Edição 511 | 25 Setembro 2017

O medo da partida

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Fernando Del Corona

Filme cubano sobre dois amigos reflete de maneira pouco politizada sobre amizade, medos e sonhos

Em tempos de polaridade política acentuada, a simples menção de Cuba, no Brasil, vem carregada de peso simbólico. Assim, um filme como Últimos dias em Havana, de Fernando Pérez, à primeira vista, pode trazer a ideia de discussões sociais e econômicas, sejam críticas ou favoráveis. Porém, enquanto a realidade cubana – politizada por si só – aparece como fundo da história apresentada nesta obra, não é esse o foco buscado por Peréz. A política faz parte da vida de seus personagens e do mundo apresentado, mas não é a única dimensão que estabelece sentido.

Últimos dias em Havana apresenta pouco mais de três meses da vida dos amigos de infância Miguel (Patrício Wood, de frente) e Diego (Jorge Martínez)

A trama se desenrola durante pouco mais de três meses, durante um final de ano em Havana. Os dias são marcados por títulos em tela que sugerem a profética contagem regressiva do título. São os últimos dias em Havana de Miguel (Patrício Wood) e Diego (Jorge Martínez). O primeiro planeja sua emigração para os Estados Unidos, enquanto trabalha como limpador de pratos na espera de um visto que não chega. O segundo, confinado à sua cama por complicações do vírus HIV. Amigos de infância, ambos moram juntos em um cortiço, e Miguel cuida com diligência de Diego, preparando suas refeições e administrando seus remédios.
Outras pessoas circulam pelo apartamento deles. As vizinhas Fefa (Carmen Solar) e Miriam (Yailene Sierra), a jovem sobrinha de Diego, Yusisleydis (Gabriela Ramos), e o garoto de programa P4 (Cristian Jesús Pérez), que sonha em comprar uma bicicleta para funcionar como bici–táxi em Havana. A vida cubana também brilha através dos personagens secundários que entram e saem: a tia de Diego, que critica a postura antirrevolucionária de Miguel, mas se interessa somente pela pouca herança a ser deixada por Diego, o namorado punk de Yusisleydis, que deseja virar confeiteiro, e até um taxista apaixonado por Beethoven.

Miguel é sisudo e silencioso, frustrado pelo seu passado, vivendo apenas por um possível futuro. Diego é animado e falante, passa seus dias vendo filmes pornô e tentando animar seu amigo. Percebe–se que não apenas Diego precisa do amigo – a dependência é mútua. A amizade entre eles parece ser a única coisa que dá algum sentido para a vida de Miguel, que é ciumento e protetor, além de suspeitar de qualquer um que invada o espaço dos dois. Yusisleydis nota que ele parece uma coruja, observando, sem nada por trás dos olhos. O rosto dele, carregado e triste, é uma das imagens mais marcantes do filme. Um texto declamado no final do filme, diretamente para a câmera, fugindo inesperadamente da estética apresentada até então, é um dos momentos mais poderosos e encerra o filme com uma nota pesarosa, mas não sem esperança.

Apesar de todos os personagens em cena e dos relativos poucos momentos que Miguel e Diego dividem, é a relação deles que está no centro da história. Fica–se sabendo de um passado compartilhado, quando Miguel defendeu Diego onde ninguém mais o fez, e se vê fotos dos dois jovens. Entre eles existe o tipo de conforto na presença um do outro que nasce apenas de muito tempo de convivência, e por trás da fachada indiferente de Miguel, surge o carinho que sente por Diego, por vezes de maneira devastadora.

A dualidade entre a vida e a morte, o estar e o ir, perdura naquele apartamento. Miguel em estado de suspensão emocional esperando sua chance de imigrar, Diego fisicamente confinado na cama, mas com o espírito livre. Miguel, vivo, mas quase morto. Diego, quase morto, mas vivo.
O filme é praticamente episódico, a única constante sendo a espera. “Neste quarto não existe tempo”, explica Diego para a sobrinha. Pelos corredores do cortiço, nas ruas e lojas, percebem–se os sinais de vida que fogem ao alcance dos dois protagonistas. O movimento na rotina de ambos se dá pelas outras pessoas que os cercam e, por vezes, trazem seus próprios dramas até eles. Por mais que Diego busque corajosamente algum tipo de luz e leveza, existe uma sombra no filme, um peso enorme. Conforme o tempo passa, surge a questão do que será de um sem o outro – se é que será possível que eles existam separados. Ambos estão presos entre a angústia de permanecer e a dor de partir.

Filmado quase de maneira teatral – a maior parte da ação se passa no apartamento de dois cômodos deles –, Últimos dias em Havana é triste e sensível. O diretor tem um olho afiado para demonstrar o afeto entre seus personagens, os atores fazem jus ao desafio. Apesar de um desnecessário posfácio, o filme carrega uma pesada carga dramática sem cair em clichês.

A política está envolvida indiretamente na vida de todos, mas cada um carrega em si seus próprios sonhos, planos, dores e medos. Através de Yusisleydis existe um vislumbre de uma nova geração cubana – ela planeja nomear seus filhos inspirada em filmes americanos –, sua irreverência em franco contraste com a rigidez de Miguel, que conta, literalmente, os segundos do relógio. Ao mesmo tempo, existe nos dois habitantes do apartamento imagens do que aquela sociedade buscou esconder e ostracizar: o antirrevolucionário, o homossexual. Isolados e incompatíveis com o mundo externo, criam sua própria vida à parte, seus afetos e suas maneiras de sonhar.

Ficha técnica:
Últimos dias em Havana
Título original: Últimos días en La Habana
Direção: Fernando Peréz
Produção: Danilo León, José María Morales
Elenco: Patrício Wood, Jorge Martínez, Gabriela Ramos, Cristian Jesús Pérez , Carmen Solar, Yailene Sierra
Cuba/Espanha, 2016, 92 min.

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