Edição 421 | 04 Junho 2013

Tomas um mate? A cultura do consumo do chimarrão

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Graziela Wolfart

“Tomando chimarrão, a partir do momento em que se compartilha uma cuia, se compartilham os sonhos, as ideias”, reflete Juliana Durayski

Na próxima quinta-feira, dia 06-06, é dia de tomar um bom chimarrão e de refletir sobre a cultura de seu consumo. A palestra “Tomas um mate? Análise da cultura do consumo do chimarrão em um contexto urbano” será ministrada pela mestre em Administração Juliana Durayski, em mais uma edição do evento IHU ideias, promovido pelo IHU. 

Na entrevista que concedeu por telefone para a IHU On-Line, Juliana adianta aspectos do tema que abordará em sua fala, inspirada na dissertação de mestrado. Para ela, há vários significados em tomar um mate no contexto urbano. “Significa resgatar a origem, a questão do campo, o sagrado, um momento que foi realizado antigamente, pelos índios, e que é realizado no campo, nas estâncias, para trazer um pouco dessa vida para a cidade. O chimarrão representa socialização, está ligado a várias questões afetivas, como a alegria, relaxamento, paz, tranquilidade, saudade. Tomando chimarrão não se está sozinho. Quando se vai para o parque, o chimarrão vai junto. Ele é uma companhia para as pessoas”.

Graduada em Publicidade e Propaganda com ênfase em Marketing pela ESPM, Juliana possui especialização em Econegócios pela UFRGS e é mestre em Administração pela Unisinos. Atualmente é funcionária da universidade, atuando como auxiliar de pesquisa.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que representa a cultura do consumo do chimarrão de modo geral?

Juliana Durayski – O chimarrão tem uma importância social, econômica e cultural para o estado do Rio Grande do Sul. Para se ter ideia, em relação à questão econômica, a demanda da erva-mate está aumentando cada vez mais. É uma questão cultural porque é uma herança indígena. Os índios já tomavam chimarrão, depois passou pelos jesuítas até chegar na civilização atual. O chimarrão é tomado em diversos contextos. Por exemplo, em Porto Alegre é tomado em parques, em ambientes de trabalho e nas casas das pessoas. 

IHU On-Line – Qual o significado de tomar um mate no contexto urbano? 

Juliana Durayski – Tem vários significados. Tomar um chimarrão no contexto urbano significa resgatar a origem, a questão do campo, o sagrado, um momento que foi realizado antigamente pelos índios e que é realizado no campo, nas estâncias, para trazer um pouco dessa vida para a cidade. O chimarrão representa socialização, está ligado a várias questões afetivas, como a alegria, relaxamento, paz, tranquilidade, saudade. Tomando chimarrão não se está sozinho. Quando se vai para o parque, o chimarrão vai junto. Ele é uma companhia para as pessoas.

IHU On-Line – Em que medida o mate contribui para a socialização?

Juliana Durayski – No ambiente de trabalho percebi que o chimarrão é uma maneira de as pessoas conversarem, de aproximar departamentos. É uma maneira de “quebrar o gelo” das relações formais. Nos parques isso também acontece. O chimarrão não é o objetivo principal dos encontros. Ele é usado como um pretexto. Percebo que o chimarrão é a graça do encontro. Quando a pessoa quer encontrar alguém, quer conversar, usa o chimarrão como bengala. O convite “vamos tomar um chimas?” representa o mesmo que “vamos conversar, trocar ideias?”

IHU On-Line – Qual o papel do chimarrão em um ambiente de negócios ou trabalho? Ele ajuda ou atrapalha?

Juliana Durayski – Ao longo de minha pesquisa percebi que o chimarrão, além de ter esse motivo de socializar, acaba funcionando como uma espécie de calmante, por mais que ele tenha substâncias que deem energia. As pessoas do campo, até hoje, acordam cedo e fazem um chimarrão porque ele dá ânimo, dá “gás”. O chimarrão no trabalho dá energia e ajuda a socializar. As pessoas fazem uma pausa para o chimarrão. Ele não atrapalha no trabalho, pelo contrário. Há pessoas que argumentam que não tomam porque mexem com papel e têm medo de virar e sujar. Outra questão interessante diz respeito à figura do “fazedor” do chimarrão, o cevador, que é quem o prepara. Geralmente a pessoa adquire esse status. Não se trata de um status econômico ou de cargo, e sim o de “fazedor do chimarrão”. É ele quem abre os trabalhos. Toda empresa tem um. No IHU deve ter. 

IHU On-Line – Como a hierarquia social se estabelece em uma roda de chimarrão?

Juliana Durayski – Não percebi isso. Tomando chimarrão, a partir do momento em que se compartilha uma cuia, se compartilham os sonhos, as ideias. Não percebi uma hierarquia, inclusive na empresa. O chimarrão é algo que não pode ser comprado pronto, como em outras culturas, de outros estados, como é o caso do acarajé. O chimarrão precisa de uma pessoa que o faça. O chimarrão não discrimina.

IHU On-Line – Mas não tem aquela cultura no ambiente familiar de que quem faz o chimarrão é a mesma pessoa que serve e “controla” a sequência em uma roda de mate? Essa pessoa geralmente é o dono da casa...

Juliana Durayski – Percebi que geralmente nas casas há o fazedor de chimarrão e é essa pessoa que o serve. No entanto, hoje temos muitos atos profanadores. Por exemplo, não necessariamente a pessoa que faz o chimarrão é a que serve. E mesmo no ambiente de trabalho às vezes a roda é “furada”, não se segue a tradição de passar o chimarrão pela direita. Em alguns momentos esse sagrado é resgatado nas conversas, nas observações. Exemplos disso é quando se usam expressões como “apura esse mate, que ele não é microfone” ou: “tem que roncar”. Então, esses aspectos do sagrado são mantidos. E se a tradição se mantém é porque ela guarda algo de especial. É como se ela estivesse se reinventando sem perder a essência.

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