Edição 196 | 18 Setembro 2006

A antropologia inaciana como proposta de integração do ser humano

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IHU Online

O jesuíta francês François Marty estará na Unisinos na próxima semana, participando do Seminário Internacional A Globalização e os Jesuítas, que acontecrá de 25 a 28 de setembro. No evento, ele falará sobre o tema Corporeidade e sentidos: a antropologia inaciana como proposta de integração da pessoa humana.

Marty entrou para a Companhia de Jesus em 1947. Licenciou-se em Filosofia pela Université de Lyon e em Teologia pela Enghien, da Bélgica. É doutor em Filosofia pela Universidade Gregoriana de Roma e doutor em Letras pela Universidade Paris IV, Sorbonne. Desde 1974, Marty é professor na Faculdade de Filosofia do Centre Sèvres, de Paris. Ele é também professor emérito nas Faculdades Jesuítas de Paris.

Entre suas principais publicações citamos La perfection de l'homme chez saint Thomas d'Aquin, Ses fondements ontologiques et leur vérification dans l'ordre actuel. Roma: Analecta Gregoriana 123, 1962; e Sentir et goûter, Les sens dans les Exercice Spirituels de Saint Ignace de Loyola. “Cogitation fidei”. Paris: Editions du Cerf, 2005. A tradução portuguesa deste livro será lançada durante o Seminário Internacional da semana que vem.

Confira a entrevista que ele concedeu por e-mail para a IHU On-Line.

IHU On-Line - Pode explicar brevemente como pensa abordar o tema Corporeidade e sentido: a antropologia inaciana como resposta de integração da pessoa humana?  

François Marty
- Como o título indica, trata-se de fazer aparecer o lugar do corpo na experiência espiritual proposta por Inácio de Loyola, o que se faz a partir do papel dos sentidos no percurso por ele proposto. A integração da pessoa já se compreende na possibilidade de ultrapassar o dualismo corpo e espírito. Mais radicalmente, o percurso inaciano é um convite para ler o Evangelho como escuta de um apelo pessoal.

IHU On-Line - O que caracteriza a antropologia inaciana?

François Marty
- Não se trata de uma consideração teórica, expondo a força e a fraqueza da natureza humana, mas da figura do homem que se forma no encontro da humanidade do Cristo, Palavra de Deus feito carne. Este encontro, de uma parte, é individualizado e personalizado, não há um percurso padrão, ele deve sempre ser enfocado no contato entre a pessoa que faz os Exercícios Espirituaise aquela que os dá. De outra parte, há uma abertura ao universal, aquele que veio em humanidade, tendo-se feito irmão de todo ser humano. É preciso acrescentar a isso a percepção, em Inácio, dos percalços do humanismo da Renascença, sobretudo em sua estadia em Paris.

IHU On-Line - Como, segundo Inácio de Loyola, seria a integração ideal entre as pessoas?

François Marty
- A “conversão de Inácio”, renunciando a uma carreira na corte após seu ferimento em Pamplona, impeliu-o a “ajudar as almas”, vida apostólica, portanto, não eremítica ou monástica. Para isso, ele vai procurar reunir companheiros, cujo elo seria, primeiramente, fazer o caminho que havia sido o seu, consignado no livreto dos Exercícios Espirituais, em que se escuta o apelo pessoal a seguir o Cristo, e em que cada um encontra e forma sua própria fisionomia. Quando, enfim, o projeto é exitoso, em Paris, Inácio fala de “amigos no Senhor”.

IHU On-Line - Qual a relação que se pode fazer entre a forma segundo a qual Inácio de Loyola vê o ser humano e o contexto de globalização em que vivemos?

François Marty
- Malgrado a diferença das épocas, o elo não é de todo forçado. Pode-se recordar, primeiramente um propósito familiar de Inácio: “quanto mais o bem é universal, tanto mais ele é divino”. Sobretudo, o momento dos Exercícios¸ onde se trata de ouvir o apelo ao seguimento do Cristo do Evangelho, de forma pessoal, abre-se para a Trindade, contemplando “toda a superfície ou a esfera do universo ”, e, cumprindo-se o tempo, decide a Encarnação do Filho. No final, com a Ascensão, os discípulos são convidados a não continuarem olhando para o céu, mas ir ensinar a Boa Nova às extremidades da Terra, na força do Espírito. Se o grupo formado em Montmartre  se propõe como primeiro objetivo Jerusalém, onde a salvação chegou para toda a humanidade, a cláusula de Roma, em caso de impossibilidade, não é um ‘melhor que nada’, mas o engajamento numa disponibilidade universal. Durante os 16 anos de seu generalato, Inácio envia os membros da Companhia nascente a toda a Europa, à Etiópia, à Ásia, numa missão que Francisco Xavier prolongará até o Japão e às costas da China.

IHU On-Line - Qual é a contribuição da filosofia e da teologia para compreender a antropologia inaciana?

François Marty
- É a filosofia de Aristóteles em seu Tratado da alma que mais se aproxima da antropologia inaciana, pela maneira como ele fala dos cinco sentidos e sobretudo do tato, ultrapassando o dualismo corpo e alma. Sabe-se que Inácio estudou em Paris, com cuidado e sucesso, a filosofia de Aristóteles, onde poderia, se fosse o caso, encontrar uma confirmação. A ciência moderna, com sua tecnologia que impregna todas as nossas maneiras de pensar e de viver, pode melhorar as condições de vida, mas a custo do desenraizamento, do qual a globalização como uniformização é uma seqüela. À maneira de um aceiro, o século dezoito desenvolve uma estética, especialmente em Kant, dando importância ao sentir, o que se harmoniza com o lugar dos cinco sentidos no procedimento inaciano. Para a teologia, um dos lugares de progresso é o de ultrapassar segmentos, como teologia fundamental, dogmática, bíblica, espiritual. A pesquisa que eu apresento tem como principal suporte os Exercícios, um dos grandes textos da tradição espiritual, com particular atenção à sua referência à Bíblia. Tal atenção precisa ser  mantida no decorrer dos trabalhos de exegese. Quanto à dimensão filosófica, ela é entendida na dimensão de fundamental para a teologia, com inclusão da antropologia filosófica.

IHU On-Line - Como os Exercícios Espirituais nos ajudam a compreender a antropologia inaciana?

François Marty
- O modelo de antropologia que utilizo é o da Antropologia de um ponto de vista pragmático de Kant, não desenvolvendo uma figura do homem com base em alguma definição, mas partindo daquilo que, como ser livre, ele faz ou pode e deve fazer. O “fazer” é aqui o dos Exercícios Espirituais: “fazer os Exercícios”. Seu interesse é que eles estão na base dos outros lugares que também devem ser levados em conta, caso se queira dar toda a sua amplitude a uma antropologia inaciana, sendo seu primeiro passo a fundação da Companhia de Jesus. Eles [os Exercícios] permitem mesmo compreender uma mudança muito radical nas formas da vida religiosa na Igreja Católica, da qual Inácio é testemunha e ator. A figura dominante era, até então, a forma monástica, em que o primeiro vínculo era o ofício divino, santificação do dia pelo regime dos termos de oração ao longo do dia e da noite. Isso impregnava a forma de vida conventual, que as ordens mendicantes do século XIII tinham conservado, sendo a principal diferença a habitação na cidade. No século XVI, o vínculo torna-se o envio em missão, vinculo que comporta a constante disponibilidade de pôr-se a caminho. As quase 7000 cartas escritas por Inácio durante seu generalato atestam que ele estava perfeitamente consciente do desafio e de seus percalços.

IHU On-Line - O que significa para Inácio o “lugar corporal”?

François Marty -
A expressão é notável, e é preciso situá-la em relação a uma divisão,  conforme o objeto a ser contemplado seja visível ou invisível.  O qualificativo de corporal vale para o que é visível e ele surpreende, já que a ilustração dada de tal lugar é um templo  ou uma montanha, os tradutores franceses, autorizando-se destes exemplos para traduzir corpóreo do espanhol por material. Mas, isso é passar por cima da insistência de Inácio, sublinhando: “eu digo: lugar corporal”, e esclarecendo seu alcance, o qualificativo vindo da pessoa que ocupa esse lugar: Jesus Cristo ou Nossa Senhora. Isso quer dizer que a relação ao solo é constitutiva de uma pessoa, é sua identidade, o que tem por corolário que os lugares também têm nomes próprios. Para aquilo que é invisível, o exemplo dado é o pecado. A invisibilidade não é, evidentemente, a de suas conseqüências, mas de sua origem, de sua raiz. O lugar realça, então, o imaginário¸ aqui exílio ou prisão. A representação de lugar não está mais ligada a uma pessoa e a um evento que lhe concerne. O luar marca um traço da condição humana. Quando se observa que a composição de lugar  abre cada um dos exercícios propostos, isso quer dizer que a prece inaciana tem sempre um lugar, em referência à identidade das pessoas e sua pertença à condição humana.

IHU On-Line - Qual é, para Inácio, o vínculo entre a figura da pessoa humana e a imagem de Deus?

François Marty
- É preciso fazer entrar aqui uma expressão pela qual Inácio, a partir da segunda semana e até o final, conclui a caminhada dos sentidos na contemplação evangélica, convidando aquele que faz os Exercícios a “refletir sobre si mesmo”. É legítimo reconhecer aí uma retomada de Paulo, falando do véu sobre o rosto de Moisés que cai para que se volte para o Cristo: “Nós todos, que, o rosto descoberto, refletimos a glória do Senhor, somos metamorfoseados nesta mesma imagem, numa glória sempre maior, pelo Senhor que é Espírito (2 Cor 3, 18). É o desfecho da paciente permanência no texto evangélico, em que os “sentidos do corpo” se expõem ao encontro da humanidade do Senhor, numa interiorização, escuta do silêncio do texto, olho que aprende a ver o invisível, tato que sabe sentir sem reter. A figura do homem procurada por Inácio é a de uma fisionomia única, numa multidão de únicos, todos irmãos do Filho Único do Pai, já que a terra que calcam seus pés é para sempre aquela que seus pés calcaram. Este respeito das diversidades é uma boa nova e um programa para a globalização. 

 

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