Edição 448 | 28 Julho 2014

Por uma evolução consciente, dinâmica e proativa

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Márcia Junges e Andriolli Costa / Tradução: Walter Schlupp

Diarmuid O’Murchu acredita que a consciência permite ao ser humano aprender a fluir com o processo criativo da evolução, assumindo também o papel de criador

Sempre que se recorre ao termo “evolução”, é quase inevitável remeter ao lastro com o darwinismo. Um pensamento relacionado à abordagem da seleção natural e em certo determinismo no ambiente sob o qual as espécies têm pouco ou nenhum controle. Para Diarmuid O’Murchu, no entanto, os novos tempos evocam uma outra consciência, com “uma compreensão mais dinâmica da evolução como característica de um universo onde tudo floresce através do processo de crescimento-mudança-desenvolvimento”. Um processo evolutivo do qual o humano pode participar de forma proativa. Uma evolução consciente. 

Isso não significa, no entanto, que os seres humanos, agora, possam “optar por dirigir a evolução para a satisfação de todas as necessidades e aspirações humanas”. O pensador, ao contrário, evita a retomada do antropocentrismo e defende o uso desta nova consciência para “aprender a fluir com o processo criativo da evolução, tornando-nos cocriadores junto com um processo maior do que nós mesmos”. 

Em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, O'Murchu aborda a confluência entre ciência, religião e espirituralidade indígena, a relevância do pensamento de Teilhard de Chardin para pensar a evolução consciente, o empoderamento da fé e, por que não, do surgimento de uma fé evolucionária — que nada mais seria do que uma mudança de paradigma que já se reflete em nossa compreensão da religião e espiritualidade. 

Desta forma, redescobrimos um Deus que se afasta da ideia de “um macho imperioso, governando e julgando dos altos céus, para concebê-lo como divina força de vida que anima e empodera dentro da própria criação cósmica”. Algo próximo à visão que os grandes místicos ou povos tradicionais tinham na crença do Grande Espírito. Porém, ele salienta: “Tudo isso não deve ser confundido com panteísmo, o qual implica que Deus nada é além da criação material”.

Diarmuid O'Murchu é psicólogo social e membro da Sociedade dos Missionários do Sagrado Coração. Durante anos atuou no aconselhamento de casais, portadores de HIV, moradores de rua e refugiados. Agiu ainda como facilitador da organização de grupos para propagação da fé em países como Europa, Estados Unidos, Austrália, Filipinas, Tailândia, Índia e Peru. Entre suas obras, destacamos Christianity's Dangerous Memory (New York: The Crossroad Publishing Company, 2011), In the Beginning was the Spirit (New York: Orbis Books, 2012) e God in the Midst of Change (New York: Orbis Books, 2013).

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line - Como podemos compreender a evolução consciente?

Diarmuid O'Murchu - O termo está um tanto mal definido. É uma tentativa de reagir de forma mais adequada e responsável a um novo tipo de consciência a inundar nosso mundo hoje. Agora que vivemos num planeta interconectado, saturado de informações novas, que aumentam em ritmo exponencial, mais pessoas se conscientizam, a um ponto como nunca se viu antes. Portanto, a palavra consciente refere-se basicamente a essa inundação de uma nova consciência a atingir todo mundo de diferentes maneiras.

Em segundo lugar, o conceito de evolução tem sido identificado com a abordagem darwiniana, com ênfase na seleção natural e na sobrevivência do mais forte, que envolve certo determinismo, impulsionada por fatores externos, sobre os quais os seres humanos têm pouco ou nenhum controle. A nova consciência do nosso tempo evoca uma compreensão mais dinâmica da evolução como característica de um universo onde tudo floresce através do processo de crescimento-mudança-desenvolvimento. Os seres humanos não só estão muito mais conscientes desse processo, mas também sentimos que podemos participar dele de forma proativa, em vez de sermos suas vítimas, determinadas pelo processo (como na abordagem do gene egoísta de Richard Dawkins ).

Uma das questões problemáticas que surgem aqui é que alguns defensores da evolução consciente parecem estar sugerindo que os seres humanos agora podem optar por dirigir a evolução para a satisfação de todas as necessidades e aspirações humanas. Para mim, isso se aproxima perigosamente de um novo antropocentrismo imperioso. Em vez disso, sugiro eu, precisamos usar nossa nova consciência para aprender a fluir com o processo criativo da evolução, tornando-nos co-criadores junto com um processo maior do que nós mesmos .

 

IHU On-Line - Qual é a importância e relação de uma fé “empoderada” para entendermos esse conceito?

Diarmuid O'Murchu - Eu desenvolvo a noção de empoderamento a partir da minha compreensão da noção cristã do Reino de Deus (mais em meu livro Christianity's Dangerous Memory ). Trata-se de um antídoto contra a dominação imperiosa tão endêmica não só no cristianismo, mas em muitas grandes religiões. Empoderamento nesse contexto sugere o convite tanto quanto desafio de trabalhar de forma proativa e criativa com a criação a evoluir dentro e ao redor de nós, optando, assim, por tornar-nos partícipes criativos e não observadores passivos, em grande parte. Tal mudança, obviamente, não é possível sem toda uma mudança de paradigma em nossa compreensão da política, da economia, da política social, educação e religião. E essa mudança não será uma opção feita conscientemente por seres humanos que detêm o poder. A mudança vai exigir o colapso das grandes instituições, para serem substituídas no momento oportuno por redes mais fluidas, flexíveis e criativas. Networking é uma dimensão fundamental da nova capacitação evolutiva (como vigorosamente mostrado por Paul Hawken  em seu livro Blessed Unrest ).

 

IHU On-Line - Em que sentido se pode falar em uma “fé evolucionária” e numa redescoberta de Deus?

Diarmuid O'Murchu - Em termos simples, estou me referindo à mudança de paradigma que já está transpirando em nossa compreensão da religião e da espiritualidade. Ela não é reconhecida pela maioria das Igrejas ou religiões formais, sendo que algumas resistem a ela com unhas e dentes. A mudança se manifesta num afastamento da natureza estática e dogmática da religião formal, para uma aceitação maior da provisoriedade e da natureza culturalmente determinada de tanta coisa que tomamos como verdade revelada em caráter definitivo. A redescoberta de Deus está se afastando da ideia de que ele seria como um macho imperioso, governando e julgando dos altos céus, para concebê-lo como divina força de vida que anima e empodera dentro da própria criação cósmica. Parece que este é o entendimento do Mistério Sagrado abraçado por muitos grandes místicos em todas as tradições religiosas e amplamente adotado pelos povos indígenas em sua crença no Grande Espírito (mais em meu livro In the Beginning was the Spirit ). Tudo isso não deve ser confundido com panteísmo, o qual implica que Deus nada é além da criação material.

 

IHU On-Line - O que é um cristão “pós-colonial” e qual é a importância dessa ideia para uma nova compreensão do cristianismo em nossa época?

Diarmuid O'Murchu - Pós-colonialismo  é um campo relativamente novo de estudo sobre o resíduo do impacto colonial, convidando a uma crítica e a uma reavaliação sobre por que nos apegamos ao que foi imposto no passado colonial — não confundir com neocolonialismo, que descreve as formas contemporâneas de colonização. Por exemplo, na maior parte das Igrejas Cristãs o/a clérigo/a, ao presidir cerimônias religiosas formais, usa um traje (vestes sacerdotais) cujo modelo foram as roupas usadas pela elite masculina na sociedade romana dos séculos IV a VI. Por que nos agarramos tanto a essa pompa? E qual é a opressão internalizada que nos mantêm coniventes com essa opressão?

Há vários elementos nos evangelhos cristãos e, mais especificamente, na história cristã, que estão embutidos na mentalidade colonial de passividade e subserviência (por exemplo, a forte ênfase sobre a realeza patriarcal [patriarchal kingship]). Esses elementos não precisam apenas ser desafiados, mas abandonados cedo ou tarde, já que cada vez mais parecem estar em sério conflito com a visão libertadora e emancipadora do Jesus histórico tal como articulada na visão do Reino de Deus (o Companheirismo do Empoderamento [Companionship of Empowerment]). Muito mais sobre este tema complexo, mas inspirador, consta no meu livro On Being a Postcolonial Christian , publicado em 2014 pela Amazon.

 

IHU On-Line - Como ciência, religião e a espiritualidade indígena confluem e se complementam? Que aprendizados podemos tirar desse diálogo para uma evolução de nossas sociedades?

Diarmuid O'Murchu - A complementaridade da ciência, da religião e da espiritualidade indígena é explorada em detalhes no meu livro In the Beginning was the Spirit. O enriquecimento mútuo desse processo destaca vários aspectos do que hoje chamamos de evolução consciente. Entre eles:

A) O desejo de superar toda divisão dualista (por exemplo, terra x céu; corpo x corpo, matéria x espírito). A nova cosmologia vê toda a vida como una, uma realidade de vida que não deve ser dividida em distinções binárias superficiais.

B) Um dualismo desses é a de avançado x primitivo. As pessoas de culturas indígenas têm sido consideradas como semi-humanas ou até mesmo não humanas. (Apenas na década de 1960 o governo australiano elevou os aborígenes ao status de ser humano; até então eram classificados como "flora e fauna").

C) Povos indígenas de todo o nosso mundo têm a crença básica de que o sentido último é aquilo que eles descrevem como O Grande Espírito, uma divina força de vida que reside não num paraíso distante, mas está profundamente presente na própria terra viva, servindo como energia originadora e empoderadora, que orienta e empodera tudo na criação. Combinando esse conhecimento com as principais ideias da Física Quântica, começa-se a ver o enorme potencial de fertilização cruzada de ideias entre religião (mais precisamente, Espiritualidade) e ciência.

 

IHU On-Line - A evolução consciente já é uma realidade? Que esperanças essa ideia traz para a existência no Universo?

Diarmuid O'Murchu - Como afirmei na minha resposta à primeira pergunta, evolução consciente é uma influência generalizada de nosso tempo. Ela levanta a questão: O que queremos dizer com consciência? Este é um tema extremamente interessante e controverso na ciência, na filosofia e na psicologia. No mundo acadêmico, Daniel Dennett  continua sendo o grande nome; para ele, consciência consiste na interação de entidades atômicas semelhantes no cérebro humano (chamadas qualia). Portanto, a consciência, segundo Dennett, é um conjunto de comportamentos mentais humanos, nada mais do que isso.

No outro extremo do espectro, está a crença de que a consciência integra, em primeiro lugar, o universo e a energia criativa que anima e sustenta tudo na criação . Este é o entendimento esposado pela maioria dos defensores da evolução consciente, sendo que a Física Quântica certamente apoia esse ponto de vista. Em relação ao antropocentrismo, um desafio que sucede daí é colocar em primeiro lugar a criação (cosmos e o planeta) em nossa compreensão de tudo na vida, ou seja, na perspectiva espiritual, tentar superar o impacto destrutivo do nosso pretensioso antropocentrismo.

 

IHU On-Line - Qual é a importância das ideias do jesuíta Teilhard de Chardin  para pensarmos e discutirmos a evolução consciente?

Diarmuid O'Murchu - Teilhard foi um dos primeiros a introduzir a noção de evolução no mundo cristão em geral e em particular no catolicismo. No entanto, a compreensão de Teilhard é bastante antropocêntrica e o Jesus cristão é visto como epítome do processo evolutivo para todos. Muitos defensores contemporâneos da evolução consciente incluiriam Teilhard entre suas fontes de inspiração. Para uma compreensão contemporânea de Teilhard, vide o trabalho pioneiro da teóloga americana Ilia Delio .

 

IHU On-Line - Qual é a contribuição da reflexão da evolução consciente para o debate sobre o pós-humanismo e o transumanismo?

Diarmuid O'Murchu - Alguns poderiam descrever o pós-humano como o lado sombrio da evolução consciente. Se entendermos o pós/transumano em termos de avanços que buscam integrar o ser humano com a tecnologia (tecnicamente chamado de cyborg), então podemos considerar dois cenários:

A) Damos suporte ao avanço da medicina e dos cuidados de saúde para melhorar a dignidade e o valor da pessoa humana — desde que não seja à custa de outras criaturas terrestres (o que geralmente é o que acontece na globalização moderna).

B) Existe a possibilidade de o próprio ser humano ditar e controlar sua futura saúde e bem-estar, através da adoção de cada vez mais dispositivos biotecnológicos. Podemos pensar num exemplo benigno, como o marca-passo cardíaco, que a maioria das pessoas aceita sem quaisquer preocupações éticas. Mas como ficam os implantes cerebrais que as próprias pessoas serão capazes de inserir dentro de poucos anos — dispositivos tecnológicos que podem alterar a longevidade humana, o processo de pensamento, traços de personalidade etc? Obviamente, uma questão ética grave é que algumas pessoas poderão ter acesso a esses avanços enquanto milhões talvez não consigam adquiri-los. Em todos esses casos, quem vai exercer o monitoramento ético? Muitos não confiam que os governos de maior evidência façam isso de modo imparcial, ou de uma forma verdadeiramente informada. A questão se o pós/transumano será um avanço evolutivo ou uma nova monstruosidade antropocêntrica ainda é muito incerta e obscura.

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