Edição 504 | 08 Maio 2017

A busca pelas verdades pessoais através do debate contemporâneo

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João Vitor Santos

Pasolini, segundo Maria Betânia Amoroso, é o artista que quer compreender a si mesmo e o mundo ao qual está ligado por um mesmo movimento

A vida e a obra de Pier Paolo Pasolini é algo que se une numa só forma, não é possível dissociá-las. Para a professora e pesquisadora Maria Betânia Amoroso, é nisso que consiste a essência de suas produções. “Há uma procura, ao longo de sua vida, de verdades que são pessoais, em primeiro lugar, mas ao mesmo tempo são sempre inflexões do debate contemporâneo”, destaca em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line. “Acredito que esse processo, tão raro de acontecer, seja devido à combinação de uma atitude intelectual, incansável, de estudo e pesquisa e uma postura crítica permanente, constantemente levada à exacerbação”, avalia.

Segundo a professora, “é tamanha a autoidentificação de Pasolini com as questões da Itália do século XX que tinha a convicção de que a sua autobiografia, exposta no conjunto de sua produção, coincidia com a história do país”. A Itália do artista passava por transformações motivadas pela economia neocapitalista que traria consequências para todas as esferas da vida humana. Era isso que o inquietava e, para a professora, é o que ainda o faz tão atual. “Acredito ser justamente a percepção de Pasolini, muito precoce, de que a dita civilização ocidental tomara o rumo da catástrofe, o que mais atrai os leitores”, avalia Betânia.

Maria Betânia Amoroso é professora e pesquisadora no Departamento de Teoria Literária da Universidade Estadual de Campinas - Unicamp. O foco de suas pesquisas é literatura e a crítica italiana do século XX, onde insere a obra de Pasolini. Suas primeiras pesquisas acerca do autor são de 1970, quando realizava mestrado na Itália. No Brasil, escolheu a crítica literária do italiano, escrita para jornais e publicada em livro (Descrizioni di Descrizioni, 1972) como objeto de pesquisa para o Doutorado, tese que mais tarde foi publicada no livro A paixão pelo real. Pasolini e a crítica literária (São Paulo: Edusp, 1997). Em 2003, publicou Pier Paolo Pasolini, um perfil intelectual (São Paulo: Cosak & Naify, 2002). Recentemente, foi curadora da Jornada Pier Paolo Pasolini e Michel Lahud, da Biblioteca Mário de Andrade e Istituto Italiano di Cultura – São Paulo. Ainda na antologia Poesia de Pier Paolo Pasolini (São Paulo: Cosac & Naify, 2015), é tradutora de texto de introdução, assinado por Alfonso Berardinelli, e autora do posfácio da obra.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Recentemente, as produções de Pier Paolo Pasolini são constantemente revisitadas. Sua obra não teve o mesmo destaque durante sua vida ou eram consideradas marginais? Como compreender essas redescobertas? O que faz dele um pensador contemporâneo?

Maria Betânia Amoroso – Pasolini publica seu primeiro livro, de poesia, Poesie a Casarsa (Casarsa era a cidade de sua mãe no Friuli, norte da Itália) em 1942, aos 20 anos e é reconhecido como um poeta importante por um dos maiores críticos literários, não só da Itália, Gianfranco Contini . Em 1951 é convidado para organizar uma antologia da poesia dialetal italiana, publicada no ano seguinte com um seu estudo memorável que abre a antologia. A obra é resenhada por Eugenio Montale , outro nome absolutamente central na literatura italiana do século XX. Em 1955, organiza e publica outro trabalho, também de muito fôlego, dedicado à poesia popular. Se medirmos a centralidade de um escritor pelo interesse que desperta na crítica, sem dúvida, já nesse início, Pasolini é “consagrado”, inicialmente como poeta, filólogo e crítico literário. A partir daí, o reconhecimento do seu valor crítico, literário e artístico só cresce enquanto sua produção, que já nasce múltipla (os poemas em friulano são por ele traduzidos em italiano, ao pé da página), vai se ampliando, abarcando outros gêneros e linguagens como a do cinema, por exemplo.

Talvez, a marginalidade a que você se refere esteja mais relacionada à atuação, às intervenções públicas de Pasolini em jornais, revistas, debates enquanto intelectual, principalmente nas décadas de 1960 e 1970. O centro desses debates poderia ser resumido na expressão, hoje muito conhecida, do próprio Pasolini, “mutação antropológica”. Com ela chamava a atenção para o fato de estar ocorrendo uma profunda transformação na sociedade italiana, comandada pela economia neocapitalista com resultados incontornáveis em todas as esferas da vida humana. Uma das críticas mais contundentes é a que faz à noção de progresso como substancialmente antagônica à de desenvolvimento, ou seja, o enriquecimento do país ou do indivíduo, tão proclamados como meta para a inclusão da Itália entre os países desenvolvidos, longe estava de trazer os benefícios ou a felicidade anunciados.

O mergulho numa existência onde todos os desejos são sintetizados pelo consumo e pelo dinheiro transformaria os italianos em monstros, indistintos como classe, indiferenciados nos seus desejos e sem expressão própria. Acho que por aqui dá para perceber a razão pela qual hoje, mais do que nos anos 60 ou 70, se veja Pasolini como contemporâneo. Tanto na Itália como fora dela. E mais ainda quando a crise, delineada por ele, atinge dimensões planetárias (no sentido de crise ambiental e em todo o planeta). Essa percepção não era somente de Pasolini, evidentemente, mas foi ele quem mais se confrontou, publicamente e com mais veemência, com intelectuais e políticos, dentro e fora do Partido Comunista Italiano - PCI .

Para se ter uma ideia da dimensão do confronto, ou do desencontro entre Pasolini e a Itália, dois anos após seu brutal assassinato, foi possível organizar um volume (Pasolini: cronaca giudiziaria, persecuzione, morte, 1977) no qual são narrados e comentados os inúmeros processos aos quais foi submetido. Quem quiser conhecer alguns dos textos que geraram o debate ao redor do seu nome, o projetando como pensador contemporâneo, existe uma coletânea – a primeira publicada no Brasil, em 1990 – intitulada Os jovens infelizes , organizada por Michel Lahud e da qual participei como tradutora.

IHU On-Line – O que seria a “crítica social” para Pasolini?

Maria Betânia Amoroso – Podemos considerar ponto de partida a convicção da geração de Pasolini – aqueles nascidos nas primeiras décadas do século XX, na Itália– de que ser escritor ou cineasta ou crítico literário, enfim, implicava ser intelectual, o que por sua vez significava acompanhar de perto a vida política e nela intervir. É a geração que viveu a guerra, o fascismo, a reconstrução do país como esperança de democratização da sociedade. Dito isso, é preciso lembrar também que Pasolini se posicionou com muita clareza contra aqueles que cediam, em suas obras, à militância fácil e verborrágica. O seu livro Descrições de descrições, que é a reunião de resenhas que escreveu por dois anos, de 1972 a 1975, traz inúmeras intervenções desse gênero: contra a escritora Dacia Maraini , por exemplo, que confiara que suas ideias sobre o feminismo a isentavam das questões que a própria escrita, sempre pessoal, subjetiva, sugere. Nesse sentido, tudo o que Pasolini produz tem uma dupla dimensão: é crítica social e é, ao mesmo tempo, autobiografia e diário intelectuais.

IHU On-Line – É comum vermos a obra de Pasolini, dos poemas aos filmes, associada ao “realismo”. Embora o termo seja de difícil definição, o que seria o “realismo” para Pasolini?

Maria Betânia Amoroso – Como você mesmo antecipou, embora seja muito difícil dar conta do sentido da palavra “realismo”, sabemos que Pasolini foi leitor do Mimesis de Auerbach . Um dos registros disso está na cena que descreve Pasolini ao lado de Fellini , que guia, ambos rodando pela periferia de Roma. Conta-se que Pasolini levava no bolso um exemplar do livro. O escritor, que escrevera dois romances sobre a periferia da cidade, tinha sido convidado a auxiliar o diretor nas pesquisas para o filme Noites de Cabíria (1957).

Mimesis, a meu ver, está na base do “realismo” pasoliniano: é no enfrentamento corporal, através da razão e dos sentidos, que a experiência do mundo se faz conhecer como “fulguração”. Estamos, portanto, anos luz distantes de uma visão de realismo como cópia ou imitação do real. Mesmo em relação a Auerbach (e à estilística), tenho a impressão de que há uma diferença importante: Pasolini pressupõe a participação dos sentidos, a experiência do escritor, acrescentando (ou alterando a ordem de importância) ao que era da ordem psicológica e textual, uma outra, existencial. Acredito que seja possível compreender a “paixão pelo real” de Pasolini (este foi o título que dei ao primeiro livro que publiquei, em 1997, sobre o autor) a partir desses elementos.

IHU On-Line – Como se dava o processo produtivo de Pasolini?

Maria Betânia Amoroso – Depois que foram publicadas as 5 mil páginas que compõem a obra completa de Pasolini, seu processo criativo e de produção ganhou novos contornos. Em primeiro lugar, escrevia muito e sempre. Organizava índices de obras futuras que eram guardados em pastas, muitas vezes já contendo um possível título.

O que a leitura dessa obra imensa confirma é que os gêneros literários, com os quais ainda hoje se costuma apresentar a obra de um autor, contavam pouco ou nada. Talvez tivessem contado lá no início quando escreveu poemas idílicos, em dialeto friulano, mas sua poesia sofre muitas transformações dos anos 20 ao final de sua vida, caminhando cada vez mais rumo à prosa ou misturando poesia e ensaísmo crítico. Um filme como Salò (1975), traz, junto aos créditos finais, a bibliografia utilizada, o que é mais comum num ensaio. Frases, trechos presentes em Descrições de descrições reaparecem no romance póstumo e inacabado Petróleo. Teorema (1968) é o título de um filme conhecido e também o título de um roteiro-romance. São todos indícios da liberdade de criação e imaginação de Pasolini.

Walter Siti , responsável pela organização dos volumes, comenta em um dos textos introdutórios que, um pouco antes de morrer, Pasolini tinha o plano de reescrever os seus livros, o que não surpreende. O ato de reescrever acompanha-o sempre: reescreveu os poemas idílicos que constavam do volume A melhor juventude (1954), publicando-os agora com outro título, A nova juventude (1973). Estou cada vez mais convencida que esse “processo criativo” de Pasolini é também sua concepção de literatura (ampliaria a palavra, englobando em seu sentido outras linguagens e manifestações artísticas), algo que não se descola da vida e que exige reformulação e movimentos constantes. A “obra” é o contrário de “sistema”, é fragmento de outra coisa que está sendo sempre gestada. Acho essa a melhor definição para aquela palavrinha tão banalizada e tão pouco precisa: projeto .

IHU On-Line – Que associações e dissociações se pode fazer entre as obras de Pasolini e Italo Calvino ?

Maria Betânia Amoroso – Nós sabemos que a leitura das obras varia segundo os leitores e a época dessas leituras. No caso dos livros de Calvino, há uma primeira recepção italiana (seu primeiro livro, Os caminhos dos ninhos de aranha, é de 1947) que os lê com certa desconfiança, embora reconhecendo seu imenso talento narrativo. Essa desconfiança é resultante de pontos de vista dos críticos, e muito próprios da cultura literária italiana da época. Com uma volumosa e importante produção de prosa poética no pós-guerra, entre outras expectativas, espera-se por romances capazes de elaborar, analisar os movimentos da sociedade, e Calvino é um grande fabulador, que oferece narrativas breves encantadoras, mas que não são romances. O próprio Calvino, segundo a crítica, tentando responder a essa expectativa, ensaiou romances ou mesmo escreveu narrativas mais realistas. Esse seria um primeiro momento da fortuna crítica calviniana e italiana.

Há, porém, outro momento que coincide com as traduções de sua obra mundo afora, no qual Calvino passa a ser considerado um representante daquilo que por certo tempo se nomeou como pós-moderno. Nessa leitura, seus livros, alguns mais do que outros, são tidos como exemplos de uma literatura onde prevalece a ideia de jogo, de análise combinatória de elementos, uma literatura toda voltada para as questões da linguagem. Questões essas que são consideradas, sempre de um certo ponto de vista, distantes das questões de ordem ética e política que sempre estiveram declaradamente presentes nas obras de Pasolini. Cito um texto e um livro, ambos emblemáticos e úteis para se compreender os elementos que sustentam a oposição Calvino-Pasolini: “Calvino moralista, ou como permanecer são depois do fim do mundo” escrito pelo crítico italiano Alfonso Berardinelli e o livro de 1988 de Carla Benedetti Pasolini contro Calvino. Per una letteratura impura .

Já pelos títulos é possível deduzir alguns desses elementos: a distância de Calvino em relação ao realismo literário e a vida social italiana, o que se traduziria por uma busca de “formas puras”, de uma “literatura pura”. Pasolini, nessa visão estreita, seria exatamente o contrário (como se isso existisse!). Recentemente, porém, e com mais ênfase por ocasião dos 30 anos da morte do escritor (1985-2015), esse Calvino menos cívico perde lugar para outra interpretação na qual o caráter ético de sua vida e de sua escritura são reconhecidos como centrais . Seu interesse pela antropologia e o distanciamento do marxismo é um modo de refletir sobre os caminhos para a sua própria literatura e, ao mesmo tempo, para a sociedade italiana, já distante dos dilemas do imediato pós-guerra. Os dois escritores são profundamente diferentes entre si – e como não seriam? —, mas a diferença maior não é aquela apontada pela crítica: ambos são escritores que, ao refletir sobre a literatura, refletem sobre o mundo onde vivem. Mais uma vez a palavrinha: ambos constroem, ao longo de suas vidas, projetos que são de vida, de literatura e de política.

IHU On-Line – Como se dá a recepção de Pasolini no Brasil? O que as percepções do autor sobre as periferias do mundo têm a dizer ao nosso país?

Maria Betânia Amoroso – Sem dúvida, Pasolini se torna conhecido no Brasil mais pelos filmes que dirige do que pelos livros que escreve. Pela pesquisa que fiz em jornais, são os críticos e cineastas brasileiros ligados ao Cinema Novo os primeiros a dar destaque a sua produção. Alguns poucos artigos, escritos nos suplementos literários, por críticos como Otto Maria Carpeaux , Alfredo Bosi e Ruggero Jacobbi , apresentam e comentam a sua produção poética, mas o impacto que os filmes produzem é bem maior.

O primeiro livro de poemas comentado é As Cinzas de Gramsci, publicado em 1957 na Itália. A partir do final dos anos de 1960, amplia-se o espectro: entre outros, são publicados A hora depois do sonho, em 1968; Teorema em 1969; o romance Meninos da vida em 1985; a antologia já citada, Os jovens infelizes: antologia de ensaios corsários em 1990; e, mais recentemente, em 2015, a coletânea Pier Paolo Pasolini. Poemas.

Os filmes chegam por aqui não na ordem cronológica dos lançamentos na Itália. O caso de Teorema é interessante. Ao longo de 1969, segundo o Jornal do Brasil, Teorema consta da lista dos livros mais vendidos, oscilando entre o oitavo e o terceiro lugar. Pelo mesmo jornal é contada a saga do Teorema-filme. Em 31 de maio de 1969, a censura institucionalizada pela ditadura civil e militar proíbe sua exibição. Em 18 de novembro do mesmo ano, o filme é liberado sem cortes e projetado no Cine Condor, no Largo do Machado, no Rio de Janeiro. No final de 1969, ainda segundo o Jornal do Brasil, na classificação anual, feita por críticos de cinema, Teorema ocupa o quarto lugar, cabendo a Glauber Rocha e O dragão da maldade contra o santo guerreiro o primeiro. Veja, Teorema é lido e visto durante a ditadura e provavelmente por aqueles que também assistiam ao filme de Glauber: são cruzamentos como esse que constroem a recepção.

Portanto, é através do seu cinema que Pasolini se afirmou por aqui. A partir desses primeiros momentos, houve sempre ciclos de seus filmes que são apresentados a novas gerações. Em 2002, a Mostra Internacional de Cinema apresentou uma sessão toda dedicada à filmografia de Pasolini. Escrevi para essa mostra uma pequena apresentação de Pasolini que foi publicada em livro intitulado Pier Paolo Pasolini. Três anos depois, o Istituto Italiano di Cultura organizou outro ciclo, com a projeção de filmes, organização de mesas e discussões. Me lembro muito bem que foi preciso pedir ao Fondo Pier Paolo Pasolini autorização para fazer mais sessões do que as combinadas (eram cópias recém-restauradas e o número de projeções tinha sido previamente determinado).

Nos últimos tempos – me refiro aos últimos dez, quinze anos – o interesse pela obra, não só cinematográfica, e pela figura de Pasolini cresceu enormemente. Eu ousaria dizer que o interesse pela poesia foi um dos maiores. De modo geral, já que seria difícil mapear, neste espaço, todos os aspectos da questão, acredito ser justamente a percepção de Pasolini, muito precoce, de que a dita civilização ocidental tomara o rumo da catástrofe, o que mais atrai os leitores (e espectadores) brasileiros. Falando da Itália e escrevendo sobre ela, sugere relações possíveis entre aquele país e o Brasil e outras periferias porque o rumo é o mesmo, o estabelecimento do capitalismo avassalador. Acrescente-se a isso o envolvimento do autobiografismo em toda sua produção: é tamanha a autoidentificação de Pasolini com as questões da Itália do século XX que tinha a convicção de que a sua autobiografia, exposta no conjunto de sua produção, coincidia com a história do país. É uma combinação de coisas muito poderosa!

IHU On-Line – Como compreender a figura de Pasolini, alguém que se mantém livre mesmo aderindo ao Partido Comunista, que se diz ateu e consegue compreender um Cristo revolucionário através do Evangelho de Mateus?

Maria Betânia Amoroso – Há uma afirmação pressuposta na pergunta que dá como natural que o “pertencimento” a uma instituição, seja ela um partido ou uma igreja, tolha a liberdade de escolha do indivíduo ou signifique uma adesão cega, obediente às suas convenções, princípios e interpretação do mundo. Claro, isso acontece. No caso de Pasolini, entretanto, há uma liberdade quase absoluta em relação a qualquer vínculo limitante, seja ele de ordem estética ou política. É propositivo e polêmico, sempre. Há uma procura, ao longo de sua vida, de verdades que são pessoais, em primeiro lugar, mas ao mesmo tempo são sempre inflexões do debate contemporâneo. Acredito que esse processo, tão raro de acontecer, seja devido à combinação de uma atitude intelectual, incansável, de estudo e pesquisa e uma postura crítica permanente, constantemente levada à exacerbação.

IHU On-Line – Quais são e como compreender as principais fontes de inspiração dos filmes do diretor?

Maria Betânia Amoroso – O cinema proposto por Pasolini é um capítulo importante no conjunto da sua obra. Ele teorizou sobre cinema (o texto mais conhecido é o Cinema de poesia) seguindo de perto, e muitas vezes discordando, das teses linguísticas e semiológicas dos anos 70. Mas sua experiência como poeta, romancista e crítico literário (quando começa a filmar já é escritor) continua a alimentá-lo. Isso significa que sua formação literária é um forte aliado na concepção de seu cinema. Evidentemente, para quem já assistiu a algum de seus filmes, há uma técnica fílmica pasoliniana, desenvolvida ao longo dos anos. Seria difícil comentá-la aqui.

As fontes de inspiração, entretanto, são as mais diversas: além dos filmes que têm como ponto de partida obras literárias, há filmes-entrevistas (ou algo próximo) como Comícios de amor (1965), que investiga a familiaridade dos italianos nos anos 60 com a sexualidade, ou Notas para uma Oréstia africana (1970) que responde ao seu grande interesse pelo terceiro mundo. Tanto a presença de “comícios” – palavra do universo semântico da política – como a de “notas” – que faz parte do vocabulário de um estudioso ou pesquisador – me levam novamente a pensar na circularidade dos temas, da sobreposição dos gêneros que são funcionais a sua própria concepção de obra.

IHU On-Line – Da filmografia de Pasolini, qual o seu preferido? Por quê? E qual filme acha que tem mais a dizer e que inspira a pensar sobre nosso tempo e o mundo de hoje?

Maria Betânia Amoroso – Não sei se tenho um filme preferido. O primeiro filme de Pasolini a que assisti foi O Evangelho segundo S. Mateus (1964), nos anos 70, no Cine Sesc, em São Paulo. Portanto, antes de ter ido fazer um mestrado em dialetologia na Itália e antes de saber quem era Pasolini. Passados tantos anos, ainda retenho a impressão, muito forte na época, da dureza do Cristo, um Cristo intransigente, de fala cortante e incisiva. A segunda impressão vem do fato de ter escalado amigos e a própria mãe para encarnarem os apóstolos e Maria. Ambas as impressões são sinais que interpreto naquela mesma chave do discurso coletivo feito por um intelectual, sem a frieza ou o distanciamento da razão racional.

Gosto muito de Gaviões e passarinhos (1966), outro filme-ensaio que me parece extremamente feliz como resultado pela capacidade do cineasta em articular no tecido de uma fábula tantas discussões. Em particular aquela sobre as relações entre linguagem, corpo e política. É assim que compreendo, graças às inumeráveis conversas com Alex Calheiros , o episódio do frade que recebe a missão determinada por São Francisco de pacificar os gaviões e os passarinhos. A sequência é um primor. As tentativas de compreensão da linguagem dos pássaros para poder fazer sua pregação só darão resultados quando aos sons são incorporados os pulinhos dos passarinhos. E tudo isso encenado pelo incrível Totó (acho que este é o filme que mais gosto!).

Salò (1975) me parece uma obra-prima. Através das imagens, a violência vai num crescendo até atingir um grau insuportável. Já tínhamos visto muitíssima violência no cinema, principalmente no cinema americano, mas em Salò é outra coisa. Há, claro, a referência direta ao fascismo, às relações entre carrasco e vítima, há a presença de Sade, mas o que torna o filme único é a descrição do estado de violência em si.

Mas há outros, os ligados às tragédias gregas (Édipo rei, Medeia), o espetacular Accattone (1961), que faz de um personagem das periferias urbanas uma espécie de herói trágico, além de documentários como Notas para uma Oréstia africana (1970), Os muros de Sanaa (1964).

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Maria Betânia Amoroso – Talvez chamar a atenção para o movimento central em todo Pasolini, aquele que une vida e obra. A presença física do corpo em Pasolini é testemunhada pela premência em que cada obra nasce. Cada obra é necessária e presente. Assim dizendo, procuro ir na direção contrária daqueles que entendem essa relação como um contar sobre a vida. Me parece que temos em Pasolini muito mais a incessante necessidade de escrever, desenhar, filmar, entrevistar, para encontrar a vida que sempre escapará e, então, a busca recomeça.■

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