Edição 515 | 13 Novembro 2017

Viver não é tarefa fácil

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Vitor Necchi

Para Fernando Sapaterro, o cerne da obra de Camus não é o suicídio, mas as dimensões da existência do homem em sua relação consigo e com o mundo

O franco-argelino Albert Camus é categórico já na primeira frase de seu ensaio O mito de Sísifo, publicado em 1941: “Só existe um problema filosófico realmente sério: é o suicídio. Julgar se a vida vale ou não a pena ser vivida é responder à questão fundamental da filosofia”. Fernando Sapaterro lembra que o autor, “ao dizer que o suicídio é o verdadeiro problema filosófico, afirma conjuntamente que saber se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é o que interessa”, e “o restante passa a ser sempre um problema secundário”. No fundo, Camus não responde diretamente à questão de por que alguém recusaria a própria vida. “Não há uma resposta suficiente para o suicídio”, comenta Sapaterro, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line.

Conforme Sapaterro, Camus “diz que a existência é propriamente uma separação, um divórcio, entre o homem e seus pares, entre o homem e o mundo, entre o homem e seus anseios, entre o homem e a natureza, entre o homem e sua natureza”. Ele chega a “afirmar duramente contra o suicídio, tratando-o como um insulto à existência”, afinal, “suicidar-se significa querer suplantar a única coisa que temos e que é a possibilidade de felicidade: nós mesmos e nossa relação com o mundo”.

O suicídio “é como uma confissão, um assentimento a uma existência sem nenhum valor”. Sapaterro reconhece: viver não é tarefa fácil. E Camus diz que “pensar é começar a ser minado”. Para Camus, o suicídio é “fuga”, “insulto à existência”, “negação de si mesmo”. No entendimento de Sapaterro, “apenas parece ser o caminho mais acessível para romper com o absurdo em que a existência está mergulhada”. No entanto, o único modo de afrontar o absurdo não é o suicídio, mas, nas palavras do autor, a “manutenção da confrontação desesperada entre a interrogação humana e o silêncio do mundo”. Sapaterro sintetiza: “Questionar, colocar em suspeição, indagar-se sobre o sentido da vida, sobre a existência, sobre o que é o homem e o que faz sobre a terra, sobre o mundo e sua incompreensão, entre outras coisas, ao invés de dar suporte ao ideário suicida, distancia o homem dele”.

Fernando Sapaterro é licenciado em Filosofia pela Faculdades Associadas do Ipiranga - FAI, bacharel em Teologia, mestre e doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo - PUC-SP. Leciona no Centro Universitário Assunção e no Mosteiro de São Bento de São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Albert Camus, em O mito de Sísifo, escreveu que o suicídio é a única questão filosófica realmente séria. Qual o alcance desta afirmação?
Fernando Sapaterro – O próprio Camus, ao dizer que o suicídio é o verdadeiro problema filosófico, afirma conjuntamente que saber se a vida vale ou não vale a pena ser vivida é o que interessa. O restante passa a ser sempre um problema secundário. Há, com isso, a afirmação de que todo e qualquer problema só pode ser formulado se se considerar o homem e sua existência, e, em suma, o verdadeiro problema filosófico é um problema existencial.

Ao se suprimir a existência, finda o que seria realmente sério para ser tratado. Por que podemos dizer que isso é um problema? Em geral, dizemos que problema opõe duas teses ou proposições distintas normalmente opostas, segundo as considerações de Aristóteles. No caso de Camus, as teses opostas envolvem o fundamento de toda possibilidade de qualquer coisa vir a ser. Se o existir não possui valor algum, sendo ele mesmo contingente, é porque nada pode vir a ser o que é – ruiria nosso universo de conceitos, símbolos, analogias, significados, interpretações etc.

De um lado, está a possibilidade de que a vida vale a pena, e de outro, o seu contrário. Todavia, se suprimimos a primeira possibilidade, consequentemente o problema também seria suprimido, dado que a formulação dos problemas passa pela assertiva do homem com sua razão, seus sentimentos, suas percepções e seus projetos. Isso é sinal de que o verdadeiro problema está no homem em relação a tudo o que lhe cerca, o qual Camus traduz em O mito de Sísifo em termos da sede de unidade, de razoabilidade e de absoluto que possui o homem em confronto com a irredutibilidade desse mundo a um princípio racional e razoável.

IHU On-Line – O que é o absurdo da condição humana e como isso se relaciona com a renúncia da vida?
Fernando Sapaterro – O filósofo-literato franco-argelino diz que a existência é propriamente uma separação, um divórcio, entre o homem e seus pares, entre o homem e o mundo, entre o homem e seus anseios, entre o homem e a natureza, entre o homem e sua natureza. Isso é uma evidência apresentada, antes de mais nada, por meio de um sentimento designado sentimento absurdo. Chama-se absurdo pois assemelha-se ao significado da noção latina do termo, “algo que tem características tão estridentes que ferem a audição”, e, por extensão, o que é ensurdecedor, o que é dissonante e desarmônico. A desarmonia está posta entre o homem, o mundo e a relação entre eles. Essas três instâncias – homem, mundo e relação – aparecem dissonantes. O homem possui o desejo de unidade e de absoluto, o mundo é um verdadeiro desarrazoado de contradições e antinomias, e, entre um e outro, há confronto, divórcio, luta sem descanso. Em suma, o homem grita pelo mundo que permanece em silêncio, sem nada lhe responder. Esse divórcio chamado absurdo é a síntese do viver humano, conflituoso em si, manifesto pela consciência da cisão existente na relação consigo mesmo e com o mundo. Sendo assim, viver, significa aceitar essa condição existencial, de modo que a enfrentar dia e noite, sem cessar, o “confronto permanente do homem com sua própria obscuridade”.

Como já dito anteriormente, suprimir o absurdo é suprimir a própria existência, findando por fazer cessar o problema. Ora, se há três instâncias consideráveis, uma delas, apenas, apresenta-se como possível para eliminar o absurdo, o suicídio, já que não se pode acabar com o mundo. No entanto, tendo como princípio que a existência é problemática, é preciso admitir o absurdo extraindo-se dele três consequências: a revolta, a liberdade e a paixão.

IHU On-Line – Para Camus, por que alguém recusaria a própria vida?
Fernando Sapaterro – No fundo, Camus não responde essa questão diretamente, não há uma resposta suficiente para o suicídio. Esse tema foi apontado pelos estoicos na antiguidade, que o admitiam como uma forma de viver autárquico, todavia, não é assim que Camus o enxerga. Ele afirma em O mito de Sísifo: “a experiência absurda se afasta do suicídio. Pode-se acreditar que o suicídio se segue à revolta. Mas é engano. Porque ele não representa o resultado lógico. É precisamente o seu contrário, pelo consentimento que envolve”. Isso ocorre por uma simples constatação: só há absurdo porque há propriamente a cisão, e, por isso, consciência e recusa da morte. Ele chega a afirmar duramente contra o suicídio, tratando-o como um insulto à existência. Isso porque suicidar-se significa querer suplantar a única coisa que temos e que é a possibilidade de felicidade: nós mesmos e nossa relação com o mundo.

IHU On-Line – Questionar o sentido da vida é o que sustenta a ideação suicida?
Fernando Sapaterro – Como é possível perceber no que foi dito, e também nos seus ensaios, literatura, teatro, textos políticos e jornalísticos, o caminho tomado aponta para outro rumo que não o do suicídio. Este é como uma confissão, um assentimento a uma existência sem nenhum valor. Viver não é tarefa fácil, e nosso autor diz que “pensar é começar a ser minado”. Embora, sendo minado, o suicídio é para Camus “fuga”, “insulto à existência”, “negação de si mesmo”. Ele apenas parece ser o caminho mais acessível para romper com o absurdo em que a existência está mergulhada. O único modo de afrontar o absurdo não é o suicídio, mas a “manutenção da confrontação desesperada entre a interrogação humana e o silêncio do mundo”. Questionar, colocar em suspeição, indagar-se sobre o sentido da vida, sobre a existência, sobre o que é o homem e o que faz sobre a terra, sobre o mundo e sua incompreensão, entre outras coisas, ao invés de dar suporte ao ideário suicida, distancia o homem dele.

IHU On-Line – Para Camus, a razão é impotente quando a alma busca explicação totalitária, e nem mesmo a razão consegue amainar as incertezas. É possível alcançar a felicidade, frente ao absurdo?
Fernando Sapaterro – A razão sempre será impotente. A explicação está no fato de a existência transcender o âmbito da pura razão, pois, se fosse redutível a ela, certamente traduziríamos a existência em caracteres lógicos, tal como funciona a ciência. Por isso, a ordem estética é tão necessária. Nela, é como se pudéssemos retratar a vida e seu existir. Enquanto a razão absurda preza pela descrição, a arte toma parte na profundidade da existência e lança o homem na sensação. Todavia, não é ela um refúgio para o absurdo, como diz Camus. É, sim, um fenômeno absurdo, “é a renúncia do pensamento a seus encantos e sua resignação a não ser mais do que a inteligência”. Camus pensa, porém, que mesmo a Filosofia tem sua parte “criadora”, ao recorrer às analogias, às interpretações, aos enunciados, aos personagens, aos símbolos. Filosofar, nesse sentido, é escrever por imagens mais do que por raciocínios.

É justamente nesse campo imagético que ele afirma: “É preciso imaginar Sísifo feliz”. Quem é Sísifo? É o personagem mítico condenado pelos deuses a carregar uma pedra montanha acima, com seu peso insuportável, durante o dia, para ver no ocaso ela rolar montanha abaixo. Diríamos que esse é o retrato do trabalho inútil. Não para Camus. O absurdo aparece ao se tentar escrever um manual de felicidade, diz ele. O rolar da pedra montanha acima revela o trabalho fatigante, mas simultaneamente revela a existência, o prazer de saber que ao se chegar ao cume há descanso, há beleza a ser contemplada e aragem. Sendo Camus um leitor de Epicuro, dir-se-ia: “Não há sofrimento eterno”. Assim, é um erro pensar que a felicidade é algo a se alcançar. A Filosofia não a pensa desse modo, e nem Camus. A definição mais antiga de felicidade é ser uma atividade da alma conforme a virtude. Para Camus, é abarcar que “a felicidade e o absurdo são dois filhos da mesma terra”.

IHU On-Line – Ele era um pessimista?
Fernando Sapaterro – A pergunta é um tanto ousada, mas pertinente. Poder-se-ia pensar que diante desse caos imposto pela relação entre a existência humana com seu desejo de razoabilidade e de unidade e o silêncio do mundo, a afirmação da manutenção do absurdo soaria como pessimista. No entanto, penso que ele é um dos poucos autores ateus lúcidos no século 20. Seu primeiro ensaio, Núpcias, revela seu encantamento pelo mundo e a força da existência frente a ele. Pode-se dizer que ali, Camus apresenta a beleza do mundo e a aproximação do homem pela contemplação. Há em Camus um imanentismo rigoroso que o faz afirmar “o mundo é belo e fora dele não há salvação”. Isso não soa como pessimismo. Ele mesmo confessa em seus Cadernos: “Se o cristianismo é pessimista quanto ao homem, é otimista quanto à condição humana. O marxismo, pessimista quanto ao destino, pessimista quanto à natureza humana, é otimista quanto à marcha da história (a sua contradição). Por mim, pessimista quanto à natureza humana, sou, no entanto, otimista quanto ao homem”.

IHU On-Line – Que aspectos de O mito de Sísifo se mantêm atuais?
Fernando Sapaterro – A obra como um todo é atual. Sendo ela um ensaio, transita entre o pensamento e a arte, entre as asserções e a liberdade de escrita, entre a Filosofia e a Arte. Esse é um tema atual, pois descobre-se que a ineficácia da razão para lidar com toda a existência deve sempre recorrer a uma outra instância, na qual a descrição é suplantada pelos sinais que cercam o viver do homem. Junto a isso, o mundo oferece ao homem moderno tantas possibilidades de realização, e, concretamente, realização nenhuma dessas expectativas, que o absurdo da existência vem novamente à tona (ou, poderíamos afirmar, que ele nunca desapareceu). Por isso, o problema filosófico realmente importante permanece – dizer se a vida vale ou não vale a pena ser vivida. Tal problema não pode ser deixado de lado. As consequências necessárias extraídas da resposta a esse problema norteiam a existência humana sobre a terra. Assim, pode-se perceber que o cerne da obra não é o suicídio, mas as dimensões da existência do homem em sua relação consigo e com o mundo. Existir não é meramente um acaso do “estar-no-mundo”, mas tomar consciência do divórcio presente na relação e mantê-lo, pois nele se encontra a única possibilidade de felicidade. Esse mundo em que a segurança é almejada pela prosperidade só comprova que há um absurdo presente e que o homem foi por ele escravizado, e ao mesmo tempo frustrado, nessa sua empreitada. ■

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