Edição 455 | 29 Setembro 2014

Tornar visível o invisível. O papel dos observatórios na luta dos movimentos sociais

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Ricardo Machado

Para Noemi Krefta, ativista social, o trabalho dos observatórios deve se concentrar em trazer à tona as dificuldades que se apresentam nos territórios com relação às políticas públicas

Entre os inúmeros desafios dos observatórios, um deles é, justamente, tornar visível o invisível. Em última instância, “servir de suporte aos movimentos para dar visibilidade com números e com a profundidade dos problemas que os movimentos apontam, uma vez que estes nem sempre têm ferramentas para quantificar os desafios que lhes são colocados”, avalia a ativista social Noemi Krefta, em entrevista por e-mail à IHU On-Line. “Os movimentos buscam, em suas lutas, a efetiva implementação das políticas públicas e o acesso pela população, mas o Estado é que tem o dever de fazer com que as coisas aconteçam com qualidade e resolutividade”, complementa.

Ao pensar a realidade do Campo, Noemi sustenta que há suas especificidades e que, portanto, deve ser tratado dentro de suas particularidades. “O território campo se diferencia do urbano e assim é que deve ser visto e tratado. Sua população tem um modo próprio de organização e vida. Seus costumes, sua cultura, seu modo de falar. Isso precisa ser compreendido e ter um planejamento que dê conta de tratar as pessoas a partir de suas especificidades”, ressalta. “A falta de acesso à escola faz com que muitas vezes camponesas(es) tenham vergonha de falar, de exigir seus direitos e, assim, também nos casos de agravos de saúde têm dificuldades de expor o que sentem”, explica.

Por fim, a entrevistada destaca o papel do trabalho de pesquisa acadêmico e da necessidade de se pensar os desafios desde outras perspectivas que não estejam restritas à financeirização. “Quem propõe e quem faz pesquisa tem que ter claro que modelo de sociedade e de agricultura defende; se não se pautar pela produção dos alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, esse observatório não vai apresentar nenhum resultado com proposições para resolver a questão”, argumenta.

Noemi Krefta é ativista social e integrante do Movimento das Mulheres Camponesas e do Grupo da Terra do Ministério da Saúde.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Como o trabalho dos observatórios auxilia nos processos de organização das demandas dos movimentos sociais?

Noemi Krefta - Os observatórios devem se preocupar em trazer à tona as dificuldades que se apresentam nos territórios em relação às políticas públicas. Devem servir de suporte aos movimentos para dar visibilidade com números e com a profundidade dos problemas que os movimentos apontam, uma vez que estes nem sempre têm ferramentas para quantificar os desafios que lhes são colocados. Os movimentos buscam em suas lutas a efetiva implementação das políticas públicas e o acesso pela população, mas o Estado é que tem o dever de fazer com que as coisas aconteçam com qualidade e resolutividade. Os observatórios devem ser sempre um instrumento à disposição das organizações, pois devem possibilitar o levantamento e a apresentação de dados fundamentais para qualificar as lutas e ter avanços concretos.

 

IHU On-Line - Como a problemática acerca dos territórios dialoga com a pauta dos movimentos sociais, especificamente com o Movimento das Mulheres Camponesas – MMC?

Noemi Krefta - O Movimento de Mulheres Camponesas tem em sua missão a libertação das mulheres de toda forma de violência, a construção do projeto de agricultura camponesa agroecológico e a transformação da sociedade. O sistema capitalista, patriarcal e machista oprime e violenta as mulheres das mais diferentes formas, o que impacta em muito na vida das mulheres.

Vejamos: a agricultura convencional baseada no uso de agrotóxicos e sementes transgênicas invade o espaço de produção de alimentos saudáveis, de diversas formas. Não permite que as mulheres tenham autonomia sobre sua produção, contaminando suas sementes com o uso dos agrotóxicos, que contamina a água, o ar e o solo, ou com as sementes transgênicas, provocando perda de muitas espécies e variedades da produção alimentícia e medicinal. Isso causa grandes problemas, como, por exemplo, perda da diversidade e da cultura alimentar, graves problemas de saúde que estão se instalando não só nas pessoas do campo, mas de uma forma geral, como a depressão, os cânceres, o estresse, inclusive os suicídios; além da prática de violência contra as mulheres, pois pessoas desequilibradas, com problemas causados pelo uso de venenos, pelo endividamento, pela falta de perspectiva de renda, acabam resultando em espancamentos, estupros e morte de muitas mulheres.

Assim, temos desafios enormes na luta das mulheres. A libertação delas com autonomia sobre suas vidas, seja econômica, social, política e cultural, se trava numa luta contra o sistema capitalista e patriarcal de produção, que fundamenta e sustenta toda forma de opressão e submissão sobre as mulheres. 

 

IHU On-Line – Considerando as complexidades contemporâneas, de que ordem são os desafios correspondentes à problemática dos territórios no campo? Como, por exemplo, áreas de agricultura familiar são impactadas pela polinização de outras áreas com plantio de sementes transgênicas?

Noemi Krefta - A falta de reforma agrária, os transgênicos, os agrotóxicos são causas de grandes problemas para as populações do campo. Eles geram miséria, fome e destruição ambiental, sendo ainda um fator de destruição da vida, com as doenças que vêm crescendo de forma assustadora, ou seja, o crescente índice de cânceres, até mesmo nas crianças, os suicídios e a depressão que vêm matando muitas(os) camponesas(es).

A impossibilidade de manter as sementes e o envelhecimento do campo são fatores que dificultam cada vez mais a permanência das famílias em seus espaços de produção de alimentos saudáveis de forma diversificada. Ainda podemos associar a isso a produção integrada às agroindústrias que mantêm as pessoas em um regime de “escravidão consentida”, pois não têm liberdade nem tempo para planejar seu modo de produzir, o que impede sua participação nos espaços de discussão e organização.

A produção dos alimentos perdeu grande parte de suas variedades; as plantas medicinais e os saberes tradicionais sobre elas também vêm sendo tirados principalmente das mulheres, com a sobrecarga de trabalho e a pulverização com agrotóxicos que elimina suas plantações.

 

IHU On-Line – Aliás, como podemos pensar os territórios do campo não como espaços geograficamente específicos e com demandas que podem ser consideradas comuns?

Noemi Krefta - O território campo se diferencia do urbano e assim é que deve ser visto e tratado. Sua população tem um modo próprio de organização e vida. Seus costumes, sua cultura, seu modo de falar. Isso precisa ser compreendido e ter um planejamento que dê conta de tratar as pessoas a partir de suas especificidades. A falta de acesso à escola faz com que muitas vezes camponesas(es) tenham vergonha de falar, de exigir seus direitos e, assim, também nos casos de agravos de saúde têm dificuldades de expor o que sentem. Isso também tem a ver com a educação que receberam na família. É muito mais difícil uma pessoa do campo falar sobre seu corpo, sua sexualidade, porque lhes foi dito que isso é feio e  envergonha.

 

IHU On-Line – Em que medida uma melhor compreensão das complexidades dos territórios ajuda na construção de políticas públicas das populações mais vulneráveis? 

Noemi Krefta - Com dados mais concretos e sistematizados que podem ser debatidos e aprofundados, as populações podem planejar suas lutas com mais clareza e pode lhes facilitar as ações de enfrentamento ao atual modelo de sociedade baseada no lucro e transformação de toda forma de vida e dos bens da natureza em mercadoria.

 

IHU On-Line – Qual o papel dos observatórios para entendermos de maneira mais clara as relações entre o desmatamento e um modelo de produção de alimentos baseado no agrobusiness?

Noemi Krefta – Deve-se ter um olhar de cuidado ambiental e cuidado com a vida, os pesquisadores precisam ser sensíveis às causas. Se quem pesquisa tem o olhar do lucro a qualquer custo vai entender que tudo está dentro da normalidade; portanto, quando se propõe um observatório, é preciso firmeza na condução do mesmo, caso contrário o resultado pode ser um desastre.

Sendo assim, quem propõe e quem faz pesquisa tem que ter claro que modelo de sociedade e de agricultura defende; se não se pautar pela produção dos alimentos saudáveis, sem agrotóxicos, esse observatório não vai apresentar nenhum resultado com proposições para resolver a questão. 

 

IHU On-Line – Qual a avaliação da senhora com relação ao trabalho desenvolvido pelos observatórios no Brasil? Quais são as potencialidades e os limites?

Noemi Krefta - Observatório não é só pesquisa, tem áreas delimitadas, mas deve aprofundar mais a situação, o que faz aparecer mais os potenciais ou os problemas existentes, refere-se a situações mais locais. São feitos em momentos e poucos têm continuidade. Não basta levantar os fatos, é preciso acompanhar e instigar a população para se organizar em busca de soluções dos seus problemas. Também é preciso tornar os dados públicos, pois na maioria ficam bastante restritos à academia. 

 

IHU On-Line – De que forma a garantia no acesso às informações dos observatórios é, também, um ato político de garantia dos Direitos Humanos?

Noemi Krefta - Quando um observatório guarda seus dados ele perde seu objetivo, pois nos levantamentos de casos suas informações devem servir para conscientizar a população em questão para lutar pela superação de seus problemas e na conquista de direitos. Desta forma ele se torna ferramenta de luta em busca dos direitos, sejam eles humanos ou até mesmo ambientais.

 

IHU On-Line – Deseja acrescentar algo?

Noemi Krefta - Como Movimento social e popular, entendemos que é preciso avançar com as ferramentas que se propõem a analisar casos para contribuir na construção de metodologias de proposição a fim de superar as iniquidades vividas pela população em questão.

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