Edição 206 | 27 Novembro 2006

Paulo Gunter Windisch

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Nascido em São Caetano do Sul, Paulo Windisch começou o trabalho cedo na vida. Na indústria automobilística, deu os primeiros passos, mas tem na botânica a sua paixão. Com fôlego de um menino, Paulo encanta a todos com suas histórias de vida e seu sorriso. Conheça um pouco mais desse professor do PPG em Biologia da Unisinos na entrevista a seguir.

Origens - Meu pai veio da Áustria para o Brasil, em 1926. Nasci em São Caetano do Sul, região metropolitana de São Paulo, há 57 anos.

Família - Tenho um irmão quatro anos mais velho, com quem me dou bem, mas tenho pouco contato. Meu pai era uma pessoa caseira, fechada, mas tínhamos uma boa relação. Tenho dois filhos já adultos. O mais novo está na Alemanha, cursando Propaganda e Marketing, e o mais velho, de 25 anos, cursa Administração de Empresas. Tenho uma relação de companheirismo com eles.

Estudos - Meus estudos foram em escolas públicas. No antigo colegial, comecei a trabalhar durante o dia em uma empresa automobilística, deixando a noite para os estudos. Foi uma experiência interessante, completar minha formação já trabalhando. Meu interesse sempre foi voltado à natureza, quando prestei vestibular foi para Ciências Biológicas nas USP. Foi uma fase difícil, trabalho e faculdade no primeiro ano, depois fui tocando. Quando cheguei ao terceiro ano do curso, já pude ministrar aulas na faculdade, aí saí do emprego. Então pude dedicar mais tempo aos estudos. No último ano, estagiei no Instituto de Botânica e tive a sorte de encontrar ainda vivo um botânico aposentado que estudava as samambaias e plantas afins. Foi um achado. Ele ainda teve fôlego para me orientar por dois anos. Como ele era uma pessoa de idade, um ajudava o outro. Em um de nossos últimos encontros, ele me disse que, para continuar nessa área, deveria estudar fora do país. Entrei, então, em contato com um especialista de Harvard para fazer a minha pós-graduação.

Trabalho - Com 16 anos, já estava empregado em uma empresa automobilística. Atuava do setor de transportes e segurança dos trabalhadores. O emprego seguinte foi dando aulas no secundário na mesma escola em que eu estudei e em uma particular, e depois fiz estágio no Instituto de Botânica, no último ano de faculdade. Durante minha pós-graduação nos Estados Unidos aproveitei toda oportunidade de trabalho que aparecia, desde levar cachorros para passear até ser porteiro de clubes. Quando voltei dos Estados Unidos, trabalhei por um período na USP, em seguida na UNESP, onde fiquei por 20 anos.

Vocação - Tive diversos interesses como a fotografia, mas a minha verdadeira vocação é a biologia. Meu avô tinha uma paixão grande pela natureza. Com 18 anos, ele visitou o Brasil. Voltou para a Alemanha, constituiu família, e mais tarde emigrou definitivamente para o Brasil “ter uma aventura nos trópicos”. Até tinha uma chácara que mais parecia um jardim botânico. Dele herdei o gosto pela botânica.

Mudança – Em 1977, retornei de uma expedição à região do rio Xingu com suspeita de malária. Porém o caso era mais sério e tive que fazer uma cirurgia com longa convalescença, o que me permitiu longo tempo para pensar no que eu realmente queria fazer na vida. Em 1999, surgiu uma oportunidade na Unisinos onde estava sendo montada a pós-graduação em Biologia na Universidade e então comecei a atuar em ensino e pesquisa aqui em São Leopoldo.

Aulas - Lembro quando estava a caminho para dar aula às crianças de 5ª série achei um gato e coloquei-o no bolso. Comecei a lição sobre felinos e mostrei o gato aos alunos. De repente, as meninas começaram a chorar, e eu perguntei o que estava acontecendo. Descobri que um dos alunos contou às meninas que eu, como cientista, depois da aula iria matar o gato.

Horas Livres - Interesso-me por ferraria e restauração de rodas de fiar. É uma terapia boa, mas os vizinhos não gostam muito. Aqui no Sul encontrei rodas de fiar coloniais e então comecei a restaurá-las. Isso me levou a entrar em contato com os imigrantes que vieram para o Rio Grande do Sul. Tenho mais de dez rodas de fiar em diversos estágios de restauração. Busquei rodas de diversas regiões, como Minas Gerais e São Paulo. Hoje procuro uma roda específica, da colonização italiana. É muito interessante restaurar a arte de um artesão tão antigo, ver de que região procede, conhecer a história, as diferenças entre uma e outra. Até já fui convidado para escrever um capítulo de um livro dos Estados Unidos sobre rodas de fiar.

Viagens - Já viajei muito a ponto de acumular uma pilha de passagens. No Brasil, tive a oportunidade de conhecer todos os estados e também visitei diversos países da América do Sul, geralmente em trabalhos de campo.

Música - Meu gosto vai do popular ao erudito, depende do meu estado de espírito.

Autor - Um autor que me impressionou muito foi o romeno Virgil Gheorghiu, de Vigésima Quinta Hora, que já teve sua versão cinematográfica. Ele escreveu uma série de livros, que, aqui no Brasil, são pouco difundidos. Atualmente, estou lendo um livro de Carl Sagan sobre o papel da ciência em relação misiticismo.

Política - Tenho uma preocupação muito grande com a manipulação de massas que ocorre na política. A história nos mostra que isso não dá certo. Vemos nossos políticos usando esse meio, cada vez mais sofisticado. Pergunto-me onde vamos parar com isso. Em algum momento virá a conta. A política de governo está aniquilando a indústria do Vale dos Sinos, a convivência com o produto estrangeiro é desleal. Poucas pessoas quando entram em uma loja de produtos importados pensam que aqueles produtos são feitos por crianças que trabalham forçadamente em outro país. Somos entusiastas dos direitos humanos, mas não pensamos nisso no momento. Isso também é uma questão de cultura.

Unisinos – Encontro-me numa posição confortável de compartilhar a minha experiência. Dentro da estrutura da Unisinos, essa experiência é valorizada. Esse respeito pela experiência é muito importante. A Unisinos complementa a minha carreira. Não é só um emprego, ela tem uma missão. Fiz o doutorado em uma universidade clássica no exterior e vejo que essa estrutura se repete aqui em alguns aspectos.

Instituto Humanitas - Acompanho de longe o trabalho do Instituto. É uma coisa interessante, pois estamos em uma Universidade que abraça o humanismo cristão, e essa parte humanística está sendo atendida por uma instituição, que traz o conhecimento. Esse é um diferencial da Unisinos. É um lugar que irradia esse trabalho pela Universidade.

 

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