Edição 515 | 13 Novembro 2017

Suicídio é sempre um abalo narcísico para os que ficam

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Vitor Necchi

Para Paulo Gleich, a onipotência nas relações afetivas faz com que as pessoas considerem possível salvar o outro com o amor, mas esse amor só tem valor quando o outro deseja recebê-lo

Ao se falar em suicídio, não há como estabelecer grandes generalizações. “O denominador comum do suicídio é apenas o fato de uma pessoa tirar a própria vida; o que antecede essa decisão, se longos anos de reflexão ou alguns segundos de desespero, é muito singular”, explica o psicanalista Paulo Gleich. Em relação aos sobreviventes, observa a importância de tentar ajudá-los a falar sobre o ocorrido. “Isso pode ser muito difícil para as pessoas próximas, que podem estar muito atemorizadas, angustiadas, raivosas.” Além disso, “é preciso respeitar o tempo do sujeito para conseguir falar da experiência”.

Para os familiares e amigos de quem se suicida, fica a pergunta acerca dos motivos, “jamais satisfatoriamente respondida, por mais cartas e bilhetes que se deixem”. O “por quê?”, além do questionamento mais direto, expressa também uma carga de culpa. “Um suicídio é sempre um abalo narcísico para os que ficam, pois sentem que faltaram, que deveriam ter feito mais, ter agido diferente”, traduz Gleich, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Isso faz parte de nossa onipotência nas relações afetivas: sempre achamos que está a nosso alcance ‘salvar’ ou ‘segurar’ o outro com nosso amor, quando, na verdade, esse amor só tem valor quando o outro deseja recebê-lo.”

O suicídio é a quarta causa de morte de brasileiros entre 15 e 29 anos. Ao descrever a “pane geral no sistema” que ocorre na adolescência, Gleich salienta que a fragilidade que disso decorre torna o adolescente “mais suscetível a não vislumbrar saídas para seus impasses, como a dificuldade de encontrar um lugar no mundo – ou formas de matar simbolicamente a criança que fora para seus pais, que cada vez mais têm dificuldade em suportar essa perda”.

Assim, discutir o tema na escola “pode ajudar alguém que sofre de pensamentos suicidas a procurar ajuda”. Ao mesmo tempo em que reconhece que o tabu acerca do assunto gera isolamento, Gleich tem dúvida sobre a prevenção ao suicídio: “essa me parece uma ideia um tanto onipotente, por um lado, e com um cunho higienista, como ainda são muitas políticas de saúde”. Para ele, atribuir o suicídio a uma questão de saúde mental “é reduzir e individualizar um problema que reflete, também, sintomas de como se organiza nossa sociedade”.

Paulo Gleich é bacharel em Jornalismo e Psicologia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, psicanalista, membro da Associação Psicanalítica de Porto Alegre - APPOA e do Instituto APPOA.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que antecede a decisão do suicídio?
Paulo Gleich – Ocorreu-me uma resposta aparentemente óbvia e tola, mas que talvez diga da complexidade desse tema: o que antecede o suicídio é a vida. Ou seja, há tanto que antecede essa decisão, e é tão singular esse antecedente, que não é possível formular uma resposta que contemple alguma universalidade. Isso talvez porque o suicídio seja um fenômeno sob o qual se agrupam acontecimentos muito diferentes do ponto de vista do sentido: pode ser uma medida desesperada diante de uma situação à qual não se vê saída, pode ser um ato de honra se inscrito em determinada cultura, pode ser uma tentativa de escapar de uma morte ainda mais angustiante, a morte psíquica – o que acontece em muitos casos de suicídios de psicóticos. O denominador comum do suicídio é apenas o fato de uma pessoa tirar a própria vida; o que antecede essa decisão, se longos anos de reflexão ou alguns segundos de desespero, é muito singular.

IHU On-Line – Se a pessoa sobrevive à tentativa de suicídio, o que deve ser feito?
Paulo Gleich – Novamente, difícil responder a essa questão sem contemplar a singularidade. Uma tentativa de suicídio não é igual a outra, mas, como denominador comum, pode-se pensar que há ali algo sendo atuado, em vez de ser dito. Assim, talvez o que se possa fazer com esse sobrevivente seja tentar ajudá-lo a falar sobre o ocorrido. Isso pode ser muito difícil para as pessoas próximas, que podem estar muito atemorizadas, angustiadas, raivosas – enfim, tomadas por diferentes afetos. Também é preciso respeitar o tempo do sujeito para conseguir falar da experiência, o que, novamente, às vezes é muito difícil para as pessoas mais próximas. Procurar um profissional psi pode, nesse momento, ajudar muito – nem que seja para que os familiares ou outras pessoas próximas possam encontrar auxílio para lidar com a situação. Isso também vale para situações de suspeita: buscar conversar e escutar, ou então a ajuda de um profissional que possa avaliar a situação.

IHU On-Line – Há casos em que o suicídio deveria ser considerado um direito da pessoa?
Paulo Gleich – Aqui se coloca uma questão muito complexa, pois essa pergunta pode ser respondida desde vários âmbitos, com respostas diferentes. Um religioso dificilmente diria que sim – suicídio é, em muitas religiões, pecado; um legislador dificilmente diria que não – afinal de contas, cada um pode (ainda) dispor de seu corpo como lhe convier. A mim, como psicanalista, não cabe legislar sobre as escolhas de ninguém; mas, se alguém me procura com pensamentos ou planos de suicídio, preciso ajudá-lo a entender por que pensa que deve deixar de viver e, talvez, a criar outros sentidos para a vida, outras maneiras de lidar com seus impasses e angústias.

IHU On-Line – Que contornos específicos tem a dor da perda para familiares e amigos de alguém que se suicida? Como elaborar este luto?
Paulo Gleich – Talvez o que sempre fique, de alguma maneira, é a pergunta “por quê?”, jamais satisfatoriamente respondida, por mais cartas e bilhetes que se deixem. Essa pergunta tem, para os amigos e familiares sobreviventes, não apenas seu sentido mais explícito – o que o levou a tirar a própria vida? –, mas também uma carga de culpa. Por que você fez isso comigo? Meu amor, minha presença não foram suficientes? Um suicídio é sempre um abalo narcísico para os que ficam, pois sentem que faltaram, que deveriam ter feito mais, ter agido diferente. Isso faz parte de nossa onipotência nas relações afetivas: sempre achamos que está a nosso alcance “salvar” ou “segurar” o outro com nosso amor, quando, na verdade, esse amor só tem valor quando o outro deseja recebê-lo.

Não há fórmula para o luto, cada um tramita suas perdas de maneira singular. Mas, no caso do suicídio, passa também por tramitar essa fantasia onipotente de que poderíamos ter salvo alguém se… se… se… Como todo luto neurótico, no final das contas, o que nos custa aceitar é o quanto somos falhos, insuficientes, impotentes.

IHU On-Line – Suicídio é a quarta causa de morte de brasileiros entre 15 e 29 anos. Que vulnerabilidades a adolescência apresenta em relação ao suicídio?
Paulo Gleich – A adolescência é, de forma simplificada, uma pane geral no sistema: muda o corpo e o olhar dos outros sobre o corpo, muda a relação com os pais, com os amigos, com o mundo. Adolescentes experimentam um enorme desamparo: seu mundo caiu, e o mundo que começam a construir no lugar ainda é muito frágil, sujeito à aprovação dos pares e à sustentação de uma precária autoimagem. A indiferença adolescente é um disfarce para a profunda insegurança que sentem, na verdade o que acontece ao redor os afeta demasiado; por isso, criam essa casca de “não tô nem aí”, ou mesmo atitudes e visuais agressivos. Sendo assim, as crises na adolescência também são muito mais intensas: o fim de um amor pode equivaler ao fim do mundo, mesmo que por apenas alguns dias. Enfim: a fragilidade do adolescente também o torna mais suscetível a não vislumbrar saídas para seus impasses, como a dificuldade de encontrar um lugar no mundo – ou formas de matar simbolicamente a criança que fora para seus pais, que cada vez mais têm dificuldade em suportar essa perda.

IHU On-Line – Algumas escolas têm discutido temas como bullying. Elas também não seriam espaços adequados e oportunos para se discutir a prevenção do suicídio?
Paulo Gleich – Certamente: que se possa falar do tema, também na escola, pode ajudar alguém que sofre de pensamentos suicidas a procurar ajuda, falar sobre isso. O tabu gera um isolamento, uma sensação de que se vive aquilo sozinho, de que se é louco. Porém, tenho minhas dúvidas sobre a prevenção ao suicídio: essa me parece uma ideia um tanto onipotente, por um lado, e com um cunho higienista, como ainda são muitas políticas de saúde. De fato, atribuir o suicídio a uma mera questão de “saúde mental” é reduzir e individualizar um problema que reflete, também, sintomas de como se organiza nossa sociedade. Falamos muito sobre o bullying como um fenômeno entre crianças e adolescentes, mas falamos menos sobre como isso espelha uma lógica que em alguma medida nos organiza a todos: nos é mais fácil estabelecer um coletivo pela identificação de um excluído, um inimigo ao qual devemos combater, do que nos reunirmos em torno de algum ideal comum compartilhado. As variações nas taxas de suicídio ao redor do mundo indicam que ele é, também, produto da cultura de um tempo – mesmo que seja um indivíduo que o leve a cabo.

IHU On-Line – Pais e responsáveis por crianças e adolescentes devem estar atentos a quais sinais? E o risco de sufocá-los por tanto cuidado?
Paulo Gleich – É um risco elencar sinais porque sinais, justamente, enganam: podem ter vários sentidos. Alguém que comece a se vestir de preto, falar de morte e tristeza poderia ser um potencial suicida, mas também um adolescente que encontra sentido para a vida ao se juntar com outros para cultuar aquilo que os adultos repelem – e que repele os adultos: a morte. Não há um “perfil” de suicida, mas é importante que, mais perto ou mais longe, de acordo com os movimentos dos filhos, os pais possam acompanhá-los, manter-se à disposição para acolhê-los. Agora, essa questão do sufocamento é importante, pois os pais com frequência confundem cuidado com controle, e isso não apenas torna mais difíceis para os adolescentes os necessários ensaios fora do olhar dos pais, como também lhes transmite falta de confiança – neles e em sua capacidade de dar conta de si.

Penso que, mais que sinais a serem detectados, é importante que pais procurem ajuda se tiverem medos ou fantasias de que seus filhos estejam deprimidos ou pensando em suicídio. Um psi sensível deveria saber avaliar quem está precisando mais de ajuda, se o filho ou os pais. Não raro são estes últimos.

IHU On-Line – Há preconceito em relação a quem tenta pôr fim à própria vida?
Paulo Gleich – Sem dúvida. Há preconceito contra quem come e quem não come carne, quem dirá quem tenta tirar a própria vida! Como qualquer preconceito, porém, esse revela muito mais de quem julga que do julgado. Como é muito perturbadora a mera ideia de fantasiar e até mesmo desejar a própria morte, cria-se, para afastá-la de si mesmo, uma imagem na qual não nos reconheçamos. Assim, transfere-se um pensamento proibido, inconsciente, para fora de si mesmo. O preconceito é uma ferramenta básica do pensamento, é como sustentamos nosso senso de identidade; porém, agir guiado por esse preconceito, atacando outros por aquilo que não se reconhece em si mesmo, é uma forma um tanto bárbara de sustentar uma identidade, no final das contas, frágil.

IHU On-Line – Em algumas religiões, os ritos fúnebres dedicados aos suicidas costumavam ser diferentes. Por quê?
Paulo Gleich – Um estudioso de teologia poderia responder isso com muito mais propriedade que eu. Para não dar uma resposta pouco honesta made in Google, compartilho uma hipótese que segue na linha do que falei anteriormente. Ao marcar um diferente, se estabelece uma relação de valores, de hierarquia – e desconfio que, na maioria das religiões, o suicida seja um morto “classe B”. Na religião cristã, faz todo sentido que se combata o suicídio: se o tempo todo se é lembrado que a vida que vale mesmo a pena é a que viria após a morte, por que se perderia tanto tempo com o calvário da vida terrena? Desconfio que, se não recaísse esse preconceito sobre quem decide sobre a própria morte, diminuiria drasticamente o número de fiéis – ao menos nos tempos em que se levava mais a sério a palavra de Deus. As religiões podem tratar dos assuntos divinos e de outros planos mais nobres que os terrestres, mas é na mundana realidade que elas exercem seu poder – e, por isso, não abrem mão de fiéis tão facilmente.

IHU On-Line – A arte, particularmente literatura, cinema e música, é oportuna para subsidiar reflexões acerca do suicídio?
Paulo Gleich – Acho que a arte sempre tem algo a nos ensinar. Para nós, psicanalistas, os artistas, sobretudo os escritores, nos precedem na leitura do mal-estar de nosso tempo. Sua antena capta primeiro os movimentos tectônicos que nos afetam, como indivíduos e sociedade. Assim, me parecem excelentes formas de se aproximar do tema – não da forma como tantas vezes se pretende, “didática”, mas como disparador para oportunizar exercícios de pensamento, discussão, circulação da palavra.

Isso vale inclusive para 13 reasons why , embora o suicídio apareça ali como instrumento de vingança e culpabilização, com toda a estratégia montada pela personagem. Pessoalmente não gostei da série por esse viés, que, por outro lado, é consoante com a lógica ressentida que impera na atualidade. Tudo depende do que se faz com ela: se apenas se mostra como “material didático sobre suicídio”, é péssima; se é usado como dispositivo para problematizar essa e outras questões, como violência, problemas com os pais, questões amorosas etc., pode ser bastante potente.

Mesmo um produto cultural “ruim” pode ser um disparador oportuno, depende da forma como é apresentado e daquilo que suscita em termos de discussão e pensamento. É próprio da nossa lógica contemporânea atribuir qualidades intrínsecas às coisas, separando-as em boas e ruins – buscando, de preferência, excluir estas últimas, como se isso fosse consertar o mundo. É uma lógica de avestruz, que infantiliza e desresponsabiliza. A série mostra o suicídio sob uma ótica problemática? Falemos mais a fundo sobre esse assunto, pensemos por que é essa visão sobre suicídio que se difunde na cultura, em vez de apenas discutir se a exaltamos ou demonizamos.

IHU On-Line – A internet potencializa os riscos para um suicida?
Paulo Gleich – Como não existe “um” suicida padrão, em muitos casos a internet pode lhe ser totalmente indiferente. Para alguns, no entanto – já tivemos notícias disso – ela pode, sim, até contribuir para precipitar o ato. Porém, não é “a internet” que potencializa os riscos, e sim as conexões que se podem estabelecer ali. A internet potencializa todas as fantasias, ao colocá-las ao alcance da mão – bem como o contato com interlocutores que as compartilhem. Que isso tenha também efeito sobre alguns suicidas é, talvez, inevitável – infelizmente. Provavelmente viveremos ainda muitas transformações na e pela internet – e, umas tantas delas, como tudo na história da humanidade, serão menos desejáveis. Se dezenas de jovens tiraram a própria vida por ler uma fantasia romântica de Goethe séculos atrás, como imaginamos salvar todos nossos adolescentes, tão ou mais frágeis que os de antanho, porém criados com a cornucópia de fantasias e conexões desse Aleph digital? É triste admitir, mas nossa onipotência esbarra na morte – mesmo dessa que, aparentemente, poderia ser controlada por ser executada pelas próprias mãos. ■

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