Edição 391 | 07 Mai 2012

Tempos e ritmos de ver: cegueira e visibilidade no mundo contemporâneo

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Adriana Melo e Maria Teresa F. Ribeiro

Publicamos a seguir um ensaio de autoria de Adriana Melo e Maria Teresa Franco Ribeiro. No texto, elas questionam: “um novo homem, um homem do 3º milênio, cooperativo, feliz consigo mesmo, poderia se construir a partir de cursos livres em novos ambientes de redes sociais, nas empresas, em espaços como o Facebook?

Embora o papel das redes sociais em movimentos como a Primavera Árabe tenha sido determinante (...), o caminho entre o desejo de desconstruir as bases dos regimes ditatoriais nas telas iluminadas do SMS e a construção de uma verdadeira liberdade democrática é bem mais longo. Exige uma nova sociedade que não pode prescindir do sujeito como ser de linguagem, aquele que dialoga com o mundo a partir das suas capacidades internas, da sua sensibilidade, afetividade e amorosidade. Dessa nova sociedade, emergiria um novo humanismo capaz de aportar esperança e olhares mais atentos e cuidadosos para a vida em todos os seus sentidos e para a singularidade de todo ser humano”.

Adriana Melo é poeta, contista, graduada em Letras, com mestrado e doutorado em Geografia, todos pela Universidade Federal de Minas Gerais. Desenvolve estudos sobre o sertão no contato com as representações da literatura, abordando as escritas das paisagens, dos lugares, dos territórios.

Maria Teresa Franco Ribeiro é doutora em Economia pela UFRJ, com pós-doutorado no IHEAL, Paris III, sobre a temática do desenvolvimento e territorialidade na economia e na geografia. É professora e pesquisadora da Universidade Federal da Bahia – UFBA. Pesquisa e ensina na área do desenvolvimento e processo de internacionalização do capital, economia da inovação e política industrial e tecnológica.

Confira o artigo.


Levei muito tempo para compreender minha condição, minha pertença a esse grupo que chamam “os cegos”. O que os caracteriza é que eles ousam olhar diretamente nos olhos do sol, confirmando assim a frase de Plotino: “Se o olho humano não tivesse algo de solar, ele não poderia perceber o sol”. Os cegos sempre viram o céu no absoluto, já que seu terceiro olho é capaz de acolher toda a luz do astro, sem sofrer danos na retina ou na córnea. A pupila dos cegos é seu corpo inteiro, e eles podem impunemente voltar-se para o sol como se tivessem aprendido o reflexo condicionado dos girassóis. (Evgen Bavcar, Memória do Brasil)

A simples menção à palavra cegueira remete-nos necessariamente à questão do ponto de vista e, portanto, à questão do sujeito, do seu olhar e da sua subjetividade. De que ponto de vista vemos ou não vemos? Nesse sentido, cegueira e visão não se contrapõem, uma vez que não há como dissociar o olhar da imaginação e do sujeito. A física dos olhos não é imprescindível à visão, à fabricação de imagens, como tão bem nos mostra o fotógrafo, cineasta e ensaísta Evgen Bavcar.  Em sentido oposto, o excesso de imagens a que estamos submetidos no mundo contemporâneo, o ritmo vertiginoso com que elas se apresentam à física dos olhos não é compatível com os tempos e os ritmos imprescindíveis à visão. Visão compreendida como a habilidade do sujeito de produzir imagens interiores capazes de estabelecer permanentes diálogos entre o seu mundo, o seu contexto, e os diversos mundos que constroem a ideia de mundo. Nesse processo, o sujeito se situa, busca o seu lugar, o seu ser, procura continuamente se autoconhecer, de modo a se transformar e, assim, fazer movimentos de transformação do mundo. Nesse sentido, a visão se aproxima da visibilidade e se distancia da cegueira.

A visibilidade, tal como concebida por Italo Calvino ,  é exatamente a habilidade de criar imagens breves e consistentes, essencialmente capazes de fazer ver a partir do cultivo das potencialidades da imaginação. O cultivo da imaginação, ao contrário de fazer perder de vista o mundo denominado real, amplia as possibilidades de visão desse mundo. A aceleração dos processos socioespaciais impulsionados pela tecnociência e pela ideia de desenvolvimento a qualquer custo, a ditadura do dinheiro, do mercado, da mercadoria e do consumo inflaciona o nosso cotidiano de imagens à venda, fetichiza o nosso olhar e a nossa consciência de sujeitos. Não dispomos mais nem de tempo nem de espaço para ver/viver.

Deixamo-nos atropelar, em nossa sociedade competitiva, porque medimos o valor do tempo pelo dinheiro que ele pode nos render. Nesse ponto remeto o leitor, mais uma vez, à palavra exata do professor Antonio Candido : “O capitalismo é senhor do tempo. Mas tempo não é dinheiro. Isso é uma brutalidade. O tempo é o tecido de nossa vida”. A velocidade normal da vida contemporânea não nos permite parar a fim de ver o que atropelamos; torna as coisas passageiras, irrelevantes, supérfluas. Tenho grande ternura pela lembrança de meu pai, nas viagens de carro que fazíamos na minha infância: cada vez que uma mariposa se estatelava contra o para-brisa, à noite, ele lamentava o fim abrupto daquela vidinha minúscula cujo voo errático era tão desproporcional à velocidade do automóvel. Tudo que vive é sagrado? Corremos na intenção de não perder nada e perdemos o essencial: o desfrute do próprio caminho. A vida, no entanto, não é exatamente isso: travessia?

O percurso da vida, com seus sabores, saberes e dissabores, é ignorado como valor. O que conta é o “ponto de chegada”, traduzido como capacidade, cada vez maior, de consumir, especialmente as novidades tecnológicas, que fabricam um mundo cada vez mais hiperconectado digitalmente. Nesse mundo, o suporte da conexão entre os homens deixa de ser o próprio homem como ser de linguagem, uma vez que, independentemente de o sujeito estar conectado, de estar online, as tecnologias digitais garantem a sua conexão com outros sujeitos, disponibilizando a troca de informações 24 horas. Essa busca frenética e insaciável pelo ter e a acelerada e cada vez mais ampliada hiperconexão digital tendem a nos transformar em meros elementos de linguagem, nos termos de Kristeva ,  limitando as infinitas capacidades de representação da nossa experiência humana profunda. Para a humanista, escritora e psicanalista búlgaro-francesa, as condições da vida moderna contemporânea tendem a reduzir o nosso espaço psíquico, propiciando a geração de novas “doenças da alma”, novos tipos de cegueira. O caminho para a superação dessas doenças, segundo ela, passa necessariamente pela reabilitação do sensível como fundamento a contrapor a crescente incapacidade de representação das experiências interiores e a banalização do mal. Kristeva nos convida a pensar a linguagem não apenas como um elemento importante para a compreensão do mundo, mas especialmente como um instrumento fundamental e eficaz para nos conhecermos: somos seres falantes, desenhistas, calculistas, pensadores, escritores, pintores, músicos, seres essencialmente criativos, e como tais não podemos nos transformar apenas em “elementos da linguagem” no contexto da interconectividade acelerada. Se o ser falante é sinônimo de ser humano, significa que a utilização da linguagem e a sua compreensão é o coração da ideia de humano, de humanismo. Quando essa conexão é superficial, quando não se realiza na sua completude, limitamos nossa capacidade interior de reflexão, reduzimos nossa capacidade psíquica e destruímos nosso espaço interior. Esse é o momento, segundo a humanista contemporânea, de apostar em um novo humanismo e de rever os elementos e modelos de linguagem.
Na mesma conexão de pensamento, a filósofa e escritora Olgária Matos, relendo a modernidade ocidental em Walter Benjamim, diz que vivemos na contemporaneidade uma patologia do tempo, a sensação generalizada de que não há mais tempo para a criação de vínculos, para o exercício da experiência compartilhada.

Eis porque Benjamim, em seu ensaio A imagem de Proust, escreveu que na contemporaneidade não há mais tempo para se viver grandes amores, que “as rugas e marcas em nosso rosto são assinaturas das grandes paixões que nos estavam destinadas. Mas nós, os senhores, não estávamos em casa”. Esse absenteísmo atesta um não engajamento, o não empenho “na criação de valores espirituais”. Sem laços estáveis, produz-se um déficit simbólico no indivíduo e na sociedade, uma vez que valores dependem de um espaço comum de experiências compartilhadas, tal como Benjamin as indica em seu ensaio O narrador. Déficit simbólico corresponde à espacialização do tempo e sua mensuração abstrata, à sua patologia, visto que determina o decréscimo das faculdades criadoras e fantasmáticas dos indivíduos submetidos a oscilações do mercado, à insegurança e ao medo.

Um novo homem, um homem do 3º milênio, cooperativo, feliz consigo mesmo, poderia se construir a partir de cursos livres em novos ambientes de redes sociais, nas empresas, em espaços como o Facebook? Embora o papel das redes sociais em movimentos como a Primavera Árabe tenha sido determinante, para Kristeva  o caminho entre o desejo de desconstruir as bases dos regimes ditatoriais nas telas iluminadas do SMS e a construção de uma verdadeira liberdade democrática é bem mais longo. Exige uma nova sociedade que não pode prescindir do sujeito como ser de linguagem, aquele que dialoga com o mundo a partir das suas capacidades internas, da sua sensibilidade, afetividade e amorosidade. Dessa nova sociedade, emergiria um novo humanismo capaz de aportar esperança e olhares mais atentos e cuidadosos para a vida em todos os seus sentidos e para a singularidade de todo ser humano.

Relembrando Plotino  sobre a presença do sol no olho humano como pré-condição para a percepção do astro ardente, Bavcar afirma que provavelmente tenhamos nos esquecido dessa presença, “recusando a nossos olhos, que participam da essência das estrelas, seu direito às origens, seu direito a olhar para o infinito”.  As possibilidades de reconexão com nossas capacidades sensíveis devolveriam, pois, aos nossos olhos, a sua condição de parte da essência das estrelas e, portanto, o direito às nossas origens e à nossa contínua e cuidadosa mirada ao infinito. No início da modernidade portuguesa, o poeta Alberto Caeiro,  um dos heterônimos de Fernando Pessoa, já apontava para a importância do pasmo essencial do ato de ver como possibilidade de reconciliação do sujeito com o universo e, portanto, para a possibilidade de uma vida mais digna e mais harmônica:

[...]
O meu olhar é nítido como um girassol.
Tenho o costume de andar pelas estradas
olhando para a direita e para a esquerda,
e de vez em quando olhando para trás...
E o que vejo a cada momento
é aquilo que nunca antes eu tinha visto,
e eu sei dar por isso muito bem...
Sei ter o pasmo essencial
que tem uma criança se, ao nascer,
reparasse que nascera deveras...
Sinto-me nascido a cada momento
para a eterna novidade do Mundo...
[...]


Referências

BAVCAR, Evgen; TESSLER, Elida; BANDEIRA, João (org.). Memória do Brasil. São Paulo: Cosac & Nayf; Universidade de São Paulo: Centro universitário Maria Antônia, 2003.
CALVINO, Italo. Seis propostas para o próximo milênio. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2003.
KEHL, Maria Rita. Delicadeza. In: NOVAES, Adauto. (org.). A condição humana: as aventuras do homem em tempos de mutações. Rio de Janeiro: Agir; São Paulo: Edições SESC SP, 2009.
KRISTEVA, Julia. Dix Principes pour L’humanisme du XXI Siècle. Assise, 27 octobre 2011 “Journée de réflexion, dialogue et prière pour la paix et la justice dans le monde”. Disponível em: http://bit.ly/wN9BdN Acesso em: 21 de fev. 2012.
______. Oser l’humanisme. Parvis des Gentils, 24-25 mars 2011. Deux jours d’échange et dialogues entre croyants et non croyants. Disponível em: http://bit.ly/hirWAV Acesso em: 21 de fev. 2012.
MATOS, Olgária Chain Féres. Aufklärung na metrópole: Paris e Via Láctea. In: BENJAMIM, Walter. Passagens. Belo Horizonte: Editora UFMG; São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2006.
PESSOA, Fernando. O guardador de rebanho e outros poemas. São Paulo: Círculo do Livro S.A., 1989.

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