Edição 310 | 05 Outubro 2009

IHU Repórter - Monise Jacques

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Márcia Junges

A laboratorista de apoio ao ensino da Agência Experimental de Comunicação (Agexcom), Monise Jacques, serve como inspiração para todos aqueles que acreditam na vida e na capacidade de superação do ser humano. Com perda auditiva severa desde seu nascimento, ela só recebeu o diagnóstico de deficiência auditiva aos 4 anos. Até então, lia os lábios e falava com alguma dificuldade, fato que alertou seus pais a investigar a fundo o caso. Com apoio familiar, Monise desenvolveu uma autoconfiança inabalável: “Não sou vítima de nada. Sou feliz e realizada”. Aos 22 anos, estuda Enfermagem na Unisinos e curte ao máximo a vida dentro e fora do campus. Conheça mais sobre nossa colega na entrevista a seguir.

 

Origens – Nasci e cresci em São Leopoldo. Continuo morando com meus pais, Clóvis e Leda. Tenho um irmão que é um ano e sete meses mais velho do que eu, o Maurício. Tive uma infância boa, tranquila. Brinquei muito.

Estudos – Fiz o Ensino Fundamental no Sinodal, e o Ensino Médio no Concórdia. Depois me formei técnica em Informática. Sempre tive uma base importante da minha família. Meus pais me apoiam até hoje. A ideia de cursar informática surgiu de conversas com eles, pois, através dessa qualificação, pensamos que eu conseguiria um emprego. E deu certo. Atualmente, faço graduação em Enfermagem na Unisinos. Comecei com Fisioterapia na Feevale, mas tão logo me tornei funcionária da Unisinos, transferi o curso para cá. Interessa-me a questão do cuidado com as pessoas, o que me atraiu para a Enfermagem. Estou aproximadamente no quarto semestre.

Deficiência auditiva – Nasci prematura, de 7 meses. Contraí infecção hospitalar e tive um princípio de meningite. De acordo com o otorrinolaringologista que diagnosticou minha surdez, essa doença foi, provavelmente, a causa dessa perda severa de audição. O diagnóstico foi feito quando eu tinha quatro anos. Até então, meus pais desconheciam que eu não ouvia. Eu “enganei-os” até esse momento, pois aprendi sozinha a ler lábios. Até hoje, usando aparelhos auditivos, continuo a ler os lábios. O que eu não entendo pela audição, compreendo por essa técnica.

Na infância, como eu e meu irmão éramos muito próximos, prestava bastante atenção quando ele conversava, aos movimentos da sua boca. Tudo o que ele falava, eu compreendia. E assim funcionava quando as outras pessoas falavam comigo. Quando eu estava de frente para elas, não havia problema algum. Mas quando eu não via seu rosto, a história mudava. Além disso, como eu falava muito errado, minha mãe começou a desconfiar que algo não ia bem. Minhas tias também a alertaram para a possibilidade de que eu não ouvisse direito. Mas ela desconversava, achava que eu apenas não estava prestando atenção. Até os quatro anos, consultei vários fonoaudiólogos e nenhum pediu uma audiometria. Até mesmo meu pediatra dizia que o fato de eu falar tão errado não era um problema, se comparado com o jeito que meu irmão falava, por exemplo. Segundo o médico, cada filho era diferente do outro. E a minha surdez continuava sem ser descoberta.

Primeiros sons – Coloquei o aparelho auditivo após uma grande mobilização na escola, para angariar fundos para sua compra. Após algum tempo, passei a usar o segundo aparelho, na outra orelha. Até então, eu nunca havia ouvido um som. Tudo era novidade, e me espantava. Como o aparelho não pode ser molhado, todas as vezes que entrava no mar, precisava tirá-lo. Porém, num dia nublado em que meu pai, meu irmão e eu decidimos não entrar na água, fui me aproximando do mar usando o aparelho. Fiquei apavorada, e comecei a chorar de medo daquele “barulhão” do mar.
O fato de usar aparelhos auditivos gerou um questionamento no princípio. Eu não entendia porque eu tinha que usar, e meu irmão, não. Eu vivia perguntando isso. Meus pais explicavam, com toda calma, o que havia acontecido, e diziam que eu também ouvia como meu Mano, mas que havia acontecido um probleminha no meu nascimento.

Preconceito - Quando criança, certa vez, cheguei chorando em casa porque na escola me chamaram de surda. Minha mãe, mesmo com o coração doendo, respondeu: “Mas você é mesmo surda, minha filha. Não há problema algum nisso. Olhe quantas coisas boas você faz, e veja como você é bonita”. Isso me deu autoconfiança. Passei por outras situações desagradáveis, como ao fazer o teste físico para carteira de motorista, e com uma professora que berrou comigo porque eu não ouvi o que ela me disse. Mas isso é tão pequeno! Teve, ainda, o caso de um aluno que atendi aqui na Agexcom e que pensou que eu fosse estrangeira, porque falo de uma forma um pouco diferente. Expliquei-lhe minha deficiência e ele ficou envergonhado, mas eu realmente não fiquei magoada. As pessoas não conhecem quase nada sobre esse assunto, e eu faço questão de falar sobre ele para desmistificá-lo.

Na sala de aula, sento-me bem à frente para acompanhar tudo que o professor está dizendo. No curso de Enfermagem, preciso de algumas adaptações, como no uso do estetoscópio. Para isso, tenho o apoio dos meus professores. Para usar o telefone convencional, preciso ativar o viva-voz. No celular, normalmente, consigo ouvir bem. Na maioria das vezes, as pessoas não sabem que tenho essa deficiência, porque quando solto o cabelo, não dá para ver nada. E não me sinto alvo de preconceito. Não assumi o papel de vítima. Sou uma pessoa muito feliz e realizada.

Trabalho – Sou laboratorista de apoio ao ensino da Agência Experimental de Comunicação (Agexcom). Uma das minhas responsabilidades é a parte de informática. Também cuido das questões burocráticas relativas aos nossos estagiários, junto ao Unisinos Carreiras, além de outros aspectos administrativos.

Há muitas possibilidades de trabalho para pessoas com deficiência auditiva, como intérpretes em repartições públicas, e na própria área da saúde, pois, é raro que haja profissionais em um hospital que compreendam a linguagem dos surdos . Conheço somente o nível 1 da LIBRAS, que é a forma de comunicação dos surdos. Mas preciso aprender mais sobre isso. É que nunca tive muito contato com pessoas que tinham essa deficiência.

Horas livres – Gosto de basquete, mas faz tempo que não pratico. Estou meio sedentária agora. Adoro cinema, ir a festas, sair com meus amigos, estar com minha família, com meu namorado. Ficar em casa, dar uma voltinha no shopping e viajar são outros passatempos.

Fé e política – Creio em Deus, mas não costumo ir à igreja com frequência. Quanto à política, eu gostaria que tudo fosse melhor. Na época das eleições, os candidatos prometem tudo e depois não cumprem. É decepcionante. Mesmo assim, continuo votando e com esperança. Anular o voto não é uma boa opção. Precisamos nos manifestar. Já tive várias decepções políticas, mas não desisto. Assim como faço um curso na área da saúde para ajudar as pessoas, penso que pode aparecer um político com esse objetivo, para fazer o bem aos outros.

Sonhos – Tenho algumas ambições, mas nada fora do comum. Pretendo me formar em Enfermagem e ser bem sucedida nesta profissão. Continuar construindo minha vida com o que adquiri até hoje, buscando sempre novos desafios, sem deixar de fazer o que gosto, como, por exemplo, viajar e conhecer novos lugares. Só peço sempre que tenha saúde o suficiente para ir atrás dos meus sonhos, pois, quando realizamos um, tratamos logo de sonhar novamente. Isso é muito importante: nunca parar de sonhar.

Unisinos – Iniciei aqui em novembro de 2007, logo após saber que a universidade admitia pessoas com deficiência física. Em função da minha qualificação em informática, pensei que esse diferencial seria importante na hora do processo seletivo. Deixei meu curriculum no setor de Departamento Pessoal e, após dois meses, fui chamada. Algo que me impressionou muito foi o fato de, logo após minha contratação, ser chamada pelo setor de Serviço Social. Eles queriam saber se eu precisava de algo especial para minhas tarefas em função da deficiência auditiva. Embora eu respondesse que não precisava de nada diferente, essa consideração me fez sentir bem. Outra coisa que me marcou muito foi ter sido funcionária homenageada, por duas vezes, em formaturas dos cursos de Comunicação Social. Sinto-me integrada e valorizada dentro do ambiente do campus. Acho importante a preocupação ambiental da Universidade.

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