Edição 512 | 02 Outubro 2017

Afrodescendentes livres e libertos foram centrais para a revolução de 1817

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João Vitor Santos | Edição: Vitor Necchi

Luiz Geraldo Silva destaca que, enquanto a maior parte dos africanos e afrodescendentes de Minas, da Bahia e do Rio estavam sob o cativeiro, os de Pernambuco viviam em liberdade

Pernambuco tinha uma particularidade importante no que tange aos africanos e aos afrodescendentes escravos, livres e libertos, conforme o professor Luiz Geraldo Silva prefere designá-los: “Enquanto a maior parte dos africanos e afrodescendentes de Minas Gerais, da Bahia e do Rio de Janeiro viviam sob o cativeiro, os de Pernambuco viviam na liberdade”. Eles constituíam parte substancial da sociedade pernambucana, convulsionada entre março e maio de 1817.

Os afrodescendentes livres e libertos, cerca de 41% da população da capitania em 1810, “possuíam, como todos os filhos e netos de escravos, um status ainda identificado com o escravismo”. Para Silva, eles estavam mais próximos da liberdade que os escravos. “Logo, tinham mais condições de compreender a mensagem revolucionária”, e “sabiam bem mais que os cativos o que poderia representar a igualdade civil e política tanto individual como coletivamente”. O professor destaca que “os afrodescendentes livres e libertos foram centrais para os rumos da revolução de 1817”.

Conforme Silva, “enquanto os projetos políticos de Minas Gerais, em 1789, e da Bahia, em 1798, foram inconfidências, o de Pernambuco em 1817 foi uma revolução”. Ele considera “uma das maiores mentiras da nossa história” a tentativa de “consagrar a inconfidência mineira, como fazem nossos atuais presidentes e governadores, ou conferir-lhe centralidade no âmbito de nossa tradição republicana”.

No seu entendimento, a imprensa e setores da historiografia criam “mitos absurdos, como o de Tiradentes”, e “defende que um presidente em descrédito é uma coisa, e que suas reformas e projetos políticos é outra, radicalmente diferente”. Ele propõe que “no passado ou no presente, precisamos ver o Brasil sem véus, sem disfarces, sem a hipocrisia alimentada pelo establishment”. Uma análise circunstanciada da revolução de 1817, no seu entendimento, ajuda nessa tarefa.

Luiz Geraldo Silva é doutor em História Social pela Universidade de São Paulo - USP, onde realizou estágio pós-doutoral, e mestre e graduado em História pela Universidade Federal de Pernambuco - UFPE. Leciona na Universidade Federal do Paraná – UFPR e na Universidad Pablo de Olavide, de Sevilha.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Qual o contexto político, econômico e social que deflagra a Revolução Pernambucana?
Luiz Geraldo Silva – Existe um ponto de vista trivial conforme o qual toda revolução política é precedida por uma crise econômica. Se foi assim com a Revolução Francesa ou com a Revolução Russa, por que também não seria com a Revolução Pernambucana? No entanto, nada mais equivocado que, num modelo de análise, identificar uma crise econômica como antecâmara da revolução de 1817. Nas duas primeiras décadas do século 19, Pernambuco era uma sociedade escravista e, portanto, uma forma de medir seu crescimento consiste em examinar o volume do tráfico de escravos. Nos últimos 25 anos do século 18 (1776-1800), entraram no porto do Recife 79.835 escravos africanos. Nos primeiros 25 anos do século 19 (1801-1825), isto é, ao longo dos anos que precederam e imediatamente sucederam a onda revolucionária, entraram por aquele mesmo porto cerca de 191.529 seres humanos escravizados. À época da revolução, portanto, houve um aumento de mais de 200% do volume do tráfico. Assim se concluiu, por um lado, que não havia crise econômica naquele setor tão vital de uma sociedade escravista, mas, antes, um boom sem precedentes, e que, por outro lado, os anos que antecederam a revolução de 1817 foram de grande e intensa prosperidade material e econômica.

Tal prosperidade tinha a ver diretamente com a produção do algodão, cujas receitas para a capitania, por volta de 1810, tinham ultrapassado as do açúcar – o produto mais nobre, mais tradicional e que era base de sustentação dos grupos sociais mais antigos e estabelecidos. O algodão de Pernambuco era, então, matéria-prima fundamental da revolução industrial britânica. A Inglaterra, como se sabe, foi, ao lado dos traficantes de escravos do Brasil, a grande beneficiária dos acordos comerciais firmados com a corte portuguesa instalada no Rio de Janeiro a partir de 1808 e também uma consumidora voraz daquela matéria-prima, então em falta nos mercados do hemisfério norte em decorrência da guerra anglo-americana (1812-1815). Ademais, a França pós-napoleônica também iniciava uma industrialização baseada em cotonifícios, o que explica as dezenas de casas comerciais francesas e britânicas instaladas no Recife ao longo da década de 1810. Sou, então, levado a pensar num quadro mais vasto, atlântico, para me referir ao “contexto político, econômico e social” da revolução de 1817.

Este quadro conecta Pernambuco tanto com o sistema econômico mundial, através principalmente do algodão e do tráfico de escravos, como com aquilo que os historiadores têm chamado desde a década de 1950 de “era das revoluções atlânticas”. Assim, se não havia crise econômica, havia, pois, uma crise política, ideológica, de legitimidade, que abalava, evidentemente, não apenas a sociedade pernambucana, mas, antes, convulsionava todo o mundo atlântico. O conceito de “era das revoluções atlânticas”, embora equivocadamente limitado às sociedades do hemisfério norte, se refere a uma crise de legitimidade dos governos dinásticos, das monarquias que, ao longo do século 18, haviam se tornado absolutas.

Demandava-se por toda parte do mundo ocidental governos representativos, parlamentares, constitucionais, fossem estes monárquicos ou republicanos. Assim, a monarquia portuguesa sofria com essa crise de legitimidade, aspecto que foi reforçado por sua transferência forçada de Lisboa ao Rio de Janeiro. Desde a segunda metade do século 18 as pressões advindas dos níveis mais baixos da sociedade, exercidas por grupos sociais que não faziam parte da aristocracia e que demandavam representação política, convulsionavam, em maior ou menor grau, os impérios britânico, francês e espanhol. Entre 1815 e 1817, a região do Rio da Prata e, principalmente, o vice-reinado de Nova Granada estavam conflagrados: lutavam contra Fernando VII ou internamente para criar mecanismos representativos, constituições, corpos políticos independentes e confederados. Não creio que o modelo republicano dos Estados Unidos da América, como a historiografia conservadora costuma ressaltar, e como muitos documentos produzidos pelos revolucionários deixam entrever, representasse um modelo efetivo para a Revolução Pernambucana. Por sua proximidade temporal e espacial, as revoluções hispano-americanas, processadas no hemisfério sul, são, ao meu ver, os grandes exemplos inspiradores da revolução de 1817, como, aliás, reconheciam alguns contemporâneos, a exemplo de uma testemunha ocular, Antônio Joaquim de Mello.

IHU On-Line – E qual a importância desse movimento na história do Brasil?
Luiz Geraldo Silva – Enquanto os projetos políticos de Minas Gerais, em 1789 , e da Bahia, em 1798 , foram inconfidências, o de Pernambuco em 1817 foi uma revolução. Rompia-se, enfim, com uma formação política recente e precária – o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves –, criada em 1815, e instituía-se um corpo político distinto, independente, mas aberto a adesões de tipo federativo. Ademais, este corpo político tinha quatro características absolutamente centrais.

Em primeiro lugar, ele era republicano. Embora revolucionários, a exemplo de José Luís de Mendonça , preferissem estabelecer negociações com a monarquia e criar um corpo político monárquico constitucional, a tese vitoriosa em 1817 foi, contudo, a republicana.

Em segundo lugar, prevaleceu também a ideia de formação de uma federação, confederação ou liga, como acontecia exatamente à mesma época no Rio da Prata. Vai daí, pois, o envio de emissários a Bahia – o padre Roma, executado tão logo desembarcou ali – e a outras capitanias da América portuguesa. Uma adesão formal e, aliás, bastante apaixonada se manifestou sobretudo na Paraíba, ao mesmo tempo em que revolucionários foram identificados e presos no Rio Grande do Norte e no Ceará. No entanto, nestas últimas capitanias predominaram indivíduos e grupos sociais identificados com a reação monárquica e absolutista.

Em terceiro lugar, a revolução de 1817 foi um movimento constitucional. Não apenas incorporou-se ao longo de sua trajetória certos princípios gerais inscritos na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão, mas também se deu publicidade, a partir de 29 de março de 1817, a uma “lei orgânica” que, entre outros aspectos, consagrava as liberdades religiosa, de pensamento e de imprensa, mas principalmente “declarava serem todos os homens iguais em direitos” – tal como se manifestara, do mesmo modo, na constituição de Cartagena de Índias, em 1812 .

Finalmente, e talvez mais importante, o movimento político de 1817 foi marcado por um forte sentimento de igualdade política, o que convertia indivíduos da vasta população afrodescendente livre e liberta da capitania em cidadãos.

Este último aspecto não havia se verificado em experiências tão decantadas pela historiografia, como a revolução norte-americana, ou no âmbito do constitucionalismo espanhol de 1810-1812. Como se sabe, ao retomar a distinção entre cidadãos ativos e passivos presente à constituição francesa de 1791, a constituição imperial de 1824 – considerada “altamente inclusiva” por alguns historiadores contemporâneos – considerou os libertos cidadãos passivos, o que os tornava inelegíveis e, depois de 1831, impedidos de ascender ao oficialato da Guarda Nacional. Por estas razões, absolutamente centrais, a revolução de 1817 tem uma importância capital na história do Brasil.

IHU On-Line – Que relações podemos estabelecer entre o Brasil de 1817 com o atual momento nacional?
Luiz Geraldo Silva – É, com efeito, impressionante, no âmbito do Brasil republicano, o culto que se rende anualmente à inconfidência mineira. Todos os anos, como se sabe, o presidente da república – seja este legítimo ou não – e todos os governadores dos Estados da federação se dirigem à praça Tiradentes, em Ouro Preto, para reverenciar um movimento político de limitado alcance social, que representava mentalmente a independência política restrita a uma única capitania – a de Minas Gerais – e que jamais vingou, jamais se materializou efetivamente, não passando, pois, de uma sedição. Como bem sintetiza Kenneth Maxwell , em fins do século 18 alguns indivíduos do nível mais alto da capitania mineira que se reuniam para tecer inconfidências não tiveram pejos em dedurar uma pessoa que, embora tivesse nascido em uma família importante, havia decaído socialmente. Justamente o tal Tiradentes, o mártir, a vítima maior de nossa independência. Nada mais patético que isso.

Em Pernambuco, se constituiu uma república federal que durou quase três meses, que procurou criar uma constituição, que propôs o estabelecimento de uma capital, que acenou com a possibilidade de abolir a escravidão, que proclamou a igualdade política e civil sem distinções de origem e posição social e que teve não um, mas 14 indivíduos executados, além de centenas de deportados e exilados. Acresce-se, ademais, os tantos mortos no cárcere, e que não tinham sido, contudo, condenados à pena capital. Um movimento político que, federativamente, conflagrou as outras capitanias do Norte e que, como já sublinhei, estabeleceu uma igualdade política pouco usual no âmbito dos antigos impérios coloniais da era moderna – o britânico, o francês, o espanhol e o português.

Consagrar a inconfidência mineira, como fazem nossos atuais presidentes e governadores, ou conferir-lhe centralidade no âmbito de nossa tradição republicana é uma das maiores mentiras da nossa história. Creio que esses engodos, essas mentiras deslavadas, em boa medida perpetradas por setores da historiografia que comungam com o status quo, com o establishment, e que servem aos grupos com maior potencial de retenção de poder com mais regularidade e servilismo do que se imagina à primeira vista, têm muito a ver com o estado de coisas atualmente existente entre nós, no qual um presidente ilegítimo, sem credibilidade, com a maior taxa de rejeição já registrada entre ocupantes de seu cargo, insiste não apenas em se manter no poder, mas, sobretudo, em impor à nação uma agenda conservadora, dilapidadora do nosso patrimônio humano, intelectual e social. Ainda mais alarmante é que tal agenda tem a conivência de um setor majoritário da imprensa que, como alguns setores da historiografia, ainda se encanta e se identifica com o conservadorismo mais atroz, ou, no limite, com a nobreza, com a aristocracia.

A imprensa no Brasil, que, como setores de nossa historiografia, cria mitos absurdos, como o de Tiradentes, defende que um presidente em descrédito é uma coisa, e que suas reformas e projetos políticos é outra, radicalmente diferente. Assim, vivemos no Brasil engodos sucessivos, mentiras deslavadas, tornadas, contudo, verdades absolutas, indiscutíveis, através da imprensa ou da historiografia. No passado ou no presente, precisamos ver o Brasil sem véus, sem disfarces, sem a hipocrisia alimentada pelo establishment, mormente o “jornalístico”, e creio que uma análise circunstanciada da revolução de 1817 nos ajuda nessa tarefa.

IHU On-Line – Qual o papel do negro no contexto da Revolução Pernambucana?
Luiz Geraldo Silva – Os africanos e os afrodescendentes escravos, livres e libertos – como prefiro designá-los, remetendo ao que estes grupos sociais e indivíduos efetivamente eram, sociologicamente falando – constituíam parte substancial das sociedades pernambucana e paraibana, convulsionadas entre março e maio de 1817. Pernambuco, particularmente, fazia parte de um grupo de quatro capitanias que abrigava a maior população africana e afrodescendente escrava, livre e liberta da América portuguesa. Além de Pernambuco, faziam parte desse grupo as capitanias da Bahia, de Minas Gerais e do Rio de Janeiro. Contudo, Pernambuco revelava uma particularidade importante. Enquanto a maior parte dos africanos e afrodescendentes de Minas Gerais, da Bahia e do Rio de Janeiro viviam sob o cativeiro, os de Pernambuco viviam na liberdade. Contudo, os afrodescendentes livres e libertos de Pernambuco – que por volta de 1810 representavam 41% da população da capitania – possuíam, como todos os filhos e netos de escravos, um status ainda identificado com o escravismo. No entanto, é absolutamente claro e evidente que, dentro de um continuum que ligava a escravidão à liberdade, os afrodescendentes livres e libertos estavam mais próximos da liberdade que os escravos. Logo, eles estavam mais aptos a compreender a mensagem revolucionária que estes últimos, uma vez que seu processo de mudança de status, que começa na escravidão e segue, de geração em geração, por graus cada vez mais agudos de mobilidade ascendente ou de diminuição da marginalidade, até a liberdade, ajudava-os a ter melhor compreensão da palavra escrita, do léxico conceitual da revolução. E eles sabiam bem mais que os cativos o que poderia representar a igualdade civil e política tanto individual como coletivamente.

Os escravos, antes, ainda se esforçavam por obter sua liberdade jurídica, e estavam, portanto, muito mais distantes de uma demanda efetiva por igualdade civil e política. Não é por acaso, portanto, que se pode encontrar na documentação um número impressionante de militantes de 1817 que eram afrodescendentes livres e libertos. São muito poucos, contudo, os escravos arrolados na documentação como implicados no movimento revolucionário. Ademais, os afrodescendentes livres e libertos se inseriam neste universo sobretudo mediante suas instituições militares, como também tinha ocorrido no movimento baiano de 1798 : ou seja, como milicianos dos regimentos de pardos e de Henriques .

Indivíduos como o capitão pardo e alfaiate José do Ó Barbosa – a primeira pessoa a confeccionar a bandeira da república de Pernambuco, hoje a bandeira desse Estado da federação –, como seu irmão, Francisco Dornelas Pessoa, também capitão dos pardos e alfaiate, como o sapateiro Henrique Valentim Ribeiro, membro da guarda pessoal do padre João Ribeiro de Mello Montenegro, como Joaquim dos Santos, alfaiate e furriel de um regimento de pardos, e como Felipe Alexandre da Silva, “capitão de pardos”, aparecem abundantemente nas fontes disponíveis. Todavia, são poucos os historiadores que notaram sua existência, não porque eles não deixaram rastros, pistas, informações sobre si mesmos, mas porque os historiadores não fazem perguntas e não criam problemas de análise acerca deles.

Ao mesmo tempo, os afrodescendentes livres e libertos foram centrais para os rumos da revolução de 1817. Os historiadores afirmaram repetidamente que os eleitores do governo provisório, por exemplo, eram, todos, indivíduos do nível mais alto, “dos setores dominantes”. Não se deram conta que, dentre os 15 eleitores que no dia 7 de março de 1817 elegeram a junta de governo, havia dois indivíduos que não faziam parte dos “setores dominantes”: o “ilustríssimo pernambucano de cor preta” Joaquim Ramos de Almeida e Thomaz Ferreira Vilanova, um “ilustre preto” que “vivia honradamente do seu ofício de tanoeiro, e soldo de Major do regimento novo miliciano dos Henriques”, como escreve uma testemunha ocular, o padre Dias Martins. Ambos, ademais, conforme outras testemunhas, assinaram o ultimatum que forçou a capitulação do governador Caetano Pinto de Miranda Montenegro.

Por outro lado, quando, numa das primeiras sessões do governo provisório, realizada entre 7 e 9 de março de 1817, ficou patente que nem todos os seus membros defendiam a criação de uma república em Pernambuco e que, antes, alguns postulavam a fórmula inicialmente consagrada nos impérios francês e espanhol da monarquia constitucional, coube aos afrodescendentes livres e libertos, sedentos por igualdade política, apressarem o passo e fazer convergir sua plataforma com a de seus pares da Grã-Colômbia. Numa dessas primeiras sessões, José Luís de Mendonça, por exemplo, argumentou que talvez fosse “utilíssimo protestar-se por ora fidelidade ao Monarca, o que não impedia a instrução e armamento do povo”. Ao ouvir tal proposta, outro membro da junta de governo, o radical Domingos José Martins, fez introduzir no âmbito da sessão o capitão de artilharia pardo Pedro da Silva Pedroso. Conforme Frei Caneca – outro famoso militante de 1817 –, Pedroso “quis atravessar com a espada e matar a José Luís de Mendonça porque este fizera a moção de se estabelecer um reino constitucional em lugar de uma república”. Foi por esta via, baseada na coerção exercida por um afrodescendente livre, que todos os membros da junta, e quiçá o movimento político inteiro, aderiram ao republicanismo.

IHU On-Line – Quais eram os reais objetivos das discussões políticas das províncias do Norte entre os anos de 1820 e 1824: promover estados independentes ou construir uma ideia de nação brasileira?
Luiz Geraldo Silva – A revolução de Pernambuco constituiu um evento transcendental, uma vez que ela tem ligações profundas com o movimento de Gomes Freire de Andrade em Portugal, que eclodiu no mesmo ano de 1817, com a revolução do Porto em 1820, e com o movimento constitucionalista que criará a partir de janeiro de 1821 uma monarquia constitucional no âmbito do império português. Assim, serão os deputados vintistas que, finalmente, concederão anistia aos revolucionários de 1817 que ainda estavam sentenciados, como é o caso de Pedro da Silva Pedroso. Enquanto a capitania de São Paulo, por exemplo, transigia e, a despeito do direito de criar sua própria junta de governo, mantinha 0 antigo governador colonial, João Carlos Augusto de Oyenhausen-Gravenburg, à frente de seu governo, os pernambucanos radicais, fortemente instrumentalizados pelos eventos de 1817, depuseram o antigo governador colonial, Luís do Rego Barreto, através de um movimento armado. Todos os deputados enviados a Lisboa para as Cortes Constituintes da Nação Portuguesa eram antigos militantes de 1817.

Quando as elites de Minas Gerais, de São Paulo e do Rio de Janeiro firmaram um pacto para realizar a independência do Brasil, uma vez que temiam a perda das rendas concentradas no centro-sul através do aparelho de Estado criado durante a fase joanina, os grupos políticos radicais de Pernambuco aderiram àquele projeto, reconhecendo que a independência do que outrora fora toda a América portuguesa constituía um passo importante para salvaguardar a liberdade e a igualdade política e civil de seus cidadãos. Embora muitos fossem republicanos, anuíram com a monarquia constitucional. Contudo, eles concebiam esse projeto a partir de um pacto federativo, conforme o qual o centro e as partes, isto é, a corte e as províncias, teriam uma divisão justa, equitativa, de poderes, de direitos e de deveres. Mas não foi isso que se viu ao longo dos debates da constituinte brasileira, mormente ao longo de 1823, quando os deputados tinham que trabalhar sob baionetas, vendo, ao mesmo tempo, a liberdade de imprensa e de opinião ser cada vez mais cerceada pelo imperador e seus áulicos. Este, ademais, dá um golpe de Estado ao encerrar os trabalhos da constituinte em novembro de 1823, e ao outorgar uma constituição no ano seguinte. Conforme a carta constitucional elaborada sem a participação de representantes eleitos pelo povo, conferia-se pouca ou nenhuma autonomia provincial, concentrando-se a maior parte dos poderes e, sobretudo, das rendas decorrentes da introdução dos produtos agrícolas no mercado mundial, na União. Aliás, a palavra “federalista” tornou-se, por estes tempos, sinônimo de radical, de ultraesquerdista – mais um engodo disseminado pelo poder político e, como sempre, pela imprensa da época.

Esta carta magna, de 1824, foi imposta ao Brasil e, particularmente, às capitanias do Norte – mormente a Pernambuco, à Bahia e ao Pará – mediante o envio de tropas formadas por mercenários que estavam sendo dispensados das guerras no Rio da Prata. Foi um mau começo para uma nação independente. Estes eventos foram a antecâmara da Confederação do Equador, em 1824. Neste evento, a transcendência de 1817 ficou ainda mais evidente. Agora era explícito que se buscava formar uma confederação, como no Rio da Prata, e foram enviados panfletos de Norte a Sul conclamando indivíduos e grupos sociais de outras províncias do nascente império do Brasil a se unir à causa do pacto federativo e constitucional. O nível de consciência política estava, então, mais aguçado, se comparado àquele vigente à época da revolução de 1817. Mas é patente que esta constituiu um patamar inicial e indispensável como campo de modelagem de experiências políticas.

Frei Caneca, um militante discreto em 1817, elaborou seus textos mais radicais, mais diretos, mais claros, suas análises mais lúcidas em torno da necessidade de estabelecer aquele pacto que salvaguardava o direito das províncias de se unir a uma nação que, em seu conjunto, fosse livre, e tivesse direito à representação política. Os afrodescendentes livres e libertos eram, do mesmo modo, mais conscientes de sua posição social e de sua militância pela igualdade política e civil. Entre os sentenciados com a pena de morte, Agostinho Bezerra Cavalcanti, um capitão do regimento de Henriques, foi enforcado ainda em fins de 1824, embora a historiografia tenha enfatizado sobretudo, e não sem certa razão, o fuzilamento de Frei Caneca por aqueles mesmos dias. Também foi sentenciado à pena de morte o afrodescendente livre, também capitão do regimento de pardos, Felipe Benício Mundurucu. Mas este, fugindo de seus captores, se exilou primeiro no Haiti, e depois na Grã-Colômbia, onde militou nas tropas republicanas até a morte de Bolívar, em 1830 – uma trajetória que ilustra bem as conexões que procuro estabelecer entre este evento e aqueles que então tinham efeito no mundo atlântico.

Por outro lado, o capitão de artilharia pardo Pedro da Silva Pedroso, que fora republicano ardoroso em 1817, reapareceu no Recife em 1824 como oficial do exército imperial, enviado, pois, a Pernambuco para reprimir a Confederação do Equador. Estas trajetórias divergentes apontam, enfim, para o fato de que, longe de constituir qualquer homogeneidade, tanto no passado como no presente, o grupo social formado pelos afrodescendentes livres e libertos é diverso, hierarquizado, descontínuo, como, de resto, todos os grupos sociais existentes historicamente.

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?
Luiz Geraldo Silva – Parece importante concluir repetindo as palavras de Antônio Jorge de Siqueira, meu ex-professor e ex-orientador de iniciação científica na UFPE [Universidade Federal de Pernambuco], que recentemente me sugeriu numa conversa telefônica que, no que se refere ao legado de 1817, faz-se absolutamente necessário “despernambucanizar Pernambuco”. Até hoje, a história da revolução de 1817 – que este ano completa seu segundo centenário – foi, em boa medida, tratada como um epifenômeno, compreendida, enfim, no âmbito de uma perspetiva meramente regional. Esse enquadramento foi alimentado não apenas por uma historiografia que, desde Varnhagen e do IHGB [Instituto Histórico Geográfico Brasileiro], enalteceu os “fundadores do império”, mormente nascidos no Rio, em Minas e em São Paulo, cuja missão foi lutar contra os estorvos à marcha do progresso e da civilização perpetrados pelas “províncias do Norte”.

Também concorreu para essa perspetiva regional uma historiografia que, desde Muniz Tavares e sua História da revolução de Pernambuco em 1817, de 1840, tem insularizado a experiência de Pernambuco apenas para reiterar um tosco, canhestro e débil orgulho patriótico e provinciano. Este orgulho, essa patriotada, contudo, parece mais afeita ao gosto das elites, ou de uma historiografia mais preocupada em recuperar fontes francesas e norte-americanas das ideologias revolucionárias de 1817 – como se observa nas análises eminentemente conservadoras produzidas por Evaldo Cabral de Mello. No entanto, quando se olha a revolução de 1817 através da experiência de afrodescendentes livres e libertos, por exemplo, como tenho feito há alguns anos, é possível perceber uma modernidade política que aproxima o Brasil do Caribe colombiano, de Saint-Domingue, bem como do Rio da Prata.

Por outras palavras, propor o problema da igualdade política e civil – que me recuso a designar como “igualdade racial”, como fazem alguns historiadores – permite conectar as experiências e ideologias vigentes em Pernambuco em 1817 com aquelas então mobilizadas por grupos e indivíduos de diversas formações sociais do mundo atlântico àquela mesma época. É uma forma, pois, de “despernambucanizar Pernambuco”. Sob esta perspetiva, é no mínimo paradoxal propor, como fazem inúmeros historiadores, que os Estados Unidos da América tivessem constituído um modelo para a revolução pernambucana de 1817. Como se sabe, até a segunda metade do século 20 jamais esteve em pauta em todos os Estados Unidos conferir igualdade política e civil a afrodescendentes. Antes, em muitos estados daquela federação estes foram estigmatizados e impedidos de exercer a cidadania plena até muito recentemente. Assim, sob este crivo específico, creio que a revolução de 1817, bem como as experiências da Colômbia, do Rio da Prata e do Haiti, aparecem no horizonte mais como modelos para aquela nação que o inverso. ■

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