Edição 516 | 04 Dezembro 2017

Tecnologia como intersecção entre academia e mercado

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Lara Ely

Saiba como o decano da Escola Politécnica Sandro José Rigo estuda a aplicação da inteligência artificial aos problemas da vida real


Aos 47 anos, o Decano da Escola Politécnica Sandro José Rigo é o nome de vanguarda quando se fala na digitalização dos campi da Unisinos. Dentro do Programa de Pós-Graduação em Computação Aplicada, está o local onde se materializam as pesquisas sobre os principais eixos temáticos da chamada Revolução 4.0. Nas portas das salas de pesquisa do quarto andar no prédio C, estão placas contendo expressões como internet das coisas, big data e inteligência artificial. Nesta última linha que Rigo baseia seu foco principal de estudos.

Rigo na sala do cluster da Escola Politécnica, a “nuvem” da universidade (Foto: lara Ely/IHU)

Interessado por tecnologia desde cedo, ingressou no curso de graduação em Software Básico na PUCRS após concluir o Ensino Médio Profissionalizante em Eletrônica. Além da facilidade em matemática e física, o gosto por psicologia e história o levou a optar pelo curso por entender que, nele, poderia empregar a tecnologia na solução de problemas específicos da sociedade, como na educação, direito e saúde, por exemplo. Ao fazer Mestrado e Doutorado em Ciências da Computação, na UFRGS, nos anos 1990 e 2000, sua visão sobre a área se ampliou e foi coroada com a descoberta de um campo aberto à inovação e alta demanda de mercado.

Lecionando na Unisinos desde 1995, trabalhou em projetos de aplicação da informática à educação nos primórdios da internet. Fez capacitação de professores, desenvolveu módulos de ensino a distância, criou recursos pedagógicos e material institucional, coordenou equipes. Como programador, trabalhou ainda no desenvolvimento de aplicações web. “Atuava junto a uma equipe de webmasters que fazia um trabalho integrado para cuidar da comunicação de cada centro”, recorda. Após duas décadas de dedicação à área, agora ele se prepara para um Pós-Doutorado na Europa, onde irá estudar o uso da tecnologia aplicada à saúde junto aos pesquisadores do Medical Valley, na Alemanha. Trata-se de um conglomerado de empresas que interagem junto a um hospital e uma universidade local chamada Friedrich-Alexander-Universität Erlangen-Nürnberg - FAU.

Em solo brasileiro, essa intersecção entre academia e mercado tem sido o motor do trabalho de Rigo. Atuando em entidades de classe como a Sociedade Brasileira de Computação - SBC ou a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio Grande do Sul - Fapergs, por exemplo, ele media a interação entre o fazer e o pensar tecnológico baseado em uma visão inovadora. A presença ativa no mercado, propondo ações como a criação de programas de computador que resultaram em seis registros de software no Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI, é um prato cheio para sua atuação em sala de aula. Inclusive, compartilhar essa experiência com os alunos de graduação, pós-graduação e os demais cursos que compõem a Escola Politécnica é algo que lhe faz brilhar o olho.

Todo esse envolvimento e doação à carreira tem um preço: Rigo diz que é impossível separar vida pessoal e profissional. Com o passar do tempo, aprendeu a preservar sua rotina, mantendo hábitos saudáveis, como a prática de caminhadas e corridas semanais em parques e na orla de Porto Alegre, e mantendo o hábito durante viagens, como fez em sua passagem por Zaragoza, na Espanha, durante estágio de dois meses. “Aprendi que é fundamental manter esse equilíbrio”. Outro elemento que ajuda na descompressão do cotidiano é o contato com os filhos e sobrinhos, com quem gosta de compartilhar momentos assistindo filmes e séries (ou trechos deles) e ouvindo música.

No decanato, compromisso que assumiu em 2017 após período como coordenador da pós-graduação, ele conseguiu colocar em prática um estilo de trabalho que muito lhe agrada: a colaboração. “Vejo, a partir da computação, o quanto conseguimos avançar trabalhando dessa forma. Agora, como decano, isso ficou ainda mais presente. Essa colaboração é fundamental para que haja inovação”. Quando compartilha os frutos dessa vivência com os alunos, o interesse é imediato. “Os alunos estão muito abertos para a integração da tecnologia com outras áreas”, afirma.

Questionado sobre os desafios da inovação, diz que lidar com o risco é a principal questão a ser enfrentada nesses novos tempos. Pessoalmente, traz da infância em Porto Xavier, cidade no interior gaúcho onde nasceu e morou até os 14 anos, lembranças que o tornaram apto para a missão de lidar com o incerto. Desse tempo, recorda principalmente o trabalho na loja de departamentos do pai, onde convivia diariamente com um grupo de 35 funcionários e contribuía em todas as áreas. Outro ponto-chave para quem quer inovar é pensar o conteúdo, de forma que este seja relevante e diferenciado. Segundo Rigo, as tecnologias disponíveis hoje permitem montar projetos de alto impacto social. Mas para que isso ocorra, alerta, “é importante ter persistência e saber esperar”.

Atento ao momento de franca mudança pelo qual a universidade passa, ele arrisca dizer que a coleta, o armazenamento e a utilização de dados para identificar novos modelos de soluções está atrelado ao avanço da nossa relação com a tecnologia. “Para alguns a relação com a tecnologia é algo que muda a vida. Para outros, isso é algo intrínseco. Temos que lidar com essa dicotomia”.
Recentemente, um trabalho financiado pelo governo do Estado que resultou na criação de aplicativo de jogo sobre as Missões Jesuíticas foi uma amostra dessa atuação colaborativa. No projeto participaram pedagogos, historiadores, profissionais do turismo e dos games. O app foi desenvolvido em vários ambientes de realidade virtual para mostrar a questão histórica. Assim como neste caso, Rigo ressalta que há hoje muitas iniciativas ligadas ao aprendizado informal e formatos de transmissão de informação, mais conhecidos como MOOC (massive online open courses, na sigla em inglês). São essas abordagens disruptivas que impactam a universidade algo que ocupa o pensamento do decano. Para ele, pensar estas formas de ensino hoje significa olhar para a infância e adolescência dos alunos e considerar seus modos de interação social, aprendizado, entretenimento”. Essas vivências, segundo Rigo, demandam da universidade uma reação, não apenas para incorporar a tendência, mas para fazer a crítica e avançar.■

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