Edição 455 | 29 Setembro 2014

Observatórios e o mundo do trabalho. Caminhos para uma visada da complexidade

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Andriolli Costa e Ricardo Machado

Moisés Waismann, coordenador do Observatório Trabalho, Gestão e Políticas Públicas, fala sobre as análises e complexidades que envolvem o tema

Observar para tentar compreender. Em síntese, este é o trabalho dos observatórios, entre eles o Observatório Trabalho, Gestão e Políticas Públicas – UnilaSalle, coordenado por Moisés Waismann, que faz levantamentos sobre a realidade do trabalho na região metropolitana de Porto alegre e Vale do Sinos. “A contribuição que tem para os alunos e pesquisadores das nossas instituições de ensino superior é subsidiar a problematização da realidade econômica com dados e informações reais que auxiliem na solução destas realidades. Para a comunidade em geral a expectativa é de que o material possa ser apropriado e debatido, contribuindo assim para o avanço do bem-estar da população”, destaca Moisés Waismann, ao explicar a atuação do observatório, em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

Apesar de o universo empírico do trabalho do observatório de Waismann se concentrar em uma determinada região, ele acredita que há uma certa regularidade que pode contribuir, em alguma medida, em outros contextos. “Acredito que, ao observarmos as dinâmicas que envolvem as relações de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre, é possível compreender tanto a dinâmica do munícipio de Canoas como de São Leopoldo, mas também compreender, de certa forma, o que ocorre no Brasil ou na Região Metropolitana de São Paulo”, avalia.

Moisés Waismann é graduado em Ciências Econômicas pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul – UFRGS e realizou mestrado em Agronegócios pelo Programa de Pós-Graduação em Agronegócios pela mesma universidade. Doutorou-se em Educação no Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade do Vale do Rio dos Sinos – Unisinos. Atualmente é professor pesquisador da linha de pesquisa em Memória e Gestão Cultural no Mestrado em Memória Social e Bens Culturais do Centro Universitário La Salle - Unilasalle e do grupo de pesquisa de Estratégias Regionais. Atua, também, como coordenador do Observatório Unilasalle: Trabalho, Gestão e Políticas Públicas.

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - O Observatório Unilasalle: Trabalho, Gestão e Políticas Públicas publica mensalmente a Carta do Mercado de Trabalho,  compilando dados nacionais e regionais sobre os avanços e retrocessos da disponibilidade de empregos em diversos setores. Qual a importância deste levantamento? Que tipos de percepções podem ser captados a partir destes dados? 

Moisés Waismann – A “Carta” é um importante documento que tem por objetivo auxiliar os agentes econômicos (empresas, governos e trabalhadores) no entendimento tanto da conjuntura da atividade produtiva como nas transformações estruturais da mesma, percebendo a expansão e ou retração da atividade econômica e prevendo e agindo sobre as possíveis causas e/ou consequências. Dessa forma, podem planejar e se organizar para agir sobre esta realidade. Já a contribuição que tem para os alunos e pesquisadores das nossas Instituições de Ensino Superior é subsidiar a problematização da realidade econômica com dados e informações reais que auxiliem na solução destas realidades. Para a comunidade em geral a expectativa é de que o material possa ser apropriado e debatido, contribuindo assim para o avanço do bem-estar da população.

 

IHU On-Line - Além da publicação da Carta, quais são as outras atribuições do Observatório? 

Moisés Waismann – Além da Carta produzimos também uma Carta Especial sobre as mulheres no mercado de trabalho, já temos duas edições. E produzimos até agora uma setorial sobre a indústria calçadista no Vale do Rio dos Sinos,  em parceria com Observatório da Realidade e das Políticas Públicas do Vale do Rio dos Sinos – Observasinos. Agora estamos planejando estudar o Arranjo Produtivo Local da Moda e do Audiovisual, porém isso são planos.

 

IHU On-Line – Da perspectiva do território e das territorialidades, é possível compreender as dinâmicas que envolvem a relação de trabalho em regiões compartimentando análises locais?

Moisés Waismann – Esta é uma pergunta provocativa! A prática de produzir, a partir de dados gerais e nacionais, um recorte da realidade local e regional é sempre desafiadora por diversos motivos. O primeiro é o reconhecimento por parte da academia/pesquisa e também dos usuários destas informações de que isso é relevante. De senso comum, acreditamos que somente a realidade nacional e/ou internacional interfere nas ações de mundo, mas não é verdade. O segundo ponto, que é gerado em parte pelo primeiro, é que muitas vezes faltam dados disponíveis sobre a realidade local/regional para que se possa transformá-los em informação. O terceiro aspecto, que estamos trabalhando, por meio da realização do Seminário de Observatórios, que já está na sua quarta edição, é construir capacidades e inteligências para que se possa fazer a mediação da conjuntura/políticas internacionais/nacionais com a realidade local/regional, pois esta não se dá de forma direta e igual para todos. Dessa forma, acredito que, ao observarmos a dinâmicas que envolvem as relações de trabalho na Região Metropolitana de Porto Alegre, é possível compreender tanto a dinâmica do munícipio de Canoas como de São Leopoldo, mas também compreender, de certa forma, o que ocorre no Brasil ou na Região Metropolitana de São Paulo.

 

IHU On-Line – Como um olhar mais sistêmico e descentralizado pode permitir o estabelecimento de políticas públicas mais eficientes para as cidades em seu conjunto?

Moisés Waismann – Este é um enorme desafio, porque sistêmico envolve e descentralizar pode dividir. Ocorre que nós ao mesmo tempo estamos no munícipio, na região, no estado, no país. Temos então que pensar nestas inter-relações e tensionamentos, pois dessa forma os cidadãos e os gestores poderão compreender a realidade e os fatores que interferem ou alteram a realidade deste território. Ou destes territórios, visto que temos diferenças na apropriação de um mesmo espaço geográfico. 

 

IHU On-Line – Em nível local ou nacional, você teria exemplos de iniciativas neste sentido?  

Moisés Waismann – O exemplo que tenho foi um dissídio coletivo de uma categoria em que a “Carta” foi utilizada tanto pelo patronal como pelos trabalhadores para discutir a realidade daquele segmento econômico. Isso mostrou que estávamos no caminho certo e com um material de qualidade. Outra experiência foi auxiliar o gestor público na elaboração da política sobre a municipalização do sistema de emprego e renda.

 

IHU On-Line - De modo geral, a empregabilidade no Brasil vem subindo, especialmente no setor de Serviços. No entanto, que tipo de emprego é este? São postos qualificados, ou representam mão de obra pouco especializada? 

Moisés Waismann – A atividade econômica do comércio é a porta de entrada de muitos trabalhadores no mercado formal de trabalho. Desde jovens e mulheres, bem como de aposentados. Ocorre que este setor é tradicionalmente carente de trabalhadores escolarizados, isto é, com ensino básico completo ou superior em formação e/ou com baixa experiência de trabalho. Como é um setor intensivo em mão de obra, emprega muito, mas com salário baixo. Outro exemplo é o setor financeiro, que exige minimamente que o ensino superior esteja em andamento, porém é intensivo em capital, o que significa que a renda é um pouco maior, mas as vagas não são muitas. Ambos são exemplos de atividades econômicas que fazem parte do setor de serviços. Segundo uma pesquisa que realizei desde 1996 até 2012, o salário dos profissionais com educação superior teve uma redução de cerca de 38% no período. Isso mostra que apesar de estarmos vivendo uma oferta de emprego grande e com poucos trabalhadores desempregados, o nível salarial vem caindo de uma forma geral. 

 

IHU On-Line – Ainda faz sentido pensar na dicotomia entre trabalho manual e trabalho intelectual?

Moisés Waismann – Esta separação entre trabalho manual e trabalho intelectual, a meu ver, é um exercício didático de exemplificar a divisão do trabalho. Vejamos: se observarmos o estivador, temos nesse caso uma grande quantidade de força física aplicada na atividade laboral, mas também é verdade que temos um esforço intelectual bastante avançado para pensar como dar conta de vários sacos de 60 quilos ao longo do dia. Se pudéssemos observar uma pessoa trabalhando atrás de uma escrivaninha, em uma sala com ar-condicionado, ou seja, lendo, pensando(?) e escrevendo, deveríamos também atentar ao esforço físico necessário para esta atividade. De outra maneira, se fôssemos pensar em acúmulo de trabalho aplicado a cada um desses trabalhos, concluiríamos, segundo Smith  e Marx , que o trabalho intelectual tem mais horas de trabalho socialmente necessário incorporado do que o do estivador.

 

IHU On-Line – De que modo a recessão progressiva de alguns setores, como o da Indústria, oferece indicativos de uma situação econômica muito mais complexa que afeta o mercado brasileiro? 

Moisés Waismann – Gostei do termo. Recessão progressiva! Desde o final de 2013 venho dizendo que 2014 seria um ano complicado, pois é um ano de eleição presidencial. E esta oportunidade se apresenta para discutir projetos, rumos, visões e também quem (ou qual) vai gerir os fundos públicos e propor políticas públicas para os próximos quatro anos. Não é uma questão menor. Existem setores que apoiam e outros que reprovam o governo. E neste ambiente de disputa e instabilidade o(s) dono(s) do capital deixa(m) de investir. Se não investem, não compram, não há encomenda e nem emprego. A indústria brasileira é ainda o motor dinâmico da economia nacional. Ainda bem que o mercado externo apresenta sinais de recuperação e o setor primário (agricultura familiar e o setor do agronegócio) está bem. Quando passar a eleição as abóboras se acomodam. Os fundamentos macroeconômicos da economia brasileira estão ajustados apesar de todas as especulações. 

 

IHU On-Line – Quais são os paradigmas que regem a visão de trabalho em um contexto de capitalismo pós-industrial, que ultrapassa os antigos limites da empresa capitalista e da carteira assinada? 

Moisés Waismann – A intensificação do trabalho e a disputa pela mente dos trabalhadores! Penso que compreendo o que queres dizer, porém não tenho todas as certezas de que estamos vivendo um capitalismo pós-industrial. Penso que ainda estamos nesta fase. É verdade que o setor de serviços (sistema financeiro, comércio, saúde, ensino...) vem assumindo cada vez mais a responsabilidade pela geração de postos de trabalho. Mas o motor, a dinâmica vem da indústria de alfinetes do Smith. É só verificar a onda gerencialista que invade as organizações. Como temos mais capital por seres humanos em organizações mais dinâmicas, isso faz com que o ser humano se adapte ao ritmo das máquinas na esteira de produção. E ao mesmo tempo os trabalhadores são submetidos à doutrina ideológica dos mecanismos de gestão, fazendo com que internalizemos práticas e rotinas que não fazem parte da nossa tradição, e sim da tradição fabril.

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