Edição 374 | 26 Setembro 2011

Um sistema em resposta ao niilismo ético

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Márcia Junges

De acordo com Rubens Godoy Sampaio, a envergadura sistemática da obra de Lima Vaz possui estrutura triádica e tem como desafio fundamental superar o niilismo. Relações intersubjetivas são constitutivas do ser humano, e ser-com-os-outros é seu aspecto ineliminável

“O seu grande desafio como filósofo e padre foi justamente elaborar um discurso filósofico coerente, sólido, fundamentado em toda a grande tradição filosófica no seio mesmo da Modernidade, cujo selo é exatamente o do niilismo. Seu grande desafio foi estabelecer um diálogo com a tradição filosófica que permitisse a elaboração de um discurso sensato que superasse o niilismo. Ou seja, a filosofia de Henrique Cláudio de Lima Vaz é a obra de um homem de fé, que professa o cristianismo e que tem como desafio elaborar de forma estritamente racional um discurso que alcance e inclua o tema do Absoluto como fundamento mesmo do próprio discurso e como exigência da racionalidade”. A explicação é do filósofo Rubens Godoy Sampaio, na entrevista que concedeu por e-mail à IHU On-Line. Fundamentado na categoria da Transcendência, o sistema vaziano é a resposta elaborada “de forma original e inovadora à crítica contemporânea à metafísica cuja consequência mais devastadora para a nossa civilização é sem dúvida alguma o império de um horizonte marcado indelevelmente pelo niilismo ético”. Sobre a ontologia da intersubjetividade, assinala que as relações intersubjetivas são parte do ser humano. “O discurso que o homem tece sobre si mesmo não estaria completo se prescindisse desse aspecto constitutivo e ineliminável que é ser-com-os-outros, aspecto que é marcado sobretudo pela característica da reciprocidade”.

Graduado em Filosofia pela Universidade Federal de Minas Gerais – UFMG e em Direito pelo Centro Universitário Salesiano de São Paulo, é mestre em Filosofia pela UFMG com a dissertação A Ontologia da Intersubjetividade no pensamento de Henrique Cláudio de Lima Vaz e doutor na mesma área pela Universidade Gama Filho – UGF, com a tese Metafísica e Modernidade: método e estrutura, temas e sistema no pensamento de Henrique Cláudio de Lima Vaz (São Paulo: Loyola, 2005). De sua produção bibliográfica citamos Crise ética e advocacia (Porto Alegre: Sergio Antonio Fabris Editor, 2000) e O Ser e os Outros (São Paulo: Unimarco Editora, 2001). É servidor público federal da Justiça Federal de São Paulo

Confira a entrevista.

IHU On-Line – O que é a ontologia da intersubjetividade no pensamento de Lima Vaz?

Rubens Godoy Sampaio – Antes de responder a essas perguntas vou desenhar uma moldura no interior da qual serão respondidas as outras questões. A primeira ideia importante a respeito do pensamento de Lima Vaz é a seguinte: o termo de toda a sua trajetória filosófica foi a elaboração de um sistema filosófico. Seu pensamento apresenta-se como uma obra de envergadura sistemática. Seu sistema caracteriza-se por uma estrutura triádica e tem como pilares sua antropologia (nos livros Antropologia filosófica I e II), sua ética (nos livros Escritos de filosofia IV e V) e sua metafísica (Escritos de filosofia VII – Raízes da Modernidade). Estes são os livros principais do seu sistema. Todavia é possível encontrar aspectos de sua antropologia, de sua ética e de sua metafísica em outros livros bem como em muitos artigos nos quais certos assuntos são aprofundados. Por exemplo, o livro Escritos de filosofia III aprofunda em alguns artigos a categoria de transcendência apresentada sistematicamente no interior da seção sobre as categorias de relação do livro publicado anteriormente, a Antropologia filosófica II. Enfim, o sistema é o estuário, é o telos de toda a sua produção filosófica.
Pois bem, o problema da ontologia da intersubjetividade é trabalhado de forma bem pontual na categoria de intersubjetividade apresentada na região categorial das relações. A antropologia vaziana é organizada em grupos de categorias. O primeiro grupo são as categorias de estrutura que incluem as categorias de corpo próprio, psiquismo e espírito. O segundo grupo são as categorias de relação: objetividade, intersubjetividade e transcendência. E finalmente as categorias de unidade: realização e pessoa. Como se vê a categoria de intersubjetividade é desenvolvida no âmbito das relações que o ser humano estabelece com o mundo (categoria de objetividade), com os outros (intersubjetividade) e com o Absoluto (transcendência).
Assim, quando Lima Vaz apresenta o homem se afirmando como um ser de natureza intersubjetiva, ele está dizendo que as relações humanas constituem o ser humano como tal, de forma que esse aspecto do discurso que o ser humano faz sobre si mesmo é ineliminável ou irredutível a qualquer outra realidade possível. As relações intersubjetivas fazem parte do ser do homem. O discurso que o homem tece sobre si mesmo não estaria completo se prescindisse desse aspecto constitutivo e ineliminável que é ser-com-os-outros, aspecto que é marcado sobretudo pela característica da reciprocidade. Se a relação com o mundo dos objetos, da técnica, é marcada pela não reciprocidade, a relação intersubjetiva tem como principal elemento o reconhecimento e a reciprocidade constitutiva desse tipo de relação. Além do mais, é exatamente a partir da categoria de intersubjetividade que Lima Vaz realiza no plano do discurso o entrelaçamento entre antropologia e ética.

IHU On-Line – Como metafísica e Modernidade se entrelaçam na obra desse filósofo?

Rubens Godoy Sampaio – Metafísica e Modernidade são dois temas importantes que funcionam como grandes eixos organizadores de todo o pensamento de Lima Vaz. Se quisermos usar uma metáfora ou uma imagem da biologia, a hélice do DNA é um exemplo magnífico para demonstrarmos que as duas hélices, que giram dando origem àquele movimento helicoidal, no pensamento vaziano corresponderiam exatamente à metafísica de um lado, e à Modernidade, de outro. Assim, na busca de tratar do problema da afirmação do Absoluto no discurso filosófico (seja na antropologia, na ética e ou na metafísica) Lima Vaz apresenta em chave dialética, de inspiração platônica e hegeliana, a metafísica do existir de São Tomás de Aquino em confronto com todo o processo de gênese da Modernidade. Em outras palavras, a compreensão vaziana da tensão entre razão moderna e metafísica apresenta-se na forma de um sistema com uma base teórica de inspiração tomásica, fundada na metafísica do existir, e com uma base metodológica de inspiração dialética (platônico-hegeliana). É no interior desse diálogo entre razão metafísica e razão moderna que Lima Vaz vai ao longo de toda sua vida desenvolvendo os temas da consciência histórica, do mundo, da intersubjetivdade, da ética, da Transcendência até que, a partir dos anos 1990, ele começa a organizar todos esses assuntos de forma sistemática e metódica, o que resultará no sistema que anunciamos na primeira resposta. E o método utilizado por Lima Vaz para articular os termos e os temas de seu sistema está minuciosamente desenvolvido no capítulo Objeto e método da antropologia filosófica no livro Antropologia filosófica I. Esse capítulo inaugura a parte sistemática da antropologia filosófica e será repetidamente utilizado em todas as categorias da antropologia, da ética e da metafísica. Portanto, para se entender como Lima Vaz elabora seu discurso, passo a passo, é imprescindível a assimilação do método descrito nesse capítulo.

IHU On-Line – De que forma Lima Vaz rebate as críticas à metafísica, como aquelas empreendidas por Nietzsche  e Heidegger , por exemplo?

Rubens Godoy Sampaio – Lima Vaz é jesuíta, membro da Companhia de Jesus fundada por Inácio de Loyola  no século XVI. Sua formação é cristã e católica. Lima Vaz é um filósofo erudito que leu os gregos no original com uma formação sólida encontrada apenas nas melhores universidades do mundo. Sem dúvida alguma nosso autor, brasileiro e mineiro de Ouro Preto, Minas Gerais, está entre os maiores filósofos do século XX. O seu grande desafio como filósofo e padre foi justamente elaborar um discurso filosófico coerente, sólido, fundamentado em toda a grande tradição filosófica no seio mesmo da Modernidade, cujo selo é exatamente o do niilismo. Seu grande desafio foi estabelecer um diálogo com a tradição filosófica que permitisse a elaboração de um discurso sensato que superasse o niilismo. Ou seja, a filosofia de Henrique Cláudio de Lima Vaz é a obra de um homem de fé, que professa o cristianismo e que tem como desafio elaborar de forma estritamente racional um discurso que alcance e inclua o tema do Absoluto como fundamento mesmo do próprio discurso e como exigência da racionalidade. Desta forma, seu sistema, cujo fundamento é a categoria de Transcendência, presente desde o início de seu discurso como fundamento e condição de possibilidade do mesmo discurso, é a resposta que Lima Vaz elaborou de forma original e inovadora à crítica contemporânea à metafísica cuja consequência mais devastadora para a nossa civilização é, sem dúvida alguma, o império de um horizonte marcado indelevelmente pelo niilismo ético.

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