Edição 498 | 28 Novembro 2016

Os limites de Raízes do Brasil para cartografar o hoje

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João Vitor Santos

Luís Augusto Fischer diz que o livro oferece bons palpites para se entender o Brasil, mas alerta para os riscos de o ter como mapa para ler a atual situação do país

O professor de Letras da Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS Luís Augusto Fischer caracteriza o texto de Raízes do Brasil como ensaístico e de voo panorâmico. Já Sérgio Buarque de Holanda, autor da obra, é visto por Fischer como “um sujeito muito lido e muito inteligente”. Para ele, são ingredientes, essencialmente para a época, que fazem com que o livro traga “vários bons palpites sobre o nosso país”. Fischer acolhe o homem cordial como um desses “bons palpites”. Porém, alerta para os riscos de tomar a obra como salvação, capaz de fornecer todo o entendimento sobre o Brasil de hoje. “Tomar o livro como mapa para ler a situação atual é terrivelmente problemático”, sinaliza.

Na entrevista a seguir, concedida por e-mail à IHU On-Line, Fischer tece sua crítica a partir de marcos temporais. “Depois de 48 [1948, ano da primeira edição] as condições críticas são muito diversas das que ele experimentou ao conceber e escrever o livro”. E segue com questões que ou são postas de forma muito inebriadas ou sequer são referidas. “Se por um lado [a obra] ilumina um pouco o cenário, por outro tende a obscurecer todo um lado de nossa história, por exemplo o lado das lutas sociais, dos conflitos entre estado e sociedade, assim como tende a suprimir qualquer aspecto de classe, por exemplo para mostrar a distância entre elites rentistas e população trabalhadora, em especial os que não têm acesso aos mecanismos de decisão”, analisa. E completa: “há no livro ausências notáveis, que não sei como se podem explicar. Por exemplo: ele não cita, em nenhum momento, nada da obra de Euclides da Cunha”. O professor, ainda sobre a “ausência” de Cunha, se diz impressionado negativamente com “o modo como Sérgio Buarque, em Raízes do Brasil, não tenha se valido do registro literário”.

Luís Augusto Fischer é doutor, mestre e graduado em Letras pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, onde leciona. É autor de vários livros, entre eles Dicionário de porto-alegrês (Porto Alegre: L&PM Editores), Literatura gaúcha – História, formação e atualidade (Porto Alegre: Leitura XXI) e Inteligência com dor - Nelson Rodrigues ensaísta (Porto Alegre: Arquipélago Editorial). Fez a edição anotada de Contos gauchescos e Lendas do Sul (Porto Alegre: L&PM Editores), de Simões Lopes Neto, e de Antônio Chimango (Caxias do Sul: Editora Belas Letras), de Amaro Juvenal.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Que chaves de leitura Raízes do Brasil oferece para compreender as questões de fundo contidas nas movimentações políticas e sociais no país hoje?

Luís Augusto Fischer - Sendo um livro ensaístico, de voo panorâmico, escrito por um sujeito muito lido e muito inteligente, e ainda mais por um jovem pensador que vinha de uma experiência radicalmente contrastiva (viveu mais de um ano na Alemanha, no começo da década de 1930), é claro que o livro oferece vários bons palpites sobre o nosso país. O primeiro é a famosa tese do “homem cordial”, que seria uma marca do brasileiro — ele usa sem medo uma generalização que hoje ninguém mais aceita, num nível exigente de debate —, quer dizer, que todos nós agimos e reagimos antes pelo coração do que pela razão. Essa tese tem vários desdobramentos no interior do livro, um dos quais, sem ir mais longe, é a percepção de que no Brasil não conseguimos ter um Estado, uma organização de Estado que se reja por leis impessoais, válidas para todos, universalmente, tal como preconizou todo o Iluminismo. No processo de impeachment, por exemplo, foi possível ver como as leis são aplicadas de modo desigual conforme o alvo e conforme a conjuntura política imediata. 

 

IHU On-Line - E para época em que foi publicado pela primeira vez, o que representou o livro?

Luís Augusto Fischer - Sem dúvida teve um grande papel, por intuições, impressões e raciocínios como esses acima mencionados, mas também por dedicar-se a pensar sobre a relação entre indivíduo e Estado, matéria que no Brasil ainda engatinhava, particularmente na República. Também deve ter agradado, acrescento na contramão, por se tratar de um texto relativamente obscuro, truncado, com passagens cifradas, muitas vezes adornadas por citações em língua estrangeira rara (alemão, por exemplo), o que sempre dá cartaz...

 

IHU On-Line - Quais os limites dessa obra de Holanda para compreender o Brasil?

Luís Augusto Fischer - Uma obra ensaística de 80 anos naturalmente está velha, em muitos aspectos. Livros digamos mais objetivos e menos deliberadamente interpretativos, como narrativas historiográficas, também envelhecem, mas em outro ritmo e segundo outras leis. (A ficção também, mas em uma terceira forma.) O caso de Raízes, de todo modo, não é totalmente transparente, porque, primeiro de tudo, o livro que lemos não é o de 36, e sim o de 48, muitíssimo diferente do anterior (e mesmo o de 48 ainda teve outras três pequenas revisões). 

Analistas dedicados ao assunto, como Leopoldo Waizbort , demonstram que na primeira edição as posições do autor e as teses desse livro estavam em uma vizinhança agora incômoda com posições totalitárias. Por outro lado, vale a pena considerar tudo que Sérgio Buarque não sabia do Brasil do futuro pós-1936, ou pós-48: depois disso a universidade brasileira começou efetivamente a existir, a canção brasileira virou uma das artes mais relevantes do Ocidente (Bossa Nova, Tropicalismo, samba em geral etc.), saiu praticamente toda a obra de Guimarães Rosa  e Nelson Rodrigues , para ficar em alguns exemplos.

E mais: depois de 48 as condições críticas são muito diversas das que ele experimentou ao conceber e escrever o livro. Já a fantasia totalizante implicada duas vezes no título — não apenas “Brasil” é tomado como uma coisa obviamente unitária, como o livro se julga capaz de descrever ou apontar nada menos que suas “raízes”, sem modulação — só é concebível naquele momento, e por isso tomar o livro como mapa para ler a situação atual é terrivelmente problemático. Pensemos, sem ir mais longe, no atual debate sobre o lugar dos ameríndios, das mulheres e dos afrodescendentes na formação social do país, e pensemos no que Sérgio Buarque podia saber e pensar, por mais inteligente e lido que fosse.

 

IHU On-Line - O homem cordial é um dos conceitos de Holanda que mais geraram controvérsias e interpretações. Como o senhor apreende esse conceito e de que forma essa cordialidade é manifestada na sociedade brasileira?

Luís Augusto Fischer - Um pouco já falei acima: me parece que se trata de uma boa ideia, tomada em um nível aberto e amplo. (E claro que não faz sentido a leitura equivocada que pensava que “cordial” fosse sinônimo de “amistoso”, sentido absolutamente ausente do livro desde sua primeira edição. Quem diz o contrário é porque não conhece o texto.) A partir desse plano, é preciso modular e restringir o alcance do livro e dessa tese, porque, por exemplo, ela vem expressa com uma certa dose de fatalismo, típica de uma visada de época, ligada ao que se chamava de “psicologia dos povos”, como se tal coisa fosse cabível, ainda mais num país novo e numa sociedade altamente irregular e em trânsito como a brasileira.

Dito isso, a tese/impressão sobre o homem cordial como sendo uma característica brasileira tem sentido genérico, por exemplo quando se compara a experiência cotidiana trivial (turística, por exemplo) do Rio de Janeiro com a de Paris, digamos: de fato, nesse nível “o brasileiro” é mais cordial, quer dizer, mais suscetível a agir pelo coração do que pela razão e, portanto, de modo menos universalista, em comparação direta com o cidadão parisiense regular.

 

IHU On-Line - Ao longo de sua obra, Holanda destaca o aspecto personalista do brasileiro, pouco dado às relações institucionais e com muitas tendências a pessoalizar as relações. Quais os limites e as consequências dessa perspectiva?

Luís Augusto Fischer - Como disse, isso não pode ser lido agora como sendo uma dádiva do céu, ou do inferno, mas como um elemento da configuração histórica do país. E nessa medida a tese, se por um lado ilumina um pouco o cenário, por outro tende a obscurecer todo um lado de nossa história, por exemplo o lado das lutas sociais, dos conflitos entre estado e sociedade, assim como tende a suprimir qualquer aspecto de classe, por exemplo para mostrar a distância entre elites rentistas e população trabalhadora, em especial os que não têm acesso aos mecanismos de decisão.

Não estou com isso demonizando nem o livro, nem as elites em geral, nem estou endeusando os trabalhadores, mas me parece claro que uma coisa é ver o que as elites rentistas fazem na gestão do Estado brasileiro, nomeadamente agora com Temer , e outra é ver como agem os miseráveis que dependem de bolsa-família. Ou então, para ficar ainda mais claro, ver como agem e reagem os controles de corrupção dos grandes e dos pequenos — Odebrecht e alta política, de vários partidos, versus os bolsa-família.

 

IHU On-Line - Em termos de produção literária, o que representa Raízes do Brasil?

Luís Augusto Fischer - É uma peça retórica interessante, mas com aquelas restrições que apontei acima, um certo pernosticismo e uma certa obscuridade, que fazem parte do charme do livro, creio.

 

IHU On-Line - Como o livro é/foi recebido no Rio Grande Sul, no caldo da cultura da identidade do gaúcho?

Luís Augusto Fischer - Não tenho ideia específica, não sei de comentários de época, mas posso imaginar que ele tenha sido entendido como algo relativo àquele mundo lá de cima, do Brasil, quer dizer, do centro do país, e assim deve ter passado meio batido, sem chegar a cutucar a percepção dos intelectuais daqui de modo mais forte ou nítido. 

 

IHU On-Line - O que o homem cordial pode suscitar em reflexões sobre a empáfia e, até certo ponto, a arrogância do gaúcho?

Luís Augusto Fischer - Só posso especular, sem ter desenvolvido nenhum estudo nesse tema. Uma das coisas interessantes do processo republicano gaúcho foi sua radicalidade política — não estou entre os que celebram tudo que aconteceu aqui, porque o autoritarismo de Júlio  e Borges  foi uma coisa apavorante, e eu gostaria que a democracia representativa tivesse tido mais força, ao contrário do que ocorreu e que era preconizado por Comte  e seguido pelos dois líderes mencionados, que achavam o parlamento uma perda de tempo ou uma manobra liberal diversionista. Mas é certo que em um aspecto a força da lei me parece ter tido aqui mais universalidade do que no Rio, na antiga Corte, e talvez isso se deva em parte do modo específico de nosso republicanismo gaúcho. Quero dizer, em suma, que aqui talvez tenha havido mais uniformidade na aplicação da lei do que noutras partes do país, no período da chamada República Velha (nome ruim, por sinal, que deveria ser abolido em favor de Primeira República, por exemplo). 

 

IHU On-Line - Raízes do Brasil se revela como uma obra em construção, dada a visibilidade ao processo de revisão que o autor faz ao longo dos anos. O que esses movimentos de revisão revelam sobre a obra? E, em termos metodológicos, o que essa experiência inspira?

Luís Augusto Fischer - Não sou sociólogo, logo não sei discutir as questões metodológicas que o livro implica. Mas é certo que o processo de revisão, muito variado e forte, meio que acompanhou algumas das mudanças no debate brasileiro. Por outro lado há coisas que permaneceram em todas as versões que me parecem muito desconfortáveis para um livro — não para ele em si, porque afinal o livro é o que seu autor escreveu e revisou, mas os que o levam tão a ponta de faca, ou que o tomam como oráculo (me parece haver essa atitude entre seus leitores — e aqui aproveito para um parêntese do parêntese: a obra de Sérgio Buarque é muitíssimo superior à Raízes do Brasil, livro que a rigor tem fama grande mas representa a menor parte da contribuição do autor para a historiografia, a crítica literária e o pensamento brasileiros).

Basta ver as passagens francamente antipovo, ou antipopulares, que o livro manteve ao longo do tempo, como é o caso de cap. 6 e a crítica que o autor faz ao que considera uma demagogia — a alfabetização massiva como um dos pré-requisitos para o Brasil mudar. Sim, ele diz isso, exatamente isso: ele ironiza os que acreditam que alfabetizar em massa seja em si um bem, e chega a dizer, com pouca modulação, que isso pode ser comparado a botar arma na mão de cegos.

Por outro lado, mas na mesma direção, há no livro ausências notáveis, que não sei como se podem explicar. Por exemplo: ele não cita, em nenhum momento, nada da obra de Euclides da Cunha , e nós sabemos que depois de 1902, quando saiu Os sertões , não é possível, nem é admissível, que uma pessoa culta fale do Brasil, como generalidade, sem levar em conta aquele relato e aquela acusação, que Euclides faz literalmente, uma acusação de que o Brasil litorâneo não sabe o que se passa no sertão, e que no entanto se permite destruir, como mercenário da indústria bélica ocidental. Aliás, em sentido amplo, me impressiona muito, negativamente, o modo como Sérgio Buarque, em Raízes do Brasil, não tenha se valido do registro literário — e ele era um importante crítico literário daquele momento, com militância forte no Rio e em São Paulo — para pensar o Brasil. Mistério.■

Leia Mais

- Bravata é a mais legítima expressão do gaúcho. Entrevista com Luís Augusto Fischer, publicada na revista IHU On-Line, número 493, de 19-09-2016.

- Machado “nunca foi um lutador de praça pública”. Entrevista com Luís Augusto Fischer, publicada na revista IHU On-Line, número 275, de 29-09-2008.

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