Edição 511 | 25 Setembro 2017

Francisco Suárez

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Marcelo F. de Aquino, S.J.

Marcelo F. de Aquino, S.J. é reitor da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos e professor do Programa de Pós-Graduação em Filosofia. 

Eis o artigo.

1. Suárez desponta de dentro de um grupo de pensadores jesuítas, sistemáticos tais como Luís de Molina , Gabriel Vásquez e Leonardo Lessius , controversistas como Roberto Bellarmino , Jakob Gretzer e Adam Tanner , e ainda o grupo dos filósofos jesuítas conimbricensis, como Pedro da Fonseca .

Estudou teologia em Salamanca (1566–1570), onde foi discípulo de Mancio de Corpus Christi o.p. e de Juan de Guevara o.s.a . De 1571 a 1573 ensinou filosofia em Segóvia, de 1574 a 1575 ensinou teologia em Valladolid, em 1575 em Segóvia e de novo, de 1576 a 1580, em Valladolid, onde comentou a primeira parte da Suma Teológica de Tomás de Aquino.

De 1580 a 1585, ensinou teologia em Roma, no Colégio Romano , as matérias correspondentes à segunda e à terceira partes da Suma Teológica. Suas Quaestiones de Beata Maria Vergine podem ser consideradas a primeira Mariologia sistemática.

Em setembro de 1585, transferiu–se a Alcalá como leitor de teologia. Lecionou os tratados De incarnatione em 1585 e 1586, De sacramentis em 1586 e 1587 e De poenitentia, De aliis sacramentis e De censuris de 1588 a 1593. Em Alcalá, publicou suas primeiras obras: De incarnatione em 1590 e De mysteriis vitae Christae em 1592.

Em 1593, transferiu–se para Salamanca, por motivo de tensões com Gabriel Vázquez. Aí ensinou em 1593 e 1594, dedicando–se sobretudo à publicação de várias de suas obras, especialmente as Disputationes Metaphysicae , em 1597, suprema expressão de seu pensamento filosófico e por ele considerada como base filosófica necessária a sua teologia. Data de 14 de junho de 1594 sua carta ao Cardeal Toledo em que participa pela primeira vez nas controvérsias De auxiliis .

Em 1597, assumiu uma cátedra em Coimbra onde, em 1599, publicou seis tratados sobre De auxiliis sob o título Varia opuscula theologica. De 1601 a 1603, ensinou De legibus, publicado em 1612. Com esta obra, foi reconhecido como jurista.

Em 1602, publicou De poenitentia. Em 1603, foi denunciado ante o papa Clemente VIII por Domingos Bañez no contexto das tensões geradas pelas controvérsias De auxiliis, tendo sua posição condenada.

Em 1604, esteve em Roma para justificar sua doutrina. Paulo V procurou distensionar este ambiente polêmico e emite um “Breve” elogioso em 1607 chamando–o “teólogo exímio e piedoso”. Em 1613, publicou Defensio fidei catholicae, em que criticava o juramento que o rei James I da Inglaterra passara a exigir de seus súditos a partir de 1605, e sua apologia que o mesmo rei publicara em 1608.

A pedido do padre Aquaviva , em 1592, então superior geral da Companhia de Jesus, Suárez preparou seu tratado De virtute et statu Religionis, cujos dois primeiros tomos foram publicados em 1608 e 1609, um amplo estudo sobre o Instituto da Companhia de Jesus e um comentário aos Exercícios Espirituais de Inácio de Loyola. Os tomos 3 e 4 desta obra foram publicados após sua morte.

A metafísica de Suárez influenciou alguns pensadores luteranos e calvinistas, como, por exemplo, Jakob Martini e Clemens Timpler . Também recebeu forte oposição, veja–se Johann A. von Werdenhagen . Na primeira metade do século XVII, a metafísica suareziana exerceu forte influência em todas as universidades da Alemanha e da Holanda.

2. As Disputationes Metaphysicae de Suárez são o resultado de um caminho tortuoso que a partir de Duns Scotus desconstroem os alicerces conceptuais sobre os quais repousa o edifício da metafísica tomásica: a distinção real de essência e existência no ser finito, a identidade intencional entre o intelecto em ato e o inteligível em ato como estrutura fundante da intelecção, e a estrutura analógica do conceito de ser.

Em poucas palavras, a primazia da representação paulatinamente implantada a partir de Duns Scotus faz refluir para o sujeito o princípio último da fundamentação do ser. Nesse sentido, as Disputationes suarezianas preparam a total reestruturação do espaço metafísico, do qual é excluída a validez do conhecimento analógico na elaboração da ideia de ser e dos seus atributos, que será levado a cabo por Descartes .

Em seu livro Suárez et le système de la Métaphysique , J.–F. Courtine , embasado em sólida pesquisa textual sobre as Disputationes Metaphysicae, afirma que nessa obra suareziana a metafísica como corpo organizado de saber, pela primeira vez na sua história, deixa de ser um comentário aos livros da Metafísica de Aristóteles, sendo exposta na forma rigorosa de um sistema. Dessa sorte, Suárez antecipa e programa as ambições sistemáticas que impelirão o racionalismo moderno. Além disso, as Disputationes rememoram de modo grandioso a história da metafísica ocidental, desde Aristóteles lido com o apoio do grande comentário de Pedro da Fonseca , até a escolástica medieval.

O lugar histórico–teórico no qual as Disputationes Metaphysicae se situam e a partir do qual Suárez pode percorrer o caminho que leva do universo metafísico de Tomás de Aquino ao universo metafísico que inaugura a metafísica moderna ocupa o centro das investigações contemporâneas sobre seu pensamento. Cabe reafirmar que se por um lado Suárez pretende ser fiel a Tomás de Aquino, por outro lado ele foi um dos primeiros a cruzar o limiar da metafísica moderna.

A invenção suareziana do “sistema da metafísica” é uma ponte lançada entre a metafísica tomásica do ato de existir, como ponto de partida, e a metafísica racionalista das essências, como ponto de chegada. Ela indica um progressivo afastamento da Idade Média e uma consequente aproximação das terras modernas do pensamento filosófico.

Nos fundamentos do sistema moderno da metafísica estão opções teóricas, tanto no plano noético–epistemológico quanto no plano noético–metodológico, que já aparecem nas Disputationes Metaphysicae. Mesmo que Suárez permaneça fiel aos quadros da teoria aristotélica de ciência, suas Disputationes introduzem nela mudança radical ao operar a substituição definitiva da doutrina aristotélica do subjectum scientiae fundada sobre a pressuposição da relação imediata da inteligência com o ser pela concepção de um objectum scientiae que tem suas raízes em Avicena , Henrique de Gand e que foi amplamente elaborada por Duns Scotus. Precisamente esta é a questão inicial de Suárez: quod sit Metaphysicae objectum.

Tal concepção do objectum scientiae no domínio da metafísica assinala o triunfo da representação sobre o ser, ou do esse objectivum sobre o esse in re. Trata–se de verdadeira revolução noética que transforma radicalmente o estatuto do saber metafísico e que torna possível a definição de um conceito unívoco do ser como ens generalissimum ou ens ut sic que na sua indeterminação e indiferença de princípio a qualquer conteúdo, abrange o finito e o infinito, o absoluto e o relativo, as criaturas e Deus.

Essa definição de ser se refere à essência ou à coisa (aliquid ou res). Não reconhece nenhuma inteligibilidade intrínseca ao ato de existir (esse) que, segundo Tomás de Aquino, é fundamento da estrutura analógica da noção de ser.

A constituição do conceito unívoco do ens ut sic é a opção noética fundamental de Suárez. Dela decorre sua opção metodológica de conferir uma estrutura sistemática ao pensamento metafísico. As Disputationes Metaphysicae podem, assim, reivindicar justamente o lugar histórico de marco inaugural da ideia moderna de sistema.

As opções metafísicas de Suárez decorrem de suas opções noético–metodológicas. Uma opção metafísica é a primazia do ens ut nomen em consequência da primazia da acepção nominal do ens ut tale ou ens ut sic. A univocidade da noção de ser determinará o aparecimento, no horizonte da reflexão metafísica, de novo modelo de ciência do ser, que a posteridade suareziana designará como Ontologia ou Metaphysica generalis.

Cabe ressalvar que Suárez tenta recuperar, dentro do espaço lógico do ens ut sic, a analogia como analogia de atribuição, que permanece subordinada à univocidade do ens ut sic, que é atribuído, segundo uma ordem ascendente de atribuição, à escala dos seres coroada pelo Ens summum.

Na metafísica suareziana, o Absoluto é submetido a uma dupla forma de conceptualização. Em primeiro lugar como ens summum ou ens infinitum, compreendido sob o ens ut tale no domínio da Ontologia e constituindo a onto–teologia no sentido tipicamente moderno. Em segundo lugar, considerado na sua existência e nos seus atributos, objeto da Teologia natural ou Teodiceia.

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