Edição 502 | 10 Abril 2017

A serenidade de "Moonlight" sobre os escombros do abandono

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Vitor Necchi

Moonlight (2016), dirigido e escrito por Barry Jenkins, é um filme de identidade, de autodescoberta, mas vai além, ao tratar da combinação de estigmas e preconceitos. A obra, que recebeu a honraria máxima da edição de 2017 do Oscar, apresenta o quanto uma vida, em sua singularidade, resulta da relação de nuanças e traços próprios da experiência humana. Trata-se de uma narrativa importante e necessária porque combina pelo menos dois marcadores sociais carregados de estigma: a negritude e a homossexualidade. A arte, neste caso, subsidia um conceito que vem crescendo em importância, que é o de interseccionalidade, ou seja, a análise de uma situação a partir da articulação das diferenças e das desigualdades. Não há como tratar gênero, por exemplo, sem articulá-lo com outras categorias como raça, sexualidade e classe.

Jenkins se baseou no texto da peça teatral In moonlight black boys look blue, de Tarell Alvin McCraney. O título, que pode ser traduzido como “sob a luz do luar, garotos negros parecem azuis”, faz um trocadilho com blue, palavra que remete tanto a azul quanto a triste. Jenkins e McCraney cresceram em um subúrbio pobre de Miami nos anos 1980 e tinham mães viciadas em crack. No filme, os negros vivem na mesma região, em guetos, sem perspectivas, à margem. Embora questões como drogas e violência perpassem o longa, o que se sobressai são as subjetividades, aquilo que habita as camadas mais intrínsecas dos personagens: os afetos, os desejos, os medos, as frustrações. A cidade e suas violências são cenário, e não protagonistas.

A primeira música que aparece no filme dá o tom das intenções. “Every nigger is a star”, ou todo crioulo é uma estrela, conforme os versos do jamaicano Boris Gardiner, cantor e compositor que usa a palavra nigger, pejorativa, para projetar o orgulho de ser negro. Esse processo de ressignificação é similar ao das mulheres que idealizaram a marcha das vadias: se apropriam da alcunha ofensiva para reafirmar sua condição e exigir respeito.

Com uma abordagem intimista e melancólica, Moonlight se sustenta em diálogos – e na ausência de falas também – para desvelar a história de Chiron, um negro gay em uma sociedade racista e homofóbica. Tudo se dá em três fases: a infância (Chiron é interpretado por Alex Hibbert) e a adolescência (Ashton Sanders) em uma zona pobre de Miami e a vida adulta (Trevante Rhodes) em Atlanta, quando o personagem tem cerca de 30 anos, trafica e é chamado de Black. Nas duas primeiras fases, a vulnerabilidade do personagem domina a tela. A qualquer tempo, sobressai-se o profundo silêncio dele, o olhar revelando um desamparo oceânico e a tentativa de se descobrir e sobreviver aos escombros domésticos.

Há, no entanto, outros fatores que tornam mais complexa a vida dele: ausência do pai, mãe viciada (Naomie Harris) e falta de dinheiro. E a criança, que fica vulnerável às ruas por conta da fragilidade familiar, acaba acolhida e cuidada pelo traficante cubano Juan (Mahershala Ali) e sua namorada, Teresa (Janelle Monae), estabelecendo uma ambivalência interessante, porque é justamente o criminoso e sua companheira que propiciam ao pequeno Chiron uma possibilidade de amparo e de cuidado, assim como a oportunidade de ter uma casa-refúgio relativamente estruturada para quando o tormento da mãe viciada torna insuportável o lar original.

É desse vínculo aparentemente improvável entre um traficante e um garoto sem lar seguro que surge uma das cenas mais lindas e delicadas do filme – e reveladora dos afetos que se estruturam sobre as ruínas da tragédia contida no abandono: Juan leva Chiron para o mar e sustenta o corpo frágil do garoto, para que ele aprenda a desafiar as águas e boiar, sob o olhar atento e amparado pelos braços fortes do traficante. Não seria uma associação tola se essa cena fosse imaginada como uma espécie de batizado.

A construção do personagem Chiron carrega uma grande potência ao evidenciar que, para muitas pessoas, os estigmas e as penúrias não se processam de maneira isolada, e esse cruzamento impacta no quão tortuosa e difícil será a vida em um mundo de desagregação e ódio. Essa questão é oportuna para se pensar a realidade brasileira e o ativismo. Há negros gays que não se sentem contemplados pelas expressões mais em voga do movimento LGBT porque, conforme a percepção deles, esta modalidade de militância age em prol dos brancos de classe média. Por exemplo: direito ao casamento e à adoção, duas das principais bandeiras, não é prioridade para negros gays e pobres que estão preocupados, sobretudo, em não serem agredidos e mortos nas ruas.

Voltando ao filme: durante o período escolar, Chiron se esquiva das provocações e agressões dos colegas, que se aproveitam da fragilidade da criança e da insegurança do adolescente para constrangê-lo diariamente, estabelecendo um processo que nos últimos anos recebeu a denominação de bullying, embora a prática sempre tenha existido, independentemente de haver um termo específico para designá-la. O garoto é chamado de bicha pelos colegas, sabe que fazem isso para ofendê-lo, mas ele nem compreende o significado da palavra.

A violência de colegas torna ainda mais complicada a já difícil trajetória de pessoas cuja sexualidade destoe da heteronormatividade. Crianças e adolescentes gays, lésbicas, travestis e trans enfrentam, durante o processo de construção da sua identidade, percalços extras, por conta do preconceito, da intolerância, da ignorância e do ódio manifestados cotidianamente nos mais diversos círculos, muitos deles compulsórios, como família e escola. A discriminação é tão grave e perversa que, para além das violências simbólicas e físicas, gera processos de exclusão que desestruturam a vida das vítimas. Não por menos, 90% das mulheres trans são profissionais do sexo. Não se trata de julgar ou refutar o sexo por dinheiro. O trágico é quando alguém se prostitui não por opção, mas por falta de oportunidade ou por coação.

A sexualidade é um dos eixos estruturantes do filme, e o que se desenrola a partir daí é uma história de solidão, medo e culpa – ingredientes recorrentes na trajetória de boa parte dos garotos gays que precisam se constituir em meio a adversidades e hostilidades. E, neste salto de trampolim que é a descoberta e a vivência da sexualidade, Chiron experimenta o primeiro passo, a primeira vertigem do gozo, com seu amigo Kevin (Jaden Piner, na primeira fase, e Jharrel Jerome, na segunda). Ambos acabam afastados na adolescência, até que Chiron, já adulto, atende ao chamado de Kevin (Andre Holland) e vai encontrá-lo.

Além de seus atributos artísticos e culturais inatos, o filme ganhou mais notoriedade por conta de uma gafe ocorrida durante a cerimônia de entrega do Oscar de 2017: o prêmio de melhor filme foi atribuído inicialmente para La la land, mas tratava-se de um equívoco. Moonlight era o vencedor, distinção anunciada depois que os organizadores descobriram a trapalhada. Isso fez dele a primeira produção a ganhar o Oscar de melhor filme com um elenco de negros, sem nenhum ator branco, criando um contraponto às contundentes críticas à edição anterior do certame, marcada pela ausência de afrodescendentes. Além do prêmio máximo, Moonlight ganhou mais duas estatuetas, das oito indicações que teve: melhor ator coadjuvante, para Mahershala Ali, e melhor roteiro adaptado, para Berry Jenkins.

Moonlight é um filme de negros, feito por negros, mas evita estereótipos recorrentes em filmes de negros. Há a mulher dependente de crack que negligencia o próprio filho – e isso poderia ser considerado um estereótipo, tanto que Naomie Harris inicialmente recusou o convite para interpretar Paula, a mãe de Chiron, alegando que negras viciadas já havia em profusão no cinema. A ela, interessavam papéis de negras fortes, que trouxessem uma perspectiva positiva. O diretor, no entanto, insistiu, alegando que não se tratava de um clichê, mas da história da sua própria mãe que ele precisava contar. Então Naomie mudou de ideia.

Algumas das rupturas com a previsibilidade que pauta filmes de negros referem-se à terceira fase de Chiron que, embora grandalhão, forte e com cara de mau, é sensível, contido e refém da solidão, e à trilha, que não é dominada pelo que se chama genericamente de black music. A bela música original, composição de Nicholas Britell, estabelece uma atmosfera propícia para o desenvolvimento da história, lembrando peças do estoniano Arvo Pärt, um dos mais importantes compositores contemporâneos do repertório erudito.

A banda sonora ainda apresenta uma seleção de referências variadas: a já citada Every nigger is a star, de Boris Gardiner; Laudate dominum, de Mozart; Hello stranger, com Barbars Lewis; e Cucurrucucú Paloma, com Caetano Veloso, cuja interpretação já havia marcado presença em outros três filmes (Felizes juntos, de Wong Kar-Wai, em 1997; Fale com ela, de Pedro Almodóvar, em 2002; e Meu filho, olha o que fizeste!, de Werner Herzog, em 2009).
Cabe ainda um registro à fotografia de James Laxton, permeada de tons azulados e contrastes que evidenciam a beleza da pele negra. A partir de uma câmera digital, ele criou um tom próprio para cada uma das três partes em que o filme é dividido, emulando o resultado de diferentes películas, respectivamente Fuji, Agfa e Kodak. Uma câmera firme, sem o tremor recorrente em muitas produções independentes, o que amplia a serenidade da narrativa. Sim, Moonlight é um filme sereno, mesmo que a história contada transborde solidão, abandono e medo – ingredientes próprios de um mundo violento, mas que, ao final, abre espaço para a suavidade de um encontro adiado.

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