Edição 515 | 13 Novembro 2017

É preciso quebrar o tabu

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Vitor Necchi

Para Robert Paris, pensar em se matar é mais comum do que se pensa, e disso decorre a importância de falar sobre suicídio

As mortes provocadas por aids e câncer começaram a ser combatidas com maior eficácia por meio de campanhas informativas, que estimulam as pessoas a conhecer o assunto, reconhecer sintomas ou sinais e saber onde procurar ajuda. “Não é diferente com o suicídio – as pessoas precisam entender que pensar em se matar é mais comum do que se pensa, que quem está nessa situação precisa de apoio e que é possível pedir e receber ajuda”, salienta Robert Paris, presidente do Centro de Valorização da Vida – CVV, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Segundo a OMS [Organização Mundial da Saúde], com informação e ajuda é possível prevenir 90% dos casos.”

O “primeiro passo é quebrar o tabu sobre o assunto”, salienta Paris, porque “não se faz prevenção em silêncio”. Desta forma, ele defende que o tema seja debatido de maneira séria e aberta em ambientes tão distintos como escolas, empresas, templos religiosos, rodas de amigos e na mesa de jantar em família, ou seja, “onde existem pessoas que educam ou se importam com outras pessoas”.

Paris está à frente de um universo de 2 mil voluntários espalhados pelo Brasil, que anualmente realizam mais de 1 milhão de atendimentos de brasileiros residentes no país e no exterior. “Somos a maior iniciativa não governamental de prevenção do suicídio que atua em todo o território nacional”, explica.

A metodologia do CVV é “conversar de maneira que a pessoa se sinta ouvida, respeitada integralmente e, dessa forma, desabafe, reorganize suas emoções e pensamentos, o que geralmente produz alívio”. Com isso, esperam que a pessoa se sinta fortalecida e busque atendimento médico ou de outros profissionais da área da saúde para tratamento psicológico ou psiquiátrico.

Robert Gellert Paris Junior é empresário, formado em engenharia e trabalhou na área comercial por mais de 20 anos. É presidente do Centro de Valorização da Vida – CVV, vice-presidente da Associação Brasileira de Estudos e Prevenção do Suicídio – ABEPS e membro do board do Befrienders Worldwide (www.befrienders.org), organização internacional que congrega entidades de 40 países que oferecem serviços voluntários de prevenção do suicídio.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O Centro de Valorização da Vida – CVV realiza mais de 1 milhão de atendimentos anuais no Brasil. São expressivos os casos de pessoas que manifestam a intenção de se matar?
Robert Paris – As pessoas que procuram o CVV geralmente o fazem por estarem em momentos difíceis, de naturezas variadas. Muitos expressam claramente desespero e/ou desesperança e comentam que pensam ou estão planejando se matar; muitos deixam a ideação suicida nas entrelinhas, pois às vezes a pessoa tem dificuldades de expressar essa intenção até mesmo anonimamente para um voluntário do CVV.

IHU On-Line – O CVV é apontado por especialistas como a principal referência à prevenção de suicídio no Brasil. Como ele opera? Que metodologia é empregada?
Robert Paris – Somos a maior iniciativa não governamental de prevenção do suicídio que atua em todo o território nacional. Somos uma ONG independente, sem orientação religiosa e político-partidária, que se dedica a apoiar as pessoas que nos procuram, mantendo atendimento 24 horas, todos os dias. Nosso trabalho é como uma espécie de pronto-socorro emocional, com voluntários devidamente selecionados e preparados para acolher, sem julgamentos, qualquer pessoa que peça nossa ajuda. A proposta do CVV é conversar de maneira que a pessoa se sinta ouvida, respeitada integralmente e, dessa forma, desabafe, reorganize suas emoções e pensamentos, o que geralmente produz alívio. Buscamos que essa pessoa possa se sentir fortalecida, inclusive para buscar atendimento médico ou de outros profissionais da saúde para tratamento psicológico ou psiquiátrico. Pessoas em tratamento com profissionais da área de saúde mental também nos procuram pela disponibilidade constante e apoio que oferecemos.

IHU On-Line – A repercussão da série 13 reasons why, da Netflix, e a polêmica do jogo Baleia Azul, que estimulava crianças e adolescentes a cometerem suicídio, tiveram impacto nos atendimentos do CVV?
Robert Paris – Tivemos um aumento na procura pelo serviço do CVV e pelo curso de voluntariado em consequência do seriado 13 reasons why, especialmente no primeiro mês após seu lançamento. Acreditamos que, apesar das ressalvas que devem ser feitas à produção do seriado (tendo como base as recomendações da Organização Mundial de Saúde sobre a forma de abordagem do tema), as pessoas passaram a dar mais importância aos sinais de pensamentos suicidas, falar mais abertamente sobre suicídio e passaram a buscar mais ajuda. Em relação ao Baleia Azul (que não podemos considerar de maneira nenhuma um jogo, mas sim uma atitude criminosa), não percebemos expressiva repercussão dentro do CVV.

IHU On-Line – O suicídio é um problema de saúde pública. Os governos, em suas diversas instâncias, estão preparados para o enfrentamento desta questão?
Robert Paris – De uma maneira geral, os governos estão se preparando. Há poucos anos o tema “prevenção do suicídio” era raramente endereçado pela maioria das secretarias de Saúde e mesmo no ministério. Hoje temos um movimento iniciado no Ministério da Saúde com a organização e análise dos dados sobre suicídio, o que permite a melhor elaboração de estratégias de ação de prevenção. Em decorrência disso, houve a criação pelo Ministério da Saúde da linha telefônica de emergência para prevenção do suicídio, outorgada ao CVV, de número 188, para ligações sem tarifação, em implantação gradual em todo o país.

IHU On-Line – Conforme a Associação Brasileira de Psiquiatria, 17% dos brasileiros já pensaram em suicídio. O que fazer para prevenir que pessoas eliminem a própria vida?
Robert Paris – O primeiro passo é quebrar o tabu sobre o assunto. Não se faz prevenção em silêncio. Só foi possível mudar os números de mortes por aids e câncer com campanhas informativas, estimulando as pessoas a conhecer o assunto, reconhecer sintomas ou sinais e saber onde procurar ajuda. Não é diferente com o suicídio – as pessoas precisam entender que pensar em se matar é mais comum do que se pensa, que quem está nessa situação precisa de apoio e que é possível pedir e receber ajuda. Segundo a OMS [Organização Mundial da Saúde], com informação e ajuda é possível prevenir 90% dos casos.

IHU On-Line – Há muito tabu e preconceito em relação ao suicídio. Isso atrapalha que o tema seja abordado de maneira mais clara e objetiva? Onde se deve discutir o assunto?
Robert Paris – O CVV entende que esse assunto pode e deveria ser debatido de forma séria e aberta em escolas, RH das empresas, templos religiosos, rodas de amigos e na mesa de jantar em família – ou seja, onde existem pessoas que educam ou se importam com outras pessoas. É o mesmo caminho trilhado pela prevenção de DSTs [doenças sexualmente transmissíveis], por exemplo, que hoje já é abordado por muitos lares na educação de filhos. Há não muitos anos existia o tabu de que falar sobre suicídio poderia incentivá-lo; hoje esse tabu está sendo quebrado e, principalmente neste ano, em especial na campanha do Setembro Amarelo, foram muitas as iniciativas de esclarecimento. Esperamos que passe a ser discutido amplamente, em breve.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Robert Paris – O CVV é uma ONG com 55 anos de trabalho voluntário, oferecido gratuitamente. Fomos nos adaptando à evolução dos meios de comunicação, agregando ao telefone outras formas de atendimento, como chat, e-mail e Skype. Nossos voluntários já estão atendendo remotamente, sem necessariamente se deslocarem para um dos 80 postos de atendimento. Porém, o que não muda é a necessidade de termos sempre novos voluntários. São pessoas sem uma formação técnica específica, com pelo menos 18 anos de idade e disponibilidade de quatro horas por semana para o trabalho. A inscrição é feita pela internet (cvv.org.br). Elas participam de um programa de formação e, uma vez que se identificarem com a causa e os valores do CVV e aprenderem a forma de atuação, começam seus plantões de atendimento. Hoje somos cerca de 2 mil voluntários em todo o Brasil recebendo contatos de brasileiros, inclusive residentes em outros países. ■

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