Edição 515 | 13 Novembro 2017

Imprensa deve tratar suicídio como fenômeno de saúde pública

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Vitor Necchi

Para Carlos Etchichury, ao publicar quase nada sobre o tema, o jornalismo descumpre sua função social de revelar fenômenos e cobrar soluções das autoridades

Duas reportagens marcantes na imprensa gaúcha tratando de um tema tabu, o suicídio, foram escritas por Carlos Etchichury, subvertendo uma orientação consagrada nas redações de noticiar o tema apenas quando personalidades públicas ou celebridades suprimissem a própria vida. Essa recomendação era acatada ao limite, estabelecendo-se um profundo silenciamento em torno do assunto, que deixava de ser tratado como um problema de saúde pública.

“Mesmo com mil mortes por ano, e mais milhares de tentativas que deixam sequelas para o resto da vida (estima-se que para cada suicídio realizado há entre 10 e 20 tentativas frustradas), o Rio Grande do Sul, estado campeão em suicídios, não tem políticas públicas consistentes para conter o problema”, contabiliza Etchichury, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Ao publicarmos pouco (quase nada) sobre suicídio, estávamos deixando de cumprir uma das nossas funções sociais: revelar fenômenos e cobrar soluções das autoridades.”

Afeito ao correto tratamento jornalístico acerca do tema, Etchichury resumiu o que considera a melhor perspectiva para realizar a cobertura sobre o assunto: evitar fatos específicos, que interessam apenas aos familiares e amigos das vítimas; tratar, sempre que possível, como um fenômeno de saúde pública; de tempos em tempos, mergulhar nas estatísticas, mostrar o descompromisso do Estado com políticas públicas, relatar o drama de familiares, apresentar dicas e orientações.

Carlos Etchichury é bacharel em Jornalismo e mestre em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul - PUCRS. É editor-chefe do jornal Diário Gaúcho, de Porto Alegre.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Suicídio é um tema tabu para a imprensa. Nas redações, consagrou-se a orientação de noticiá-lo apenas quando personalidades públicas ou celebridades suprimem a própria vida. O que mudou, já que nos últimos anos o assunto tem sido abordado com mais frequência?
Carlos Etchichury – Na RBS, tem duas matérias que, de certa forma, contribuíram para mudança na forma como o tema tem sido abordado. A primeira, em 2006, contou a história de um adolescente de 16 anos que teve o suicídio estimulado (e assistido pela internet, em tempo real) em Porto Alegre . Garoto de classe média, com inteligência acima da média, ele lutava contra a depressão e era acompanhado por um psicanalista. Embora trágica, a história era incrível sob o ponto de vista jornalístico: um adolescente de Porto Alegre participava de um fórum de discussão sobre o suicídio com pessoas de diferentes partes do mundo e, no fórum, passou a planejar a sua própria morte. Um bombeiro, na Califórnia, tratou de ensinar a melhor técnica para o jovem se matar. No dia e na hora escolhidos, o menino estava online, conversando com pessoas que integravam o grupo, explicando que tinha dificuldades em colocar o plano em prática. Ninguém tentou demovê-lo. Pelo contrário, o incentivaram. Uma amiga canadense, que também frequentava o grupo, percebeu o que estava acontecendo e ligou para a Polícia Federal - PF, em Brasília. A jovem moradora de Toronto contou que o amigo dela estava se matando na zona norte de Porto Alegre, naquele exato momento. Um agente, então, ligou para a PF, na Capital. Aqui, outro agente comunicou o fato à Brigada Militar. Quando policiais militares chegaram à residência do menino, ele estava morto. Como não contar esta história?

Ao longo de duas semanas, conversei com policiais, com os pais do menino e com a amiga dele, em Toronto, entrevistei especialistas, consultei os manuais da Organização Mundial da Saúde - OMS e da Associação Brasileira de Psiquiatria - ABP. Depois de exaustiva apuração, seguida de muita discussão interna, incluindo, inclusive, o Comitê Editorial da RBS, decidimos publicar a matéria em duas páginas: uma contando o fato e outra tratando do fenômeno, com estatísticas, análise e alertas aos pais. A repercussão foi muito positiva. Não recebemos (se houve, não fiquei sabendo) nenhuma crítica.

Durante a apuração, descobri que cerca de mil pessoas se matam, todos os anos, no Rio Grande do Sul – fora casos de pessoas que se matam em acidentes ou afogamentos, por exemplo, e cujos casos não são identificados como suicídios. Mesmo assim, o assunto quase nunca era abordado pela mídia. Então, propus ao jornal, ainda em 2006, uma grande reportagem sobre o tema: Tragédia Silenciosa, que consegui realizar, em formato de série, apenas em 2008. Estas duas matérias foram, de certa forma, dois marcos na forma como o assunto passou a ser tratado em Zero Hora.

IHU On-Line – Em 2008, o senhor escreveu uma série de reportagens intitulada Tragédia silenciosa, que abordava o silêncio em torno do suicídio que, naquela ocasião, era a causa da morte de mais de mil pessoas por ano no Rio Grande do Sul. Qual foi a motivação? E qual a abordagem adotada? Quais as maiores dificuldades para a execução das reportagens? E como foi a repercussão?
Carlos Etchichury – Trata-se de um assunto de alto interesse público. E o mais grave é que, mesmo com mil mortes por ano, e mais milhares de tentativas que deixam sequelas para o resto da vida (estima-se que para cada suicídio realizado há entre 10 e 20 tentativas frustradas), o Rio Grande do Sul, estado campeão em suicídios, não tem políticas públicas consistentes para conter o problema. Na minha avaliação, ao publicarmos pouco (quase nada) sobre suicídio, estávamos deixando de cumprir uma das nossas funções sociais: revelar fenômenos e cobrar soluções das autoridades.

As dificuldades foram grandes. Mesmo que a matéria de 2006 tenha sido bem-sucedida, havia temor que a reportagem desencadeasse uma onda de suicídios. Seguimos todas as orientações contidas nos manuais da OMS e da ABP e, após concluído o trabalho, submeti as páginas a psiquiatras que colaboraram com a matéria. Abordamos o problema do suicídio como um fenômeno e focamos a apuração em análises e na busca de soluções.

A repercussão, da mesma forma que a matéria anterior, foi sensacional. Recebi dezenas de e-mails cujo tom era: enfim, alguém tratou o problema. A série de reportagens passou a fazer parte do manual da ABP como uma referência na forma de abordar o tema na imprensa. E, felizmente, não desencadeou outros suicídios. Pelo contrário. Em 2009 e 2010, pela primeira vez em uma década, houve uma pequena redução nas taxas de suicídio em dois anos seguidos. Não podemos, é claro, associar as reduções às matérias. Mas podemos, sem sombra de dúvida, dizer que as reportagens não incrementaram as taxas de suicídio no Estado.

IHU On-Line – Nestes quase dez anos que se passaram, como a imprensa vem lidando com o tema?
Carlos Etchichury – Melhorou a forma como estamos abordando o tema na RBS. Depois das duas matérias, fiz outras reportagens pontuais tendo como gancho a divulgação de dados estatísticos pelos órgãos oficiais. Recentemente, as repórteres Letícia Duarte e Larissa Roso fizeram outras duas grandes reportagens sobre o tema para Zero Hora. O assunto, embora delicado, deixou de ser tabu na redação.

IHU On-Line – Que perspectiva o jornalismo deve ter ao tratar de suicídio? O que noticiar?
Carlos Etchichury – Eu continuaria evitando fatos específicos, que interessam apenas aos familiares e amigos das vítimas. O suicídio deve ser tratado, sempre que possível, como um fenômeno de saúde pública. De tempos em tempos, vale mergulhar nas estatísticas, mostrar o descompromisso do Estado com políticas públicas, relatar o drama de familiares (definidos como "sobreviventes"), apresentar dicas e orientações.

IHU On-Line – A Organização Mundial da Saúde e a Associação Brasileira de Psiquiatria elaboraram manuais para orientar jornalistas no trato de temas ligados a suicídio. Qual sua análise desses materiais?
Carlos Etchichury – São materiais muito bons e úteis. Eles orientam em termos de forma e de conteúdo. Para redações de pequenos veículos, com menos recursos e menos massa crítica, estes documentos podem ser verdadeiros achados.

IHU On-Line – A publicação da Associação Brasileira de Psiquiatria recomenda que o suicídio não dever ser enaltecido nem tomado como ato de coragem. Deve-se evitar a "romantização" ou a "heroicização". A recente cobertura do suicídio do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina não incorreu em alguns desses equívocos?
Carlos Etchichury – A cobertura da morte do reitor foi feita em um contexto histórico específico, de acirramento de ânimos, de questionamento a um certo exagero punitivista hegemônico na sociedade brasileira. Neste sentido, é difícil analisar a cobertura do suicídio especificamente. Parece que houve exageros sim, mas acho que é um ponto fora da curva.

IHU On-Line – O sistema público de saúde está preparado para enfrentar casos relacionados a suicídio, tanto na prevenção quanto na acolhida das vítimas?
Carlos Etchichury – Não está preparado. Desconheço políticas públicas consistentes para um problema de alta gravidade, que vitima mil pessoas por ano, deixa sequelas irreversíveis em outras milhares e enluta famílias. ■

Últimas edições

  • Edição 515

    Renúncia suprema. O suicídio em debate

    Ver edição
  • Edição 514

    Lutero e a Reforma – 500 anos depois. Um debate

    Ver edição
  • Edição 513

    Bioética e o contexto hermenêutico da Biopolítica

    Ver edição