Edição 510 | 04 Setembro 2017

O corpo e a cidade

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Fernando Del Corona

Filme apresenta mundo gay da periferia de São Paulo com delicadeza e intimidade

Corpo elétrico é uma produção rara no cinema ao representar de maneira honesta e naturalizada a experiência queer

“Se o corpo não é a alma, o que é a alma?”, perguntou Walt Whitman no século 19 em seu poema Eu canto o corpo elétrico. O mineiro Marcelo Caetano, diretor de Corpo elétrico, parece fazer a pergunta: o que é a alma da cidade, se não o corpo das pessoas que a habitam?

A cidade, no caso, é São Paulo, mas não a São Paulo que se vê no cinema, da Paulista e da Zona Sul. É a São Paulo dos imigrantes, dos operários, da periferia. A história se passa no bairro do Bom Retiro e gira em torno de um grupo de trabalhadores em uma confecção de roupas. O protagonista é o estilista gay Elias (Kelner Macêdo), que transita no limiar entre seus chefes que tiram férias na Europa e seus colegas que lidam com horários abusivos e condições de trabalho que beiram ao insalubre.

Apesar do foco central em Elias, o filme toma um espectro muito mais amplo. O que aparece é um retrato da vida gay urbana no Brasil, de uma realidade proletária cujas histórias não são contadas. Na obra, o corpo queer não é violentado, vitimizado. Ele assume uma potência imagética de liberação, controle próprio, protesto, coragem. Existe sem medo como forma de retomar e preencher a cidade. É esse corpo que transita pelas ruas, bares e campos de futebol, que trazem pulsão para o ambiente que transitam. Não são os corpos mecanizados tão populares na arte contemporânea: Caetano apresenta o afeto como arma política.

Os personagens que povoam a fábrica encontram entre eles famílias substitutas para aquelas que tiveram que abandonar. O próprio Elias vem da Paraíba. O novo funcionário, Fernando (Welket Bungué), de Guiné-Bissau. Um deles, Wellington (Lucas Andrade), desenha roupas para uma família de drag queens. São essas ligações afetuosas que os permitem viver – e sobreviver.

Em uma cena magistral, o grupo sai andando à noite por uma rua deserta, conversando entre si conforme a câmera avança com eles em um longo plano em que essas relações ficam visíveis, se formando e reconstituindo ao longo do tempo. A realidade deles é exposta através do diálogo casual, um dos pontos fortes do filme. Não existe aqui uma trama central, baseada em objetivos grandiosos ou em um encaminhamento romântico óbvio, é apenas uma fatia de vida desses personagens.

Caetano trabalhou em alguns dos melhores filmes nacionais recentes. Foi co-roteirista de Mãe só há uma (2016), de Anna Muylaert, ator em Boi neon (2015) – que também tem como protagonista um estilista sonhador em um ambiente pouco favorecedor –, de Gabriel Mascaro, assistente de direção em Tatuagem (2013), de Hilton Lacerda, e produtor de elenco de Aquarius (2016), de Kleber Mendonça Filho, em que conheceu Macêdo em um teste de elenco. Seu primeiro longa-metragem é um grito de força como poucos. É raro no cinema se ver uma representação tão honesta e naturalizada da experiência queer em uma abordagem periférica – e, mais raro ainda, feliz. Não existe tragédia no filme, e isso não é uma maneira de negar esta realidade, mas de mostrar que não é a única, que há possibilidade de se viver assim e ter uma vida plena.

Elias encontra afeto por onde passa, seja em relações antigas, em uma transa escondida com um segurança de shopping, em festas ou no trabalho. A vida, o sexo e o corpo gay não são higienizados ou heteronormatizados, são reais e palpáveis e apresentados sem julgamento. Ainda mais, os corpos em tela são os da vida real: novos, velhos, negros, brancos, trans, cis, em forma ou não. A realidade no filme em momentos beira o documental, e algumas cenas levantam a questão de se realmente existe um roteiro ou até uma atuação por trás. Parece que são pessoas cuja existência antecede ao filme, interagindo entre si como o fariam caso a câmera não estivesse lá.

Não existe muito a ser revelado sobre a história. Os personagens vivem suas vidas, cruzam caminhos e pulam de cama em cama, encontram momentos para compartilharem. As festas vêm em sucessão, assim como as conversas pós-sexo. A única maneira possível de contar a trama seria narrar os acontecimentos na ordem em que ocorrem, porque é assim que os fatos desses personagens se desenrolam, efêmera. É a experiência de observar a vida de outras pessoas, uma realidade táctil.

Em um momento, Wellington leva Elias para conhecer a família drag para a qual ele desenha roupas, que inclui Márcia Pantera, ícone da cena nacional e pioneira da arte de bater cabelo, e Simplesmente Pantera, interpretada pela funkeira transexual Linn da Quebrada. Sua voz, assim como a de outras cantoras, como MC Carol, preenchem a trilha sonora ao lado de uma composição de Villa-Lobos. É uma sequência de cenas incríveis. Percebe-se, através do diálogo, uma história prévia entre essas pessoas da qual, assim como de Elias, vemos apenas uma parte. Existem desconfianças e desentendimentos, assim como em qualquer lugar, mas também um carinho e um cuidado imenso.

O cinema gay brasileiro tem passado por uma safra notável nos últimos anos. Além de Tatuagem, filmes como Praia do futuro (2014), de Karim Aïnouz – que dirigiu em 2002 Madame Satã, outro que relata a vida queer periférica ao contar a história da famosa transformista dos anos 1920, ainda que sob uma abordagem notadamente diferente –, Beira-mar (2015), de Filipe Matzembacher e Márcio Reolon, e Hoje eu quero voltar sozinho (2014), de Daniel Ribeiro, assim como Divinas divas (2017), de Leandra Leal, e Castanha (2014), de Davi Pretto, são obras que refletem sobre performance e identidade de gênero. Esses filmes ajudam a criar um panorama da identidade LGBT nacional que começa a fugir de clichês e tragédias ao qual o gênero se acostumou por conta das representações de uma realidade sombria, marcada por medos, por violências e – figura típica na narrativa gay dos últimos 30 anos – pelo HIV/aids. Corpo elétrico não esconde totalmente a existência do preconceito, mas esse aparece na margem, como em um comentário maldoso do amigo de um deles ao ver o grupo reunido, e não como regra e ponto central na vida deles.

Corpo elétrico é um filme necessário, fruto de uma tendência animadora para o cinema brasileiro e para a representativa queer. É um filme que mistura atuações excelentes – há tempo não se via um elenco tão eclético e satisfatório em uma obra só – a uma narrativa original com visão aguçada para a linguagem cinematográfica. Caetano se revelou uma promessa importante para o cinema nacional, que passa por uma das suas melhores fases.

Uma ode ao corpo e à cidade, Corpo elétrico mescla as duas em uma. Das ruas para a intimidade nua da cama, são as pessoas que povoam e dão alma para o mundo que habitam – um mundo que, por mais frio e indiferente que possa ser, ainda oferece o afeto para quem estiver disposto a aceitá-lo.

Ficha técnica

 

Corpo elétrico
Direção: Marcelo Caetano
Produção: Marcelo Caetano, Roberto Tibiriçá
Elenco: Kelner Macêdo, Welket Bungué, Lucas Andrade, Márcia Pantera, MC Linn da Quebrada
Brasil, 2017, 94 min.

Assista ao trailer

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