Edição 427 | 16 Setembro 2013

A filosofia substantiva de Franklin Leopoldo e Silva

close

FECHAR

Enviar o link deste por e-mail a um(a) amigo(a).

Ricardo Machado

Franklin Leopoldo e Silva prefere a filosofia menos como verbo e mais como substantivo. “A filosofia não é, para mim, tanto no sentido de filosofar, mas no sentido de transmiti-la, de forma clara e coerente, aos alunos”, dispara. Apesar da contundência da afirmação, quem vê o professor Franklin quase escondido detrás das lentes transparentes de seus óculos, com seu jeito tranquilo e um tanto quanto discreto, não imagina que na infância foi um garoto “rebelde”, segundo sua própria autodefinição. Sua mãe sempre exigiu que ele estudasse em colégios confessionais, começando nos salesianos, onde foi “convidado a sair”, ainda nos primeiros anos de formação; depois migrou para colégios maristas, onde completou a formação básica. Em seguida foi para um colégio estadual no antigo ginasial, equivalente ao atual ensino médio. Por fim, ingressou na Universidade de São Paulo — USP, onde trabalhou até a aposentadoria.
Professor Franklin em evento no Instituto Humanitas Unisinos - IHU

Franklin Leopoldo e Silva nasceu, como ele mesmo diz, por acaso, na capital paulista, mas não por acaso vive desde então na cidade em que veio ao mundo. Seus 66 anos de vida foram vividos na mesma cidade, mas se considera mais mineiro que paulista. “Nasci em São Paulo, mas como minha família é toda do Sul de Minas e minha mãe ficou viúva jovem, passei muito tempo viajando para Minas Gerais e por isso me considero com essa dupla ‘naturalidade’”, conta.

Aposentadoria – Ao contrário do que se poderia supor, a aposentadoria do professor Franklin resultou em mais trabalho que descanso. “Minha rotina piorou muito depois que eu me aposentei. Acabei aceitando muitos convites para dar aula e isso acabou desorganizando minha vida”, revela. Atualmente, ministra cursos e aula em três faculdades — São Bento, São Judas e Centro Universitário São Camilo.
Sossego – Nas poucas horas que tem livre, Franklin comenta que gosta de viajar e conhecer cidades pequenas. “Eu gostaria de morar em uma cidade pequena, mas não posso. Então sempre que possível vou para um lugar tranquilo”, diz. O professor tenta manter certa regularidade nas idas ao cinema, mas confessa que não dedica muito tempo a atividades de lazer, sobretudo porque São Paulo é um cidade muito difícil de se locomover.
Família – Franklin é separado, pai de dois filhos e avô. Ele conta que, dos filhos, o que mais se aproximou da filosofia estudou sociologia e iniciou o mestrado em educação, mas abandonou e agora se dedica ao trabalho com informática. O outro filho é engenheiro.
Literatura – Apaixonado confesso por literatura, diz que uma das coisas que mais o incomoda na rotina de trabalho é justamente a falta de tempo para ler. “Eu gosto muito de literatura, mas não leio tanto quanto gostaria. Li durante muito tempo Proust , inclusive fiz trabalhos sobre ele, e gosto muito de Virginia Woolf , Carlos Drummond de Andrade  e Fernando Pessoa , são meus poetas favoritos. Gosto muito de um tipo de literatura mais introspectiva”, conta. Na hora de recomendar um livro, não pestaneja e aponta As horas (São Paulo, Companhia das Letras, 1999), de Michael Cunningham , obra que leu recentemente com mais vagar, e agora está procurando outros livros do mesmo autor. Seu gosto por Henri Bergson  nas pesquisas na área da filosofia se revela nas escolhas literárias, pois aponta certa predileção por livros que têm o tempo como eixo central nas narrativas. “O tempo é, para mim, um dos temas mais fascinantes da literatura”, frisa.
Futebol – Antes de dizer para que clube torce, Franklin se justifica: “Dentro do contexto paulista, é meio estranho o clube para o qual eu torço. Sou torcedor da Portuguesa de Desportos e desde que eu era bem garotinho é o mesmo time, é uma coisa de raiz mesmo”. Cresceu sendo, normalmente, a exceção entre os torcedores, e se diz fascinado pelo fato de o clube ser “perseguido”, pois quando ganha campeonato a cartolagem do futebol tira o título, ou seja, é marginalizado.
Regime Militar – As aulas de filosofia no colégio despertaram em Franklin o gosto pela filosofia. Em 1967 ingressou na graduação na Universidade de São Paulo — USP, em pleno regime militar. “Em 1968, agravou-se muito a questão militar no Brasil, com a instauração do AI-5, e muitos professores foram cassados. Então o curso que eu fiz, do ponto de vista acadêmico, foi muito truncado, porque o departamento de filosofia ficou muito esvaziado. Teve muita disciplina improvisada, falta de professores e, ao mesmo tempo, uma situação muito tensa e ameaças constantes”, lembra.
Primeiras aulas – Formou-se em 1971 e no ano seguinte começou a lecionar. “Naquela época não precisava de títulos, então comecei trabalhar logo em seguida, enquanto fazia o meu mestrado. Nessa situação, que ainda era muito difícil, foi contratado um grupo de professores e nós dividimos as aulas, sempre com muita tensão interna — da universidade — e externa, com alunos passando dificuldades e sendo perseguidos”, recorda. Concluiu o mestrado em 1976 e o doutorado em 1981, sempre estudando Bergson, bem como a livre docência, em 1991, dedicada ao mesmo autor.
Filosofia – Franklin conta que herdou de sua professora do ginásio seu ponto de vista sobre a filosofia. “Ela sempre procurou fazer conexões entre a filosofia antiga e a filosofia moderna e contemporânea e tinha muita habilidade de fazer isso com pessoas jovens, sem muita leitura”, avalia. “Isso permitia que víssemos a filosofia não como uma coisa longínqua, mas como um passado histórico relevante e importante para pensarmos a atualidade. É por isso que a filosofia é sempre contemporânea”, completa.
Dedicação – “Minha dedicação à filosofia sempre foi ao ensino. Quando percebo certas hierarquias entre pesquisa e ensino, penso que este deve vir acima, pois a pesquisa só tem valor se for voltada ao ensino”, argumenta. Franklin admite que tal perspectiva não é tão bem vista hoje em dia, mas assume tal posição e é por isso que se intitula professor de filosofia. “Não tenho nenhuma pretensão de ser filósofo ou qualquer coisa do gênero”, dispara. Para ele, o papel do professor é suscitar nos alunos a capacidade de refletir sobre as coisas e foi para isso que diz ter-se dedicado ao longo de sua trajetória.
Heidegger – Apesar de se interessar muito por filosofia francesa do final do século XIX, o professor conta que um dos principais autores que estudou durante a graduação foi Martin Heidegger . “Havia um grupo de professores que gostava muito do tema, por isso li muito Heidegger na minha graduação e segui lendo até hoje”, explica. Depois das pesquisas realizadas com Bergson, o professor passou a estudar Jean-Paul Sartre  e, para melhor compreendê-lo, recorreu a Edmund Husserl  — fenomenologia — e a Heidegger — analítica da existência —, que são os geradores do pensamento de Sartre.
Filosofia francesa – O interesse nasceu da necessidade de fazer um trabalho durante a graduação e foi quando descobriu Bergson. “Meus professores privilegiavam a filosofia francesa, mas a questão da língua foi o preponderante, porque eu estudei inglês e francês, mas nunca consegui ir adiante no alemão, embora tenha tentado várias vezes”, esclarece. Franklin considera que, para um trabalho de pesquisa mais sério, é preciso ir aos originais, mas suas leituras de Husserl e Heidegger derivam da relação deles com os franceses.
Fé e Razão – Coube ao professor dar um curso sobre filosofia medieval na USP e, para tanto, dedicou-se a estudar amplamente a obra de Santo Agostinho, embora não tenha lido toda a literatura. Daí surgiu o interesse pelo eixo principal da filosofia de Agostinho, fé e razão. “Como eu trabalho com filosofia medieval nas minhas incursões, eventualmente faço trabalhos relacionados à teologia, mas não é minha vertente principal. Embora trabalhe em faculdades confessionais, minha competência é muito pequena nesse ponto de vista, mas acompanho e tenho lido muito. Parece ser uma retomada do problema da fé e da razão por meio da crise da modernidade. Isso é um respiro de certo dogmatismo laico da filosofia”, justifica.
O professor ressalta, entretanto, que as discussões em torno da temática da fé e da razão têm sido mais amplas e que há uma abertura maior para tratar do assunto. Isso porque, segundo ele, antigamente os debates sempre implicavam certo compromisso religioso — com o cristianismo ou o judaísmo, por exemplo. “Há uma abertura muito grande, tenho acompanhado como posso as discussões e penso que seja alguma coisa muito importante, pois dá um outro horizonte para a reflexão filosófica”, avalia.
Lima Vaz – A descoberta de Lima Vaz  por Franklin ocorreu de forma tardia, segundo ele mesmo define, mas que gerou marcas significativas em seu pensamento, sobretudo na organização de seus cursos. “Durante algum tempo, frequentando a Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – Faje, convivi com o padre Lima Vaz e li toda a sua obra. Depois fui convidado a fazer um dos capítulos do livro dedicado a ele. Tive uma relação pessoal rápida com ele e mais demorada com seus textos. Creio que a minha formação teria sido diferente se eu tivesse o encontrado antes. Ele tem uma virtude de estruturar o pensamento e eu utilizo muito isso nas aulas, pois, quando se quer dar a entender a um aluno a estrutura de um pensamento filosófico, antropológico, ético, histórico, o padre Vaz oferece todas as condições. Isso decorre da sua erudição e capacidade de sintetizar todos esses pensamentos”, avalia o professor. “Lima Vaz era um perfeito historiador da filosofia, mas ao mesmo tempo era um filósofo. Era uma síntese difícil de ser encontrada — um erudito e um pensador original”, define Franklin.
Modelo francês - O professor discorda da ideia de que há uma espécie de modelo hegemônico de fazer filosofia e nem mesmo considera a USP como expressão do modelo de racionalidade francesa no Brasil. “Hoje é muito diferente de 10 ou 15 anos atrás; nem mesmo dentro da USP o modelo francês é hegemônico. Com o correr do tempo e a mudança das gerações e do clima da filosofia, inclusive na França, a forma pela qual minha geração foi formada – da história da filosofia ao modelo estrutural – mudou muito. Isso se relativizou e não tem mais a importância que tinha”, comenta. Para ele, tal perspectiva deixou de ser um padrão ideológico e passou a ser uma possibilidade metodológica.
Ensinamento – Para o professor Franklin, o grande ensinamento de sua vida foi o de que a sala de aula é um lugar de educação ética e política. “É um local onde se aprende não somente a conviver com o outro, no sentido exterior, mas chegar ao aluno pela capacidade de se colocar no lugar dele. Isso é um aprendizado que vale para a sala de aula, mas vale para a vida toda. Se o hábito fosse mais frequente entre as pessoas, teríamos muitos problemas evitados”, considera. “A convivência é o principal ganho”, conclui.
Leia mais...
A universidade e a formação cidadã. Um divórcio. Entrevista concedida para IHU On-line em 05-09-2013.
A greve de fome de D. Cappio. Seu significado ético e político, hoje. Entrevista concedida para IHU On-line em 20-01-2008.
A banalidade da ética e da política. Revista IHU On-Line, edição 197, de 25-09-2006.

Últimas edições

  • Edição 531

    Etty Hillesum - O colorido do amor no cinza da Shoá

    Ver edição
  • Edição 530

    Missões jesuíticas. Mundos que se revelam e se transformam

    Ver edição
  • Edição 529

    Nietzsche. Da moral de rebanho à reconstrução genealógica do pensar

    Ver edição