Edição 510 | 04 Setembro 2017

Os sírios romperam o muro do medo e não voltarão atrás

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João Vitor Santos e Patricia Fachin | Tradução de Moisés Sbardelotto

Riccardo Cristiano recorda o desaparecimento de Paolo Dall’Oglio e reflete sobre as diferenças entre ocidente e oriente

“A presença de Paolo na Síria, na minha opinião, foi percebida como um desafio para aqueles que consideravam que podiam fazer dela um autodenominado Estado confessional ou familiar. Era um desafio que, evidentemente, deve ter parecido intolerável, também por causa do enorme consenso que a sua mensagem de unidade e democracia madura, respeitosa das diferenças étnicas e religiosas, e de superação do ‘estado napoleônico’ repercutia em todos os ambientes”, diz o presidente da Associação de Jornalistas Amigos do Padre Paolo Dall’Oglio, Riccardo Cristiano, à IHU On-Line, na entrevista a seguir, concedida por e-mail.

Na avaliação de Cristiano, Dall’Oglio, que está desaparecido há quatro anos, desde que retornou à Síria, “estava convencido de que podia haver um futuro pluralista na Síria, porque o Islã sírio tem uma peculiaridade própria, é o Islã do Levante, aquele que soube encontrar nada menos do que duas vezes o caminho da democracia consensual no Líbano”. Entretanto, adverte, “se deixarmos que toda a liderança iluminada sunita seja assassinada impunemente, não é difícil imaginar com quem nos encontraremos dialogando. Além disso, constatado o fracasso dos métodos usuais de “tortura preventiva” para reprimir a demanda de liberdade, cumpre-se a opção-Pinochet, internando um país, e, fracassada também esta, escolhe-se a opção-Sansão, destruindo cidades inteiras sobre a cabeça dos seus habitantes. Os fatores que impediram a liberdade e a democracia e deram impulso a esse terrorismo obsceno parecem evidentes”.

Na entrevista a seguir, o jornalista também comenta brevemente os conflitos que ocorrem na Síria hoje e afirma que “o principal problema é que os sírios romperam o muro do medo e não voltarão atrás. Assim, decidiu-se deportá-los do seu país. Nesse evento sem precedentes na história das relações entre um povo e o seu governo, a inação da comunidade internacional permitiu o ingresso de outros problemas gigantescos: terrorismo, jihadismo, imperialismos regionais opostos”.

Riccardo Cristiano é jornalista e escritor italiano. É autor de Síria. L'Ultimo genocídio (Castelvecchi, 2017).


Quem é Paolo Dall'Oglio?

Jesuíta italiano, Dall'Oglio é conhecido por ter restabelecido na Síria, na década de 1980, a comunidade monástica católica-siríaca de Mar Musa (mosteiro de Saint Moses the Abyssinus), herdeira de uma tradição cenobítica e hermitica que remonta ao século VI. O mosteiro, localizado no deserto ao norte de Damasco, também acolhe membros da religião ortodoxa.

Paolo Dall'Oglio está fortemente envolvido no diálogo inter-religioso com o mundo islâmico. Foi ameaçado de expulsão por seu ativismo durante os protestos populares em 2011. O decreto de deportação não foi inicialmente implementado, pois houve um acordo com as autoridades sírias no qual o jesuíta teve que manter um "perfil discreto". Ele foi obrigado a abster-se de se expressar publicamente sobre a situação política do país. Em 12 de junho de 2012 foi expulso da Síria, quando se mudou para Sulaymanya, Kurdistão.

Em 2013, Dall'Oglio retornou ao norte Sírio controlado por rebeldes, onde estava envolvido em negociações difíceis para a libertação de um grupo de reféns em Raqqa. Como ele estava na capital síria da Raqqa, tentou conciliar as relações entre os grupos curdos e os jihadistas árabes, com vistas à libertarção de um grupo de reféns na parte oriental do país, suas faixas foram perdidas. Em 29 de julho de 2013, ele foi sequestrado por um grupo de extremistas islâmicos perto de Al Qaeda .

Em 12 de agosto de 2013, um site árabe espalhou a notícia de seu assassinato, que a ministra do Exterior da Itália, Emma Bonino, não confirmou. Desde então, não se tem mais notícias do religioso.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as questões-chave do livro Paolo Dall’Oglio, la profezia messa a tacere?
Riccardo Cristiano – O livro procura reconstruir a sua história humana, espiritual e cultural. O seu amor pela Síria e o amor dos sírios por ele, o seu grandíssimo papel no e pelo diálogo, na revolução não violenta e democrática que ele viu nascer e buscou acompanhar até pôr em jogo, conscientemente, a sua própria vida. Há testemunhos jornalísticos e reconstruções de grandes intelectuais, não apenas italianos, não apenas cristãos e muçulmanos, de grandes estudiosos, para entender o que ele ofereceu. E, entre essas duas partes, uma seleção das suas contribuições para a revista jesuíta Popoli , com a qual ele colaborou durante anos.

IHU On-Line – Qual era o contexto político da Síria na década de 1980, quando Dall’Oglio chegou ao país? Que relações é possível estabelecer entre aquele e o atual momento político do país? Ainda nesse sentido, pode nos contar sobre a trajetória e a missão de Dall’Oglio na Síria ao longo desses anos?
Riccardo Cristiano – Era um momento dramático. O massacre de Hama tinha acontecido recentemente quando Paolo descobriu o mosteiro de Mar Musa. O melhor símbolo para entender a relação entre essas duas datas, a de chegada e a de partida, a data da sua expulsão, é a destruição feroz, total, indiscriminada e absoluta. Antes, de uma cidade, depois, de um país.

IHU On-Line – Quais você diria que são hoje os principais problemas e conflitos da Síria?
Riccardo Cristiano – O principal problema é que os sírios romperam o muro do medo e não voltarão atrás. Assim, decidiu-se deportá-los do seu país. Nesse evento sem precedentes na história das relações entre um povo e o seu governo, a inação da comunidade internacional permitiu o ingresso de outros problemas gigantescos: terrorismo, jihadismo, imperialismos regionais opostos.

IHU On-Line – O que é e como funciona a comunidade inter-religiosa de Deir Mar Musa al-Habashi, na Síria, fundada por Dall’Oglio? E qual foi seu objetivo com o mosteiro de São Moisés, o Abissínio, no deserto ao norte de Damasco?
Riccardo Cristiano – É uma flor no gramado do diálogo. Uma comunidade de monges e monjas, não apenas católicos, que vivem em diálogo e no diálogo cotidiano, humano, factual, espiritual, vital com os muçulmanos. O nosso futuro é juntos, ou não temos futuro, dizia Paolo. E ele começou a construir também uma hermenêutica dos textos sagrados baseada nos excluídos, como eleitos de amanhã. Uma peça fundamental da teologia dos pobres do papa Francisco.

IHU On-Line – Qual era a relação ou a posição de Dall’Oglio sobre o regime de Assad, na Síria, e como era sua relação com os grupos islamitas? Pode nos contar como se deu a aproximação dele com o regime?
Riccardo Cristiano – É ele mesmo quem conta, dizendo que era evidente a intenção de usar os vistos para estabelecer uma relação de “aliança” com as hierarquias eclesiásticas. Mas Paolo foi oferecer um serviço, ouviu o seu chamado naquela fronteira e esperou o seu rebanho.

IHU On-Line – Pode nos contar como foi o episódio em que Dall’Oglio foi expulso da Síria e como se deu seu retorno ao país em 2013?
Riccardo Cristiano – Ele tinha aceitado o pedido de silêncio imposto pelo regime sírio. Mas, quando o plano de Kofi Annan reconheceu o direito à livre expressão crítica, ele tomou para si aquele direito reconhecido. Mas o governo de Damasco acreditava que, ao fazer isso, Paolo tinha violado o compromisso ao silêncio. Não renovou a sua autorização de residência e pediu ao seu bispo que o convencesse a deixar o país.

IHU On-Line – Alguns ativistas dizem que Dall’Oglio havia agendado um encontro com Abu Bakr Al Baghdadi, chefe do “Estado Islâmico do Iraque e do Levante”, para discutir a libertação de sequestrados e a sempre mais difícil convivência entre grupos e confissões na região. Que informações você tem sobre esse encontro? Ele de fato aconteceu?
Riccardo Cristiano – O que Paolo pedira ou pretendia fazer, eu não sei, e acho que nenhuma das reconstruções que circulam tampouco saibam. Também não tenho certeza de que ele foi capturado enquanto estava sozinho diante do tétrico palácio do ISIS. Outros estiveram lá sozinhos, até mesmo protestando, e voltaram para casa.

IHU On-Line – Em que contexto político se deu o sequestro de Dall’Oglio na Síria? Como você compreende o sequestro dele? Que notícias e informações tem sobre o sequestro?
Riccardo Cristiano – A presença de Paolo na Síria, na minha opinião, foi percebida como um desafio para aqueles que consideravam que podiam fazer dela um autodenominado Estado confessional ou familiar. Era um desafio que, evidentemente, deve ter parecido intolerável, também por causa do enorme consenso que a sua mensagem de unidade e democracia madura, respeitosa das diferenças étnicas e religiosas, e de superação do “estado napoleônico” repercutia em todos os ambientes.

IHU On-Line – Há muitos casos de desaparecimento como o de Dall’Oglio? Pode nos falar um pouco sobre alguns desses casos?
Riccardo Cristiano – Há o caso muito conhecido e doloroso dos dois bispos ortodoxos, por exemplo, também eles sequestrados, nos arredores de Aleppo, em circunstâncias obscuras, com uma sucessão de rumores que duram há anos e que indicam como iminente, por meio de fontes autorizadas, a libertação mediante o pagamento do resgate, que nunca chega. Somos levados a pensar em despistagens.

IHU On-Line – Muitos dizem que Dall’Oglio acreditava na possibilidade de construir uma Síria livre, democrática, pluriconfessional. Que informações e memórias você tem sobre os relatos dele acerca desse objetivo? Segundo ele, quais eram os fatores que impediam a liberdade e a democracia na Síria?
Riccardo Cristiano – É claro, ele estava convencido de que podia haver um futuro pluralista na Síria, porque o Islã sírio tem uma peculiaridade própria, é o Islã do Levante, aquele que soube encontrar nada menos do que duas vezes o caminho da democracia consensual no Líbano. Mas, se deixarmos que toda a liderança iluminada sunita seja assassinada impunemente, não é difícil imaginar com quem nos encontraremos dialogando. Além disso, constatado o fracasso dos métodos usuais de “tortura preventiva” para reprimir a demanda de liberdade, cumpre-se a opção-Pinochet, internando um país, e, fracassada também esta, escolhe-se a opção-Sansão, destruindo cidades inteiras sobre a cabeça dos seus habitantes. Os fatores que impediram a liberdade e a democracia e deram impulso a esse terrorismo obsceno parecem evidentes.

IHU On-Line – Quais são os órgãos que atualmente estão investigando o sequestro dele e que informações eles fornecem sobre o caso? Que informações vocês obtiveram sobre ele ao longo desses quatro anos, desde o sequestro do padre Dall’Oglio?
Riccardo Cristiano – Nenhuma.

IHU On-Line – Qual é a repercussão do sequestro dele na Itália, especialmente no Vaticano? Ainda nesse sentido, como o governo italiano e o Vaticano têm atuado para obter informações sobre Dall’Oglio? Que notícias se têm na Itália sobre o desaparecimento de padre Paolo desde 29 de julho de 2013?
Riccardo Cristiano – Nós não nos ocupamos com investigações e não acreditamos que seja oportuno fazê-lo. Observamos as reações sociais, muitas das quais consideramos inquietantes. A mensagem de Paolo é menos conhecida do que a da rede Voltaire, que vê complôs estadunidenses ou sionistas por toda a parte, chegando a desejar que Idlib acabe logo com Aleppo. Mas as palavras do papa Francisco e do presidente [italiano] Mattarella chamaram a atenção para o testemunho de Paolo, que ofereceu a vida, não as especulações escritas na própria casa [na Itália], para salvar a paz, a dignidade e a categoria de “bem comum”.

IHU On-Line – Como, na sua avaliação, a comunidade internacional, especialmente a europeia, tem lidado ou respondido aos conflitos existentes na Síria? Que questões de fundo, políticas e de relações internacionais, estão em jogo no tratamento desse caso?
Riccardo Cristiano – Está em jogo o futuro do Mediterrâneo, do viver juntos, do cosmopolitismo. Estamos no retorno de formas de paz distantes, aquelas que impunham o “cuius regio eius religio” . O corredor buscado por Teerã para trazer de volta os persas até o Mediterrâneo tem gosto de vingança histórica contra Alexandre Magno .

IHU On-Line – Como vem sendo a atuação de religiosos na Síria depois do desaparecimento de Dall’Oglio? Como seu desaparecimento impactou ou vem impactando na missão de religiosos no país?
Riccardo Cristiano – Sobre isso, seria preciso perguntar a eles. Certamente, a estima pelo núncio apostólico na Síria, o cardeal Zenari , é enorme. E a sua nomeação ao Colégio Cardinalício é um sinal importantíssimo, decisivo, para todo o cristianismo oriental.

IHU On-Line – Como a perspectiva da religião, especialmente a promoção do diálogo inter-religioso, pode contribuir para dirimir os conflitos no país? E quais os seus limites?
Riccardo Cristiano – Por que os cristãos estão na mira dos terrorismos, de grupos jihadistas e, às vezes, de aparatos? Porque são a carne macia do vasto corpo moderado, iluminado do Levante. O trabalho a ser feito é imenso. Não acho que haja outro mais importante. O recente congresso de al-Ahzar sobre a cidadania, que falou oficialmente de “ummah geográfica”, isto é, de comunidades de habitantes de um espaço que se autodeterminam com base em uma constituição compartilhada, é um marco que deveria ser aprendido de cor, e não apagado do debate público.

IHU On-Line – Que relações estabelece entre o terrorismo e o islamismo jihadista? Diria que a chamada “guerra ao terrorismo” criminaliza a cultura islâmica e que há uma perspectiva ocidentalizada na realidade dos conflitos da Síria de hoje? Sim ou não e por quê?
Riccardo Cristiano – Francamente, hoje, eu vejo a hipótese de uma Santa Aliança contra a Guerra Santa. É uma perspectiva que abrange alvos políticos e pretensas hegemonias. A nossa associação não tem uma posição definida sobre isso, mas eu considero que a geopolítica da misericórdia do papa Bergoglio, que rejeita dar patentes a priori de bondade e de maldade, é para todos nós muito previsível. Antigamente, alguns diziam “socialismo ou barbárie”, já que o Estado sírio foi autorizadamente definido, décadas atrás, de “Estado bárbaro”. Eu acho oportuno falar de “direitos humanos ou barbárie”. E todos sabemos de que lado Assad , ISIS e os pasdaran estão.

Leia mais sobre Paolo Dall’Oglio

- Síria, a esperança “combativa” de Paolo Dall’Oglio. Artigo de Federico Lombardi, publicado nas Notícias do Dia de 2-6-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Paolo Dall’Oglio, ‘símbolo do diálogo entre as religiões’. A declaração de Sergio Mattarella, presidente da Itália, reproduzida nas Notícias do Dia de 31-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Paolo Dall´Oglio: o monge cristão enamorado do Islã. Artigo de Faustino Teixeira, professor e pesquisador do PPCIR-UFJF, publicado nas Notícias do Dia de 31-7-2013, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- “Sonhem a Síria livre”: as últimas palavras do padre Paolo Dall'Oglio. Reportagem publicada por La Repubblica e reproduzida nas Notícias do Dia de 28-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Após quatro anos a mensagem do Padre Paolo Dall’Oglio é mais forte do que nunca. Reportagem publicada por Huffington Post e reproduzida nas Notícias do Dia de 28-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

- Dall'Oglio: a comunidade de Mar Musa ainda espera. Reportagem publicada por La Repubblica e reproduzida nas Notícias do Dia de 28-7-2017, no sítio do Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

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