Edição 303 | 10 Agosto 2009

Equilíbrio entre expressões ingênuas e ousadas

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Patricia Fachin

Poetas e romancistas apresentam desafios e abrem novas fronteiras para o fazer teológico, escreve Carlos Caldas, doutor em Ciência da Religião

“A Literatura pode oxigenar a reflexão teológica, e a Teologia pode apresentar questões que a crítica literária tradicionalmente ignora”, assinala Carlos Caldas, em entrevista concedida por e-mail à IHU On-Line, ao refletir sobre o diálogo possível entre as áreas. Segundo ele, expressões literárias apontam para a “saudade e sede que o ser humano tem em relação a Deus”. Nesse sentido, exemplifica, a Bíblia é sublime: “As narrativas são escritas com uma sutileza que não tem paralelos em nenhuma outra manifestação literária, antiga ou contemporânea”. E complementa: “A poesia bíblica, presente nos Salmos ou em Jó, apresenta profundezas da alma humana com toda sua complexidade, de modo mais denso”.

Carlos Caldas é graduado em Teologia pelo Seminário Presbiteriano do Sul, de São Paulo, em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Caratinga e doutor em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo. Atualmente, é pesquisador na Universidad Bíblica Latinoamericana, em San José, Costa Rica, e coordenador do Programa de Pós-Graduação em Ciências da Religião da Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo.

Confira a entrevista.

IHU On-Line – Quais são as possibilidades teórico-metodológicas de articulação entre Teologia e Literatura?

Carlos Caldas - Várias. Não há uma única. Dentre tantas, pode-se citar a chamada “teologia da cultura”, desenvolvida por Paul Tillich,  o conhecido teólogo luterano germano-americano. A teologia da cultura de Tillich é uma espécie de método “pergunta-resposta”, que parte do seguinte pressuposto: a cultura trata da vida e apresenta as questões que envolvem a existência, enquanto a Teologia apresenta as respostas; outra possibilidade é trabalhar com base na doutrina da “graça comum”, desenvolvida pela vertente reformada da teologia protestante. Parte do pressuposto que a graça de Deus se manifesta na cultura humana, o que envolve as artes em geral, o que inclui evidentemente a Literatura. Uma variação desta possibilidade é a assim chamada “referencialidade” – allusiveness - desenvolvida por Calvin Seerveld, filósofo norte-americano de origem holandesa. Ele é especialista em estética filosófica. Seu princípio é de que as artes – e a Literatura – apontam para algo que as transcende. Daí é possível ver nas artes e na literatura sinais, indícios, alusões ou referências ao transcendente, ao reino de Deus. Ainda é possível citar a intertextualidade como possibilidade teórico-metodológica em vários teóricos da intertextualidade, como Bakhtin  e Julia Kristeva , podendo-se ver como textos bíblicos influenciaram diversos autores, ao longo dos séculos. Em alguns casos, a intertextualidade está explícita. Veja-se como exemplo O operário em construção, de Vinicius de Moraes,  intertexto claríssimo com a narrativa da tentação de Jesus no deserto (Mateus 4:1-11 e Lucas 4:1-13). O mesmo pode ser encontrado em muitos outros poetas brasileiros, seja Gregório de Matos  no século XVII ou Jorge de Lima  no século XX. Nessa perspectiva, não se pode esquecer a obra seminal do já falecido Northrop Frye, crítico literário canadense, autor de Código dos códigos (The Great Code). Frye demonstra de maneira extremamente competente como a Bíblia é o “grande código” de toda a cultura ocidental. Por mais secularizada que seja a cultura ocidental (especialmente no mundo do Atlântico Norte), não se poderá jamais esquecer que a Bíblia é de fato a base de toda esta cultura. Daí obrigatoriamente se encontrarão muitas manifestações de intertexto entre obras literárias de autores “canônicos” e o texto bíblico.

Independentemente do método que se utilize, não se pode esquecer que trabalhar com Literatura e Teologia, como interlocutoras de um diálogo acadêmico, é trabalhar na interface de dois saberes distintos. Não é uma tarefa fácil. Há de se conhecer, um pouco mais que apenas minimamente, os dois campos. E há que se enfrentar desconfiança e resistência de especialistas em um ou outro campo, que pode considerar este trabalho de interface como uma espécie de promiscuidade intelectual, o que não é de modo algum verdade. Mas é um desafio tremendo e fascinante fazer Teologia, utilizando a Literatura como parceira de diálogo, e não a Filosofia, como tem sido por séculos.

IHU On-Line – Como essa relação entre ambas as áreas se desenvolveu ao longo do tempo? Em que medida a Literatura abre espaço para reflexões teológicas?

Carlos Caldas - A relação entre Teologia e Literatura é relativamente recente. Durante séculos, a Filosofia tem sido por excelência a ancilla theologiae, a “serva da Teologia”, isto é, a ferramenta teórica auxiliar empregada para a construção do edifício teológico. Diferentes filosofias utilizadas vão gerar diferentes compreensões da Teologia. Tanto quanto se tem notícia, a primeira manifestação explícita de articular Teologia e Literatura é datada dos anos de 1930, com a obra de Romano Guardini  (1886-1968), teólogo alemão de origem italiana. Já naquela época Guardini escreveu sobre elementos religiosos presentes na Literatura de Dostoiévski.  No Brasil, os pioneiros desta reflexão são Antonio Manzatto,  professor na Pontifícia Faculdade de Teologia Nossa Senhora da Assunção em São Paulo, e o recentemente falecido José Carlos Barcellos,  que lecionou na Universidade Federal Fluminense, em Niterói (RJ).

A Literatura tem a capacidade de abrir novas fronteiras para a reflexão teológica. Poetas e romancistas não raro podem perceber o que teólogos nem sempre têm sensibilidade para perceber. E assim apresentam novos desafios e abrem novas fronteiras para o fazer teológico.
 
IHU On-Line – Em que áreas da Literatura as expressões do divino aparecem mais frequentemente?

Carlos Caldas - Não há uma resposta pronta para esta pergunta. Vai depender de quem escreveu. Não é possível sair por aí como um desvairado e encontrar elementos do religioso e do sagrado em toda e qualquer expressão literária. Há textos literários que definitivamente não servem para um diálogo com a Literatura. Mas há também autores que são sensíveis o bastante para veicular conteúdos religiosos e teológicos em sua produção, explícita ou implicitamente. Fernando Pessoa  e alguns de seus heterônomos, Adélia Prado aqui no Brasil, são alguns exemplos. Sem falar de muitas letras da Música Popular Brasileira. Um único exemplo, quando em Índios, Renato Russo exclamava:

Quem me dera, ao menos uma vez,
Entender como um só Deus ao mesmo tempo é três
E esse mesmo Deus foi morto por vocês -
É só maldade então, deixar um Deus tão triste [...]
Quem me dera, ao menos uma vez,
Fazer com que o mundo saiba que seu nome
Está em tudo e mesmo assim
Ninguém lhe diz ao menos obrigado...

Dificilmente se encontrará a expressão mais explícita do anseio humano pelo divino que nesta poesia.

IHU On-Line – Que expressões são essas e o que elas revelam sobre a curiosidade humana em relação a Deus?

Carlos Caldas - Penso que a pergunta já é a resposta: expressões literárias, de natureza poética ou não, que apontam para a curiosidade, e mais que isso, a saudade e a sede que o ser humano tem em relação a Deus. Tais expressões podem ser vistas tanto em um Guimarães Rosa,  que apresenta uma sensibilidade enorme em relação ao transcendente, como em um Graciliano Ramos,  que se declarava ateu. Em Guimarães Rosa, encontramos uma busca perene do ser humano.

IHU On-Line – Como a Literatura age, sendo interlocutora no processo de construção teológica?

Carlos Caldas - A Literatura pode oxigenar a reflexão teológica, e a Teologia pode apresentar questões que a crítica literária tradicionalmente ignora. Uma crítica literária de corte mais positivista, por exemplo, ou de inspiração marxista, não vai considerar de modo algum nenhuma dimensão transcendental no texto literário. Evidentemente, uma leitura desta natureza deixará a crítica literária mais pobre. Assim, um campo do saber colaborará com o outro.

IHU On-Line – Podemos comparar a Bíblia a obras literárias famosas? Qual é a singularidade da Bíblia como obra literária?

Carlos Caldas - Sim. A Bíblia, literariamente falando, é simplesmente surpreendente e sublime. As narrativas são escritas com uma sutileza que não tem paralelos em nenhuma outra manifestação literária, antiga ou contemporânea. O narrador bíblico contava suas histórias de modo extremamente inteligente. A poesia bíblica, presente nos Salmos ou em Jó (além de outros textos), apresenta as profundezas da alma humana com toda a sua complexidade, de modo mais denso e melhor que qualquer outro texto literário de qualquer época ou lugar. Na poética bíblica encontramos um equilíbrio entre expressões ingênuas e ousadas a um só tempo. Neste balanço, encontra-se a tremenda singularidade da Bíblia como obra literária sem abrir mão do aspecto teológico do texto bíblico como tal, qual seja, revelar de Deus aos homens.

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