Edição 427 | 16 Setembro 2013

Abordagem interdisciplinar da saúde pública em debate

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado

A Unisinos sediará, nos dias 26 e 27 de setembro, o II Seminário do Mercosul sobre pediculose, escabiose e tungíase, onde profissionais de várias áreas discutirão o tema

Marcadas pelo tabu e pelo preconceito, inclusive entre profissionais das áreas da saúde, doenças como pediculose (piolho-da-cabeça), escabiose (sarna) e tungíase (bicho-do-pé) serão o centro das discussões no II Seminário do Mercosul sobre pediculose, escabiose e tungíase: uma abordagem interdisciplinar, que será realizado nos dias 26 e 27 de setembro no Auditório Pe. Werner, na Unisinos, em São Leopoldo. A proposta do evento, coordenado pelo professor mestre Gelson Luiz Fiorentin, que concedeu entrevista por e-mail à IHU On-Line juntamente com o assistente social Paulo Ricardo Oliveira Dias, é “capacitar nossos agentes (públicos) e ampliar o número de pessoas trabalhando nessas áreas”.

Segundo o coordenador do evento, há uma carência de ações objetivas no sentido de garantir acesso à informação e prevenção junto às comunidades mais vulneráveis, sobretudo quando se leva em conta a carência de profissionais para a área. “A desigualdade social e a miséria potencializam a incidência entre a população com menor acesso à informação, às condições de moradia e aos serviços municipais. Não raro, seres humanos e animais domésticos dividem o mesmo espaço de convívio, favorecendo o surgimento de enfermidades entre uma camada social com o mínimo de condições básicas de renda e higiene”, avaliam. “Os parasitas e vetores, geralmente, possuem um ciclo de vida curto. Assim, apresentam intensa multiplicação com número elevado de indivíduos. As populações que vivem em situação de miséria, pobreza e vulnerabilidade social geram considerações favoráveis para multiplicação e manutenção do ciclo desses animais em suas habitações”, complementam.

Gelson Luiz Fiorentin é graduado em Ciências e em Biologia pela Unisinos. Fez mestrado em Biociências (Zoologia) pela Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul — PUC-RS. Atualmente é professor titular da Unisinos e professor titular da Universidade Luterana do Brasil — Ulbra. Paulo Ricardo Oliveira Dias é assistente social. 

Confira a entrevista.

 

IHU On-Line – Quais são os objetivos do II Seminário do Mercosul sobre pediculose, escabiose e tungíase?

Gelson Luiz Fiorentin - Trata-se de um seminário que visa salientar a importância conjunta entre educadores e gestores das áreas de saúde, ambiente e assistência social sobre os prejuízos que esses organismos podem causar, principalmente, na comunidade escolar.

 

IHU On-Line - Como cada uma dessas doenças se manifesta e quais são suas características?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - A pediculose (piolho-da-cabeça), a escabiose (sarna) e a tungíase (bicho-do-pé) apresentam uma característica comum, que é o prurido (coceira), muitas vezes bastante intenso. Esse sintoma, aliado a outros, pode gerar irritação e consequentemente alterar o rendimento escolar.

 

IHU On-Line - Alguma dessas doenças pode levar à morte? Como?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - Qualquer doença, se não for tratada adequadamente, pode levar seu hospedeiro à morte. Para destacar a importância da “educação preventiva”, por exemplo, a pessoa com bicho-do-pé pode adquirir infecção secundária, como o tétano. Se não for atendida, pode levar à morte.

 

IHU On-Line - Em que medida as enfermidades humanas causadas por insetos se configuram como um problema de saúde pública?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - Bem, inicialmente, devemos esclarecer que no seminário vamos trabalhar principalmente com insetos e acarinos, os quais podem ser vetores de agentes patogênicos. Não podemos negligenciar também que estes sintomas estão intrinsicamente associados à pobreza, onde precárias condições de saneamento levam a uma maior probabilidade de ocorrência, e, justamente por este estigma, muitos gestores dos setores públicos culpabilizam o indivíduo pela falta de higiene e não focalizam suas ações no cerne da questão social.

 

IHU On-Line - No Brasil, como os agentes de saúde pública tratam a questão?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - Não somos especialistas na área. Estamos muito longe de atingir nossas metas com a saúde pública. Precisamos capacitar nossos agentes e ampliar o número de pessoas trabalhando nessas áreas. O programa Estratégia de Saúde da Família — ESF , por exemplo, atua com vários profissionais, porém não ocorre a participação de biólogos, que somaria no diagnóstico ambiental das habitações e seus entornos.

 

IHU On-Line - Em que medida estas doenças estão associadas a questões sociais como pobreza, más condições de moradia e desinformação?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - A falta de infraestrutura nas cidades, principalmente nas periferias dos grandes centros urbanos, onde o saneamento básico é precário e há acúmulo de lixo, é um fator não negligenciável pelo número de incidência de pediculose, tungíase e escabiose. A desigualdade social e a miséria potencializam a incidência entre a população com menor acesso à informação, às condições de moradia e aos serviços municipais. Não raro, seres humanos e animais domésticos dividem o mesmo espaço de convívio, favorecendo o surgimento de enfermidades entre uma camada social com o mínimo de condições básicas de renda e higiene. Os parasitas e vetores geralmente possuem um ciclo de vida curto.  Assim, apresentam intensa multiplicação com número elevado de indivíduos. As populações que vivem em situação de miséria, pobreza e vulnerabilidade social geram considerações favoráveis para multiplicação e manutenção do ciclo desses animais em suas habitações.

 

IHU On-Line - Por que há carência de profissionais para essa área?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - Além da carência, podemos destacar que parece não haver interesse, por muitos administradores, com a saúde das pessoas que mais necessitam. Estamos precisando educar para a prevenção. Nesse contexto, as crianças e adolescentes são os que sofrem as maiores consequências.

 

IHU On-Line - Que características devem ter as equipes multidisciplinares para atender esse público?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - Primeiro, as equipes precisam, realmente, ser constituídas por profissionais que possam observar além da patologia. Nesse caso, as pessoas e suas condições socioambientais são extremamente relevantes. Os profissionais devem estar preparados com “olhos clínicos” para elaboração de diagnósticos corretos.

 

IHU On-Line - Quais são os principais desafios ao controle de pediculose, escabiose e tungíase no Brasil? No que o país avançou nas últimas décadas?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - O Brasil avançou na área da saúde pública e na educação. Somente nos tornaremos um país desenvolvido por meio de um processo de educação de qualidade, iniciando pelo ensino fundamental. Qualificar e valorizar os profissionais e criar condições adequadas para exercer um trabalho com dignidade.

 

IHU On-Line - Deseja acrescentar algo?

Gelson Luiz Fiorentin e Paulo Ricardo Oliveira Dias - Para uma abordagem em saúde coletiva, não basta apenas uma constituição de equipe multidisciplinar. Há necessidade e urgência de as áreas do conhecimento saírem de suas “caixinhas” e de seus saberes e adotarem uma intervenção interdisciplinar. Em uma realidade na qual atravessamentos como a miséria, a degradação ambiental, a falta de infraestrutura, o difícil acesso à informação e aos serviços públicos se manifestam aos pares, não há espaço para uma única visão, pois as expressões da questão social se manifestam sob vários prismas, necessitando, dessa forma, da soma dos conhecimentos.

Últimas edições

  • Edição 531

    Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

    Ver edição
  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição