Edição 504 | 08 Maio 2017

A força extemporânea de Pasolini, um trágico moderno

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João Vitor Santos | Edição: Ricardo Machado

Alex Calheiros observa a vida e obra do artista italiano, pontuando a potência de seu pensamento que existe e resiste para além do tempo linear

Se são as contradições que nos definem como seres humanos, esse aspecto emerge com força na vida e na obra de Pasolini. “Veja, Pasolini, como ele mesmo disse, está protegido por suas contradições. Dizer que ele é em certo sentido conservador, diz algo, mas diz muito pouco sobre sua figura intelectual; dizer, ao contrário, que antecipa questões, e preocupações, típicas do nosso tempo, diz algo, mas também diz pouco. Gosto de dizer que Pasolini é um extemporâneo, para dizer que a potência de seu pensamento nos abarca com a mesma pertinência com que abarcou seu próprio tempo”, avalia o professor e pesquisador Alex Calheiros, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Um dos aspectos que atravessa a obra do poeta e cineasta italiano é a tematização do conflito civilizacional que marcou o século 20, onde o capitalismo se transformou em forma genocida de cultura. O curioso, no entanto, é que recebeu crítica inclusive dos marxistas. “Pasolini é incompreendido pelos marxistas, pois dizia que agora, classe dominante e classe dominada, finalmente, se igualaram. Ele não disse que a luta de classes havia acabado, ou que as classes haviam acabado, mas que os valores que diferenciavam uma classe das outras classes, agora participavam dos mesmos valores, aquele do consumo”, pontua o entrevistado. “Pasolini nos convoca a resistir, a encarar a vida como um negócio nosso, sem providência, sem destino. A palavra de ordem é resistir. Édipo o que fez foi resistir, Medeia o que fez foi resistir. Resiste também o soldadinho em Salò”, complementa.

Alex Sandro Calheiros de Moura é graduado e doutor em Filosofia pela Universidade de São Paulo - USP. Atualmente é professor da Universidade de Brasília - UnB, onde atua nas áreas de Filosofia, com ênfase em História da Filosofia, sobretudo nos temas relacionados ao cinema italiano, realismo, neorrealismo, crítica e filosofia política.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Por que Pasolini pode ser considerado um intelectual para além de seu tempo?

Alex Calheiros – Acho que você coloca muito bem a questão. Muitas vezes Pasolini é entendido como um conservador, já que reclama a perda de culturas milenares que estão desaparecendo de maneira rápida. Se olharmos bem, em sua obra, Pasolini vai tematizar justamente os momentos de desaparecimento de alguma cultura que resistiu. Por exemplo, a cultura camponesa do norte italiano, profundamente cristã, tão bem retratada em sua poesia dialetal, aquela do dialeto de sua mãe, friulana. O fato de ser a cultura materna diz muito, e poderíamos falar muito sobre o dispositivo edipiano usado por Pasolini aqui. Mas depois também há a perda das culturas citadinas, como aquela romana ou napolitana, mas sobretudo romana, destacada em seus romances, num primeiro momento, mas depois também, e sobretudo, em seus filmes. Penso que Roma enquanto personagem em sua obra é a passagem mais importante da obra pasoliniana, pois, de certa forma, ele sai de uma perspectiva mais provinciana e se torna um poeta nacional, um poeta civil, pois passa a falar mais claramente da Itália, e da cidade para o mundo, para usar uma velha formulação, que não gostaria fosse entendida do ponto de vista imperialista ou colonizador, mas justamente, cosmopolita.

Pasolini, torna-se, finalmente, um poeta civil. Depois, sabemos, sua reflexão estende-se pela África, Oriente Médio, Brasil. Enfim, todo o mundo, antes dito subdesenvolvido, pois é em favor deles que ele se coloca. Tal atitude por vezes foi encarada pela crítica como populista. Outras vezes, paradoxalmente, Pasolini é entendido como uma espécie de profeta do apocalipse, aquele que aponta para as contradições que produzimos e que inviabilizaram a nossa própria existência. Inicialmente tratava disso dum ponto de vista cultural, mas, por fim, e de fato, prematuramente, também passou a se referir a nossa existência física. O tema final de sua obra trata justamente do desaparecimento da humanidade. Seria preciso falar mais sobre a questão, pois Pasolini não está falando metaforicamente. A experiência humana acabou.

Veja, Pasolini, como ele mesmo disse, está protegido por suas contradições. Dizer que ele é em certo sentido conservador, diz algo, mas diz muito pouco sobre sua figura intelectual; dizer, ao contrário, que antecipa questões, e preocupações, típicas do nosso tempo, diz algo, mas também diz pouco. Gosto de dizer que Pasolini é um extemporâneo, para dizer que a potência de seu pensamento nos abarca com a mesma pertinência com que abarcou seu próprio tempo. Por isso sua pertinência hoje. Pasolini não está à frente ou atrás de qualquer tempo, mas para além do seu tempo e, antes de tudo, para além de nosso tempo. As questões que Pasolini colocou naquele momento ainda nos interpela, mas é preciso também estar atento para as diferenças culturais e políticas que produziram seu pensamento.

Pasolini, é claro, viveu um momento completamente diverso do nosso. Por vários motivos, o Brasil nos anos 1960 e 1970 não era a Itália do mesmo período, mas o Brasil de agora tampouco é a Itália dos anos 1960 e 1970. São outros percursos históricos, políticos e culturais. Não há paralelo possível, de um certo modo. Por outro lado, há um paralelo possível, para além de todas as diferenças. Pasolini se dedicou durante toda a sua trajetória, mas de modo mais dramático no final dos anos 1960 e início dos anos 1970, às grandes transformações que seu país estava sofrendo com o ingresso finalmente num modo de capitalismo avançado. O que ele, na esteira de outros críticos, chamava de neocapitalismo, caracterizado principalmente numa ideia de consumo, não apenas material, mas sobretudo imaterial, um modo de vida inaudito na experiência humana que agora unia aquilo que classicamente sempre esteve separado: a classe dominante e as classes subalternas. Esta união se dava através de valores que não eram mais apenas materiais, mas, principalmente, simbólicos. Estava aí aquilo que Pasolini caracterizava como uma tragédia moderna.

De fato, Pasolini é um trágico e tematiza este conflito civilizacional, o desaparecimento de um mundo, aquele que se conhecia há séculos, e sua substituição por uma forma devastadora e genocida de cultura, que era aquela, como eu disse, neocapitalista, fundada no consumo. Lembre-se aqui de Medeia . Medeia atualiza a tragédia antiga justamente aqui. O desespero de Medeia-Callas, é por conta de seu apagamento, da impossibilidade da convivência de seus valores, arcaicos, telúricos, com aquele moderno, racional, instrumental, de Jasão. Por isso, às vezes, Pasolini é incompreendido pelos marxistas, pois dizia que agora, classe dominante e classe dominada, finalmente, se igualaram. Ele não disse que a luta de classes havia acabado, ou que as classes haviam acabado, mas que os valores que diferenciavam uma classe das outras classes, agora participavam dos mesmos valores, aquele do consumo.

Assim, os valores da burguesia neocapitalista seriam os únicos valores possíveis. A burguesia neocapitalista, violenta e dominadora, não somente calava a voz e a experiência do outro, mas literalmente a estava exterminando. Numa guerra só há um vencedor ao seu final, mas de todo modo existe. Seus valores são os valores de um sujeito subjugado, escravizado e colonizado. Por isso, acreditamos, apesar da experiência da derrota, na possibilidade da revanche, da superação. Está aqui o significado clássico da luta de classes. Mas para que haja luta de classes, oposição de valores, é preciso que haja o outro. Mas não fomos somente escravizados e colonizados por tais valores, tivemos nossos valores aniquilados e por isso os valores burgueses tornaram-se os únicos valores viáveis e possíveis. Por isso, em nossa cultura, só há lugar para o consumo. É disso que fala um dos textos mais lúcidos de Pasolini: Os jovens Infelizes.

IHU On-Line – Como compreender o mal que nos aflige hoje, tendo como inspiração a obra de Pasolini?

Alex Calheiros – Ora, o mal que nos aflige, a tragédia que nos assola é justamente o desaparecimento dos valores que se opõem aos valores de uma sociedade fundada na ideia unicamente do consumo e suas consequências mais imediatas. O problema maior não está em compreender o Mal instalado, mas em recriar novos valores, em resistir. Noutro texto muito lúcido e belo, intitulado O genocídio dos vagalumes, Pasolini está especulando sobre a pertinência ainda da resistência. Resistir a essa força devastadora, em sentido pleno, maléfica.

IHU On-Line – O que a cinematografia de Pasolini revela acerca do marxismo, essencialmente o italiano? Ele pode ser lido como um crítico desse modelo marxista?

Alex Calheiros – Pasolini em um determinado momento declarou-se um comunista dissidente. Então, em primeiro lugar, Pasolini se autodeclara um comunista. Heterodoxo, é verdade, mas ainda assim comunista. Estamos então diante de mais um paradoxo. De fato, podemos dizer, em linhas gerais, que um comunista acredita na possibilidade de superação de um determinado tipo de cultura, no caso, a capitalista, ou neocapitalista. Um comunista acredita, ou deveria acreditar, na transformação, mas, em seus filmes, sobretudo, acompanhamos gradativamente sua, talvez, descrença numa possibilidade qualquer de superação. Podemos dizer que a origem do seu marxismo, como para muitos – eu diria quase todos – intelectuais do pós-guerra italiano, significa dizer que ele é de algum modo gramsciano . Dizer, no entanto, que Pasolini é gramsciano não diz tudo, pois o gramscianismo no pós-guerra italiano se diz de muitos modos. Então eu diria que Pasolini é um marxista , de matriz gramsciana e ainda assim, em Gramsci, ele tem uma leitura, se não original, ao menos dissonante em relação ao gramscianismo do Partido Comunista Italiano.

Eu penso aqui que Pasolini se identifica com o Gramsci marxista, mas com profundas raízes humanistas. E quando falo de humanismo, não estou me referindo a um humanismo difuso, como poderia ser, também, o humanismo cristão. Estou pensando naquela que foi a preocupação de Gramsci na experiência carcerária, quando se dá conta não apenas do autoritarismo do fascismo, mas sobretudo do autoritarismo presente no campo da esquerda mundial de seu tempo, principalmente o stalinismo. O marxismo de Gramsci é peculiar justamente quando recupera, através de Maquiavel , a experiência democrática e republicana da vida política. Acho que a grandeza do marxismo de Pasolini está na capacidade de produzir dissonâncias, aquilo que chamamos de crítica. Na compreensão de que numa vida política sadia, nos igualamos na possibilidade, madura, de expressar nossas ideias, nossas discordâncias, mas, claro, levando em conta que na política, a crítica visa ao bem comum, o contrário é tirania. Vivemos num tempo tirânico no sentido pleno da palavra. Pasolini levantou-se contra o imperialismo tirânico do capitalismo contemporâneo e seus aparelhos, a televisão, os jornais, a escola.

O cinema de Pasolini guarda uma particularidade. É verdade que ele é marxista, um certo marxismo, como eu disse. Mas as matrizes estéticas de Pasolini são muitas. Eu destacaria as referências trágicas. Então, é verdade que Pasolini é crítico do marxismo, como muitos marxistas são críticos do marxismo. Tal fato não inviabiliza o marxismo. Há muitas tendências e acho que Pasolini também compreendia como natural e benfazeja a crítica. A cinematografia pasoliniana é vasta, mais vasta ainda sua obra escrita: poesia, romance, crítica literária, teatro, crítica cultural de modo amplo, textos de intervenção política, entrevistas, roteiros. Enfim, uma obra vastíssima e ainda mais complexa que apenas o seu cinema. Mas gostaria de destacar a sua trilogia grega (Édipo, Medeia e o ensaio cinematográfico intitulado Oresteia africana). O elemento trágico, aliás, pode ser visto em toda a sua cinematografia, desde Accattone e, sobretudo, Salò, seu último filme. Aqui nós temos uma questão interessante: se por um lado o marxismo apresenta um quadro dramático das relações sociais, um sistema de oposições produtivas, pois pressupõe obviamente uma superação desenhada no horizonte revolucionário, no fim da luta de classes e da dominação, no fim da ideologia; a tragédia, por outro lado, significa exatamente a incapacidade do indivíduo de exercer ou vislumbrar qualquer transformação possível. A tragédia acontece num mundo determinado pelo destino, um mundo no qual as forças do indivíduo são fracas diante da força inexorável do destino. Uma coisa, no entanto, é a visão trágica do mundo, a visão antiga do mundo, outra coisa é a representação trágica.

A tragédia classicamente também significa a representação do fim de uma ordem, do fim de um mundo. Na antiguidade, a tragédia significa o fim de uma época em que a vida dos homens era determinada pelos deuses, como se disse, pela força do destino, infinitamente mais forte que qualquer mortal. Sendo a tragédia o fim desta ordem, sua narrativa representa também a transformação do mundo. Ora, a tragédia é irmã de outras duas instituições gregas, a cidade e a filosofia. Tanto a cidade quanto a filosofia significam o triunfo da liberdade humana diante das forças imutáveis do destino. Medeia mata os filhos não porque é desnaturada ou louca, mas para que esta lógica se encerre. Agora, nos ensina a tragédia, nascida contemporaneamente com a cidade e a filosofia, a vida humana é negócio humano, produto das decisões humanas e, por consequência, responsabilidade humana. Não são mais os deuses os responsáveis por nossas vidas, mas nós mesmos.

De certo modo, Pasolini é um trágico, um trágico moderno. Mudaram os deuses que supostamente dominam nossas vidas, mudaram os valores antagônicos que nos colocam em uma condição trágica, aquela de decidir, aquela de tomar um partido, mas o esquema é o mesmo. Como trágico e como marxista, a mensagem de Pasolini é de certa forma também trágica, no bom sentido da palavra, isto é, pedagógica. Pasolini nos convoca a resistir, a encarar a vida como um negócio nosso, sem providência, sem destino. A palavra de ordem é resistir. Édipo o que fez foi resistir, Medeia o que fez foi resistir. Resiste também o soldadinho em Salò.■

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