Edição 372 | 05 Setembro 2011

IHU Repórter

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Thamiris Magalhães

“‘Eu sou o intervalo entre o que eu gostaria de ser e o que fizeram de mim’. Sou uma pessoa do mundo. Visceral é a palavra certa. Vivo intensamente as minhas emoções, sejam elas boas ou ruins. Se estou feliz, fico muito feliz. Se estou triste, vou viver a tristeza, não a escondo embaixo do tapete, porque eu sei que ela vem depois. Se me dói, eu vivo intensamente aquela dor.” Assim se define a docente que trabalha com formação de professores na Unisinos, Nara Eunice Nörnberg, em entrevista ao IHU Repórter desta semana. Conheça um pouco mais a sua história.

Quem sou eu – A epígrafe do meu e-mail é uma frase do Fernando Pessoa: “Eu sou o intervalo entre o que eu gostaria de ser e o que fizeram de mim”. Sou uma pessoa do mundo, porque São Leopoldo não é a minha cidade, é a cidade que estou no momento. Visceral é a palavra certa. Vivo intensamente as minhas emoções, sejam elas boas ou ruins. Se estou feliz, fico muito feliz. Se estou triste, vou viver a tristeza, não a escondo embaixo do tapete, porque eu sei que ela vem depois. Se me dói, eu vivo intensamente aquela dor. Até hoje a única dor que eu não pude viver intensamente foi o falecimento do meu pai, porque eu tinha que ser forte para dar arrimo emocional para a minha família e para a minha avó, já que para ela a perda do filho foi um choque muito grande. Então, essa é uma dor que eu não consegui viver profundamente. Não chorei no velório, tive que segurar, porque tinha também os meus irmãos e uma série de outras coisas. Isso foi muito duro para mim.

Formação Acadêmica - Sou professora na Unisinos há mais ou menos seis anos. Trabalho com formação de professores. Ministro aulas para todas as licenciaturas, lecionando as cadeiras de Teorias da Aprendizagem, Planejamento e Organização do Ensino. Essas duas atividades fazem parte do Programa de Aprendizagem (PA) de formação docente. Nas outras horas de trabalho, sou assessora pedagógica da Unidade de Graduação, trabalhando na assessoria e análise de materiais digitais para os cursos 100% a distância que a unisinos oferece. Iniciei esse trabalho quando a universidade pensou esses cursos. Logo, estive no nascedouro deles e continuo trabalhando com eles. Espero vê-los concluídos, acompanhando depois suas revitalizações. Sou professora também do curso de especialização em Gestão na Escola, onde ministro as cadeiras de Planejamento e Orientação Educacional e A Pesquisa Como Princípio Educativo.

Duas mães – Tenho duas mães. Tenho uma adotiva, do coração, que me adotou quando eu tinha 17 anos, e a biológica, que mora em Pelotas-RS. Tenho o privilégio de lecionar com a minha mãe adotiva, a professora Asta, em uma cadeira aqui na Unisinos, uma vez que ela foi minha professora no ensino médio e na graduação. Ela é professora visitante aqui na universidade, no curso de Gestão na Escola.

Origem -
Meus pais e eu somos naturais de Canguçu, bem ao sul do Rio Grande do Sul. Uma região de colonização bem variada, com alemães, espanhois, italianos, portugueses, afrodescendentes. Uma região muito legal, com muita população indígena, por isso o nome Canguçu. Mas eu só nasci lá. Fui criada em Pelotas desde os dois anos de idade. Mudamos para essa cidade devido a uma doença renal que meu avô teve aos 39 anos. Então, viemos para fazer o tratamento dele. Vivi em Pelotas até os 16 anos; foi quando resolvi vir para São Leopoldo a fim de estudar. Morei no seminário Concórdia, como seminarista, onde fiquei três anos e meio. A experiência do seminário também foi fantástica. Meu pai e minha mãe casaram muito cedo. Quando eu nasci, meu pai tinha 18 anos e minha mãe 19. O fato de ter um filho muito jovem, às vezes causa algumas frustrações pessoais que nem sempre são superadas pelo sujeito. Hoje, nós nos damos muito bem. Temos uma relação boa. No momento, moro com meus dois cachorros. Tenho um casal de yorks. Dois companheiros de aventuras.

Família – Tenho dois irmãos. Um do primeiro casamento do meu pai, que é o Ulisses, secretário de Cultura de Pelotas, homem de negócios. E o outro, do segundo casamento dele, o Habner, estudante de Direito na Universidade Federal de Pelotas. Meu pai nos definia assim: eu era a primogênita, que gostava de ler, filosofar, refletir, trabalhar com o humano; o Ulisses é um visionário, que acha que qualquer lugar é uma potencialidade para desenvolver um negócio, e o meu irmão caçula ficou como eu: gosta de filosofar, refletir, trabalhar com o humano. No leito de morte do meu pai, assim ele nos definiu.

Lembrança
- Meu pai faleceu ano passado de um câncer. Foi um choque para mim e ainda estou, aos poucos, me recuperando disso, porque ele sempre foi o meu grande arrimo emocional. Ele foi uma das pessoas mais importantes durante o meu processo de infância, adolescência, durante a minha vida. Ele ia jogar futebol e me levava no colo. Ele era um menino de 18 anos com um filho nos braços. Passei a minha infância muito junto dele.

Arqueologia - Na verdade, eu não queria ser professora. Meu sonho era ser arqueóloga. Nessa época, eu morava com meus pais e disse que queria seguir essa profissão. Foi então que meu pai disse: “Mas como você vai ser arqueóloga? De onde a gente vai tirar dinheiro para que você curse essa graduação? Não sei nem onde tem isso. Você tem que gerar um emprego, uma renda e então depois você escolhe o que quer ser”. Venho de uma classe economicamente média baixa. Então, pensei: “O que eu vou fazer?” Na época, frequentava bastante as comunidades de base e acompanhava a juventude luterana, da Igreja Evangélica Luterana do Brasil. Foi quando resolvi, então, fazer Teologia.

Seminário – Decidi ir para o seminário porque eu precisava de uma profissão momentânea, inicial. A vida religiosa sempre foi muito atrativa para mim. Acho muito importante pregar os valores cristãos, desenvolver a cristandade. Isso é fundamental. Mas, a princípio, fui para o seminário para trabalhar nos campos missionários da igreja e, com o tempo, poder depois cursar um ensino superior, que era o curso de Arqueologia que eu tinha em mente, idealizado como adolescente. Mas, quando começo a fazer teologia e magistério concomitante a isto, percebo que o material humano é de extrema complexidade e que eu faria muito mais se eu pudesse juntar as duas coisas: a prática docente enquanto uma atividade profissional e a questão dos valores éticos e cristãos que, na verdade, estão impregnados na minha concepção de mundo e na minha ação enquanto docente. Então, decidi fazer o magistério e pensei que, em vez de ficar vinculada a uma igreja como diácona, tornar isso uma profissão, onde eu pudesse levar esses valores, seria mais atrativo. E foi isso o que eu fiz. Escolhi o curso de Pedagogia e amo a minha profissão.

Teologia - Pensei que, ao fazer esse curso, teria uma empregabilidade. Além do mais, gostava muito de trabalhar com as comunidades de base, de fazer todo um trabalho missionário. Então, fiz Teologia. Foi quando saí de casa e vim para São Leopoldo. Fiz o curso no seminário Concórdia e, logo que ingressei, comecei também no magistério. Então, fazia o ensino médio de manhã, a faculdade de Teologia à noite e trabalhava à tarde. Comecei a fazer o magistério e me apaixonei! Em vez de ficar pesquisando “fósseis”, ou fazer pesquisas mais de campo, com materiais, eu resolvi escolher o material humano para trabalhar. Então, fiz Pedagogia e Filosofia. Depois, entrei no mestrado e, posteriormente, doutorado. Na verdade, tenho dois cursos: uma graduação, que é a de Pedagogia – Licenciatura Plena e Orientação Educacional e Teologia. Filosofia não conclui, ficaram faltando uns dois semestres. Depois, fui me dedicar ao mestrado. Preferi me dedicar a ele em vez de concluir o curso de Filosofia na Universidade Caxias do Sul – UCS.

Rondônia -
Casei. Tive um divórcio litigioso. Foi quando resolvi ir embora do Rio Grande do Sul. Precisava tomar novos ares. Fui morar em Rondônia. Uma das experiências mais incríveis da minha vida. Morei quatro anos em Ji Paraná. Lá, conclui meu curso de Pedagogia no Instituto Luterano de Ensino Superior da Ulbra. Fui professora de Filosofia e Ensino Religioso durante os quatros anos em que estive lá. Foi uma experiência maravilhosa conviver com um povo que não tem pressa, tranquilo, guerreiro, acolhedor, afetivo e muito constante na alegria. São pessoas que, após um dia de trabalho, saem com os amigos, fazem um happy hour. Parece-me, pelo menos percebi isso enquanto estive lá, que eles vivem um dia de cada vez. Aqui a gente vive em uma correria muito intensa. De vez em quando eu vou para lá para tomar um banho dessa calmaria.

Religião - Sou luterana. Frequento de vez em quando. Trabalhei na Ulbra de Ji Paraná, em uma escola de ensino médio existente. Então, tenho uma afinidade teológica. Acredito que ter uma crença é importante. Não importa qual a sua crença, você precisa ter uma. A gente não vive sozinho e não vive sem uma crença. Acho que isso é fundamental.

São Leopoldo – É a cidade que me vê ir e vir. Casei, fui morar em Caxias, voltei para São Leopoldo. Fui morar em Rondônia, voltei para São Leopoldo. Gosto muito daqui. Tem esse ar de cidade pequena e também tem aquele agito, correria, de cidade grande.

Vida pessoal –
Sou uma pessoa muito enrolada. Não tenho filhos. Tentei muito engravidar, mas quando vi que isso não era possível resolvi desistir. Acho que abandonei, durante a minha vida, alguns sonhos que eu tinha idealizado. Alguns, por contingência da vida; outros, porque não era o tempo de acontecer ou é preciso ressignificá-los.

Perdas - Durante a minha vida, tive muitas perdas emocionais que eu fui tendo que superá-las. Casei, divorciei; que acho que foi salutar. Eu não sei se sou uma pessoa para o casamento porque eu acho difícil amar uma só pessoa.

Amor - Acredito que existem vários tipos de amor e amor é sempre amor. Eu entendo esse sentimento assim e é difícil você encontrar pessoas que compartilhem dessa ideia: o amor muda de forma. Muda-se a forma de amar. Eu posso amar uma pessoa sexualmente, espiritualmente, com fraternidade, incondicionalmente; posso ser apaixonada por uma pessoa. Muda a forma, mas o amor é o mesmo. Eu tenho um amor filial, tenho amor maternal. Amor é sempre amor e isso é difícil das pessoas entenderem. Por isso, acredito que não se ama uma só pessoa. E você pode amar muitas pessoas ao mesmo tempo. Sou partidária de que as pessoas vivam seus amores com a maior intensidade possível e com poucas amarras sociais. Penso que quanto mais livre a gente puder ser dentro de uma relação, melhor. Hoje, é  preciso que alguém me convença de que é viável a construção de uma relação a dois. Só se eu conseguisse me manter livre, casaria de novo.

Lazer – Gosto muito de nadar e de esportes radicais: rapel, voo de asa delta, montanhismo. Já fiz trilha de moto. Tudo o que envolve risco, o que deixa você com bastante medo, está quase desistindo. Adoro esse tipo de coisa.

Livros – Sou muito apaixonada pela filosofia existencial. Adoro o existencialismo. Sartre, Nietzsche. Eu li o Assim falou Zaratustra quando eu estava no final do ensino fundamental, que encontrei uns pedaços do livro na biblioteca, porque eu estudei em escola pública sempre. E me apaixonei pelo livro. Queria saber mais quem era esse homem que desconstruía tanto a instituição Igreja e que colocava o ser humano como a grande potência de existência. E isso foi muito bom. A filosofia teve muita influência no meu referencial teórico. Embora eu trabalhe com formação de professores, sempre caminho pela Filosofia, principalmente pela existencialista. Kierkegaard com Diário de um sedutor também é maravilhoso. Mostra perfeitamente como que a gente consegue seduzir as pessoas. Merleau-Ponty também é uma leitura muito boa, trabalha com sentido e significado. Paulo Freire é um referencial muito forte também para mim. Tem ainda o Maurice Tardif, que é um pesquisador canadense, que fala sobre a formação dos professores e o trabalho docente. E outro bastante pontual na minha prática docente é o António Nóvoa que, inclusive, foi palestrante esses dias no Congresso Internacional de Educação aqui na Unisinos. Também gosto dos marxistas mais radicais, como, por exemplo, José Corrêa, que é um professor português e marxista enlouquecido. Muito bom lê-lo, ouvi-lo. Gosto de autores cuja  sua leitura, o seu discurso, associe-se à sua prática. Eu tenho muita dificuldade de ler autores vivos, que a gente conhece, mas que o seu discurso não está ligado à sua prática. Penso que  isso é muito incoerente e ruim para quem trabalha na área docente.

Filmes – Escritores da liberdade; Natureza selvagem. É difícil eu gostar muito de um filme, mas têm duas séries que me fizeram pensar muito nesses últimos tempos: Lost, que é uma série inteligente, que mexe com algumas crenças que você tem; faz repensar algumas atitudes que você está tendo. Gosto de séries que perguntam assim: “O que você está fazendo da sua vida?” “O que os outros estão fazendo com a sua vida?” “Até que ponto você é sujeito da sua vida?” Gosto de filmes e séries que consigam me fazer pensar sobre isso. O outro é o Dr. House, que é fantástico nas questões que aborda nas séries.

Sonho – Tantos. Mas um deles eu realizo ao final de cada aula, que é o reconhecimento dos meus alunos. Eu tenho muito orgulho disso. Quando eu digo para os alunos: “Semana que vem vou estar em um evento e vai ter um colega que vai substituir” e eles reclamam. Você ganha o semestre, porque sabe que está fazendo a diferença naquele momento. Um sonho que tenho é o de poder viajar mais. Ficar um tempo fora do país. Conviver com outras culturas.

Unisinos – Quando eu era estudante, era a grande paixão da minha vida. É difícil encontrar algum aluno da Unisinos que não diga que é apaixonado por ela. Acredito  que o marco da instituição é este: as pessoas são apaixonadas pela Unisinos. Quando eu passava aqui na frente há uns 20 anos, não me imaginava estudando aqui, muito menos trabalhando. Imaginava-me trabalhando aqui na Unisinos daqui a muitos anos, na minha velhice. Mas as coisas se inverteram na minha vida. Trabalho aqui e me sinto lisonjeada. Acredito que temos profissionais muito competentes, além de um grande reconhecimento. Então, a Unisinos é algo que eu tinha planejado mais lá para frente e veio antes. Nesse sentido,  ela é uma agradável surpresa na minha vida. Quando você planeja algo para daqui a uns 30 anos e isso vem 20 anos antes do que se tinha planejado, isso é uma agradável surpresa.

IHU – A professora Vera Schmitz foi minha colega no doutorado e, por meio dela, fiquei sabendo de muitas ações do Instituto. Tínhamos bastante acesso às revistas do Humanitas na época que eu fiz doutorado aqui na universidade. A gente recebe também os exemplares da revista na Unidade de Graduação. Aliás, elas estão sempre no balcão atrás da minha mesa. Acompanhei algumas entrevistas, como a do Claudio Elmir, professor do PPG em História, que li na íntegra.

Meta – Terminei o doutorado há dois anos e agora estou em busca do pós-doutorado. Não sei parar. Tenho duas grandes fascinações na minha vida: o meu trabalho, que é a sala de aula. Gosto do que eu faço, com quem eu faço e do jeito que eu faço. A outra é estudar. Gosto de estar em meio aos livros, aos desafios, às coisas que me fazem pensar e eu preciso disso. Isso ocupa um espaço significativo na minha vida e me dá muito prazer.

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