Edição 515 | 13 Novembro 2017

Instituições brasileiras precisam mudar para garantir equidade de gêneros no campo científico

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Alice Rangel de Paiva Abreu

“Não é mais suficiente aumentar o acesso. Isso tem sido feito com relativo sucesso e, hoje, o número de mulheres nos níveis iniciais do sistema no Brasil é bastante significativo. Mais importante, no entanto, são as desigualdades que existem quando você se debruça sobre as carreiras científicas e tenta entender por que tão poucas dessas mulheres conseguem atingir os mais altos níveis no sistema, quaisquer que sejam os indicadores utilizados”, destaca a professora Alice Rangel de Paiva Abreu, acerca da participação das mulheres na área acadêmica e científica. “Se no acesso o Brasil parece ter progredido de forma importante, na questão das mudanças estruturais estamos ainda engatinhando”, analisa, no artigo escrito para a IHU On-Line.

Alice Rangel de Paiva Abreu é professora Emérita da Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ. Atualmente é diretora do GenderInSITE (www.genderinsite.net), um programa internacional para promover a questão de gênero em ciência, inovação, tecnologia e engenharia. Possui doutorado em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP e mestrado em Sociologia pela London School of Economics and Political Science – LSE da Universidade de Londres.

Eis o artigo.

O Brasil não é diferente de muitos países do ocidente, com grandes avanços da participação da mulher na área de educação e ciência, mas com a permanência de importantes desafios, que se refletem na restrita participação da mulher nos altos níveis de decisão no sistema. Na verdade, o Brasil na última década tem apresentado números que o colocam em uma posição de destaque em relação ao número de mulheres com mestrado e doutorado, por exemplo. A consistente política de capacitação que tanto o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico - CNPq como a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior - CAPES implementaram ao longo das últimas décadas, bem como a forma de implementação que foi assumindo ao longo dos anos, fez com que as mulheres fossem a maioria dos pesquisadores com título de Mestrado desde 1998 e com título de Doutor desde 2004. No entanto, se olharmos a distribuição dos titulados por área, vemos que esse quadro se altera, uma vez que as mulheres são expressiva maioria nas ciências humanas e sociais, nas ciências da saúde e biológicas, mas não nas ciências exatas e nas engenharias, ainda que o percentual de doutoras brasileiras nessas áreas (30/40%) seja ainda importante se comparado com outros países. E mesmo dentro de algumas dessas áreas existe uma heterogeneidade na participação da mulher. Na graduação de Engenharia Química no Brasil, por exemplo, a maioria é de mulheres.

Questionada sobre que influência teve a Constituição de 1988 para as mulheres na ciência, penso que é difícil fazer uma relação direta, mas como comentamos no artigo citado abaixo, a Constituição de 88 traz avanços importantes para garantir a igualdade para a mulher na família e na sociedade:

[...] (A Constituição de 1988) avança em matéria de direitos sociais e expande a definição de família ao reconhecer as uniões estáveis e muitos outros arranjos, tais como as famílias monoparentais, as famílias nucleares e os domicílios liderados por mulheres como iguais entre si para efeitos de proteção do Estado. Foi também abolido o princípio do “Pátrio Poder”, ou a autoridade soberana do pai no interior da família. Em seu lugar a lei estabelece o “poder parental”, exercido pelo pai e pela mãe em igualdade de condições, direitos e deveres. A Carta Magna de 1988 também trouxe importantes avanços na proteção das mulheres no que diz respeito à integração das esferas produtiva e reprodutiva, refletindo mudanças culturais e sociodemográficas em curso. [...]

Maiores direitos na esfera social e econômica sem dúvida ajudam e abrem possibilidades reais de avanço na área de educação e ciência. Mas a área científica tem especificidades que precisam ser consideradas. Para formar um pesquisador, tanto homens como mulheres, o tempo de formação é longo, você precisa não apenas ter um diploma universitário, mas continuar seus estudos fazendo primeiro um mestrado, e depois um doutorado. Cada um desses momentos são momentos de decisão importantes, onde a pessoa tem que resolver se continua ou não a investir nessa formação. E uma vez com o doutorado, outra decisão importante é se irá de fato ingressar na carreira científica/acadêmica. O que parece certo, e muitos estudos mostram isso com clareza, é que esses momentos decisivos parecem levar a que mulheres, mais do que homens, desistam da carreira, levando a uma real perda de talentos no sistema. Não é à toa que os estudos sobre mulher e ciência falam no “cano que vaza” (the leaking pipeline).

Portanto, o que os estudos sobre mulher e ciência vêm insistindo é que não é mais suficiente aumentar o acesso. Isso tem sido feito com relativo sucesso, e hoje, como já dissemos, o número de mulheres nos níveis iniciais do sistema no Brasil é bastante significativo. Mais importante, no entanto, são as desigualdades que existem quando você se debruça sobre as carreiras científicas e tenta entender por que tão poucas dessas mulheres conseguem atingir os mais altos níveis no sistema, quaisquer que sejam os indicadores utilizados.

Assim, se olharmos entre o número de reitores nas universidades brasileiras, por exemplo, veremos que o número de mulheres é ainda bem pequeno. O mesmo pode ser dito em relação aos professores titulares, o mais alto nível da carreira acadêmica. Nesse caso, nem mesmo temos dados globais confiáveis. Mas alguns estudos de universidades específicas mostram que atingir o nível mais alto da carreira não é um processo fácil para as mulheres e o número de professores titulares em algumas áreas fica perto de 10/15%. Não é muito diferente quando olhamos, por exemplo, a participação de mulheres na Academia Brasileira de Ciências, que fica perto dos 25%, com percentuais muito mais reduzidos em áreas como Matemática e Engenharia. Esse não é um fenômeno apenas brasileiro. Um estudo do Inter Academy Partnership - IAP mostra que esse é um fenômeno mundial e que o Brasil está de fato entre os países com o maior número de mulheres na Academia.

O exemplo mais claro é o das bolsas de produtividade do CNPq. Se olharmos as séries históricas das bolsas do CNPq no país, que vão desde as bolsas de iniciação científica até as de doutorado, veremos que em todas elas as mulheres não apenas são maioria já há alguns anos, como a trajetória é ascendente há muitos anos. A única bolsa onde isso não acontece é a de produtividade de pesquisa. Como se sabe, essa é a bolsa mais prestigiosa e competitiva do sistema, que premia cerca de 7 mil pesquisadores em todo o país. É a única bolsa em que as mulheres não atingem mais de 32/35% no total e onde no nível mais alto, o nível A, o percentual de mulheres fica em torno de 25%. Mas mais que isso, nessas bolsas esses percentuais são assim há mais de dez anos, a linha é reta, não há nenhuma inflexão ascendente na curva.

Exemplos como esse levaram a uma clara evolução nos estudos sobre mulher e ciência. As primeiras pesquisas enfatizavam não apenas a importância de aumentar o número de mulheres na área, mas também desenvolver indicadores confiáveis sobre o tema. A Comunidade Europeia é um bom exemplo de como essa primeira fase foi importante. A partir da criação de um comitê de assessoramento em gênero e ciência, que por 10 anos trabalhou o tema de forma intensa, com inúmeros estudos e relatórios, foi instituído o SHE FIGURES, que a cada três anos traz um retrato consistente, com indicadores significativos, da situação da mulher no sistema de ciência e tecnologia de todos os países da comunidade.

Ter um retrato real do que acontece permite o desenvolvimento de políticas que tentam atingir as causas mais profundas da persistente desigualdade. E muito claramente o que se viu ao longo dos anos, com o aumento significativo de pesquisas e estudos, é que não é a mulher que tem que ser “consertada”, mas sim as instituições. Se no acesso o Brasil parece ter progredido de forma importante, na questão das mudanças estruturais estamos ainda engatinhando. Mais uma vez o exemplo da Comunidade Europeia pode ser mencionado. No contexto do seu programa quadro de pesquisas, a comunidade vem apoiando um número importante de projetos que visam exatamente financiar a introdução de programas institucionais de equidade de gênero nas universidades e centros de pesquisa. São muitas vezes programas em rede, com várias universidades e centros implementando programas e avaliando os resultados. A lição mais importante dessas experiencias é como esse processo é complexo e difícil. Fica evidente que a questão central é mudar a cultura, as normas, as práticas das instituições científicas, trazendo a perspectiva de gênero para o interior das instituições. Apesar das dificuldades, é impressionante ver como em muitas instituições científicas na Europa as lideranças, a maioria ainda homens, reconhecem de forma clara que trazer a questão da equidade de gênero é bom para a ciência.

Porque a transformação da produção do conhecimento é passo final nessa evolução. Que um comissário europeu (um dos mais altos cargos na comunidade europeia) diga claramente que uma ciência com equidade de gênero é uma melhor ciência, é algo extremamente positivo. E não porque as mulheres sejam intrinsicamente melhores pesquisadoras que os homens, mas porque atingir a equidade leva a uma maior diversidade e a novas perspectivas que podem ampliar a eficácia do processo de produção do conhecimento.

Creio que este último passo é o que mais assusta. A ciência está centrada na cultura de valorizar a excelência e baseada em métodos científicos rigorosos, e assim deve continuar. Mas é preciso reconhecer que as normas e práticas científicas atuais trazem elas mesmas grandes desvios e preconceitos que impedem o pleno desenvolvimento do conhecimento. Só poderemos enfrentar os grandes desafios do mundo contemporâneo se tivermos a totalidade dos talentos disponíveis. Nenhum país pode almejar um desenvolvimento pleno sem ciência e tecnologia, e para isso tem que poder contar com a totalidade das capacidades, que incluem homens e mulheres.

Um recente relatório da Elsevier, Gender in the Global Research Landscape , que pela primeira vez conseguiu ter dados confiáveis de produção científica desagregados por sexo, é um bom exemplo de como homens e mulheres diferem na produção científica e como cada um traz particularidades que podem ser essenciais para aumentar a qualidade do todo. Os dados mostram, por exemplo, que as mulheres publicam mais artigos interdisciplinares, ainda que tenham menos colaboradores internacionais e apresentem menor mobilidade.

Para o Brasil, a mensagem a ser ressaltada é que precisamos avançar nas mudanças institucionais que levarão a uma melhor equidade de gênero e a uma melhor ciência para enfrentar os desafios atuais.■

Referências
ABREU, A. R. P. National assessments on gender equality in the knowledge society: gender in science, technology and innovation. Qualitative Report: Brazil. Rio de Janeiro: WISAT - Women in Global Science and Technology and The Elsevier Foundation, Jan.2012.

ABREU, A. R. P. Women for Science in Brazil. International Sociological Association E-Bulletin, Montreal, Canada, n. 16, p. 64-89, jul.2010.

Freehill, Abreu & Zippel (2015). "Gender, Science, and Occupational Sex Segregation". In: Pearson, W.; Frehill, L. M.; & McNeely, C.L. (Eds.) Advancing Women in Science. An International Perspective. Springer.

Abreu, A. R. P; Oliveira, M. C. F.; Vieira, J. M.; Marcondes, G. S. (2014), “Equidade de gênero na sociedade do conhecimento no Brasil: presença feminina na ciência e na tecnologia”. Document de Travail du Mage, 18: 93-120.


Leia mais

- Telhado de vidro: quais os desafios da ascensão acadêmica feminina? Reportagem publicada nas Notícias do Dia de 1-11-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos - IHU.

- Mulheres na ciência: há equidade de sexo? Artigo de Maria Augusta Maturana, publicado na revista IHU On-Line, número 510, de 4-9-2017.

- Políticas públicas para as mulheres: uma conquista brasileira em debate. Revista IHU On-Line, número 387, de 26-3-2012.

- Mulheres em movimento na contemporaneidade. Cadernos IHU em formação, número 37.

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