Edição 405 | 22 Outubro 2012

O Universo como manifestação de um Deus criador benevolente

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Márcia Junges / Tradução: Luís Marcos Sander

De acordo com o físico jesuíta Gabriele Gionti, para as pessoas de fé a harmonia do Universo expressa a beleza e bondade do Criador, mas não o prova. Busca pelo Bóson de Higgs demonstra que pesquisa científica requer anos de paciência e experimentos sistemáticos

“O fato de que os jesuítas, bem como os agostinianos, têm uma longa tradição científica, tendo alcançado importantes resultados científicos, dá credibilidade à ideia de que qualquer pessoa pode ser um bom cientista e uma pessoa religiosa ao mesmo tempo, sem qualquer oposição. Isso atesta que de fato não há uma oposição séria entre a ciência e a fé, se ambas são praticadas de maneira honesta”. A afirmação é de Gabriele Gionti, jesuíta, um dos cientistas do Observatório Vaticano, em Roma, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. “O Deus das Lacunas nada tem a ver com o Deus amoroso e solícito que conhecemos das Escrituras cristãs”, complementa. Gionti assinala que o acelerador LHC foi construído, também, para “caçar” a partícula de Higgs. “Sua descoberta prova que os esforços para construir o LHC eram necessários e que, na ciência contemporânea, às vezes precisamos de paciência e de anos para confirmar teorias, que não parecem passíveis de prova num período curto de tempo”. Ele debate, ainda, a confusão promovida por alguns “físicos teóricos famosos que, sem qualquer formação filosófica, acreditavam e ainda acreditam que a teoria do Big Bang tem algumas consequências metafísicas explícitas. A opinião pública e os meios de comunicação de massa amplificaram essa confusão”. E adverte: “É verdade que, como em muitas teorias da física teórica, na teoria do Big Bang existe uma ‘metafísica latente’; isso quer dizer que os físicos são realmente movidos, em sua pesquisa, por uma busca de uma causa última, que se assemelha à ‘arché’ de Aristóteles. Mas esse não é um ingrediente fundamental da teoria do Big Bang como teoria da física teórica”.

Nascido em Capua, na Itália, Gabriele Gionti cursou Física na Universidade de Nápoles Frederico II, onde Tomás de Aquino foi estudante. É mestre em Física e estudou Filosofia no Instituto Filosófico Aloisianum da Sociedade de Jesus, e na Pontifícia Universidade Gregoriana – PUG de Roma, ambas na Itália. De 2004 a 2006 trabalhou no Observatório Vaticano em Tucson, Arizona, nos Estados Unidos.

Confira a entrevista.


IHU On-Line – Qual é a importância de sabermos exatamente como surgiu o Universo?

Gabriele Gionti –
A mecânica quântica é a Física que descreve o mundo atômico e subatômico. A Relatividade Geral de Einstein é a teoria da Física que descreve a estrutura em grande escala de nosso Universo, isto é, nosso Universo em distâncias intergalácticas. Elas são completamente diferentes, e até agora não conhecemos uma maneira, uma teoria que pudesse unificá-las. A Relatividade Geral de Einstein propõe uma singularidade na origem de nosso Universo; isso quer dizer que não sabemos descrever o universo em seus primórdios, num tempo chamado de “Tempo de Planck ”. Os cientistas creem que a teoria que visa reconciliar a Mecânica Quântica e a Relatividade Geral, chamada Gravidade Quântica, é a que vai descrever como nosso Universo surgiu. Além disso, a Gravidade Quântica também conseguiria desvendar uma nova física que descreve nosso mundo em distâncias menores do que o “Comprimento de Planck ”.


IHU On-Line – O que muda sobre a concepção de surgimento do Universo a partir da comprovação da existência do Bóson de Higgs?

Gabriele Gionti –
O Bóson de Higgs é uma partícula que prova que o mecanismo de Higgs realmente existe na natureza. O mecanismo de Higgs é uma forma de dar massa a partículas elementares no “Modelo Padrão”, que é a melhor teoria que temos atualmente para descrever nosso mundo subatômico. Embora o mecanismo de Higgs explique como as massas das partículas elementares conhecidas aparecem, e embora a força gravitacional tenha na massa (- energia) sua “fonte”, assim como, para a força eletromagnética, a carga elétrica é a fonte da força elétrica, não há indício, de momento, de uma correlação entre o mecanismo de Higgs e a Gravidade Quântica.

O valor atual da massa de Higgs é de cerca de 125-126 GeV (giga elétron volts; 1 GeV é a massa de um próton), medido no LHC. Para este valor da massa de Higgs, nosso Universo mostra ser “metaestável”, o que significa que nosso Universo poderia saltar para um valor inferior de sua energia em potencial para o qual a massa de Higgs seria menor do que o valor efetivo. Como você poderá entender, isso quer dizer que o comportamento físico de nosso Universo poderia mudar por causa dessa característica metaestável.


IHU On-Line – Qual é a importância da comprovação dessa partícula para a Física e a ciência em termos gerais?

Gabriele Gionti –
Como eu disse acima, a descoberta do Bóson de Higgs confirma o “Modelo Padrão” da Física das partículas. Ele é um modelo para descrever a física subnuclear, que foi introduzido a partir dos anos 1970. O mecanismo de Higgs especificamente foi introduzido principalmente para completar uma teoria, que se chama Eletrofraca e unifica duas forças fundamentais: a força eletromagnética (a força gerada pelas cargas elétricas como o elétron) com a força fraca (que está presente nos núcleos atômicos e é gerada pelo próton e nêutron). Os “mediadores” dessa força Eletrofraca (W+, W-, Z0), as partículas trocadas dentro dos núcleos e responsáveis pelas interações Eletrofracas, foram revelados na década de 1980 pela equipe de Carlo Rubbia . O Higgs, predito pela mesma teoria, esteve ausente durante décadas, e as pessoas começaram a pensar que o mecanismo estava errado. O acelerador LHC foi construído também para “caçar” a partícula de Higgs. Sua descoberta prova que os esforços para construir o LHC eram necessários e que, na ciência contemporânea, às vezes precisamos de paciência e de anos para confirmar teorias, que não parecem passíveis de prova num período curto de tempo.


IHU On-Line – Que relações podem ser estabelecidas entre as descobertas científicas proporcionadas pela teoria das cordas e o Bóson de Higgs?

Gabriele Gionti –
Atualmente, creio eu, a Teoria das Cordas  é a melhor teoria que temos na Física Teórica, que também é uma teoria da Gravidade Quântica. Mas a Teoria das Cordas não foi provada experimentalmente ainda e continua sendo uma especulação teórica. A Teoria das Cordas também é capaz de reproduzir o Modelo Padrão como teoria fundamental do mundo subnuclear, e o bóson de Higgs como um ingrediente-chave do Modelo Padrão. Não me parece que a detecção do bóson de Higgs e o valor de sua massa possam ter consequências fundamentais para a Teoria das Cordas.


IHU On-Line – Em termos filosóficos, é possível e correto aproximar a Teoria do Big Bang com a arché aristotélica (a causa incausada), ou com a causa sui dos neoplatônicos (a causa como causa de si mesma)? Por quê?

Gabriele Gionti –
Tem havido, até mesmo no passado recente, muita confusão e muitos equívocos em torno dessa questão. Sua fonte reside numa confusão entre o plano de raciocínio físico e o metafísico. Sem entrar nos casos específicos, parece-me que essa confusão foi alimentada principalmente por físicos teóricos famosos que, sem qualquer formação filosófica, acreditavam e ainda acreditam que a teoria do Big Bang tem algumas consequências metafísicas explícitas. A opinião pública e os meios de comunicação de massa amplificaram essa confusão. No tocante à teoria do Big Bang na física teórica, essa é a melhor teoria que temos atualmente para explicar a origem e evolução do Universo em que vivemos. Usando categorias de Tomás de Aquino, que são categorias aristotélicas, a teoria do Big Bang ainda permanece uma teoria das “causas secundárias”, e não da “causa primária”, a arché de Aristóteles. É verdade que, como em muitas teorias da física teórica, na teoria do Big Bang existe uma “metafísica latente”; isso quer dizer que os físicos são realmente movidos, em sua pesquisa, por uma busca de uma causa última, que se assemelha à arché de Aristóteles. Mas esse não é um ingrediente fundamental da teoria do Big Bang como teoria da física teórica.


IHU On-Line – Qual é a importância do diálogo entre fé e ciência na explicação da origem do Universo?

Gabriele Gionti –
Se entendo bem sua pergunta, você está perguntando quais são as implicações filosóficas e teológicas do fato de que descobrimos que nosso universo tem uma origem. Esse tema, em si mesmo, também tem sido a causa de muitas compreensões equivocadas no debate entre ciência e teologia. De fato, como observei acima, muitos cientistas famosos pensaram erroneamente que o fato de o Universo ter uma origem implica que deveria haver uma “causa não causada” que seria responsável por dar início ao processo do Big Bang. Isso significaria, mais uma vez erroneamente, que necessitamos de um “Deus”, um ser supremo na ciência. Esta é a principal razão pela qual Hawking , como ele próprio admite em manifestações públicas, formulou um modelo do universo em que, perto do Big Bang e então da região de Gravidade Quântica de nosso Universo, há uma espécie de transição para um universo que não tem um “começo” (modelo de Hartle-Hawking), de modo que ele não necessita de um Deus como causa “primária” da origem do Universo. Entende-se com facilidade que esse é o conceito do “Deus das lacunas”, que é um Deus que as pessoas introduzem quando não conseguem explicar algo; assim, elas recorrem à ideia de um Deus onipotente, que é mais a projeção do desejo de onipotência delas sobre a natureza do que o Deus que conhecemos da religião revelada. Esse é o mesmo erro que Descartes  cometeu depois de construir seu sistema filosófico. Como ele não tinha certeza de que não se equivocara na elaboração de seu sistema, postulou um Deus benevolente que era tão bondoso que concedeu que sua mente não errasse no processo de elaboração de seu sistema filosófico. O Deus das Lacunas nada tem a ver com o Deus amoroso e solícito que conhecemos das Escrituras cristãs.


Origens diferentes

Além disso, o conceito de “origem” na ciência é completamente diferente do conceito de “origem” na filosofia e na teologia. Mais uma vez, os cientistas fizeram uma confusão entre o nível científico e o filosófico-teológico. Na ciência essa “origem” se chama origem “epistemológica” e, como tal, não implica um salto para uma busca de uma origem filosófica e teológica, como o Deus das lacunas frequentemente invocado pelas pessoas. O fato de haver um Big Bang, uma origem de nosso Universo, implica apenas que precisamos investigar as consequências que semelhante teoria tem de um ponto de vista puramente científico. Isso significa, por exemplo, que um início exige uma busca especial pelo total de energia-matéria que havia por ocasião do Big Bang, que tipo de equilíbrio entre energia e matéria estava presente antes do Big Bang, como esse equilíbrio foi rompido e originou a explosão do Big Bang, etc. A partir de uma perspectiva diferente, na teologia a criação é uma “relação” em que Deus cria o Universo através do Logos, a segunda pessoa da Trindade, numa relação de amor, que é o Espírito Santo, com seu Filho. Pode-se entender que a teologia e a ciência vivem em planos completamente diferentes.


IHU On-Line – Os jesuítas têm uma longa tradição científica, assim como os agostinianos. Em que medida essa particularidade abre caminhos para o diálogo entre a fé e a ciência?

Gabriele Gionti –
Nós vivemos em um mundo em que o conhecimento científico é o paradigma cultural dominante. Desde o “caso Galileu”, a religião católica e, em consequência, também outras religiões têm sido sempre vistas como uma espécie de superstição, uma forma antiga de conhecimento humano e até um obstáculo em potencial à ciência. O fato de que os jesuítas, bem como os agostinianos, têm uma longa tradição científica, tendo alcançado importantes resultados científicos, dá credibilidade à ideia de que qualquer pessoa pode ser um bom cientista e uma pessoa religiosa ao mesmo tempo, sem qualquer oposição. Isso atesta que de fato não há uma oposição séria entre a ciência e a fé, se ambas são praticadas de maneira honesta. Para uma pessoa de fé, a harmonia que se encontra no Universo é uma manifestação, mas não uma prova, da beleza e bondade de um Deus criador benevolente.


IHU On-Line – Nesse sentido, como o legado de Teilhard de Chardin  ajuda a sedimentar esse diálogo?

Gabriele Gionti –
Não sou exatamente um especialista em Teilhard de Chardin. Penso que se trata de um autor espiritual muito interessante. Por outro lado, porém, seu objetivo principal era encontrar uma área comum de interseção entre ciência, teologia e filosofia, propondo uma espécie de hiperciência que teria a tarefa de juntar os diferentes níveis de competência destas três atividades humanas. Não me parece que seu programa tenha sido muito bem-sucedido, embora seja uma boa ideia seguir a direção de sua pesquisa. Em minha opinião, ainda estamos muito longe de uma integração abrangente de ciência, teologia e filosofia. Vemos que elas se influenciam mutuamente na medida em que, por exemplo, questões científicas poderiam inspirar questões genuinamente filosóficas e teológicas e vice-versa, mas as metodologias, os instrumentos e as linguagens de seus respectivos campos de pesquisa ainda permanecem distintos.



Saiba mais...

O que é o Observatório Vaticano?

O Observatório do Vaticano (também conhecido como Specola Vaticana) é um instituto de pesquisa astronômico que depende diretamente da Santa Sé. É um dos institutos mais antigos do mundo. Foi fundado pelo Papa Gregório XIII, em 1572, por recomendação do Concílio de Trento, que também recomendara uma nova reforma no calendário. Sua localização inicial era a Torre dos Ventos, no Palácio do Vaticano. Foi a partir das observações dos astrônomos Chistovam Clauvius e Aloisius Lillios que foram verificados erros no calendário juliano e pavimentado o caminho para o calendário gregoriano. Inicialmente matemáticos e astrônomos jesuítas trabalhavam no instituto e posteriormente, integrantes de outras ordens religiosas, como os barnabitas, os agostinianos e oratorianos. Atualmente a responsabilidade do observatório compete à Companhia de Jesus.
 
Durante muito tempo o Observatório foi obscurecido pelos Observatório do Colégio Romano e o Observatório do Capitólio, ambos localizados em Roma e sob a responsabilidade do Papa. Em 1889, o Papa Leão XIII refundou o observatório, e o colocou nos jardins atrás da Basílica de São Pedro. Em 1939 o Papa Pio XI decidiu transladá-lo para Castel Gandolfo, a residência de verão do Papa, onde pode abrigar instrumentos mais modernos e ser criado um departamento de astrofísica para estudo da estrutura e evolução da Via Láctea.
 
Em 2009 decidiu-se transladar o observatório para a cidade vizinha de Albano, por causa do crescente número de visitantes, que afetam o local de repouso do Papa. Entretanto, serão mantidos pontos de observação em Castel Gandolfo. O Observatório abriga uma biblioteca com 22 mil títulos, entre eles livros antigos e raros, como obras de Galileu Galilei, Nicolau Copérnico, Isaac Newton, Johannes Kepler e outros cientistas famosos. Possui também uma relevante coleção de meteoritos.
 
Um segundo grupo de pesquisa, o Grupo de Pesquisa do Observatório do Vaticano, foi fundado em 1981 em Tucson, em colaboração com a Universidade do Arizona. Em 1993, foi concluída a construção do "Telescópio de Tecnologia Avançada do Vaticano", no Monte Graham, no deserto do Arizona, considerado um dos melhores locais de visibilidade astronômica. As principais atividades do Observatório são realizadas por este grupo. As linhas de pesquisa científica incluem fotometria e espectroscopia sobre aglomerados estelares; estudo da distribuição espacial das estrelas de diferentes tipos espectrais; órbitas de estrelas duplas; produção de atlas de espectro de interesse astrofísico, entre outras.

 

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