Edição 445 | 09 Junho 2014

A Copa na África do Sul: falsa coesão social

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Luciano Gallas

De acordo com a pesquisadora Laura Burocco, a Copa de 2010 mostrou ao mundo uma ilusória integração nacional no país africano, já que as consequências do regime de apartheid ainda estão muito presentes'

“A Copa [de 2010] serviu para vender uma imagem falsa de integração dentro do país, pois a África do Sul continua dividida, com extremos problemas de integração racial. Afinal de contas, o apartheid acabou há apenas 20 anos e a segregação, apesar de não estar mais legalizada, ainda está bem presente. A Copa foi um momento em que todos estavam juntos, misturados, mas tudo isso é uma aparente mistura, uma aparente coesão social, e cuja duração foi de apenas um mês. Esta aparente coesão não se aplica às diferenciações raciais. A maioria dos pobres negros na África do Sul nem conseguiu chegar perto da Copa. O valor dos ingressos não permitia o acesso aos estádios. Quem teve condições de se locomover dentro das cidades e de curtir a grande festa foram sempre pessoas de classe alta, as quais se misturavam aos turistas em ambientes exclusivos e não acessíveis, e que por um mês tiveram a ilusão de poder circular ‘seguras’ pelas cidades sul-africanas.”

A análise acima é de Laura Burocco, advogada, pesquisadora de políticas sociais. Na sua avaliação, com a realização da Copa do Mundo de 2010, o governo sul-africano pretendia mostrar ao mundo que tinha condições de ingressar na economia global, organizada conforme a lógica e os valores do capitalismo. Nesta entrevista, concedida por telefone à IHU On-Line, a pesquisadora analisa as consequências do Mundial realizado na África do Sul, compara suas características com as do evento em organização no Brasil e critica o governo brasileiro por não se opor mais às exigências impostas pela federação internacional de futebol. 

Laura Burocco é pesquisadora em Políticas Urbanas e Desenvolvimento, nascida na Itália. Morou no Rio de Janeiro entre 2004 e 2011, quando coordenou um projeto sobre gênero e direito à moradia do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas - IBASE. Entre 2012 e 2014, residiu na África do Sul, em Johannesburgo, atuando no IBSA Working Group in Human Settlements (Grupo de Trabalho em Assentamentos Informais entre Índia, Brasil e África do Sul), do South African Cities Network - Sacities. É formada em Direito pela Universidade de Milão, possui especialização em Políticas Internacionais e Desenvolvimento pela Universidade de Roma, pós-graduação em Sociologia Urbana pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ e um MBE em Habitação pela Universidade de Witwatersrand – WITS, de Johannesburgo. Atualmente é doutoranda pela Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro - ECO/UFRJ.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Qual foi a extensão do processo de remoções de famílias para construção de estádios e obras de mobilidade urbana na África do Sul?
Laura Burocco -
Na África do Sul, o número de remoções relacionadas à Copa foi significativamente menor na comparação com o Brasil. A diferença é que, no Brasil, as remoções surgiram após o país ser escolhido como sede da Copa — e, no caso do Rio de Janeiro, também como sede das Olimpíadas —, enquanto na África do Sul as remoções são um problema histórico, seja no centro de Johannesburgo, que possui vários prédios dos quais as pessoas são removidas praticamente todo dia, seja no caso de comunidades inteiras que vão ser oficialmente realocadas, a maioria das vezes simplesmente removidas. Houve, claro, casos de remoção de famílias ligados a obras de infraestrutura da Copa, mas este link entre Copa e remoções na África do Sul não aparece tão forte, tão direto, como aparece no Brasil — cujas políticas de remoção massiva dos anos 1970 foram combatidas pelo Fórum Nacional de Reforma Urbana, entre outros movimentos, e que voltaram agora a ser reaplicadas.

Eu iniciei minha pesquisa  no início de 2011. Ou seja, cerca de seis meses após o fim da Copa. E as pessoas que entrevistei nem lembravam mais da Copa! Elas não associavam a questão das remoções às obras para o evento, porque esta questão da moradia é muito extrema na África do Sul. A política habitacional sul-africana é muito precária. Apesar do número recorde de entrega de unidades habitacionais, estas casas muito raramente atendem aos requisitos de casas dignas assim como requerido pelo direito internacional. Na África do Sul, as remoções são algo que acontece diariamente e estão muito mais ligadas aos planos de longo termo de desenvolvimento urbano aplicados pelas principais cidades sul-africanas, como Johannesburgo e Durban, do que à Copa em si. Johannesburgo tem um plano chamado de Joburg 2040, o qual possui um modelo urbano extremamente excludente e cujo principal objetivo é tornar a cidade mais competitiva e atrativa para o mercado internacional — não por acaso, o slogan da Prefeitura de Johannesburgo é “Uma Cidade Africana de Classe Mundial”. O que aconteceu durante a Copa foi que, em alguns casos, os processos de remoções foram acelerados em função das obras do evento.

IHU On-Line – Comente o caso do campo de realocação de moradores de Blikkiesdorp, na Cidade do Cabo, que deveria ser temporário, se tornou permanente e é conhecido pelos seus habitantes como “campo de concentração”.
Laura Burocco
– Blikkiesdorp é o perfeito exemplo desta política de habitação ineficaz. Com o fim do apartheid, o governo sul-africano criou um programa chamado  Reconstruction and Development Programme (RDP), parte do qual era destinado à construção de casas, principalmente para a população negra, que havia sido excluída do acesso à cidade. Muitas das pessoas que moram em Blikkiesdorp estão nas listas de espera por casas do RDP. Eu fui à Blikkiesdorp pela primeira vez em 2011 e voltei em 2013. Uma das mulheres que entrevistei estava morando lá desde o começo do campo, em 2009, e está há 15 anos esperando por uma moradia.
 
O campo de Blikkiesdorp é uma área de realocação temporária, prevista pelo N2 Gateway Housing Pilot Project, um projeto piloto de habitação social promovido pelo Departamento Nacional de Habitação em parceria com o governo da Cidade do Cabo. A Prefeitura removeu famílias que moravam em Salt River e Woodstock, uma área na periferia da Cidade do Cabo objeto de forte “gentrificação”, assim como de Delft, localizada nas proximidades do Aeroporto Internacional da Cidade do Cabo, sendo esta última intervenção completamente ligada à operação de limpeza realizada para a Copa de 2010.

Dentro deste programa habitacional (N2 Gateway), Blikkiesdorp deveria ser uma solução temporária de moradias, até que se desse uma destinação correta para aquelas pessoas. Blikkiesdorp consiste em casas de lata, sem infraestrutura básica. Os banheiros são externos, não há água dentro das casas. As vias não são asfaltadas. Então, em dias de vento, é quase impossível andar nas ruas por causa da poeira, o que acontece quase todos os dias. As casas são completamente precárias, são barracos de lata. Durante o inverno, é muito frio; durante o verão, as temperaturas são muito elevadas. A área foi construída para abrigar 650 famílias, sendo que há hoje no local mais de 15 mil pessoas.

A situação de não ser um campo temporário se confirma no fato de que as pessoas continuam chegando ao local desde que ele foi criado. O número de moradores segue crescendo sempre mais. A circulação do ar é precária, sendo que as casas estão muito próximas umas das outras, e o esgoto corre a céu aberto. Por todas essas razões, as condições de saúde e higiene são péssimas. Há casos frequentes de tuberculose, além de um número alto de pessoas com HIV positivo. Além disso, outra questão, levantada por um grupo de mulheres que entrevistei no local, diz respeito à violência, praticada por gangues que controlam o território. A Cidade do Cabo é provavelmente a única na África do Sul que tem um controle de território parecido com aquele realizado no Rio de Janeiro por parte das quadrilhas do tráfico de drogas. Como a maioria das pessoas que moram ali são mulheres solteiras, com filhos, a situação se agrava ainda mais. Elas são vítimas da violência destes gangsters que controlam a área. Muitos dos moradores de Blikkiesdorp estão em lista de espera para ter acesso às casas do governo. E, apesar de estarem organizados em um comitê local comunitário particularmente ativo, ainda não conseguiram alcançar um resultado positivo.

IHU On-Line – Sobre esta questão da violência, no que diz respeito às políticas de segurança e à ação das forças policiais, quais são as semelhanças entre as Copas do Brasil e da África do Sul?
Laura Burocco –
O que acontece na África do Sul é mais uma política de higienização da cidade, que perpassa talvez uma política de segurança. A maioria dos moradores de rua, das prostitutas, foi removida dos centros das cidades, um pouco como consequência da Copa, um pouco como consequência destes planos urbanos aplicados nas maiores cidades da África do Sul, orientados por um padrão de cidade global competitiva.

Os casos de maior violência policial ocorreram em Durban, que registrou também dois casos de violentas remoções promovidas pelo governo. Em 2009, uma assembleia de jovens no assentamento chamado Kennedy Road foi atacado e deixou dois mortos e milhares de desabrigados. Segundo membros do movimento, o ataque foi planejado por pessoas ligadas ao governo e executado pela polícia. Mas os casos de abusos praticados pela polícia vão além. Em entrevistas com meninas de rua, elas declaram terem sido forçadas a manter relações sexuais com policiais para poderem permanecer nas áreas que frequentavam. Além disso, foram muitos os meninos de rua que foram removidos do centro de Durban e levados para prisões junto com adultos. Eles permaneceram presos durante todo o tempo de realização da Copa.

Também houve casos de violência contra manifestantes e participantes de protestos. Entretanto, houve muito menos manifestações de rua na África do Sul do que no Brasil. A maioria dos protestos na África do Sul se formava durante greves e manifestações de trabalhadores e movimentos sociais — e não em ações organizadas pela classe média, como ocorre com frequência no Brasil. Políticas de segurança relacionadas à Copa funcionaram em conjunto com a limpeza das cidades, e tinham como objetivo principal garantir a segurança dos turistas — já que notoriamente as cidades sul-africanas têm fama de serem violentas e perigosas.

IHU On-Line - Diante do cenário descrito, o que pode ser apontado, em termos políticos, econômicos e sociais, como o legado da Copa de 2010?
Laura Burocco –
As expectativas sobre a Copa, os legados que se acreditava serem possíveis de se alcançar, se transformaram em falsas ilusões. Em termos econômicos, as expectativas criadas em relação à Copa acabaram sendo completamente desfeitas. Hoje se sabe que até ocorreu um impacto positivo em termos de imagem do país, mas o que os estudos feitos até o momento indicam é que não houve grande impacto econômico.

Claro que turistas chegaram e que trabalhadores foram empregados por um tempo, mas os resultados disso são muito relativos, muito menores do que estava sendo apresentado à opinião pública, de que haveria um aumento da receita econômica. Sabe-se atualmente que este aumento não foi significativo, foi mínimo, porque a maioria dos trabalhadores era contratada de forma temporária, sem garantias trabalhistas, o que não determinou uma mudança na economia interna do país em relação ao aumento do turismo e do consumo interno. Na verdade, o que os estudos mostram é que isso tudo se perde. O aumento é muito pequeno para representar uma mudança substancial.

Em termos sociais, a Copa serviu para vender uma imagem falsa de integração dentro do país, pois ele continua dividido, com extremos problemas de integração racial. Afinal de contas, o apartheid acabou há apenas 20 anos e a segregação, apesar de não estar mais legalizada, ainda está bem presente. A Copa foi um momento em que todos estavam juntos, misturados, mas tudo isso é uma aparente mistura, uma aparente coesão social, e cuja duração foi de apenas um mês. Esta aparente coesão não se aplica às diferenciações raciais. A maioria dos pobres negros na África do Sul nem conseguiu chegar perto da Copa. O valor dos ingressos não permitia o acesso aos estádios. Quem teve condições de se locomover dentro das cidades e de curtir a grande festa foram sempre pessoas de classe alta, as quais se misturavam aos turistas em ambientes exclusivos e não acessíveis, e que por um mês tiveram a ilusão de poder circular “seguras” pelas cidades sul-africanas.

Por fim, em termos políticos, o feito a ser citado é que a África do Sul é a primeira nação africana a receber a Copa, assim como em 1910 foi a primeira nação africana a ser aceita na FIFA — embora, posteriormente, tenha sido “forçada” a deixar a entidade em função do boicote ao apartheid. Neste sentido, é preciso lembrar que a África do Sul ficou por anos completamente excluída do circuito internacional, justamente em função do apartheid. Então o que ocorreu na Copa foi como uma espécie de resgate do país, na avaliação do governo e dos representantes políticos da nação, no contexto mundial, atendendo ao interesse da África do Sul de se colocar como um país competitivo dentro de uma economia global.

Também o governo queria mostrar que o país tinha condições de realizar este evento. A música oficial da Copa 2010, baseada em uma música tradicional africana intitulada Waka Waka, que significa “este é o tempo pela África”, queria marcar exatamente este aspecto de que a África do Sul podia fazer a Copa acontecer. Nesta perspectiva, o país parece ter alcançado o resultado esperado, segundo um comentário feito recentemente pelo ex-presidente Lula em visita à África do Sul para um encontro com empresários locais: “Vocês mostraram ao mundo que somos tão ou mais civilizados que os países ricos”. A civilização de um país parece aqui estar medida em acordo com a possibilidade de ingresso no mercado mundial, e por isso a Copa na África do Sul tinha o seu valor político.

IHU On-Line - Na sua avaliação, qual deverá ser o legado da Copa de 2014?
Laura Burocco –
Partindo da ideia de que não existe legado positivo das Copas, assim como pensado pela FIFA, penso que o legado da Copa no Brasil é o próprio movimento crítico à Copa, o fato de as pessoas terem criado uma manifestação pública de suas denúncias em relação à forma como a FIFA atua. Por várias razões, ligadas à história do país e à posição econômica que a África do Sul ocupa no contexto global, muito diferente da posição brasileira, não houve este movimento público contra a FIFA em 2010.

O Brasil é o primeiro país a demonstrar tamanha contestação em relação à FIFA e à própria Copa, deixando todo o mundo surpreso — considerando sua identificação como “o país do futebol”. Então, o que pode ser citado como um legado da Copa no Brasil é a manifestação crítica à organização dos megaeventos e aos próprios governos, fazer com que esta Copa na Rua se transforme em um exemplo para outros países que vão receber estes megaeventos. É a crítica à forma como a FIFA age em relação ao megaevento que está sendo organizado, mas também ao que o governo de cada país permite que seja feito. No caso do Brasil, acredito que o país tenha poder econômico suficiente para se contrapor mais à FIFA.

IHU On-Line - Nesta perspectiva, até que ponto os casos de desrespeito aos direitos humanos no Brasil e na África do Sul são consequência das exigências impostas pela FIFA e até que ponto decorrem das decisões autônomas de cada governo diante das questões sociais?
Laura Burocco –
A FIFA tem toda a responsabilidade sobre o modelo que segue em qualquer país que receba a Copa do Mundo, mas o respeito (ou o desrespeito) aos direitos humanos depende também, e muito, da forma como o governo reage, como ele se contrapõe à FIFA. No contexto internacional, o poder econômico que a Alemanha tem é superior ao do Brasil; por sua vez, o Brasil tem um poder econômico maior que o da África do Sul. Quanto menos poder econômico o país tem, mais a FIFA pode exigir. Claramente, as exigências da FIFA na África do Sul foram muito maiores do que no Brasil, e muito menores na Alemanha do que no Brasil. É um sintoma também do nível de democracia do país que está recebendo a Copa, do nível de garantia dos direitos sociais.

O governo sul-africano era muito mais interessado em mostrar para o mundo que seu país estava pronto a ingressar no circuito da economia mundial do que o Brasil. O Brasil já está dentro do circuito, não precisa da Copa do Mundo para demonstrar que é uma potência econômica, que é atrativo para os turistas. Isso não é algo de que o Brasil precise, já existe um reconhecimento internacional sobre o seu impressionante crescimento. Então acredito que o governo brasileiro se mostrou muito mais interessado em satisfazer os interesses do empresariado nacional e internacional e da FIFA do que em tutelar e garantir os direitos constitucionais e sociais dos próprios cidadãos.

IHU On-Line – Isso demonstra que há um modelo específico de organização de megaeventos para os países em desenvolvimento?
Laura Burocco –
O modelo que está sendo desenvolvido tem relação direta com o desenvolvimento econômico promovido ao redor do mundo. Isto fica ainda mais claro quando se leva em consideração as novas economias emergentes do Sul, como a África do Sul e o Brasil, que fazem parte do grupo dos BRICS [Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), e que na verdade estão se desenvolvendo seguindo um modelo não muito diferente daquele do G8 ou do G20. O desenvolvimento proposto é sempre muito mais focado em um modelo de desenvolvimento econômico do que de um desenvolvimento social e de garantias de direitos.

Acredito que a forma como os megaeventos são organizados, como está sendo feito com a Copa e como vai ser realizado com as Olimpíadas, no caso do Rio, segue exatamente este tipo de modelo. A demolição do antigo Maracanã é um exemplo disso. Ela responde a uma lógica extremamente capitalista, interessada exclusivamente no proveito econômico. A revista Spiegel chega a dizer que a reforma do Maracanã foi um assassinato cultural , já que o estádio é uma referência tão grande para o país quanto a Torre Eiffel para os franceses ou a Estátua da Liberdade para os norte-americanos. De nova cara, entretanto, o Maracanã deixaria de ser tão representativo para os brasileiros.

Últimas edições

  • Edição 546

    Diálogo interconvicções. A multiplicidade no pano da vida

    Ver edição
  • Edição 545

    Cultura Pop. Na dobra do óbvio, a emergência de um mundo complexo

    Ver edição
  • Edição 544

    Revolução 4.0. Novas fronteiras para a vida e a educação

    Ver edição