Edição 509 | 21 Agosto 2017

O filho pródigo retorna a Salas

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Fernando Del Corona

O filme argentino O cidadão ilustre reflete com humor os limites entre ficção e realidade e o papel do artista por meio da relação de um autor com seu vilarejo natal

“Se queres ser universal, começa por pintar a tua aldeia”, disse Tolstói. O cidadão ilustre, da dupla de diretores Gastón Duprat e Mariano Cohn, começa com uma citação semelhante. Conforme Daniel Mantovani (Oscar Martínez) recebe o Nobel da literatura na cena de abertura, um mestre de cerimônias afirma que suas histórias sobre Salas, o seu pequeno vilarejo natal, funcionam como um espelho para a natureza humana. Daniel aceita o prêmio – sem traje de gala, sem se curvar para os monarcas, ao contrário do que pedia o protocolo –, mas, em seu discurso, é categórico: “Essa canonização é fatal”. Para ele, o dever de um autor é provocar a sociedade, e uma vez que sua obra se encontra tão aceita e confortável dentro do establishment, sua jornada criativa definha – o que lembra o rumo de tantos artistas de protesto e seus encontros conturbados com a fama, como o sisudo Bob Dylan.

Dessa potente cena inicial, passam-se cinco anos. Daniel, expatriado argentino morando em Barcelona, recusa convite após convite trazidos por sua assistente Nuria (Nora Navas) para participar de eventos importantes ao redor do mundo. Ao que tudo sugere, sua profecia se tornou verdade, e ele não produziu mais nada desde seu Nobel. Finalmente, um convite chama sua atenção: ir para Salas, de onde saíra há 40 anos sem nunca mais voltar, a fim de receber a medalha de cidadão ilustre, a maior honra que a cidade outorga.

Para ele, a única coisa que fez na vida foi sair daquele lugar. Depois de certo receio, e para a surpresa de Nuria, aceita o convite, mas com certas condições. Entre elas, que a imprensa não fique sabendo – mas assim que embarca no avião, o piloto anuncia com orgulho a presença de um vencedor do Nobel entre eles. Com esse pequeno presságio, seguido por um rápido interlúdio envolvendo sua jornada de carro até Salas, a sete horas de distância de Buenos Aires – o longa é dividido em capítulos, o que se mostra relevante mais para frente –, começa a principal história do filme.

Imagem: Divulgação

No centro de O cidadão ilustre está a relação de Daniel com Salas. Sua obra – e, por extensão, sua fama e seu dinheiro – foi construída em cima de representações pouco favoráveis da cidade interiorana, de suas hipocrisias, de seus personagens, de suas limitações. Ele não parece ter uma lembrança especialmente carinhosa de crescer lá, mas mantém uma relação quase parasítica com o lugar. Sua ligação é daquelas que ocorre somente com memórias distantes da juventude, que poderiam ser de outra pessoa, mas nas quais ele está inserido novamente.

Da mesma maneira, a cidade aparenta pouco interesse no que ele escreveu. Mais ainda, a maioria deles parece inicialmente ignorante em relação ao que foi escrito sobre eles, sobre o fato de que Daniel possa ter revelado verdades locais incômodas em uma escala mundial. Assim, todos se mostram animados que o filho famoso retornou apenas como quem se interessa por uma celebridade. Seguem-no na rua, os bombeiros insistem em um desfile em seu caminhão acompanhado de uma miss e o animado prefeito (Manuel Vicente) o apresenta com uma agenda lotada para os dias que ficará lá, incluindo aulas abertas, a inauguração de um busto em praça pública e a participação como jurado em uma competição de pinturas.

O roteiro de Andrés Duprat (irmão de um dos diretores) encontra tensão e humor nos encontros de Daniel com a população salense. É inegável que a história busca o riso na simplicidade da cidade – em um vídeo tacanho gravado para as boas-vindas de Daniel, em uma participação no diminuto jornal local, em uma propaganda de mate na televisão – em contraste com a sofisticação e a sensibilidade cosmopolita de Daniel, muitas vezes colocando o espectador como cúmplice de certa arrogância que o protagonista exibe com a cidade. Ainda que o filme pareça confirmar os sentimentos de Daniel sobre os podres que se encontram no provincianismo de Salas, ele também aponta um dedo crítico para ele mesmo e suas atitudes, e encontra certa bondade em pequenos atos, como um senhor que entrega um mate em silêncio para Daniel, uma cena da vida prosaica.

Certa familiaridade se apresenta na forma de Antonio (Dady Brieva), o Titi, amigo de infância de Daniel, que parece animado demais ao contar que casou com a ex-namorada do escritor, Irene (Andrea Frigerio). Existe uma distância não comentada entre a figura grande e extrovertida de Antonio e o pretenso intelectualismo de Daniel, mas também existe uma memória afetiva. Com Irene, parece haver uma história não resolvida. Ela se incomoda com a sugestão de que sua vida como professora tenha menos importância que a de Daniel, e ao se referir ao próprio casamento com Antonio como agradável, o escritor alfineta: “Que adjetivo horrível”. Talvez ela sinta que ele a abandonou na cidade. O filme lentamente converte o humor em tensão, conforme as mágoas e os ressentimentos vêm à tona. Como nota o prefeito, Daniel pode ir embora mais uma vez, mas todos os outros precisam ficar lá e lidar com a consequência de suas ações.

Sua desconexão com a comunidade que ele representa em sua obra fica gradativamente mais clara. Enquanto julga as pinturas da competição, busca modernidades em trabalhos simples, para o descontentamento de uma das organizadoras do certame. Ele vai rejeitar uma pintura que retrata o Papa? E uma outra da mulher do fulano não pode ficar de fora. O presidente da Associação de Artistas Plásticos de Salas, Florencio (Marcelo D'Andrea), ao ter sua obra rejeitada, aparece em pessoa para acusar Daniel de estar subordinado a gostos estrangeiros. Sua obra, diz o presidente, é cheia de rancor e ressentimento. Ele não está mentindo.

Por que Daniel resolve voltar a Salas? O filme não sugere que ele possa estar atrás de algo pendente, nem ao mesmo com Irene – que surge casualmente na história, mais como uma ferida no orgulho de Daniel do que alguém que pareça ocupar um espaço importante em suas memórias. Talvez ele busque uma inspiração na única fonte que já lhe funcionou, mas existe uma vaidade pouco velada em sua visita. Assim como ele, outros parecem interessados em fugir da cidade: um jovem escritor que trabalha no hotel em que o veterano escritor se hospeda, uma fã que o questiona sobre o poder da arte em uma sociedade feliz.

A figura de Daniel remete a alguns dos grandes escritores latino-americanos do século 20: García Márquez e Vargas Llosa, ambos ganharam o Nobel, mas Borges, o maior dos autores argentinos, não – o que é comentado ao longo do filme. São histórias que, juntas, criam uma imagem de países variados e, através delas, do mundo. O cidadão ilustre, porém, questiona os limites da representação, da distinção entre o real e o ficcional. Um dos moradores de Salas se aproxima animado de Daniel. Seu pai era o mensageiro de bicicleta que aparece em seu livro. “De alguma maneira, você o fez imortal”, acredita. O que ele não entende é que não era o pai dele ali. São personagens, são apenas significantes de algo maior. O filme leva essa ideia até sua conclusão, que, para além da dualidade entre a ficção e o real na representação do outro, também questiona os limites da autoficção.

O cidadão ilustre foi o filme mais visto na Argentina em 2016 e o pré-selecionado no país para concorrer ao Oscar, ainda que não tenha chegado lá. Também ganhou o Goya – o maior prêmio do cinema espanhol – de melhor produção ibero-americana, e Martínez foi premiado como melhor ator no festival de Veneza. O que aparece aqui é um filme marcadamente argentino. Os diretores resolveram fugir de clichês para confrontar a Argentina de Kirchner. Eles disseram: “O cinema argentino falou muito sobre a ditadura, mas é importante mudar o foco e abordar essas coisas pequenas que não questionamos muito. A cultura, a violência, o peronismo”.

O sucesso desse filme na Argentina aponta para certas dinâmicas particulares que devem ressoar mais em seu país de origem. No Brasil, processo similar ocorreu no mesmo ano com Aquarius, de Kleber Mendonça Filho, um retrato de uma realidade tão particularmente brasileira – e, ao mesmo tempo, tão global. Existe ainda uma complicada relação que surge no filme entre Buenos Aires e o resto do país – efetivamente uma diferença entre as raízes europeias tão marcantes na capital e a maioria do país, que mais se aproxima da realidade de Salas, com sua vida tão latino-americana. Como o artista que questiona Daniel por suas influências tão distantes, parece existir na cidade um rancor por seu cidadão ilustre tê-la abandonado por uma vida na Europa.

Ainda que esteticamente simples, O cidadão ilustre se vale das atuações – especialmente a de Martínez, mas também a de Brieva, com sua aura ameaçadora disfarçada por uma frágil fachada de camaradagem. Os diretores optaram por usar muitos não atores, o que traz um maior sentimento de realidade para as cenas, reforçado pela escolha das locações: as ruas vazias, silenciosas, às vezes acolhedoras, às vezes ameaçadoras.

Martínez tem sua chance de brilhar nos discursos ácidos que o roteiro de Duprat fornece. Além da sua marcante cena inicial no Nobel, ele discute, em suas aulas públicas, o papel da arte e do artista na sociedade. Tenta se livrar do clichê do artista sofrido, mas quando uma senhora pergunta por que ele não escreve sobre coisas bonitas, Daniel não sabe responder. A questão, argumenta, contraria toda uma vida dedicada à literatura. Em uma forte cena perto do final do filme, ele defende a autonomia da cultura, que não precisa ser defendida para sobreviver. Mais do que isso, não se deve nem falar sobre cultura. Ela é indestrutível, independente. Dessa maneira, O cidadão ilustre é uma reflexão sobre os limites da arte e do que ela representa, assim como de sua ligação complexa com a sociedade que a inspira e a produz. É um filme sobre Salas tanto quanto é sobre a Argentina, sobre a América Latina e sobre o mundo. Como disse Tolstói. ■

Ficha técnica

Imagem: Divulgação

O cidadão ilustre
Título original: El ciudadano ilustre
Direção: Gastón Duprat, Mariano Cohn
Produção: Fernando Sokolowicz, Victoria Aizenstat, Eduardo Escudero, Manuel Monzón, Fernando Riera
Elenco: Oscar Martínez, Dady Brieva, Andrea Frigerio
Argentina, 2016, 120 min.










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