Edição 445 | 09 Junho 2014

Uma Copa para assistir pela televisão

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Luciano Gallas

Édison Gastaldo analisa o “processo de aburguesamento do estádio de futebol” no Brasil, que oferece estacionamento, manobrista e elevador para o público-alvo e reserva às chamadas classes populares o direito de acompanhar os jogos em casa, pela tevê

“No Brasil, a mídia e o esporte têm uma construção que chamamos de reflexiva: o esporte constrói o campo das mídias, e o campo das mídias constrói o campo do esporte. [...] O futebol cresceu e se autonomizou, ganhou caderno especial, virou jornal especializado. E agora, em época de Copa do Mundo, ganha caderno diário de 16 páginas a cores só sobre o Mundial. Há um vasto investimento editorial neste campo, que obviamente constrói a audiência de 97% [nos jogos da seleção brasileira]. Este fenômeno de audiência é um fenômeno midiático. O futebol é hoje, para a maior parte das pessoas, um programa de televisão”, analisa o publicitário e antropólogo Édison Gastaldo.

Nesta entrevista, concedida por telefone à IHU On-Line, Gastaldo avalia a relevância do futebol na construção de uma identidade e cultura nacionais, a participação do Estado na consolidação e nos resultados desta modalidade esportiva e o projeto socioeconômico que orienta a concepção dos novos estádios do país, erguidos para a Copa ou não. “O que está acontecendo hoje no Brasil é um processo de aburguesamento do estádio de futebol. Está se dando muita atenção para estacionamento, coisa que nunca foi problema no Maracanã, por exemplo. As pessoas iam ao estádio de trem, de ônibus, usando o transporte público. As pessoas que frequentavam o estádio não iam de carro. Agora estão sendo oferecidos estacionamentos cobertos e manobristas e elevadores e shopping center, caracterizando o processo de aburguesamento destes empreendimentos imobiliários, a partir da definição do público-alvo pelas organizações que constroem e administram os novos estádios, as lojas e shoppings, as arenas multiuso, conforme o projeto de exploração econômica daquele espaço. Há aí, portanto, um projeto capitalista claramente colocado”, enfatiza o docente.

Édison Luis Gastaldo possui graduação em Comunicação Social – Habilitação em Publicidade e Propaganda pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul - UFRGS, mestrado em Antropologia Social pela mesma instituição, doutorado em Multimeios pelo Instituto de Artes da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP e pós-doutorados em Sociologia pela University of Manchester, Inglaterra, e em Antropologia Social pelo Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro - UFRJ. Atualmente é professor adjunto no Departamento de Letras e Comunicação da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro – UFRRJ e professor permanente no Programa de Pós-Graduação em Ciências Sociais da UFRRJ. É autor dos livros Pátria, Chuteiras e Propaganda: o brasileiro na publicidade da Copa do Mundo (AnnaBlume/Unisinos, 2002), Erving Goffman, desbravador do Cotidiano (Tomo Editorial, 2004), Nações em Campo: Copa do Mundo e identidade nacional (com Simoni Guedes, Intertexto, 2006) e Publicidade e Sociedade: uma perspectiva antropológica (Sulina, 2013).

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual é a importância do futebol para os brasileiros?
Édison Gastaldo -
Esta é uma relação histórica que vem sendo construída desde os anos 1930. É uma longa história que, por uma série de ações do Estado e por um gosto popular pelo futebol, foi se desenvolvendo no sentido forte de que o futebol expressa a brasilidade. Tem papel importante nesta leitura a obra de intelectuais como Mário Filho  e Gilberto Freyre . Este último, por exemplo, publicou em 1938 um artigo no Diário de Pernambuco chamado Football mulato, sobre o desempenho brasileiro na Copa do Mundo realizada naquele ano, quando ficou em terceiro lugar, e teve o goleador da competição e o melhor atleta: o jogador Leônidas, o Diamante Negro . Foi um feito extraordinário para o futebol brasileiro da época.

A partir desta leitura de que o futebol jogado pelos negros e mulatos expressava a miscigenação racial brasileira e da hipótese culturalista  de Gilberto Freyre, passou-se a entender que aquele futebol que incorporava a ginga, a malandragem, a capoeira, a dança e o samba era o “autêntico” e “vitorioso” futebol brasileiro. Enquanto os dirigentes brasileiros insistiram, o que tinham feito até os anos 1930, em aceitar apenas a participação dos brancos, da elite, e em jogar imitando os europeus, o futebol teria fracassado. Quando o futebol jogado no Brasil passa a incorporar o que estes intelectuais dizem ser as virtudes da malícia, da ginga, da malandragem, do jogo de corpo, que são influências da cultura negra, ele se tornaria invencível, se tornaria de fato o futebol brasileiro, se tornaria algo que o Brasil tem a ensinar para o mundo. Esse é o fundo do argumento destes intelectuais, o qual foi se desenvolvendo à medida que, a partir de 1958, o Brasil começou a ganhar uma Copa do Mundo atrás da outra — foram três copas em 12 anos. Então uma coisa reforça a outra, e assim este discurso parece ter hoje, em 2014, a dimensão da eternidade: “o Brasil é, sempre foi e sempre será o país do futebol”. É importante não nos deixarmos levar pela sedução fácil deste discurso.

IHU On-Line - De acordo com este pensamento, a incorporação ao futebol das virtudes da cultura negra teria ocorrido nos anos 1930, principalmente na segunda metade daquela década?
Édison Gastaldo -
O que se tem é o discurso de como intelectuais e acadêmicos interpretaram isso e como essa leitura autorizada pela intelectualidade vai se tornar uma leitura dominante do que significa o futebol para o Brasil. Os jogadores negros participam praticamente desde o início da história do futebol no Brasil em times de fábrica. Por exemplo, o Bangu, no Rio de Janeiro, é um time de fábrica que já incorporava jogadores brasileiros desde o início do século XX. Friedenreich  é o principal jogador da seleção brasileira que ganhou o campeonato sul-americano de 1919, o primeiro título internacional relevante da equipe, e ele era um mulato. Friedenreich fez mais gols do que Pelé.

Então não dá para comprar por inteiro este discurso do Gilberto Freyre. É uma leitura culturalista, típica de certo período da ciência, que são os anos 1930 — momento em que se estava convivendo com o nazismo, o fascismo, o Franco , na Espanha, e o comunismo de Stalin . É uma teoria relacionada a um certo momento histórico. A incorporação de atletas negros aconteceu desde o começo, não sem resistências, não sem brigas, não sem lutas. O Negro no Futebol Brasileiro, que é a outra grande fonte autorizada do futebol brasileiro, é um livro também um tanto tendencioso, escrito por Mário Filho, e que também tem que ser lido com cautela. Não se pode comprar por atacado este tipo de argumento — quando se é pesquisador desta área, pelo menos. No boteco pode, mas não quando se quer pensar academicamente neste fenômeno.

Esta ligação [entre identidade nacional e futebol] vem sendo construída por discursos, com a poderosa ação do Estado patrocinando a seleção brasileira. A seleção de 1970 é um exemplo desta interferência do Estado. Não no resultado das partidas, não se trata disso, e sim de se enviar com anos de antecedência profissionais militares de educação física para estudar nos centros mais avançados de treinamento da Europa e dos Estados Unidos. Dois destes capitães do Exército, que foram enviados com a missão de apreender as tecnologias mais avançadas de treinamento esportivo da época, se chamavam Cláudio Coutinho e Carlos Alberto Parreira. E os dois foram técnicos da seleção brasileira ao longo dos anos. Então, há esta vinculação forte de um projeto nacional expresso na participação em Copas do Mundo. Não é por acaso que o Brasil é o único país que participou de todas as Copas.

IHU On-Line – O que explica o fato de as médias de público nos estádios do Brasil serem bastante inferiores a dos principais campeonatos nacionais europeus?
Édison Gastaldo -
É uma questão de conjuntura. Na Europa, os ingressos são vendidos para a temporada inteira. Há um sistema de ingressos em que, para você assistir hoje a uma partida, você teria que ter comprado dois ou três anos atrás. Outra questão é o poder aquisitivo das pessoas, que é muito maior na Europa do que no Brasil. Eu lembro que fui convidado a assistir a uma partida de futebol na Inglaterra. O ingresso custou cerca de 80 libras, algo como 300 reais, para assistir o jogo na cadeira numerada. O estádio era como um teatro, todo “padrão FIFA”, por assim dizer. De qualquer forma, é um ingresso muito caro.

IHU On-Line - Mas era a melhor acomodação no estádio, não?
Édison Gastaldo -
Não era nada! Era lá em cima, em um setor atrás da goleira. Não era a melhor acomodação, o ingresso é que era caro mesmo. Porque o público é grande e há poucos ingressos à venda, pois em geral os estádios são pequenos.

O que está acontecendo hoje no Brasil é um processo de aburguesamento do estádio de futebol. Está se dando muita atenção para estacionamento, coisa que nunca foi problema no Maracanã, por exemplo. As pessoas iam ao estádio de trem, de ônibus, usando o transporte público. As pessoas que frequentavam o estádio não iam de carro. Agora estão sendo oferecidos estacionamentos cobertos e manobristas e elevadores e shopping center, caracterizando o processo de aburguesamento destes empreendimentos imobiliários, a partir da definição do público-alvo pelas organizações que constroem e administram os novos estádios, as lojas e shoppings, as arenas multiuso, conforme o projeto de exploração econômica daquele espaço. Há aí, portanto, um projeto capitalista claramente colocado.

O fato é que este projeto tem um público-alvo em mente. Existe um perfil de usuário que a corporação quer que frequente a nova arena multiuso. Só que o estádio de futebol, o velho estádio, é frequentado por outro tipo de gente, muito diferente, e que pode ser caracterizada, por exemplo, na torcida organizada. Isso evidencia os confrontos em torno deste projeto. A torcida organizada torce de pé, e não sentada, enquanto os novos estádios “padrão arena” são todos equipados com cadeiras para as pessoas sentarem. E, no projeto, as pessoas têm que se sentar, é isso que se espera da audiência. Ou seja, ao instalar cadeiras, você coloca uma espécie de obrigação para que a pessoa assista à partida sentada. O que acontece? A torcida, por vezes, sobe em cima da cadeira, para ficar mais alta ainda, pulando, e é claro que quebra a cadeira.

O confronto é inevitável, porque são duas visões de mundo diferentes, são dois mundos diferentes disputando o mesmo espaço: as pessoas que costumam frequentar os estádios de futebol e as pessoas que as empresas que construíram os novos empreendimentos querem que frequentem estas arenas multiuso. Existe um conflito em curso. Veremos desdobramentos disso no pós-Copa do Mundo, com os usos que vão ser feitos dos novos estádios brasileiros padrão FIFA. Precisamos verificar o que vai acontecer após a competição e os ajustes a serem feitos. O Grêmio, por exemplo, mandou retirar as cadeiras de um setor da sua arena para que a torcida pudesse fazer a avalanche a cada gol do time. Mas, na primeira avalanche, quebrou a grade [que servia de contenção à torcida]. É desse tipo de confronto que estou falando. São visões de mundo, projetos, diferentes, e eles estão, neste momento, em processo de colisão. Vamos ver o que resultará.

IHU On-Line – Foram citadas formas distintas de torcer, conforme a identidade e os interesses de cada público. O significado do futebol também muda de acordo, por exemplo, com a classe social e a renda econômica?
Édison Gastaldo –
Além da classe e da renda, há vários outros fatores importantes na definição das diferenças entre as pessoas e suas visões de mundo. Um deles é a religião. O significado do futebol muda muito, de uma religião para outra. O mesmo ocorre com a situação familiar. Independente de classe e de renda, uma família desagregada produz ou interfere de modo diferente nos seus membros em relação a uma família organizada.

O que eu quero dizer é que este projeto global de transformação dos estádios do Brasil em estádios à moda dos europeus vai provocar uma alteração no modo como se torce hoje no Brasil. O projeto para as ditas classes populares, ou seja, para os setores da população de onde vêm a maioria dos torcedores que frequentam os estádios de futebol, parece ser o que corresponde à mensagem “fiquem nos seus lugares assistindo pela televisão”.

Agora, tem outro ponto, que é o de que a torcida joga junto com o time. Torcer não é o mesmo que estar simplesmente no estádio. Você tem que saber torcer, você tem que aprender as músicas, você tem que saber a hora de gritar isso ou aquilo para atuar como um coletivo e empurrar o time.  O que está acontecendo também, já me relataram, é que, nos novos estádios, boa parte da torcida não sabe torcer, não sabe estas músicas e nem a hora de vaiar, ou vaia na hora errada. Isso não ajuda o time. E o que importa para o time, para a torcida, não é o estádio, nem a própria torcida: é ganhar. Se a torcida não está ajudando, o time vai querer que a organizada volte, porque pelo menos empurra o time.

É curioso que a torcida organizada esteja sendo satanizada, hostilizada no discurso midiático. A gente vê por toda parte manifestações do tipo “isso é a barbárie”, “são bandidos”, e, no entanto, é a torcida organizada que produz a manifestação mais visível daquilo que se entende como torcida. Sempre que uma emissora de tevê vai transmitir um jogo, ou a propaganda para um jogo de futebol, ela mostra os jogadores, os gols, as jogadas e a torcida. Qual? A torcida organizada, suas bandeiras gigantes, a avalanche, faixas, papel picado. Torcedor comum não faz isso. Qual é o torcedor comum que vai sozinho ao estádio ver um jogo com papel picado no bolso? Tem que ter uma organização para isso acontecer, para este espetáculo visual ocorrer. Esta parte festiva das arquibancadas, que é tão bem explorada como imagem midiática, é produzida exatamente pela torcida organizada, que o mesmo discurso jornalístico identifica como “a barbárie”, “um retrocesso”. Há uma profunda incompreensão de parte a parte, que eu acho que leva a muitos equívocos que poderiam ser evitados.

IHU On-Line - As denúncias de corrupção que envolvem dirigentes da FIFA e da CBF impactam na relação dos torcedores com o futebol?
Édison Gastaldo -
Sim, mas nada que desarmonize muito do conjunto. Porque, no futebol, sempre existiu a figura do cartola, que é um representante das elites que ocupam os cargos diretivos dos clubes de futebol pelos quais as pessoas torcem. Então o cartola é uma espécie de metáfora do político. E a grande crítica aos políticos é que eles agem em benefício próprio e não em benefício do país. Bom, o cartola faria a mesma coisa, só que em nome do meu time do coração. Eu sou apenas um torcedor, não posso fazer nada, enquanto eu vejo o cartola comprar um jogador, vender outro, dar uma falcatrua, fazer um empréstimo, deixar o clube endividado, mandar construir um novo estádio e não ter dinheiro para pagá-lo.

O cartola é uma figura odiada desde o começo da relação nacional com o futebol. Ele é uma metáfora perfeita do político, na medida em que o sujeito faz uso privado daquilo que é objeto de nosso afeto público. Então, essa revanche em relação ao cartola, este ódio contra ele, é perfeitamente harmônico com o sentido geral do futebol no Brasil: “é o cartola que estraga tudo”, “é o político que estraga tudo”, “o Brasil é uma maravilha, o problema está nesses políticos”. Esse discurso, essa fala, que encontra eco na figura do cartola, já está harmonizada com o conjunto de significados que envolvem o futebol no Brasil.

IHU On-Line – Neste contexto de mudanças nas formas de torcer na comparação entre os antigos estádios e as novas arenas, qual é o espaço ocupado pelas mulheres? Nos últimos anos é possível observar uma maior presença delas nas partidas de futebol...
Édison Gastaldo -
Há várias maneiras de torcer. Independente de gênero, tem torcedor que só fica sabendo que o time jogou na segunda-feira, quando lê o jornal.  E torce também. E faz piada no serviço, mas antes dá uma lidinha no jornal para saber quanto foi o jogo mesmo, para saber se tem que procurar os torcedores rivais para tirar sarro ou se tem que fugir deles... Há várias maneiras de se apropriar dos fatos proporcionados pelo universo do futebol. Cresceu um pouquinho, sim, a presença de mulheres, mas o espaço do estádio ainda é hegemonicamente masculino. Eu vou ficar animado quando a presença das mulheres nos estádios estiver meio a meio com a dos homens, quando metade do estádio for de mulheres. Aí sim teremos chegado a uma situação de equilíbrio, quando o estádio será de qualquer um que goste de futebol.

Entretanto, hoje o futebol permanece um espaço de exacerbação, de explicitação, de exibição de valores masculinos. Nos estádios, se ofende com palavras de teor sexista. A bandeirinha, quando é mulher, é xingada o jogo inteiro com ofensas sexistas, sem levar em conta se quem está sentado ao lado é uma mulher ou não. A lógica, a vibe do estádio, vamos dizer assim, é masculina. Se as mulheres ocuparem esse espaço, será positivo para que a gente possa questionar a representação de gênero. A homossexualidade, por exemplo, é vista sempre como uma categoria de acusação, não como uma alternativa de orientação de cada pessoa. É sempre usada como ofensa. E esta lógica não fica abolida porque mais mulheres começam a frequentar o estádio. É positivo promover isso, mas a presença feminina ainda é muito tímida, por razões compreensíveis.

IHU On-Line – O discurso racista também faz parte desta cultura do futebol...
Édison Gastaldo -
Também. É uma cultura machista. É uma cultura que se fundamenta na competição de um contra um outro, a quem são imputados todos os tipos de defeitos. E tudo que puder ser imputado como defeito será jogado sobre ele, como se fosse uma pedra. O racismo é usado no futebol para desestabilizar moralmente o adversário. É usado como um recurso, como se fosse uma pedrada. É como jogar uma pilha no jogador. Joga-se uma ofensa, para que o adversário se desestabilize. O jogador vai cobrar o lateral, ouve aquilo, fica perturbado, desconcentra, então funciona. O uso destas ofensas sexistas, racistas é feito porque são operacionais na situação de jogo.

O importante nesta situação é ganhar o jogo. O negócio é que estão todos disputando. Se isso ofende, se isso humilha, se isso afeta emocionalmente o jogador, então será usado. O que precisa ser feito? Precisa reprimir, punir, fazer o que estão fazendo. Usar câmeras, identificar e culpabilizar individualmente. Se não se consegue culpabilizar individualmente, aí se pune o clube. Então a torcida inteira vai se encarregar de ajudar. O que tem que fazer é ser intolerante com este tipo de dispositivo, de ação, de usar este tipo de ofensa. Não pode, tem que banir do jogo, adotando-se isso como uma questão política.

IHU On-Line - Na sua avaliação, o torcedor se importa mais com o time do coração ou com a seleção nacional? São dois sentimentos diferentes?
Édison Gastaldo -
São duas pessoas diferentes. A audiência de um jogo de futebol no Brasil, entre Flamengo e Goiás ou entre Coritiba e Corinthians, para dar exemplos de partidas de futebol comuns no campeonato brasileiro, tem uma audiência de alguns milhões de espectadores. Já uma partida da seleção brasileira é assistida por 95% dos televisores ligados no país. A audiência projetada de um jogo da seleção brasileira em Copa do Mundo é de 120 milhões de pessoas, que naquele momento estarão com o olho vidrado na mesma imagem, na mesma partida, no pé do mesmo jogador.

Nós estamos falando de um contingente de cinco, seis, talvez dez milhões de pessoas que acompanham o futebol como torcedores do time, pessoas que têm a camiseta oficial, consultam a tabela, sabem a escalação do time. Isso é um tipo de apropriação do futebol. Por outro lado, quando a gente fala de seleção brasileira na Copa do Mundo, aí nós estamos falando de um fato social total. Estamos falando de um momento em que o país para, e que 120 milhões de pessoas estão vendo ao mesmo tempo o mesmo jogo e sofrendo, às vezes sem saber “qual deles é a bola”, mas fazendo parte de um momento fundamental para demonstrar-se que se é brasileiro. São dois fenômenos muito diferentes. A Copa do Mundo é um caso à parte. Muitos torcedores de clube marcam essa diferença indo a um jogo da Copa com a camisa do seu time. Fato comum: se você for a um local público ver o jogo da seleção, você vai ver muita gente com a camisa do Inter, muita gente com a camisa do Grêmio, e uma maioria absoluta de camisa amarela, claro.

IHU On-Line - O que significa este ato de assistir a um jogo da seleção com a camisa do clube?
Édison Gastaldo -
Pelo que eu conversei com algumas pessoas, significa dizer assim: “não me confunda com esse torcedor de Copa do Mundo”. Porque este, do ponto de vista daquele que é torcedor de futebol clubístico, de quem entende de futebol, é um pouco ingênuo, não sabe nada de futebol, um inocente. Quem sabe mesmo de futebol torce para um time. E vai ao jogo com a camisa do time para marcar essa diferença. 

IHU On-Line - A derrota para o Uruguai na disputa pelo título mundial na Copa do Mundo de 1950, em pleno Maracanã, ainda é algo a ser superado pela seleção brasileira?
Édison Gastaldo -
É uma tradição inventada, essa história. É um momento de virada, é um momento de um grande fracasso, e é um momento em que se junta para sempre a ideia de que a seleção somos nós e nós somos a seleção. É um momento em que todas as derrotas do Brasil, do time da CBF, passam a ser vistas como uma derrota da nação. Perder o Mundial de 1950 foi realmente uma tragédia para todo um projeto de identidade nacional. Mas, por vias transversas, acabou servindo como um grande estímulo para que o Brasil fizesse depois tudo que fez.

Foi a partir dessa derrota, dentro de casa, quando estava ganhando e deixou empatar e depois deixou perder, sendo que o empate ainda servia, e tomou a virada, essa vergonha, a maneira como foi aquele jogo, tudo isso acabou servindo como uma motivação para que o Brasil viesse a ganhar tudo o que ganhou. É um momento importante da relação entre futebol e identidade nacional no Brasil, e como tal, ele é sempre lembrado. Os jogadores estão dizendo que, se ganharem a Copa no Brasil, vão apagar aquela derrota. Nada vai apagar a cicatriz! Mas vai ser muito bom se o Brasil finalmente ganhar esta Copa dentro de casa. Eu particularmente estou muito esperançoso da seleção e torcendo para que o Brasil seja hexacampeão.

IHU On-Line - Após aquela derrota em 1950, o que significa para a cultura esportiva do país voltar a receber uma Copa do Mundo de Futebol?
Édison Gastaldo –
É curioso como os mesmos temas voltam. Na Copa de 1950, também havia protestos contra os gastos excessivos. A direita, particularmente Carlos Lacerda , tentou embargar a construção do Maracanã, dizendo que aquilo ali era corrupção, era gasto de dinheiro público, que poderiam ser construídos não sei quantos hospitais. É muito interessante isso quando a gente vê em perspectiva o que significou ter recebido a Copa de 1950 no Brasil. Ficou na memória, na história nacional, na relação brasileira com o futebol. É curioso isso, de como os temas se repetem depois de mais de 60 anos. A expectativa é de que o Brasil jogue duas copas, uma dentro de campo, com o [atacante] Neymar e sua turma, e outra nos aeroportos, nas ruas, nas rodoviárias. Eu torço para que ninguém se machuque, para que dê tudo certo, para que o evento transcorra na normalidade. E torço particularmente para que o Brasil ganhe.

IHU On-Line - Mas se acontecer o contrário. O que representaria uma nova derrota do Brasil na Copa em um jogo dramático de semifinal ou na final?
Édison Gastaldo -
Depende do jogo. O time de 1982 perdeu, mas perdeu jogando bonito, e todo mundo perdoou. Todo mundo lamentou, todo mundo sofreu, e acabou aplaudindo o time quando voltou para o Brasil. Por outro lado, quando perdeu arrumando o meião, quando tomou aquele olé da França em 1998...

IHU On-Line - O episódio do lateral Roberto Carlos arrumando as meias no momento do gol da França...
Édison Gastaldo -
Isso, levou o gol arrumando a meia. Essa foi uma derrota diferente. Então tudo depende de como se perde, não é simplesmente ganhar ou perder, como um jogo de dados. Há maneiras de perder, há maneiras de ganhar. Na Copa de 1994, o Brasil ganhou, mas não convenceu. Foi a única final de Copa do Mundo da história que terminou zero a zero; dois times que se recusaram a atacar para não levar gol. E terminou mesmo em zero a zero, um jogo medroso, um jogo retrancado, que acabou indo para os pênaltis. E quem ganhou a Copa não foi porque fez o gol, mas porque o outro errou. O gol da Copa foi a jogada que não resultou em gol, foi a bola para fora [na cobrança de Roberto Baggio, considerado o craque daquela seleção italiana].

Tudo isso simboliza o campo de representações que o brasileiro tem sobre o que significa a seleção, representações essas que foram construídas ao longo da história. Nessa representação, não se ganha a Copa assim, com bola para fora. Ganha-se a Copa fazendo gol, vencendo de 4 a 1, como em 1970; ou de 5 a 2, como em 1958. Ganha-se dando show. E ninguém viu show em um jogo de zero a zero. Tanto é que o único jogador que todo mundo lembra como herói da Copa de 1994 é o Romário, que era o sujeito que fazia a diferença; que, de alguma maneira, estava à altura da representação que se faz do que deve ser a seleção brasileira.

IHU On-Line – Levando em consideração os dois títulos mais recentes do Brasil em Copas do Mundo, aquele de 2002, em que houve um resultado efetivo de vitória no tempo regulamentar, foi mais festejado que o de 1994?
Édison Gastaldo -
Acredito que sim. Eu acompanhei as duas Copas. A de 1994 foi um sofrimento. Aquilo foi mais um alívio do que propriamente uma festa, uma celebração. Foi muito mais um "ufa, ganhou”, um “ufa, não perdeu”. Já a Copa de 2002 foi uma espécie de redenção para Ronaldo Nazário, com aquele cabelo do personagem Cascão [da Turma da Mônica], depois do que havia acontecido em 1998. Teve um elemento dramático, do retorno de quem havia sido derrotado. Teve este sabor de volta por cima, da vitória de um time que estava desacreditado.

Para se ter uma ideia, na Copa de 2002, a poucos dias do começo da competição, a Rede Globo não tinha vendido todas as cotas de patrocínio, porque a Copa ocorreria na madrugada [no fuso horário brasileiro], o Brasil havia feito fiasco em 1998, a audiência prometia ser baixa e ninguém estava muito interessado em apoiar financeiramente um time que estava em baixa, que, se pensava, iria fazer um novo fiasco. Neste ambiente, o slogan do principal patrocinador, o Guaraná Antarctica, era “bote fé na seleção”. Espera aí, não precisa botar fé na seleção brasileira! E o slogan era decorado com uma fitinha do Nosso Senhor do Bonfim e um galho de arruda. Porque ninguém estava acreditando. E ocorreu a volta por cima. Uma seleção que saiu desacreditada e voltou vitoriosa. Isso exulta muito mais o sentimento das pessoas do que aquele jogo de zero a zero, da vitória nos pênaltis, aquele time emperrado do Parreira. A vitória de 2002 esteve mais à altura do que se espera deva ser a seleção brasileira.

IHU On-Line – A mídia foi citada em vários momentos da entrevista. Historicamente, qual é o papel da mídia para a relevância do futebol no Brasil?
Édison Gastaldo –
No Brasil, a mídia e o esporte têm uma construção que chamamos de reflexiva: o esporte constrói o campo das mídias, e o campo das mídias constrói o campo do esporte. A imprensa moderna (eu quero dizer a imprensa guiada pelas notícias recebidas de agências, via telégrafo, e o jornal impresso em off set, que permitiu tiragens altas a um custo baixo) chega ao Brasil no final do século XIX, junto com o futebol. Uma das características dos jornais modernos passou a ser a veiculação da editoria de esportes na última página da publicação. E muita gente começou a ler o jornal a partir da parte de trás. Primeiro verificava o resultado do turfe, do remo e do futebol. O turfe e o remo continuam lá, nas últimas páginas dos jornais, mas com espaço bem pequenininho. Já o futebol cresceu e se autonomizou, ganhou caderno especial, virou jornal especializado. E agora, em época de Copa do Mundo, ganha caderno diário de 16 páginas a cores só sobre o Mundial. Há um vasto investimento editorial neste campo, que obviamente constrói a audiência de 97% da qual falei antes. Este fenômeno de audiência é um fenômeno midiático. O futebol é hoje, para a maior parte das pessoas, um programa de televisão.

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