Edição 411 | 10 Dezembro 2012

“Tropicália, triunfo do rico e aplauso do genocídio”

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Thamiris Magalhães, Leandro de Souza Domith e Pedro Bustamante Teixeira

Para Gilberto Felisberto Vasconcellos é dada uma importância exagerada à tropicália, que ele classifica como “triunfo do rico”,

Por que a tropicália continua um tema candente até nossos dias? Segundo o cientista social Gilberto Felisberto Vasconcellos, é porque esse movimento interessa sobretudo jornalistas de televisão e de jornal, mas não o povo. “Atinge estes caras: redator, chefe de segundo caderno. Mas eu não acho que o povo curte isso não...” E indaga, em entrevista exclusiva à IHU On-Line, por e-mail: “O que a tropicália fez? Aprovou o quê? A multinacional é que é o quente, que ganhou, venceu a burguesia gostosa. É a valorização da multinacional como motor do desenvolvimento. Por isso que eu digo que a tropicália é a transfiguração sonora da economia política do automóvel trazida pelo Juscelino Kubitschek”.

Ao abordar sua obra Música popular: de olho na fresta, Gilberto Vasconcellos frisa que, depois dele, ele se tornou um “defunto autor” ou um autor defunto. “Acho que a academia entendeu o livro em função da importância dada à música popular como uma radiografia do Brasil. Como a academia é submetida à ideologia da indústria fonográfica, então aquele livro passou a ser uma espécie de junção da universidade com a indústria fonográfica. Renego esse livro. Todo autor tem que ter um livro renegado.”

Gilberto Felisberto Vasconcellos possui graduação em Ciências Sociais pela Universidade de São Paulo – USP e doutorado pela mesma instituição. É professor adjunto da Universidade Federal de Juiz de Fora – UFJF. Escreveu um livro clássico sobre o tema da MPB: Música popular: de olho na fresta (Rio de Janeiro: Graal, 1977), que aborda com mais detalhe nesta entrevista. Também é autor de, entre outros, A Questão do Folclore no Brasil: do Sincretismo à Xipofagia (Natal: EDUFRN, 2009); e O Príncipe da Moeda (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1997). Ele já esteve duas vezes no Instituto Humanitas Unisinos – IHU.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Por que o livro De olho na fresta é sua obra mais comentada na academia? A que se deve este fato?

Gilberto Felisberto Vasconcellos –
Depois de De olho na fresta eu virei um “defunto autor” ou um autor defunto. Acho que a academia entendeu o livro em função da importância dada a música popular como uma radiografia do Brasil. Como a academia é submetida à ideologia da indústria fonográfica, então aquele livro passou a ser uma espécie de junção da universidade com a indústria fonográfica. Foi por aí, creio... Renego esse livro. Todo autor tem que ter um livro renegado, a não ser por um capítulo sobre Noel Rosa: “Yes, nós temos bananas”, ali é bom. Mas eu sei é que toda hora dizem: “ah! mas e o De olho na fresta?” Se eu não estivesse em São Paulo não teria escrito esse livro. O De olho na fresta é um livro paulista, e meus outros livros quebraram com isso, talvez seja por aí.
Como a ideologia paulista é a dominante no Brasil, se você quebrar com ela você quebra com o estabelecido, dominante, hegemônico. Quando rompi com o De olho na fresta, rompi com o colonialismo interno paulista e, então, fui renegado. É igual norte-americano que dá um pau nos Estados Unidos, mal comparando: Orson Welles , Cassavetes , Paul Sweezy , Leo Huberman , Paul Baran, fui o paulista que chutou o pau da barraca; tenho essa clivagem com São Paulo... E um detalhe: escrevi esse livro sem conhecer os caras, se eu tivesse os conhecido, não teria escrito o livro... Se eu quisesse me dar bem, teria reproduzido esse discurso; seria senador pelo PT ou pelo PSDB, mas eu não consigo ouvir esse troço. Creio que fui enganado. Como toda juventude atribui uma função cognitiva à música popular, eu achava que aquilo ali era um retrato do Brasil, e na verdade era pura ideologia, puro lucro, pura gandaia.


IHU On-Line – Depois deste livro, sua abordagem sobre a música popular deu uma guinada em direção oposta ao De olho na fresta. Em seu livro, O Príncipe da moeda (Rio de Janeiro: Espaço e Tempo, 1997) você emprega o termo MPBSHELL para relacionar a música popular e as condições materiais e históricas que propiciaram seu surgimento. Você poderia explicar tal relação?

Gilberto Felisberto Vasconcellos –
MPBSHELL é junção da música brasileira com o petróleo. É o bate-estaca, é o som do automóvel, ou tudo que circunscreve o automóvel: a publicidade, o anúncio, entendeu: “baby you can drive my car”... os “Paralamas do Sucesso”, o pneumático, a banda larga, é isso... Toda música depois do “JK music” – que é a bossa nova – é ligada ao automóvel, a economia política do automóvel. A MPBSHELL é a transfiguração sonora da economia política do automóvel.


IHU On-Line – Há ainda alguma coisa a ser dita sobre a tropicália que ainda não foi dito?

Gilberto Felisberto Vasconcellos –
A tropicália é o triunfo do rico, do cara que venceu, e indiretamente é o aplauso do genocídio. O que a tropicália fez? Aprovou o quê? A multinacional é que é o quente, que ganhou, venceu a burguesia gostosa. É a valorização da multinacional como motor do desenvolvimento. Por isso que eu digo que a tropicália é a transfiguração sonora da economia política do automóvel trazida pelo Juscelino Kubitschek . Agora a melhor coisa da tropicália é o Rogério Duarte . O Rogério é quem fez a capa de Deus e o diabo, é dele o:

...ainda canto o ido o tido o dito
o dado o consumido o consumado
Ato do amor morto motor da saudade
diluído na grandicidade idade de pedra
Ainda canto quieto o que conheço
Quero o que não mereço: o começo...

Isso é a melhor coisa da tropicália, isso daí é do Rogério, um violão da pesada. Aliás, ele fez a capa do meu livro Itamar o predestinado (Brasília: Agência Quality, 1993).


IHU On-Line – Onde se encontram Glauber Rocha, Oswald de Andrade e tropicália?

Gilberto Felisberto Vasconcellos –
Creio que Glauber tinha momentos de ambivalência: ora ele falava bem dos músicos da tropicália, mas depois chamou de tropicanalha... Mas o fato é que o Glauber nunca colocou nenhum cantor da tropicália nos seus filmes. A não ser a Gal Costa cantando ali no começo... Aliás, foi ele quem lançou a Gal Costa... Mas o Glauber é Villa Lobos e o povo contra o resto. Glauber não tinha esse negócio com a MPB, só assim, Jorge Ben, Vanzolini, com aquele baita samba maravilhoso, e o Sérgio Ricardo.

Agora sobre Oswald, a tropicália oportunistamente se colocou como a corrente que estava valorizando Oswald de Andrade, que estava morto. Ele morreu em 1954, de 1954 até 1967-1968, ninguém falou do Oswald, a não ser a poesia concreta. Na verdade, a poesia concreta é que trouxe o Oswald para a cena, e não a tropicália. Foi o Décio , o Haroldo  e o Augusto  que fizeram esse resgate. Aliás, um trabalho excelente. O que eles fizeram em relação a Oswald de Andrade foi genial. A minha geração em 1968 começou a ler o Oswald de Andrade por causa da poesia concreta.


IHU On-Line – Haveria alguma relação entre os ensaios publicados por Augusto de Campos em O balanço da bossa e o seu livro De olho na fresta? É possível vislumbrar uma aproximação entre as duas obras?

Gilberto Felisberto Vasconcellos –
É anterior... Fiz o De olho na fresta muito inspirado no Augusto. Ele legitimou na alta cultura a tropicália. O Augusto ficou deslumbrado com ela. Ele chegou ao ponto de colocá-la até superior ao Villa lobos. Talvez porque ela tinha o domínio da comunicação de massa e a poesia concreta sempre ficou um negócio confinado a pouca gente... Então, talvez tenha sido isso. Se bem que o Haroldo de Campos nunca deu importância a isso. Mas, depois de certa altura, os concretos saíram de cena. Você não vê mais hoje o Augusto falando da tropicália. Agora, confesso que se dá uma importância exagerada à tropicália. Não tem importância nenhuma isso.


IHU On-Line – E por que a tropicália ainda hoje é estudada?

Gilberto Felisberto Vasconcellos –
É porque você está fazendo essa entrevista comigo sobre a tropicália. Por causa disso. Esse é o problema. Você devia começar a questionar essa entrevista: por que o Glauber não teve e mesma ressonância na juventude como tiveram esses músicos. Claro, porque a música é mais fácil, a música tem um negócio comportamental, que envolve sedução, dançar, musculatura... O cinema não, ele é reflexivo, o cinema do Glauber não é muscular, ao contrário... E a música popular conquistou as mulheres, elas foram seduzidas pela música. Isso se deve às inflexões culturais impostas à mulher e eles tematizam ela o tempo todo. Creio que de maneira até antifeminina. Discordo desse negócio de que o músico popular é o grandão, o cara que saca os segredos da mulher, isso aí é mistificação... Outro fato acerca da persistência da tropicália é que ela atinge essencialmente jornalistas de televisão e de jornal, não atinge o povo. Atinge estes caras: redator, chefe de segundo caderno. Mas eu não acho que o povo curte isso não...


IHU On-Line – O problema é a música popular ou a tropicália?

Gilberto Felisberto Vasconcellos –
O povo ágrafo aprende tudo pelo ouvido, não é? E ao mesmo tempo a música popular depende do enchimento sonoro onipresente na sociedade brasileira. Se você fizer uma crítica das condições insanas acústicas do Brasil, os músicos vão ser contra, eles gostam de sonzinho em elevador, no bar, é a sobrevivência dos caras... Por que, o que é a música? A música é a crítica do som da sociedade. É isso!

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