estão perguntando pelo Deus Jó, por Ivã Karamázov , por Jesus sobre a cruz (...). Os pobres conduzem a Deus porque Deus está neles, ao mesmo tempo oculto e manifesto. E são “os vigários de Cristo”.

Conclusão

Tudo isso que dissemos pode ser feito em muitas situações, como neste Fórum Mundial de Teologia e Libertação ou na vigília do Fórum Social Mundial. O seu significado específico pode ser o seguinte:
A tradição religiosa que analisamos afirma a imperiosa necessidade da justiça e a necessidade de todo esforço econômico, social, político e cultural por um mundo diverso. Compartilha a esperança de que este novo mundo é possível. E impele todos a trabalharem para isso.

Talvez aquilo que dissemos possa ajudar a oferecer um modo de proceder que, segundo nós, nos encaminha para uma libertação mais global e profunda. Trata-se de pôr no centro as vítimas e a compaixão por elas, de caminhar na práxis e com esperança em direção a um mistério último que a religião chama de Deus. De caminhar em companhia de muitos irmãos e irmãs, testemunhas e mártires de todo o mundo. E, na tradição cristã, de caminhar seguindo Jesus, nosso irmão mais velho e maior.

Nada disso reduz a importância e a necessidade das análises que devem ser feitas no Fórum Social Mundial, mas talvez possa ajudar a pô-las em prática do modo mais humano possível.

 

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