Edição 198 | 02 Outubro 2006

Ramon Llull, um “guia” para a Idade Média

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IHU Online

Autor de mais de 250 obras e fora dos “tipos” conhecidos do medievo (clérigo, servo e burguês), o filósofo catalão Ramon Llull pode servir como “guia” para se conhecer melhor a Idade Média, sobretudo os séculos XII, XIII e XIV, disse o historiador Ricardo Costa em entrevista por e-mail à IHU On-Line.

A profusão de temas abordados por Llull vai da poesia à medicina, do direito à filosofia e teologia. Sua obra é ade grande atualidade, e chega mesmo a antecipar pensadores contemporâneos como Sartre e Plessner. Na entrevista que segue, o professor da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), avalia a importância de Llull e revela que esse autor teria muito a ensinar a nossos políticos, embora isso seja bem difícil de acontecer. E lamenta os preconceitos que ainda persistem sobre a Idade Média: “No Brasil, infelizmente, predomina ainda a idéia de que a Idade Média foi um tempo de ignorância, barbárie. Isso por duas razões: puro desconhecimento por parte de muitos colegas, e a grande mídia, sempre ignorante e em busca do lugar-comum para ser melhor entendida”.
Costa é mestre e doutor em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF). Sua tese intitula-se A Árvore Imperial - Um Espelho de Príncipes na obra de Ramon Llull (1232-1316). Cursou dois pós-doutorados, ambos na Universidade Internacional da Catalunha, na Espanha. De suas dezenas de especializações, destacamos a de tradução de textos do catalão antigo, de Ramon Llull, cursada na Universidade Albert-Ludwigs, na Alemanha.
Escreveu A Árvore Imperial.. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2001; Ramon Llull. O Livro dos Anjos. São Paulo: Instituto Brasileiro de Filosofia e Ciência Raimundo Lúlio, 2002; Las definiciones de las siete artes liberales y mecánicas en la obra de Ramón Llull. São Paulo/Porto: Hottopos, 2005, entre outros. Conheça mais sobre o trabalho do historiador, acessando sua página na internet: www.ricardocosta.com

IHU On-Line – Por que Ramon Llull é fundamental para compreender a Idade Média e, sobretudo, o século XII? Qual é a importância da tradução de suas obras? Como a influência árabe aparece nelas?

Ricardo Costa
– Ramon Llull  é um personagem fascinante, pois escreveu mais de 250 obras e não se encaixa em nenhum dos “tipos" famosos medievais (não era clérigo, não era servo, talvez da baixa nobreza ou da baixa burguesia - burguês entendido como morador do burgo, isto é, citadino - mas logo abandonou sua ordem para se dedicar à pregação). Pode-se ter uma boa noção da Idade Média (especialmente dos séculos XII-XIII-XIV) porque ele escreveu sobre praticamente todos os temas famosos na época (poesia, medicina, direito, filosofia, teologia), embora seu "pano de fundo" tenha sido o mesmo: provar, por “razões necessárias", que o catolicismo era a religião verdadeira.

É importante traduzir suas obras, porque, assim, os estudantes universitários têm acesso direto a um texto da época, à linguagem da época, a expressões e formas de pensamento típicas do medievo. Sua filosofia, o “humanismo cristão", é muito importante para resgatarmos um pouco da ética clássica, em que verdade é verdade, mentira é mentira, justiça é uma coisa boa, injustiça uma coisa má, o bem é belo e o mal é feio, e assim por diante (de resto, praticamente todos os antigos e medievais, tinham esses conceitos em mente). Além disso, ao traduzir e rearranjar as frases, eles melhoram muitíssimo o português, você acredita? Agora mesmo estou corrigindo a tradução de uma novela enciclopédica, o Livro das Maravilhas, obra escrita em 1289, com um conteúdo muito interessante. Deve sair esse ano. Como viveu em uma sociedade totalmente mesclada (islamismo, judaísmo e cristianismo), Llull recebeu muitas influências muçulmanas. Ele cita os sufis islâmicos em várias passagens.

IHU On-Line – Qual era a definição da pessoa humana em Llull? Qual é a atualidade de sua concepção?

Ricardo Costa
– Interessantíssima: homem é um animal homificante, isto é, um ser que hominiza o mundo inteiro, apropriando-se dele (o mundo) em seus atos intelectivos, voluntativos e memorativos (em seu entender, querer e lembrar), isso externamente. Internamente, é um ser dinâmico e processual, que se realiza por meio de seus atos e assim se faz homem. Nas palavras do filósofo: “o homem é homificativo e homificável" (sujeito e objeto da homificação), pois é atuando no mundo que o homem se realiza! Segundo um querido amigo, o filósofo alemão Alexander Fidora, da Universidade de Frankfurt, essas idéias antecipam Plessner  e Sartre !!! É ou não é atual?

IHU On-Line – Qual é a importância de Llull para o nascimento da ciência e suas influências hoje? O que a premissa de buscar o conhecimento livre de julgamento prévio pode ensinar à ciência moderna?

Ricardo Costa
– Na época de Llull, nascia a ciência - no sentido da observação do mundo (é o ato de maravilhar-se platônico colocado em prática). No próprio Livro das Maravilhas, há muitos capítulos dedicados à natureza (sobre o trovão, as nuvens, etc.). Inclusive, o capítulo sobre o homem (quase 60% de toda a obra) é literalmente uma maravilha (Por que o homem gosta de beber? Por que o homem gosta de cheirar? Por que o homem gosta de ter filhos?) A influência hoje – entendo-se “influência" como ação na vida das pessoas hoje - é ínfima. A maior parte da humanidade infelizmente vive uma vida voltada apenas para as coisas práticas (os medievais diriam que são escravos, pois só o estudo do conhecimento pelo conhecimento liberta o homem). Mas essa falta de conexão se aplica a praticamente todos os pensadores anteriores a Maquiavel. Em minha consideração, infelizmente, vivemos em um período maquiavélico. “É melhor ser temido que amado..." Eu sempre achei o contrário.

No caso do conhecimento livre de julgamento prévio, isso é uma das bases da compreensão hermenêutica. Também infelizmente, no caso das ciências humanas, contudo, a maior parte das pessoas (mesmo que digam o contrário) busca o conhecimento com muito preconceito (veja o próprio caso do estudo da História Medieval).

IHU On-Line – Poderíamos estabelecer alguma ligação entre a "Arte" de Llull com a transdisciplinaridade hoje buscada no conhecimento?

Ricardo Costa
– Em linhas gerais, sim. Contudo, não acredito nessa “linha histórica" assim tão linear. A história humana é feita de avanços, retrocessos, paradas, e possui tempos diferentes (como me ensinou Fernand Braudel ). No caso da transdisciplinaridade pós-moderna, não creio haver muita similitude com a medieval, pois as premissas eram muito diferentes. Em linhas muito genéricas, porém, a resposta é sim: ambas buscam uma aproximação entre os diferentes campos do saber.

IHU On-Line – De que forma a cosmovisão de Llull pode estabelecer um diálogo inter-religioso na época conturbada em que vivemos, sobretudo no Oriente Médio?

Ricardo Costa
– Essa é uma questão espinhosa. E você está certa: vivemos em uma época conturbada mesmo! Entretanto, para não deixar sua pergunta sem resposta, creio que o conceito é “boa vontade" para com o outro. No Livro do Gentio e dos Três Sábios, todos têm o mesmo espaço para apresentar sua fé, e todos escutam o "outro". No fim, ninguém muda de idéia, mas voltam a caminhar conversando. No fundo, no fundo, trata-se da benevolência platônica, conceito pouquíssimo levado em consideração hoje. Um pequeno parêntese para explicar isso (que também era um pressuposto lluliano) A dialética platônica - que visava à liberdade do espírito - tinha como pressuposto a "discussão com benevolência". E que é benevolência? É ter boa vontade para com alguém, escutar o outro. Isso está em A República, de Platão . Nesse texto maravilhoso, só o sofista é desagradável, não sabe ouvir, é grosseiro, deselegante. Sócrates , em resposta, sempre tem uma palavra amável para com Trasímaco  (em Llull há o mesmo sentimento, com o acréscimo das lágrimas, a compunção cristã. Como disse Le Goff , “o homem medieval é um homem que chora"). Só assim os homens podem chegar à “liberdade de espírito" e existir uma “comunidade de educação verdadeiramente livre" como desejava Platão. Isso seria um bom começo.

IHU On-Line – O que é e como pode ser explicada a aproximação entre o "espelho do príncipe" de Llull e o de Santo Tomás de Aquino? Poderia explicar o projeto político luliano e o que ele poderia ensinar à política contemporânea?

Ricardo Costa
– Um e outro pertencem à tradição dos Espelhos de Príncipes! Esse é um dos temas de minha tese de doutorado. Para a política contemporânea? Ensinar aos políticos atuais? Você está brincando! Eles são ignorantes. Todos. Inclusive o nosso presidente. Há uma famosa frase de um pensador medieval do século XII (John of Salisbury ) que se aplica ao Lula: Rex illiteratus est quasi asinus coronatus (um rei iletrado é como um asno coroado). Sabe o que diz Platão? Que todo homem que aspira a um cargo político deveria ser proibido de tê-lo. Portanto, as filosofias clássica e medieval têm a ensinar ética! Só assim baniríamos para uma ilha distante os Delúbios, os José Dirceus da vida!

IHU On-Line – Acredita que, de certa forma, a sociedade pós-moderna ainda possua, mesmo que veladamente, a divisão medieval entre clérigos, nobres e servos? Quem seriam os clérigos, nobres e servos atuais?

Ricardo Costa
– Não. A divisão social hoje tem como base o poder econômico; a medieval, a função que a pessoa exercia no todo, independente de seu poder econômico! Mas nem na Idade Média essa divisão correspondia à realidade. Isso foi uma abstração criada por clérigos para se pensar a sociedade de então. A realidade era muitíssimo mais complexa. Llull mesmo, em um tratado, indica mais de 35 profissões em sua ilha (Maiorca)! Ademais, havia clérigos filhos de nobres e clérigos filhos de servos, camponeses ricos e cavaleiros pobres, ricos-homens que abandonavam tudo para viver na pobreza. Por fim, uma vez mais: os pressupostos eram diferentes.

IHU On-Line – Ainda com relação às obras de Llull, como era a educação das crianças na Baixa Idade Média?

Ricardo Costa
– Esse é um tema muito interessante, objeto de pesquisa de meu pós-doutorado em Barcelona e que me deu um enorme prazer! Na Baixa Idade Média, o ensino era dirigido por homens da Igreja (e também por ela própria). Algumas mulheres aprendiam, mas em casa (aulas particulares), quando ricas. A base da educação era o Trivium e o Quadrivium (desde o século V): gramática, lógica e retórica; aritmética, geometria, música e astrologia. Seria o correspondente ao nosso primeiro grau e segundo grau. Depois, uma universidade (Teologia, Direito e Medicina). A Idade Média criou a universidade. Não há nada parecido no mundo antigo. Só isso deveria ser suficiente para banir-se de nosso ensino atual o rótulo “Idade das Trevas", noção que se aplica muito melhor ao século XX, dos Gulags, dos campos de concentração nazistas e da bomba atômica!

IHU On-Line – Quais são os principais preconceitos que ainda persistem sobre a Idade Média e o que já mudou nesse sentido?

Ricardo Costa
– No Brasil, infelizmente, predomina ainda a idéia de que a Idade Média foi um tempo de ignorância, barbárie. Isso por duas razões: puro desconhecimento por parte de muitos colegas, e a grande mídia, sempre ignorante, e em busca do lugar-comum para ser melhor entendida. Nossos esforços ainda são particularizados ao mundo universitário (mesmo assim com muitos problemas). Dou-lhe um exemplo: uma tarde, em minha sala na Ufes, estava trabalhando no laptop com um texto de Llull. Dois professores entraram - os dois de História Contemporânea - viram a luz apagada, e um disse: “Vamos trazer luz às trevas! Ahahah..." Eu havia esquecido de acender a luz da sala.

 

 

 

 

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