Edição 511 | 25 Setembro 2017

Heidegger, o leitor de Suárez

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Patricia Fachin | Edição: João Vitor Santos

Ernildo Stein analisa como o pensamento suareziano chega à contemporaneidade através da atualização que passa nas produções heideggerianas

Para o professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS Ernildo Stein, a filosofia moderna é fortemente influenciada pelas tentativas de sistematização presentes no trabalho de Francisco Suárez. “Suárez pode ser considerado aquele que sistematizou pela primeira vez a filosofia medieval, sobretudo a ontologia. Ele superou o hábito que até então consistia em fazer apenas comentários dos textos da filosofia da Antiguidade”, destaca.

Essa influência chega até a Contemporaneidade e é materializada nas reflexões de filósofos como Martin Heidegger. “Não sei se podemos falar de uma recuperação de Suárez através de Heidegger, mas certamente, este aborda questões centrais daquele filósofo, em seu livro Problemas fundamentais da Fenomenologia”, analisa Stein, em entrevista concedida por e–mail à IHU On–Line. “Portanto, quando L.B.Puntel afirma que Heidegger é por excelência o filósofo do ser no século XX, ele está nos aproximando de algo Suáreziano na analítica existencial”, completa.

Ernildo Jacob Stein é graduado em Filosofia e Direito pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS. Doutor em filosofia também pela UFRGS, realizou estágios pós–doutoral na Universidade de Erlangen–Nuremberg, na Universidade de Heidelberg, na Universidade de Freiburg, na Universidade de Frankfurt, na Universidade de Münster e na Universidade de Wuppertal. Lecionou na UFRGS e atualmente é professor da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul – PUCRS. Entre seus livros publicados, destacamos A Caminho de uma fundamentação pós–metafísica. (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997), Anamnese – a filosofia e o retorno do reprimido (Porto Alegre: EDIPUCRS, 1997) e Às voltas com a Metafísica e a Fenomenologia (Ijuí: Unijuí, 2014). Sua obra mais recente é A caminho do paradigma hermenêutico – ensaios e conferências (Ijuí: Unijuí, 2017).

O entrevistado apresenta a conferência A presença de Suárez na filosofia de Heidegger, no dia 26 de setembro, às 14h, na Sala Ignacio Ellacuría e Companheiros – IHU, campus São Leopoldo da Unisinos, dentro da programação do VIII Colóquio Internacional IHU e XX Colóquio Filosofia Unisinos – Metafísica e Filosofia Prática. A atualidade do pensamento de Francisco Suárez, 400 anos depois. Acesse a programação completa.

Confira a entrevista.

IHU On–Line – Qual é a atualidade do filósofo Francisco Suárez, 400 anos depois?
Ernildo Stein – Tenho dificuldade de avaliar a atualidade de um filósofo. Será que ela consistiria na capacidade de ele responder a problemas de nosso tempo, nas questões práticas da ética e da filosofia política? Ou ajudaria a resolver, de maneira competente, impasses no debate da filosofia teórica? A atualidade de uma obra filosófica não se mostrará pelo simples retorno de uma data da história da filosofia, 400 anos, por exemplo?

Costumamos celebrar a memória de um autor que interveio com uma obra notável em sua época, trazendo respostas esclarecedoras nas confusões dos debates que ocupavam estudiosos de várias tendências. Penso, no entanto, que hoje esperamos de um filósofo, ou de uma obra, respostas para que nós melhoremos nosso modo de fazer filosofia. Necessitamos hoje, em primeiro lugar, de pensadores que ajudem a inovar em nossas atividades filosóficas, e a corrigir a superficialidade em nosso mercado acadêmico. Suárez representa um homem que, na escolástica tardia, veio com soluções que trouxeram, no fim do século XVI, uma mudança de paradigma e deu impulsos para o começo da modernidade.

Basta olharmos para Descartes e descobriremos que o filósofo inaugurou a Modernidade com sua teoria da subjetividade. Toda a sua linguagem está atravessada pela terminologia de Suárez. Mas isso também ocorre em Christian Wolff e Kant que se alimentaram com a problemática suareziana. O pensador influenciou fortemente a filosofia moderna através da incorporação das suas tentativas de sistematização. Suárez pode ser considerado aquele que sistematizou pela primeira vez a filosofia medieval, sobretudo a ontologia. Ele superou o hábito que até então consistia em fazer apenas comentários dos textos da filosofia da Antiguidade. As Quaestiones Disputate (1597) é a primeira obra que tratou os problemas ontológicos de modo sistemático.

IHU On–Line – Em grande parte, deve–se a Heidegger o resgate de Suárez no século XX. Como se deu essa recuperação da filosofia Suáreziana?
Ernildo Stein – Certamente, Heidegger conhecia a tradição da filosofia medieval, tanto assim que escreveu um livro sobre Santo Tomás de Aquino , fez sua tese de Livre Docência sobre a Teoria do Significado, analisando o livro De Modis Significandi, que se presumia na época como sendo de Duns Scotus , mas que efetivamente, depois se descobriu ter sido escrito por Thomas de Erfurt . Pode–se imaginar o quanto o filósofo estudou Duns Scotus e, portanto, o quanto estava preparado para compreender essa passagem da filosofia por Ockham até Francisco Suárez.

Heidegger estava, portanto, informado sobre os temas suarezianos. Certamente lhe chamou atenção o tratamento que este filósofo deu aos problemas ontológicos e à própria Metafísica de Aristóteles . No seu esforço de construção sistemática, Suárez fez uma distinção entre uma Metaphysica Generalis, Ontologia Geral, de uma Metaphysica Specialis, dividida em Cosmologia rationalis, Ontologia da Natureza, Psychologia rationalis, Ontologia do Espírito, e Theologia Rationalis, Ontologia de Deus. Heidegger chega a afirmar que esse conjunto de “disciplinas filosóficas centrais retorna na Crítica da Razão Pura de Kant. A Lógica transcendental corresponde em seu fundamento à Ontologia geral. Aquilo de que Kant trata na Dialética transcendental, os problemas da psicologia a racional, da cosmologia e da teologia, corresponde a aquilo que a filosofia modera colocou em questão.

Suárez, que apresentou sua filosofia nas Disputationes Metaphysicae, não teve uma grande influência sobre o desenvolvimento ulterior da teologia no interior do catolicismo” mas, através de Fonseca, estudioso jesuíta colega de Suárez, teve forte influência sobre a Escolástica protestante. Não sei se podemos falar de uma recuperação de Suárez através de Heidegger, mas certamente, este aborda questões centrais daquele filósofo, em seu livro Problemas fundamentais da Fenomenologia.

IHU On–Line – Que elementos da metafísica de Suárez estão presentes e influenciaram a metafísica de Heidegger?
Ernildo Stein – Para responder a esta questão, na verdade, eu deveria escrever um livro. A distinctio rationalis entre essentia e existentia presentada por Suárez foi incorporada, sob diversos aspectos, no pensamento de Heidegger. Portanto, o conceito de ser em Heidegger não se liga à intervenção de Deus na criação. O conceito de ser que está escondido por baixo dessa inovação de Suárez, termina influenciando o modo como Heidegger irá falar do ser em Ser e tempo.

Portanto, quando L.B.Puntel afirma que Heidegger é por excelência o filósofo do ser no século XX, ele está nos aproximando de algo Suáreziano na analítica existencial. Assim como a distinção entre essência e existência é “quoad nos”, é, portanto, um elemento formal que usamos para pensar a diferença entre ser finito e ser infinito, assim também o conceito de ser em Heidegger é apenas um instrumento para pensar. “Tão finitos somos nós que precisamos do conceito de ser para pensar” (M.H.). O quanto ressoa na ideia da “compreensão do ser” de influência suareziana exigiria uma longa explicação. O que podemos dizer numa frase é que Heidegger quer repensar a metafísica com seu conceito de ser que se distancia profundamente do realismo tomista. Para imaginar isto, citemos mais uma vez Heidegger: “O pior idealismo é melhor do que o melhor realismo”.

IHU On–Line – Em relação à recepção da metafísica de Tomás de Aquino e de Francisco Suárez, diria que há uma preferência pela abordagem tomista? Por que e em quais aspectos?
Ernildo Stein – Se fôssemos ler o livro de Heidegger sobre Santo Tomás de Aquino, que resultou de um curso pouco depois de publicar Ser e tempo, diríamos que o autor conhecia as questões centrais de Santo Tomás, mas somente um filósofo com influência Suáreziana no núcleo de seu pensamento apresentaria desse modo o pensamento tomista. Talvez tenhamos que aprender nesse contexto o quanto o conceito de metafísica de Heidegger, que ele irá chamar de fenomenologia hermenêutica, desconstruiu a metafísica clássica, e abre as portas para vários conceitos de metafísica.

IHU On–Line – Qual tem sido a recepção da metafísica de Suárez entre os heideggerianos?
Ernildo Stein – Penso que ainda está por surgir uma linha de interpretação de Heidegger que realmente faça justiça à influência secreta do autor de Disputationes Metaphysicae sobre o autor de Ser e tempo. Para um leitor cuidadoso e bem informado, recomendo para essa questão meu livro A caminho do paradigma hermenêutico – ensaios e conferências (Unijuí, 2017).

IHU On–Line – Qual é o papel de Suárez na filosofia contemporânea, para além do projeto ontológico de Heidegger?
Ernildo Stein – Essa pergunta deve ser feita para um conhecedor da obra de Suárez e que saiba analisar com cuidado o que significa uma possível influência que tenha sentido, de um filósofo do século XVI na filosofia do século XXI. Assim como se procede, de maneira geral, na comparação entre pensadores filosóficos, Suárez não teria nenhum papel na filosofia atual. Faz pouco sentido estudar um filósofo do fim da Idade Média apenas do ponto de vista da história da filosofia. Seria necessário imaginar Suárez com os recursos que hoje dispomos para discutir o que ele nos tem a ensinar. Em geral, faz–se apenas uma história da filosofia, quando não se fica preso dogmaticamente a uma doutrina do passado. Para compreender essa questão, leia–se meu livro Às voltas com a Metafísica e a Fenomenologia (Unijuí, 2014).

IHU On–Line – Ao longo do século XX – e de certo modo, atualmente – a metafísica sofreu duras críticas, e viu sua legitimidade ameaçada. Qual é o sentido de continuar estudando metafísica nos dias de hoje?
Ernildo Stein – Aristóteles, no livro 6º da Metafísica, afirma: “estive falando com um homem que disse que não necessitava dos princípios da metafísica. Tive a impressão de estar falando com uma árvore”. O que existe hoje de recusa do pensamento especulativo, portanto, de recusa das questões centrais da metafísica, me faz lembrar o título de um livro de Cornelius Castoriadis , A ascensão da insignificância...

Leia mais
– “Já temos uma filosofia brasileira”. Entrevista com Ernildo Stein, publicada na revista IHU On–Line número 379, de 7–1–2011.

O abismo entre a ética da psicanálise e o discurso ético universal. Entrevista com Ernildo Stein, publicada na revista IHU On–Line número 303, de 10–8–2009.

Depois de Hegel: “o mais original diálogo entre Filosofia analítica e dialética”. Entrevista com Ernildo Stein, publicada na revista IHU On–Line número 261, de 9–6–2008.

O destino do ser na era do individualismo. Entrevista com Ernildo Stein, publicada na revista IHU On–Line número 220, de 21–5–2007.

Narrativas de Deus são fragmentárias como era pós–metafísica. Entrevista com Ernildo Stein, publicada na revista IHU On–Line número 308, de 14–7–2009.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição