Edição 401 | 03 Setembro 2012

O saldo da transmissão olímpica é de mais brigas para o futuro

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Anderson David Gomes dos Santos

Record gastou uma grande chance de mudar o oligopólio midiático com as Olimpíadas de Londres

Quando a Rede Record de Televisão anunciou em 2007 que adquiriu os direitos de transmissão na TV aberta das competições olímpicas até 2014, imaginava-se que os Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, marcariam a mudança de um paradigma no oligopólio midiático nacional, com uma aproximação maior em termos de audiência com a Rede Globo. Ledo engano.

A emissora da Barra Funda surpreendeu e foi surpreendida com a transmissão dos Jogos Olímpicos de Inverno 2010, em Vancouver. Praticamente sem tradição de acompanhamento deste evento num país quase sem neve, a Record conseguiu bons resultados de audiência. Porém, como não havia “experiência” anterior, não havia também barreiras tecnoestéticas a serem enfrentadas.
No ano seguinte, houve os Jogos Pan-Americanos de Guadalajara, evento que o público brasileiro não só estava mais acostumado como também o viu em uma de suas cidades a edição anterior, o Rio de Janeiro. A transmissão da Record foi alvo de várias críticas. De um lado, as barreiras de produção de eventos esportivos, quase todos eles sob comando da líder. Por outro, a repetição do que se mais criticava na adversária, a opção por manter programas como “Melhor do Brasil” (sábado) e “Programa do Gugu” (domingo) em detrimento de mostrar ao vivo as competições.

Do final de 2011 até o dia 27 de julho de 2012, quando foi aberta oficialmente a 30ª edição dos Jogos Olímpicos de Verão, em Londres, a própria situação do mercado era outra. Em vez do crescimento dos cinco anos anteriores, período que marca a tentativa de disputa mais forte contra a Globo, uma queda constante, a ponto de o SBT retomar a vice-liderança na média diária de audiência.
A emissora de Silvio Santos passou a mudar a sua grade de programação com uma frequência bem menor do que nos anos anteriores e, além disso, conta com fenômenos atemporais de audiência, casos do seriado Chaves, das telenovelas mexicanas e do Programa Silvio Santos. Porém, este novo grande momento parece ser oriundo do sucesso do remake nacional da novela infantil Carrossel.
A “crise de identidade” passou para os lados da Record, que vive mudando seus horários, com problemas em programas como “Hoje em Dia” e no horário nobre, em que o seu remake de um sucesso mexicano, Rebelde, não vem dando certo.

Com esse novo contexto, a emissora emitiu um comunicado cauteloso ao público e aos anunciantes antes dos Jogos Olímpicos de Londres. A “Carta Olímpica Record” tranquilizava os seus parceiros, afirmando que suas marcas seriam exibidas, e também o público, que iria ver os principais momentos ao vivo, mesmo que os horários das atrações rotineiras fossem ajustados. O evento serviria mais para conseguir um novo fôlego, inclusive para retomar a vice-liderança, do que para concorrer pelo primeiro posto.

A transmissão foi melhor do que no Pan-Americano, com gafes aqui e acolá, mas sempre a enfrentar a memória de um público acostumado às transmissões esportivas da Rede Globo – que deixava de transmitir uma Olímpiada após 40 anos –, e a concorrência da SporTV na televisão fechada, com direito ao empréstimo de Galvão Bueno ao canal.

Ainda assim, a Record conseguiu alguns momentos de liderança, com destaque para o dia 11 de agosto, penúltimo dia da Olimpíada, em que ficou na primeira posição por mais tempo em sua história, das 7h às 18h18. Era dia de finais: do futebol masculino, em que teve audiência de 17 pontos, com picos de 20, quase o triplo de audiência da Globo; do vôlei feminino, com 12 pontos; e da categoria até 75 kg do boxe masculino, quando perdeu por uma diferença pequena, 12 a 11.

Ainda assim, muito pouco para quem vem gerando uma inflação nos valores dos direitos de transmissão esportivos. Só para o caso das Olimpíadas, se para 2008 a Globo gastou 15 milhões de dólares, para 2012 a Record pagou quatro vezes mais. Como os próximos jogos de verão serão no Brasil, Globo, Record e Bandeirantes dividirão a transmissão, tendo pago, em conjunto, 200 milhões de dólares.
Nesta briga entre Globo e Record, alguns outros grupos empresariais acabaram tendo vantagens. Além do SBT na TV aberta, um grupo transnacional também vem crescendo. O portal Terra (Telefonica) transmitiu com bom sucesso, para uma experiência na internet, os Jogos Olímpicos de Inverno e de Verão mais recentes e o Pan-Americano de Guadalajara, apresentando-se como uma alternativa à TV, mantendo a gratuidade e com novas possibilidades de recepção.

Enquanto isso, já se desenha uma nova disputa. Para as Olimpíadas de 2020, o valor inicial pedido pelo Comitê Olímpico Internacional seria de 250 milhões de dólares. Para se ter ideia, o Clube dos 13 propôs um valor próximo a isso por uma temporada do Campeonato Brasileiro de Futebol, que dura sete meses.

Vale a pena seguir acompanhando os passos dessa briga, principalmente porque as barreiras político-institucionais não contam, e sim quem pode pagar mais. Ao contrário do futebol em que, por exemplo, a Rede Globo adquiriu os direitos de transmissão das edições 2018 e 2022 da Copa do Mundo de Futebol de forma automática. Além disso, é tempo mais que suficiente para que as empresas que produzem audiovisual na internet e que possuem o aporte financeiro de grandes grupos transnacionais, caso do Terra, adquiram mais experiência nesse tipo de transmissão e incomodem ainda mais a TV aberta já a curto prazo.

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