Edição 515 | 13 Novembro 2017

Preconceito e ódio disparam o processo de suicídio na população LGBT

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Vitor Necchi | Tradução: Moisés Sbardelotto | Edição: João Vitor Santos

Jaime Barrientos destaca que transgêneros, gays e lésbicas são submetidos a formas de violência que afetam sua saúde mental

O estigma a que são submetidos LGBTs gera feridas que, sem ajuda, são incapazes de cicatrizar. Segundo o professor de Psicologia Jaime Barrientos, a violência a que são submetidos produz muito mais do que dores na alma. “O estigma gera efeitos negativos na saúde”, completa. O ódio e o preconceito podem ser ainda maiores se essas pessoas também forem de etnias diferentes ou classes sociais mais baixas do que as do agressor. “Quanto mais marcadores de diferença social existirem, os efeitos são aditivos. Portanto, classe, raça ou sexo são fatores acrescidos.”

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Barrientos destaca que a prevenção é o melhor caminho, e por isso passa o combate a qualquer tipo de violência contra pessoas LGBT. “É necessário agir em nível educacional, trabalhando com a violência em tal contexto”, sugere. “Deve-se avançar na eliminação da discriminação e do preconceito. Deve-se avançar gerando protocolos que permitam avaliar se existe risco de suicídio em determinados contextos para intervir.”

Jaime Barrientos é chileno, professor de Psicologia da Universidade Católica do Norte, em Antofagasta, no Chile. Pesquisa sexualidade, relações de gênero e os prejuízos e o impacto da discriminação na qualidade de vida das minorias sexuais. É autor do livro Violencia Homofóbica en América Latina y Chile (Santiago do Chile: Ediciones El Desconcierto).

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Que faixa etária da população LGBT é mais propensa ao suicídio? Por quê?
Jaime Barrientos – A população jovem, já que está mais submetida à violência homofóbica. Isto é, entre 15-29 anos de idade.

IHU On-Line – Nos casos de suicídio entre pessoas LGBT, verifica-se a presença de transtornos emocionais nas vítimas, em combinação à violência sofrida em decorrência do preconceito?
Jaime Barrientos – Nem sempre. Mas, quando há transtornos, observa-se depressão e ansiedade provocada pelo estigma e pela discriminação.

IHU On-Line – Ter gênero e sexualidade divergentes do padrão heteronormativo é fator de risco?
Jaime Barrientos – Sim, definitivamente. Segundo Ilan Meyer e a sua teoria do Minority Stress , o estigma devido à orientação sexual e/ou identidade de gênero gera efeitos negativos na saúde mental.

IHU On-Line – A vulnerabilidade aumenta quando a condição LGBT é associada a outras, como etnia e poder econômico?
Jaime Barrientos – Sim, quanto mais marcadores de diferença social existirem, os efeitos são aditivos. Portanto, a classe, raça ou sexo são fatores acrescidos.

IHU On-Line – O panorama da violência contra LGBTs é similar entre os países da América Latina?
Jaime Barrientos – Mais ou menos. O Brasil tem a situação mais complexa, dada a grande quantidade de crimes de ódio. Além disso, a situação das pessoas transgênero é relativamente similar. Para gays e lésbicas, a situação é similar.

IHU On-Line – Quais as formas de violência que mais atingem a população LGBT?
Jaime Barrientos – Todas, desde os crimes de ódio até a violência física, psicológica e verbal. Nos nossos países, é especialmente importante a violência verbal (deboches). De um ponto de vista dos níveis de violência, temos tanto violência institucional (ausência de leis e negação de direitos), quanto também violência interpessoal (agressões).

IHU On-Line – O estigma e a violência enfrentados pela população LGBT provocam que efeitos na saúde emocional?
Jaime Barrientos – Segundo Meyer, o estigma gera efeitos negativos na saúde, devido ao caráter estigmatizado da orientação sexual e da identidade de gênero.

IHU On-Line – Quando se fala em suicídio, especialistas recomendam o enfrentamento deste problema por meio da prevenção. No que diz respeito à população LGBT, como prevenir que essas pessoas não eliminem a própria vida?
Jaime Barrientos – É necessário agir em nível educacional, trabalhando com a violência em tal contexto. Deve-se avançar na eliminação da discriminação e do preconceito. Deve-se avançar gerando protocolos que permitam avaliar se existe risco de suicídio em determinados contextos para intervir.

IHU On-Line – As escolas são ambientes propícios para se combater o preconceito? Como isso pode ser feito?
Jaime Barrientos – Sim, trabalhando com todos os atores para diminuir a violência contra a diferença em tais contextos. Deve-se abordar como se constrói a noção de normalidade e mudar a ênfase ao trabalhar com aqueles que são diferentes, já que o problema é mais como se constrói a noção de normalidade em tal contexto.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Jaime Barrientos – A esse cenário, é preciso acrescentar os contextos culturais locais. No caso do Brasil, a situação política poderia acrescentar problemas, aumentando a violência contra as minorias. A isso, soma-se o avanço de grupos conservadores evangélicos que apoiam aquilo que se denominou de ideologia de gênero. Este é um elemento extra a se considerar no país. ■

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