Edição 310 | 05 Outubro 2009

A subjetividade de João Cabral: legado para a literatura contemporânea

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Graziela Wolfart

Ao contrário das sedutoras imagens veiculadas em relação à paisagem dos trópicos e ao turismo atual, a brasilidade expressa por Cabral representa aspectos da história, da cultura e da geografia do país, calcados basicamente na região nordeste como lugar de contundente problemática social, afirma Maria do Carmo Alves de Campos

“Alguns leitores consideram antilíricos os poemas de Cabral. Já o poeta pernambucano confessa que a descoberta da poesia de Drummond foi chave de abertura para o seu próprio projeto de obra. As obras de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto abrem, cada uma a seu modo, novas possibilidades para a poesia brasileira”. A análise é da professora Maria do Carmo Alves de Campos, na entrevista que segue, concedida, por e-mail, para a IHU On-Line. Ela defende que, na obra de João Cabral, “a relação com os espaços é bastante singular, sendo que, em poemas fundamentais, o espaço (rio, caatinga, sertão, mar) não se constitui como paisagem, mas personifica–se a si mesmo, como lugar e natureza”. Por outro lado, continua, “algumas cidades (Recife e Sevilha) também são radicais na obra, sendo objeto e foco de poemas e de livros (Sevilha Andando e Andando Sevilha). É difícil imaginar a obra cabralina sem Recife (ou Pernambuco)”.

Doutora em Letras pela Universidade de São Paulo, Maria do Carmo Alves de Campos foi professora de Literatura Brasileira da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Professora, ensaísta e poeta, é organizadora do livro João Cabral em perspectiva (Porto Alegre: Editora da UFRGS, 1995); e autora de, entre outros, matinas & bagatelas: poemas (São Paulo: Ateliê, 2002); O olhar do caminho: Santiago de Compostela, (poesia e fotografia, em parceria com Mauro Paranhos) (Porto Alegre: Mercado Aberto, 2002). Possui dezenas de trabalhos publicados no Brasil e no exterior, incluindo diversos ensaios sobre poesia brasileira, particularmente, Drummond e João Cabral de Melo Neto. Nos últimos anos, tem se dedicado a escrever poesia e a trabalhos em que a poesia entra ao lado de outras artes. Desenvolve paralelamente um projeto de oficinas de leitura criativa. 

Confira a entrevista.

IHU On-Line - Como se dá a relação entre lirismo e antilirismo a partir das obras de Drummond e João Cabral de Melo Neto? 

Maria do Carmo Campos - Alguns leitores consideram antilíricos os poemas de Cabral. Já o poeta pernambucano confessa que a descoberta da poesia de Drummond foi chave de abertura para o seu próprio projeto de obra. As obras de Carlos Drummond de Andrade e de João Cabral de Melo Neto abrem, cada uma a seu modo, novas possibilidades para a poesia brasileira. No Brasil, no mínimo a partir das primeiras décadas do século XX, a poesia escapa cada vez mais para fora de limites mais estreitos, condicionantes, de alguma forma, do seu fazer. O contato com novas linguagens artísticas e não-artísticas, a ampliação do campo das subjetividades, a sensibilidade para as novas e complexas formas do viver moderno e contemporâneo e, ainda, as especificidades históricas da experiência brasileira são fatores que trazem interrogações desestabilizadoras do lugar do sujeito e da sua própria voz. Mais ou menos aproximadas da música, as poéticas de Drummond e de Cabral ampliam-se para modos de representação que podem inovar formas da tradição ou investir na reinvenção da memória e do olhar. Tanto o “eu todo retorcido” de Drummond quanto a subjetividade quase velada de João Cabral são legados igualmente positivos para a literatura contemporânea. 

IHU On-Line - A cidade para Drummond tem a mesma importância que o sertão tem para João Cabral?

Maria do Carmo Campos - A cidade tem alta frequência na poesia de Drummond, desde o pequeno berço itabirano até um conjunto de imagens recorrentes e inventivas que caracterizam o poeta com um pendor à vida urbana e ao cosmopolitismo. Habitante dos extremos, Drummond não perde a roça de vista, mas tem na mira o sentimento e a voltagem de um grande mundo. È esse mundo que se destila entre fatos históricos, personagens do porte de Quixote e Chaplin, e grandes cidades, como Paris, Stalingrado, Berlim, Belo Horizonte e Rio de Janeiro. No caso de João Cabral, a relação com os espaços é bastante singular, sendo que, em poemas fundamentais, o espaço (rio, caatinga, sertão, mar) não se constitui como paisagem, mas personifica–se a si mesmo, como lugar e natureza.  Por outro lado, algumas cidades (Recife e Sevilha) também são radicais na obra, sendo objeto e foco de poemas e de livros (Sevilha Andando e Andando Sevilha). É difícil imaginar a obra cabralina sem Recife (ou Pernambuco).

IHU On-Line - Quais as principais marcas dos personagens literários de João Cabral de Melo Neto?

Maria do Carmo Campos - Se pensarmos nas figuras de Severino de Morte e vida severina, de Frei Caneca de Auto do Frade, da bailadora andaluza do livro Quaderna, do toureiro Manolo Otero, podemos dizer que a diversidade é marca das personagens de João Cabral. Muitas vezes encobertas pelo anonimato, são ao mesmo tempo inventadas e inspiradas nos níveis mais profundos do real. Para além da imagem mítica de Anfion, aparecem individualidades fortes, constitutivas de uma obra poética nitidamente enraizada do ponto de vista histórico, telúrico e cultural.

IHU On-Line - Em que sentido a obra poética de João Cabral pode ser inspiração para a poesia contemporânea brasileira?

Maria do Carmo Campos - Do ponto de vista de “inspiração”, o convívio assíduo com a obra cabralina possibilita aos leitores da língua portuguesa raras lições. Entre elas, a da linguagem poética como um campo verbal não-trivial, apto a magnetizar a palavra e transcender os limites da comunicação básica. 

IHU On-Line - É possível perceber influências da poesia europeia na obra de João Cabral, em função de sua estada na Espanha? 

Maria do Carmo Campos - A relação literária de João Cabral com a Europa dá-se em largos horizontes, considerando os contatos não só com escritores, mas também com artistas (Joan Miró) nos períodos em que exerceu atividades diplomáticas em Barcelona, Londres, Sevilha, Marselha, Madri, Genebra, Berna, Dacar, Quito, Honduras e Porto.  Atento às diferenças, afina sua têmpera pela experiência e pela leitura, o que o conduz a resultados como o convívio na obra do lastro da tradição com as conquistas do século. Por um lado, o poeta dá tratamento a motivos relacionados às novas arquiteturas de um mundo em acelerada transformação e incorpora traços da tecnologia e da multiplicação de objetos. Por outro, frequenta e valoriza poéticas de vários períodos históricos, a exemplo de Berceo, Quevedo e Rafael Alberti, sem desconsiderar os franceses e o pano de fundo grego, raiz de ser da Fábula de Anfion. 

IHU On-Line - Qual o principal legado deixado por João Cabral para a literatura brasileira?

Maria do Carmo Campos - A poesia cabralina abre caminhos à literatura e à poesia brasileira em muitas direções: ampliação temática, desprendimento do confessionalismo e da reverberação sentimental de baixa sutileza, pesquisa de formas, possibilidade de tratamentos mais sóbrios no tocante à dicção poética, além da abordagem diferenciada do recurso da ironia.

IHU On-Line - Como a brasilidade se expressa na obra de João Cabral?

Maria do Carmo Campos - Ao contrário das sedutoras imagens veiculadas em relação à paisagem dos trópicos e ao turismo atual, a brasilidade expressa por Cabral representa aspectos da história, da cultura e da geografia do país, calcados basicamente na região nordeste como lugar de contundente problemática social. 

IHU On-Line - Como João Cabral é visto no exterior? Qual a repercussão de suas obras e que imagem do Brasil ele leva para fora do país?

Maria do Carmo Campos - Tendo vivido em vários países da Europa, da América e da África, João Cabral já se fazia conhecido a partir de 1947, quando passou a viver em Barcelona e frequentou o meio artístico e literário, convivendo com Joan Miró, Joan Brossa e tantos outros. Em 1965, o auto-de-natal pernambucano “Morte e vida severina”, musicado pelo jovem Chico Buarque de Holanda, é encenado e premiado na Europa. Além das traduções para diferentes idiomas, a obra recebeu vários prêmios e distinções internacionais, entre eles, o Prêmio Camões. A imagem do Brasil traduzida pela obra não é a mesma comumente transmitida pela mídia e pela publicidade turística. 

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