Edição 319 | 14 Dezembro 2009

Ética da comunicação e Direitos Humanos

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Graziela Wolfart e Márcia Junges | Tradução Benno Dischinger

A conciliação entre verdade, liberdade e justiça é certamente uma espécie de utopia, como são todos os ideais éticos enquanto ela se refere a sua plena realização, defende o Pe. Gabriel Jaime Pérez Montoya 

“A globalização - que, como fenômeno socioeconômico, conduz, em si mesma, a mundialização da cultura e que veio marcando o nascente século como uma de suas principais características – e o auge da ‘pós-modernidade’ são fatores que incidem notavelmente na relação entre a ética e a comunicação”. A opinião é do padre jesuíta e professor Gabriel Jaime Pérez Montoya, na entrevista que concedeu, por e-mail, à IHU On-Line. Ele entende que “os meios não atuam independentemente de muitas outras mediações que entram em jogo para configurar a consciência e as pautas de conduta das pessoas. Eles constituem um dos agentes de socialização – ou seja, de assimilação de valores e motivações sociais – junto com a família, a educação escolar e as relações interpessoais. Não se deve minimizar sua influência na conduta, mas tampouco é preciso satanizá-la ou absolutizá-la. O que se deve fazer é conjugar, nos processos de formação da pessoa, um uso consciente dos meios de comunicação que seja coerente com a educação em valores que correspondam ao reconhecimento da dignidade e dos direitos de todos”.

Gabriel Jaime Pérez Montoya é vice-reitor da Pontifícia Universidad Javeriana, de Cali, na Colômbia. Doutor em Filosofia pela Pontifícia Universidad Javeriana, de Bogotá, Colômbia, obteve, pela mesma universidade, o mestrado em Teologia, a licenciatura em Teologia e a licenciatura em Filosofia e Letras.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como é possível conciliar verdade, liberdade e justiça no contexto da comunicação latino-americana?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - A conciliação entre verdade, liberdade e justiça é certamente uma espécie de utopia, como são todos os ideais éticos enquanto ela se refere a sua plena realização. No entanto, uma utopia pode ser considerada como um desafio para, pelo menos, tentar a realização do possível, atrevendo-se a propor o que à primeira vista parece impossível. Neste sentido, a busca da verdade, que não é posse de ninguém, senão o objetivo de uma constante prática do diálogo a partir da confrontação racional dos dissensos, só é possível mediante o efetivo reconhecimento do direito de toda a pessoa à liberdade de expressar-se, comunicando suas ideias e sentimentos. E o exercício deste direito através do acesso aos meios de comunicação e da participação ativa no discurso público em termos de equidade é precisamente o que corresponde à justiça entendida como tal reconhecimento, sem imposições dogmatistas, sem discriminações nem exclusões.

IHU On-Line - Quais são as principais dificuldades de se fazer e pensar comunicação hoje, dada a realidade do nosso continente?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - As dificuldades são múltiplas e, justamente, por isso, a realização da ética da comunicação constitui um desafio. Assinalo, a seguir, as dificuldades que me parecem mais significativas:

- Em primeiro lugar, a não-equidade nas oportunidades e possibilidades de acesso por parte das maiorias despossuídas e das minorias excluídas, ao discurso público mediante a participação na discussão dos problemas e na busca conjunta, através do diálogo, das condições que tornem possível “a vida boa (quer dizer, realizada em termos de adequação à dignidade de toda pessoa), com e para todos, em instituições justas” – como define Paul Ricoeur  o que ele chama o objetivo da “intencionalidade ética”. Tal iniquidade – ou não-equidade - faz parte da realidade da pobreza em nosso continente, a qual não é somente de ordem material em termos de acesso aos bens necessários para o sustento, senão também de ordem cultural, no que se refere às oportunidades de exercer os direitos de conhecer, de expressar-se, de discutir e participar ativamente na construção de uma sociedade melhor para todos. Essa pobreza se amplia cada vez mais na medida em que os governos autoritários que pretendem perpetuar-se no poder, - sejam eles do signo político que forem, - e os sistemas econômicos imperantes – tanto os capitalistas neoliberais como os populistas totalitários – desconhecem os direitos que têm as pessoas e os grupos sociais de se expressarem pluralmente e decidirem sobre o seu destino.

- Em segundo lugar, a falta de uma educação em valores que deveria começar desde a família, desenvolvendo-se nas instituições educativas escolares e universitárias e continuar ao longo da vida. A realização da ética – e, como parte desta, da ética da comunicação – supõe e exige uma educação entendida e vivida, como dizia Paulo Freire, como ‘prática da liberdade’, em termos de uma formação da consciência crítica para o exercício socialmente responsável da autonomia pessoal. Esta educação não é possível quando compactua com a facilitação, com a lei do menor esforço, com o desrespeito ao outro e, especialmente, com quem se encontra em condições de vulnerabilidade, mas também com o incentivo do consumismo e das gratificações individualistas imediatas, baseadas na motivação dos comportamentos pelo medo do castigo ou pela expectativa da recompensa, e não por uma ética de princípios e convicções, fundada no reconhecimento da dignidade da pessoa e dos Direitos Humanos.

- E, em terceiro lugar, o auge do espetacularismo midiático, que veio incrementando uma visão maniqueísta do mundo concebido como campo de batalha entre os bons e os maus, no qual a única solução proposta é a aniquilação dos que são considerados como “maus” pelos que se consideram a si mesmos no campo contrário. Neste sentido, não com pouca freqüência, os meios massivos, especialmente no âmbito da televisão e dos videogames, converteram-se em caixas de ressonância e em instrumentos de promoção da violência como única via de solução dos problemas humanos.

IHU On-Line - Qual é sua percepção quanto à ética (ou a sua falta) na comunicação do século XXI?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - A globalização - que, como fenômeno socioeconômico, conduz, em si mesma, a mundialização da cultura e que veio marcando o nascente século como uma de suas principais características – e o auge da “pós-modernidade” são fatores que incidem notavelmente na relação entre a ética e a comunicação. Por uma parte, no aspecto positivo desta realidade, tanto a consciência da globalização como a mentalidade pós-moderna vieram contribuindo para uma visão mais plural e aberta do mundo, no sentido de reconhecer o direito à diversidade nos distintos âmbitos das crenças, das ideologias e das opções de vida, o que, por sua vez, implica o exercício da tolerância em termos de respeito ao “outro” e aos “outros”. Por outra, a face negativa da globalização e da pós-modernidade poderia se resumir na ausência de uma visão do futuro que transcenda as satisfações imediatas oferecidas pela sociedade de consumo, com a consequente negação de compromissos permanentes, pois o que agora predomina é o transitório das pequenas e efêmeras histórias sobre o duradouro da História – com maiúscula -, que se constrói a partir de projetos de longo alcance.

IHU On-Line - Considera os meios de comunicação e, sobretudo a Internet, como uma espécie de nova ágora? Por quê?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - Em minha opinião, os meios de comunicação massiva, e, com significação especial, a Internet, não só são uma nova “ágora” ou âmbito público no qual se debatem democraticamente as ideias, como um novo “areópago” – como o chamou o Papa João Paulo II, evocando o discurso do apóstolo são Paulo na colina onde se reuniam os legisladores de Atenas e que formava parte da ágora. Tanto na ágora como no areópago, ofereciam-se distintas propostas nos diversos âmbitos da vida humana e, neste sentido, especialmente a Internet é o espaço que hoje podemos reconhecer como a ágora ou o areópago de maiores dimensões e possibilidades de interação jamais antes conhecidas. Pois bem, no que isto significa e implica para uma ética cristã da comunicação é, no contexto do mencionado discurso de são Paulo, a exigência de apresentar honestamente o valor desconhecido de uma nova visão do ser humano e do mundo, baseada no reconhecimento de sua dignidade e de seus direitos, em meio a tantos antivalores que o desumanizam, escravizando-o. A meu juízo, tal é o sentido da boa notícia de Jesus, do “Deus desconhecido” à qual se referiu naquela ocasião o apóstolo.

IHU On-Line - Neste aspecto, como compreende a junção jornalismo e filosofia, que tem se mostrado bastante profícua nos últimos anos em publicações especializadas?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - O jornalismo é uma das modalidades da comunicação social que pode dar-se, e de fato se dá, em distintos meios de expressão, tais como a imprensa e os demais meios impressos, a rádio, a televisão e, mais contemporaneamente, a Internet, e cuja finalidade é oferecer periodicamente informação sobre os acontecimentos cotidianos e promover opinião acerca do que tais acontecimentos podem suscitar nas pessoas, num contexto democrático de livre difusão e discussão das ideias. E é precisamente este contexto que corresponde ao surgimento e ao desenvolvimento da filosofia no Ocidente desde quando a retórica e a dialética se encontraram com o objetivo de buscar conjuntamente a verdade através do diálogo. Hoje é particularmente significativa a conjunção entre comunicação e filosofia, especialmente, a partir da teoria da ação comunicativa de Jürgen Habermas e de suas implicações a respeito de uma “ética do diálogo”, junto com o estabelecimento pós-moderno de uma ética da interpretação na chamada “sociedade transparente” da informação por parte de Gianni Vattimo, como também com a proposta de Ricoeur que integra as éticas do diálogo e da interpretação mediante uma ética do reconhecimento do outro em sua realidade pessoal como interlocutor válido, com o qual é possível o “milagre” da comunicação quando o indivíduo transcende o encerramento em si mesmo.

IHU On-Line - Pensando numa perspectiva dialógica, como a mídia pode oferecer subsídios à sociedade contemporânea para compreender e agir quanto à incerteza que caracteriza a pós-modernidade?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - Os meios podem ser, neste sentido - tendo em conta todo o anteriormente colocado -, um espaço de discussão e confrontação argumentativa, bem como de encontro mediante a narração ou o relato das distintas histórias pessoais e coletivas e das distintas propostas sociais e culturais, nas quais se destaque a busca conjunta da verdade a partir da liberdade e com intenções de equidade participativa, acima da imposição de pretendidas certezas como certezas inamovíveis com base em posições dogmáticas e intolerantes.

IHU On-Line - Que dispositivos sociais o senhor apontaria como principais críticos da mídia?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - Em primeiro lugar, a autorregulação ética dos mesmos meios a partir de uma intencionalidade de responsabilidade social conjugada com a abertura à participação crítica e propositiva do “público”. Neste sentido, é preciso revisar e repropor o papel do defensor do leitor, do radio-ouvinte ou televidente (tradicionalmente chamado “ombudsman”), de modo que ele seja exercido muito mais em termos de participação dos usuários desses meios. No âmbito da Internet, isso é muito mais complicado, porém, teriam que ser inventadas formas de crítica construtiva através do mesmo meio, em torno aos usos antiéticos da rede.

- Em segundo lugar, a que é chamada em inglês “media education” e que corresponde ao que entre nós se pode designar como “educação para o uso dos meios de comunicação” e que deveria ser um elemento imprescindível nos programas informativos da educação pré-escolar e escolar, de modo que, ao longo de toda a sua formação básica, as crianças e os adolescentes aprendessem a realizar uma leitura crítica das mensagens que lhes chegam através dos distintos meios e também a usá-los produtiva e criativamente em coerência com os valores éticos próprios do reconhecimento da dignidade e dos Direitos Humanos de todas as pessoas.

- E, finalmente, a organização dos usuários dos meios com o fim de exigir políticas de comunicação concordes com a dignidade e com os Direitos Humanos de todas as pessoas, não no sentido das “ligas de censura”, e sim no de uma autêntica democracia participativa que dê lugar à discussão sobre os conteúdos e o tratamento das mensagens nos distintos meios de comunicação.

IHU On-Line - O advento da Internet sacramentou a mídia com o quarto poder? Por quê?

Gabriel Jaime Pérez Montoya - A teoria que considera os meios como “quarto poder” – distinto dos poderes legislativo, executivo e judiciário, - costuma ser proposto em termos de se considerar os meios como onipotentes e determinantes do comportamento das pessoas. Não creio que isso seja assim. Os meios não atuam independentemente de muitas outras mediações que entram em jogo para configurar a consciência e as pautas de conduta das pessoas. Eles constituem um dos agentes de socialização – ou seja, de assimilação de valores e motivações sociais – junto com a família, a educação escolar e as relações interpessoais. Não se deve minimizar sua influência na conduta, mas tampouco é preciso satanizá-la ou absolutizá-la. O que se deve fazer é conjugar, nos processos de formação da pessoa, um uso consciente dos meios de comunicação que seja coerente com a educação em valores que correspondam ao reconhecimento da dignidade e dos direitos de todos.

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