Edição 310 | 05 Outubro 2009

“Para Darwin, estar vivo é ser diferente”

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Graziela Wolfart | Tradução: Lucas Schlupp

Na visão de Pietro Corsi o darwinismo é a forma científica de olharmos a natureza

No último dia 10 de setembro, logo após proferir a conferência Histórias não contadas: a questão das espécies antes de Darwin, dentro da programação do X Simpósio Internacional IHU: Ecos de Darwin, o professor e historiador Pietro Corsi, da Universidade de Oxford, Inglaterra, concedeu a entrevista que segue, pessoalmente, à IHU On-Line. Nela, ele repercute aspectos do tema que tratou no evento e afirma: “Darwin acreditava que a caridade cristã era um produto da evolução”, além de declarar também que não acredita que haja qualquer relação entre ciência e fé. “Darwin nunca disse que descendemos dos macacos. Nunca! Ele disse que humanos e macacos têm um ancestral comum. O que é uma coisa completamente diferente. No entanto, a maioria dos racialistas da Europa, na época, acreditava que os negros descendiam dos macacos e os brancos eram um aperfeiçoamento. Darwin não acreditava nisso”, esclarece Corsi.

Professor catedrático de História das Ciências na Universidade de Oxford, Pietro Corsi é um dos maiores especialistas mundiais da história da Ciência e Tecnologia do século XVIII e, particularmente, do período pré-Darwin. Entre dezenas de trabalhos acadêmicos, foi inovador na utilização da Internet como ferramenta de difusão dos documentos e legados históricos, tendo sido o autor e responsável científico pelos sites oficiais de biólogos eminentes desta época, mormente de Buffon (http://www.buffon.cnrs.fr/) ou de Lamarck (http://www.lamarck.cnrs.fr/). Entre outros, é autor de Information Sources in the History of Science and Medicine (London: Butterworth Scientific, 1983); Science And Religion: Baden Powell And The Anglican Debate, 1800-1860 (Cambridge: Cambridge University Press, 2008). Está no prelo, a ser lançada em 2010, a obra Evolution before Darwin.

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Por que a teoria darwinista ainda se encontra em construção?

Pietro Corsi - O que chamamos de teoria darwinista é hoje, e sempre foi, uma série de teorias muito complexas. O darwinismo seria a forma científica de olharmos a natureza. E ser cientifico é estar sempre aberto para novos avanços, novas mudanças. Este aspecto de “estar em construção” vale para tudo o que é científico. Até na astronomia, na astrofísica, a própria teoria do Big Bang mudou muito nos últimos vinte anos. Por exemplo, um elemento muito importante do darwinismo, do qual as pessoas concordam, é que os organismos apresentam variações, e estas variações são a base para o desenvolvimento de novas formas de vida. Então, não é apenas o ambiente que muda os indivíduos, que forma os organismos, mas os organismos reagem ao ambiente, graças ao fato de que são diferentes uns dos outros. Portanto, a diferença é o que importa. Essa ideia é contrária ao que se acreditou por séculos: de que a vida é estável, de que há pequenas variedades na natureza. Mas há espécies dentro de espécies, e que sempre permanecerão espécies. Darwin compreendeu isso e disse que as espécies são uma criação da nossa mente, e o que temos na natureza são apenas indivíduos. Claro que ele não foi o primeiro a dizer isso. Mas certamente ele insistiu em dizer que estar vivo é ser diferente. Mesmo as crianças com o mesmo pai e mãe apresentam diferenças muito pequenas. Mas nenhum individuo é igual a outro. Hoje, os geneticistas dizem que até gêmeos não são iguais. Então, a vida é essencialmente diversificada.

IHU On-Line - Quais as maiores consequências históricas do fato de que Darwin destronou o ser humano do centro do mundo? 

Pietro Corsi - Não foi Darwin quem “destronou” o homem do centro da criação. Isso foi uma ideia apresentada por diversos filósofos e até teólogos, mas certamente foram os naturalistas, desde a segunda metade do século XVIII, que fizeram piada da humanidade e que acreditavam serem os melhores. No início do século XIX, tivemos muitos naturalistas que disseram que os humanos eram os mais fracos. Diziam que os humanos desenvolveram cérebros justamente porque são tão frágeis que um mosquito poderia matar um homem. Então, a ideia de que a humanidade era a coroação da criação foi certamente difundida, mas também muito questionada. Quase todo mundo concordava na Europa, no século XIX, que as pessoas negras eram inferiores, que não eram seres humanos. Darwin, ao contrário, acreditava que os negros eram seres humanos. Então, o papel central da humanidade na criação já havia sido contestado por colonialistas e racialistas, não por Darwin. Darwin tinha uma percepção muito aguçada para a benevolência. Ele disse que podemos ver a benevolência desenvolvendo-se até nos cães. Darwin acreditava que a caridade cristã era um produto da evolução. E que a Inglaterra tornou-se um grande império porque o cristianismo provocou uma seleção e aumentou a coesão grupal. Darwin nunca disse que descendemos dos macacos. Nunca! Ele disse que humanos e macacos têm um ancestral comum. O que é uma coisa completamente diferente. Agora, a maioria dos racialistas da Europa, na época, acreditava que os negros descendiam dos macacos e os brancos eram um aperfeiçoamento. Darwin não acreditava nisso.

IHU On-Line - Em sua opinião, quem mais influenciou Darwin? Como as ideias de Lamarck aparecem na obra dele?

Pietro Corsi - Havia diversas teorias sobre o que hoje chamamos de evolução. Mas, na Europa do século XIX, antes de Darwin, havia diversas pessoas defendendo uma forma ou outra de evolução. Eles trabalharam a embriologia, a distribuição geográfica com base em fósseis, em domesticação. Então, muitas pessoas acreditavam que as espécies pudessem mudar ao ponto de criar novas espécies. Lamarck era um deles. E Darwin não gostava de Lamarck. Então, não acho que se pode dizer que havia uma influência de Lamarck sobre Darwin. Claro que Darwin acreditava que se pudesse adquirir características, mas não acreditava que isso fosse Lamarck. Por quê? Por que todos acreditavam nisso. Então, alguns historiadores dizem que há elementos de Lamarck em Darwin. Não, as teorias eram independentes. Lamarck e Darwin acreditavam que se você exercitar um órgão, este se modificaria para uma outra forma. Mas todos acreditavam nisso. A diferença é que, para Darwin, a seleção natural é que determinava qual forma é transmitida para a próxima geração. Para Lamarck não.

IHU On-Line - Pensando na evolução histórica, como a sociedade hoje recebe a teoria da evolução? Qual a novidade do nosso tempo em relação à teoria da evolução?

Pietro Corsi - Isso é algo difícil de dizer. Hoje há muitos debates sobre a evolução, mas muito poucos de cunho científico. As pessoas debatem sobre a evolução para aprovar ou desaprovar a ciência, para dizer que Darwin estava errado, ou que não é compatível com o cristianismo, por exemplo. Ou, há pessoas na área da economia que acreditam em alguns embates darwinianos na economia. Mas, muitas vezes, esses debates têm pouco a ver com Darwin. Eles têm a ver com darwinismo. O que é diferente. O darwinismo tem sido em países diferentes, e às vezes no mesmo país, coisas diferentes. Há darwinistas de esquerda, de direita, em todo lugar. Então, a verdadeira chave para se entender o debate social sobre o darwinismo é a política.

IHU On-Line - Quais os desafios históricos da relação entre fé e ciência?

Pietro Corsi - Veja, eu não acredito que haja qualquer relação entre ciência e fé. Pois a ciência não existe e a fé também não existe, no sentido de que a fé e a ciência são interpretadas de diferentes formas.

IHU On-Line - E teologia?

Pietro Corsi – E a teologia, claro! A teologia é a história do debate. Eu estudei um pouco da história da teologia, que é naturalista. No que se refere à relação entre evolução e fé, no meu país, na Inglaterra, havia pessoas que acreditavam que, se você tivesse fé, deveria ser um evolucionista. E pessoas que diziam que se você tivesse fé, não poderia ser um evolucionista. Portanto, depende do que você pensa. Mas vários bons teólogos eram evolucionistas. E havia cristãos, e convictos, até entre os católicos, como dominicanos franceses, que acreditavam que o darwinismo ou a evolução poderiam ser aceitos pelos católicos. Enquanto isso, havia católicos que diziam: jamais! Então, não acho que haja qualquer debate entre ciência e fé. Há debates entre determinadas pessoas interpretando a religião de uma forma, e outras pessoas interpretando a ciência. Existem pessoas dogmáticas na ciência, assim como existem pessoas dogmáticas na teologia. A verdadeira pergunta é: quem diz o quê por quais motivos? Isso é o que deve ser perguntado. Pois, senão, acaba naquilo que Kant disse: “à noite todas as vacas são pretas”, ou seja, tudo fica igual.

IHU On-Line - Porque a teoria da evolução se transformou em uma necessidade filosófica?

Pietro Corsi – Há um autor que estudei, o fundador dos escoteiros, Baden-Powell, que acreditava que a ideia de Deus deveria ser modernizada. Tradicionalmente, as pessoas acreditavam que Deus fazia tudo com suas próprias mãos. E ele disse que isso não era assim.  Ele acreditava que Deus criou leis universais. Que há um projeto grandioso na natureza que foi dado por Deus. Então, defendia que o fato de não termos uma teoria das espécies é um problema. Baden-Powell dizia: no dia em que tivermos uma teoria das espécies, entenderemos que até mesmo a vida é organizada por leis. E continuava: “em minha opinião, a teoria da evolução é agora uma necessidade filosófica. Precisamos dela para dizer que até mesmo no tocante à vida conseguimos ver que Deus criou leis universais que produziram até mesmo a humanidade. O universo tem um sentido moral. Então eles podiam conciliar evolução e religião bastante bem”. Outras pessoas não concordaram e disseram que Baden-Powell era um ateu. Mais uma vez, temos aí o debate.

Leia mais...

Pietro Corsi já concedeu outra entrevista à IHU On-Line. O material está disponível na nossa página eletrônica do IHU.

Entrevista:

- O universo não foi criado para nós. Publicada na Edição 306 da Revista IHU On-Line, de 31-08-2009.

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